terça-feira, 29 de julho de 2008

Rebanho de Deus, sim; curral eleitoral, jamais!

Em períodos eleitorais, cometem-se muitos crimes tendo em vista a escolha de determinados candidatos. Isso ocorre em todos os níveis (municipal, estadual e federal). Candidatos prometem recompensas a eleitores, como cargos, vantagens e dinheiro. Há os almoços políticos, que na realidade servem de reunião para que o candidato promova o aliciamento de pessoas aptas a votar.
Veja-se a prescrição do Art. 299 do Código Eleitoral:
"Art. 299. Dar, oferecer, prometer, solicitar ou receber, para si ou para outrem, dinheiro, dádiva, ou qualquer outra vantagem, para obter ou dar voto e para conseguir ou prometer abstenção, ainda que a oferta não seja aceita:
Pena - reclusão até quatro anos e pagamento de cinco a quinze dias-multa".
Além de ser crime, essa prática, como tantas outras, atenta contra a democracia, a cidadania e os direitos do próprio indivíduo que vota em troca de favores pessoais, porque o interesse público não é respeitado por um político que constrói sua carreira em torno do favoritismo.
No caso do eleitor puro e simples, o político dá, oferece ou promete qualquer coisa com o objetivo de obter o seu precioso voto. E, no que toca a comunidades, como, por exemplo, igrejas, a dimensão do problema é muito maior, porque se cria uma aliança espúria que inevitavelmente irá implicar em promiscuidade política na hipótese de o candidato ser eleito.
De fato, em sendo eleito, o candidato estará vinculado a compromissos extra-oficiais estabelecidos com líderes das igrejas, e, assim, fará convênios, doações e concessões inconstitucionais, porque o Estado brasileiro é laico, ou seja, não tem religião oficial nem pode promover nenhuma confissão religiosa, sob quaisquer títulos.
Vejamos o que diz a Constituição em seu Art. 19, I:
"Art. 19. É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:
I - estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público".
A norma constitucional é clara, e visa à defesa da plena liberdade religiosa, que restaria violada se determinadas religiões fossem subsidiadas em detrimento de outras. O Estado é uma sociedade política, não podendo, por isso, atender a interesses estranhos ao bem comum. Cada igreja que cuide de suas atividades, sob as leis do País.
Os políticos que eventualmente constroem templos ou reformam suas instalações estão andando na mesma esteira de Herodes, que fez isso com o Templo de Jerusalém para agradar o povo. Ele, de origem iduméia, e, portanto, descendente de Esaú (Edom), nada tinha de simpatia pelos judeus, mas queria a adesão do povo a seu projeto de poder. Com sua politicagem, Herodes conseguiu o apoio da liderança religiosa em Judá. Não é assim que fazem os politiqueiros hoje?
Outra coisa medonha, antidemocrática e anticristã é levar políticos para dentro da igreja a fim de pedir votos em seu favor. Isso piora quando a divulgação do candidato é feita sob ameaças supostamente bíblicas, que lançam medo nos crentes a partir de falsas notícias sobre a candidatura de políticos adversários, como o fechamento de igrejas ou a instauração do comunismo no Brasil por meio de um decreto...
Discordo dos tais "candidatos naturais", que seriam os crentes. Nem todo crente será um bom administrador público ou legislador, e nem todo não-crente será ruim na política. Aliás, o termo "ímpio" é adequado para pessoas que praticam a impiedade, a injustiça, a desigualdade, e não simplesmente para pessoas que não professam a fé cristã. Ímpio é um conceito mais ético do que confessional. Não posso admitir o termo em sentido tão amplo.
Foram os "candidatos naturais" de igrejas que se envolveram com o Escândalo das Sanguessugas, naquela história de ambulâncias com preço superfaturado em benefício da família Vedoin. Foi boa essa escolha? É certo que não.
Como diz o texto de Pv 30.7, "a sanguessuga tem duas filhas, a saber: Dá, dá". O que os políticos corrompidos querem é absorver o sangue, quero dizer, o dinheiro do contribuinte.
Também não será correta a existência de "conselhos políticos" em igrejas se o objetivo for a escolha periódica de "candidatos oficiais" que irão tão-somente defender interesses fisiologistas, apequenados, de comunidades singulares. Os conselhos políticos poderiam ser muito bem empregados na construção de uma perspectiva da igreja em assuntos de interesse social, como direitos humanos, economia, teologia da cidade, cidadania, direitos trabalhistas, meio ambiente e pesquisas científicas, para ficar com alguns exemplos.
Com um número tão grande de deputados federais evangélicos, além de dois senadores, por que as causas de interesse evangélico só chegam à nossa ordem do dia quando os projetos estão quase chegando à sanção do Presidente da República? Quantos deputados federais evangélicos se destacam ao menos em discursos na tribuna? Todos pertencem ao baixo clero, não têm peso político, mas nós ficamos achando que eles estão lá para defender a moral e os bons costumes...
Sei que existem políticos evangélicos honestos, e pessoalmente conheço ao menos um deles que já me deu sinais importantes de seu bom caráter. Mas ele é exceção, e não me consta que tenha contado com os canais politiqueiros de Herodes, e, sim, com seu trabalho.
Por fim, é necessário lembrarmos: a igreja é rebanho de Deus, e não curral eleitoral. Grandes males poderiam ser evitados se admitíssemos como verdadeiras essas palavras!

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Não apresento soluções que já não sejam conhecidas

Quando critico a situação da Igreja evangélica brasileira, não posso apresentar soluções que já não sejam conhecidas. Quando apresento o problema, não preciso ficar declinando propostas positivas para o quadro que aí se desenha. A solução - espero que a conheçamos - é apegarmo-nos à Bíblia como regra de fé e conduta, e pronto.
O Evangelho é simples e completo, não nos competindo inventar mais nada. Um dos vícios recorrentes da Igreja brasileira é a adoção de modismos. Se combato os modismos, as "inovações", preciso evidentemente me aferrar às tradições apostólicas, à Palavra de Deus.
Eu não posso reinventar a roda - a solução é ser fiel a Jesus Cristo como Salvador e SENHOR. O que mais direi?
Os profetas anunciavam a mensagem do SENHOR e denunciavam o pecado de Israel, de Judá e das nações. Esse é o papel da Igreja em sua dimensão profética - anunciar e denunciar. Veja que não me refiro a supostos profetas da Igreja hoje, mas à missão profética da Igreja como coletividade, o que é bem diferente.

Um grande milagre

Espero o Dia daquele grande milagre, quando multidões serão arrebatadas aos Céus, ante a Segunda Vinda de Cristo com poder e muita glória. Milhões de servos de Deus serão reunidos de todas as partes da Terra. Dos sepulcros sairão, transformados e glorificados, os corpos dos que dormiram em Cristo. Os mares darão os seus mortos. Seremos todos uma só Igreja Triunfante, seremos semelhantes a Cristo, e não haverá mais o pecado, a dor, a tristeza nem a morte.
Mas o grande milagre que espero ver será a reunião de pessoas tão diferentes, e que neste mundo terão discutido, discordado, e às vezes até mesmo entrado em choque por causa de doutrinas secundárias, formas de governo, liturgias ou quaisquer outras opiniões próprias da seara evangélica.
De fato, se unidos em Cristo, não será impossível encontrarmos no Céu aquele irmão que um dia nos destratou, ou que foi destratado por nós, e simplesmente por coisas de somenos. Isso porque é Cristo quem nos justifica, pela graça, mediante a fé.
Se aqui neste mundo fazemos distinções entre igrejas em razão de formas de agir e pensar, então veremos uma só e mesma Igreja unida em Cristo e com Cristo. Divisões não haverá, ainda que meramente administrativas. Não haverá espaço para vaidades, ministérios fundados no personalismo de "grandes líderes", tampouco brigas internas pelo poder. Haverá um só Rebanho e Um só Pastor.
Inexistirão aquelas famílias que gostam de mandar no pastor e na igreja. Inexistirão aqueles pastores que gostam de dominar a igreja como se fossem políticos tiranos em republiquetas. Inexistirão aqueles "teólogos" academicistas que levam uma vida inteira desconstruindo a doutrina secundária de outra igreja, sem se preocupar com o crescimento do Reino, sem se importar com a divulgação do Nome de Cristo.
O grande milagre consistirá na reunião de pessoas que nem sempre terão sido unidas enquanto habitantes desta Terra...
No entanto, receio que a desunião entre quem se diz irmão possa fazer com que nem todos entrem no Céu, pois a Eternidade será um reflexo inevitável e cristalino do que teremos sido aqui no mundo. É bom mesmo parar para refletir: se não suporto o meu irmão por questões secundárias, e se não me aproximo dele, como poderei me alegrar ao encontrá-lo naquele glorioso Dia? Não será uma contradição?
Vale lembrar que os milagres de Deus jamais agridem o coração humano...Quem não conhecer o amor ainda nesta vida, imagino que jamais poderá reconhecê-lo no porvir.

domingo, 27 de julho de 2008

Discordar não é ofender

Preciso fazer aqui uma distinção: discordar não é ofender. Podemos divergir da opinião ou do comportamento de alguém, temos liberdade para isso, sem que a crítica resvale em ofensas pessoais.
Aprendi que há uma diferença entre consciência crítica e espírito crítico. Consciência crítica é a capacidade de avaliar e filtrar ensinos, informações e quaisquer mensagens que vêm à mente; já o espírito crítico é a postura de quem está pré-disposto a enxergar o aspecto negativo de pessoas ou coisas, mas sem fundamento ou por motivações erradas.
Parece-me que os irmãos de Beréia foram elogiados por Paulo por sua consciência crítica, e Lucas diz que foram eles "mais nobres", o que pode ser entendido no sentido de que eles tinham "mente aberta", eram mais "liberais". Por outro lado, os tessalonicenses não foram assim, e foi justamente sua falta de juízo crítico que os levou ao preconceito e à perseguição contra Paulo e Silas (ver At 17.1-11).
Os bereanos examinavam as Escrituras para ver se o que Paulo dizia era verdade (At 17.11). Eles usavam a cabeça, não acreditavam só por causa da pessoa que falava. Eles queriam ver a prova, o fundamento do discurso. E foram elogiados por isso.
Alguns pastores e líderes criam a idéia de que criticar é o mesmo que pecado de murmuração. Ao púlpito, começam a falar, em alto e bom som, que os que discordam da liderança são murmuradores e rebeldes. Isso é parte de uma ideologia de dominação, que busca anular pensamentos divergentes ou, ao menos, diferentes. Eles não querem a diversidade e promovem o simplismo, pois dominar um rebanho pensante é muito mais difícil.
Noto que muitas pessoas têm dificuldade em conviver com quem pensa diferente. Às vezes, já têm dificuldade de conviver com quem pensa, imagine se se pensa diferente! Há uma noção errônea de que discordar da idéia ou da conduta é falar mal da pessoa em si. Isso é totalmente equivocado.
Ora, falar mal de alguém é pronunciar-se sobre sua moral. Eu não posso fazer isso, e se fizer, poderei ser acionado penalmente por crime de injúria, calúnia ou difamação. Em juízo, terei que me defender provando que o crime imputado ao outro aconteceu (no caso da calúnia) ou que todo mundo conhece o seu comportamento infame (no caso da difamação). Em se tratando de injúria, não haverá como me justificar se houver pleno testemunho em meu desfavor, pois a injúria consiste em ofender a pessoa tachando-a de palavrões ou nomes que denigram sua imagem.
Quando eu escrevo aqui sobre heresias, práticas ou movimentos que considero antibíblicos, faço-o de maneira prudente, e com base bíblica. Apresento os fundamentos de meu raciocínio, e deixo que o eventual leitor pense por si mesmo. Eu confio na inteligência do leitor. Acredito que as pessoas pensam, quando querem pensar. Pensar é um dom de Deus. E, como escreveu John Stott, "crer é também pensar".
Acima de tudo, há a necessidade de sermos criteriosos.
Não precisamos concordar com tudo. O eventual leitor não precisa concordar comigo, mas não precisa me amar menos. A diversidade é uma das características mais lindas da Igreja de Cristo, certo?
Cumpre entendermos que o pregador é falível. Não cremos no dogma da infalibilidade papal, nem em coisa parecida. Mesmo quando está ao púlpito, o pregador pode errar, já que é um Ser Humano, e não recebe novas revelações nem está sendo inspirado na acepção mais técnica do termo - ou seja, Deus não inspira o pregador a falar coisas recebidas diretamente do Alto, como ocorria com os escritores da Bíblia. Se acreditarmos que isso ocorre hoje, então admitiremos que o Cânon ainda não fechou.
O pregador fala daquilo que o Espírito Santo coloca em seu coração a partir do que está escrito, e tem para isso talento natural ou dom espiritual. Não é infalível ex cathedra, como pensam os católicos a respeito de seu Papa.
Naturalmente, como sou simples professor de Escola Dominical e dono de um blog, as pessoas terão maior facilidade em descrer no que digo. Não sou hierarca, não tenho autoridade sobre o rebanho, senão sobre meus alunos quando do ensino no domingo de manhã. Deus sabe de todas as coisas, e isso envolve aquilo para o que Ele me vocacionou. Mas, embora sem poderes eclesiásticos ou favores do prestígio humano, tenho compromisso com a Palavra de Deus, e, se há um conflito entre a Palavra de Deus e os líderes de igrejas, fico com a Palavra de Deus.
De minha parte, continuarei escrevendo, pregando e ensinando sobre o que considero bíblico, e denunciando o que considero antibíblico. Não me demoverei de meu chamado, se assim o SENHOR me permitir.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Paciência também tem limite!

Não diga a Neemias para ele ter paciência: ele precisa despejar Tobias do Templo, com todos os seus móveis. Mais à frente, ele irá arrancar os cabelos de quem casou com mulheres estranhas.
Não diga a João Batista para ele ter paciência: ele precisa olhar no olho de Herodes e denunciar seu pecado de adultério, assim como olhou no olho dos fariseus e os chamou de raça de víboras.
Não diga ao SENHOR Jesus para ele ter paciência: Ele precisa despejar os mercadores do Templo, todos os que fazem da Casa de Deus um covil de ladrões.
Não diga a Estevão para ele ter paciência: ele precisa manter sua palavra até o fim, mostrando que o SENHOR Jesus é maior que o Templo.
Não diga a Paulo para ele ter paciência: ele precisa deixar clara a essência do Evangelho, ainda que na cara de Pedro.
Não diga a João para ele ter paciência: ele precisa recomendar aos irmãos que sequer cumprimentem os que ultrapassam a doutrina de Cristo.
* Também publicado em www.ultimato.com.br. na Palavra do Leitor.

O Pr. Silas Malafaia e a "Conferência Profética Passando o Manto"

Eu sempre admirei o Pr. Silas Malafaia, mas agora ele foi longe demais: não bastasse a sua adesão à Teologia da Prosperidade, especialmente à lei da semeadura financeira de Mike Murdock, acabou de participar de uma tal "Conferência Profética Passando o Manto" (!), de 17 a 19 de julho, em Brasília-DF. Ele mesmo foi um dos preletores, além das presenças do próprio Mike Murdock, Valnice Milhomens, René Terranova e Fadi Faraj, dentre outros, com "direito" ainda a Morris Cerullo, um dos representantes do indigesto Movimento da Fé.
O eventual leitor pode, por si mesmo, visitar os "sites" http://www.passandoomanto.com.br/ e http://www.prsilasmalafaia.com.br/ e ver do que se trata.
Segue, porém, um excerto retirado do "site" http://www.passandoomanto.com.br/ , para orientar o motivo deste texto:
"Estamos vivendo em um tempo em que a busca pelo conhecimento secular tem sido cada vez mais constante na vida de muitas pessoas. A necessidade de se ter bons líderes capazes de influenciar uma geração e fazer a diferença nos remete a um desejo de obtermos cada dia mais conhecimento, para que assim possamos nos encher da sabedoria que somente nos é dada pelo Espírito Santo de Deus [até aqui tudo bem].
O grande objetivo da Conferência Profética Passando o Manto é compartilhar conhecimentos únicos ministrados pelos maiores preletores nacionais e internacionais e principais Ministérios de Louvor da atualidade, pois cremos que o reino de Deus é apenas um e que unidos em um só propósito, que é ganhar e cuidar de vidas, poderemos cumprir com autoridade todos os planos de Deus para as nossas vidas [conhecimentos únicos?].
Esses três dias serão marcados por um grande avivamento, unção e transformação para todos àqueles que escutaram o chamado de Deus e estarão presentes, para que assim possamos revolucionar todos os que estão a nossa volta e declarar que o povo de Deus não reinará apenas no céu, mas reinará hoje, em vida".
Que conhecimentos "únicos" são esses? Haveria algum conhecimento especial nesses preletores? Todo o conhecimento espiritual necessário à Igreja já não nos é ofertado pelo Espírito Santo, conforme I Jo 2.27?
E qual o sentido de uma "conferência profética"? Esses preletores são profetas por acaso? Ou será que têm uma concepção diferente do exercício do dom de profecia?
Porém, há mais. Veja o que diz o "site" do Pr. Silas Malafaia:
"De hoje até sábado, 19 de julho, acontece a Conferência Profética Passando o Manto, no Parque de Exposições ExpoBrasília, sempre de 8h às 23h. Estará pregando o Dr. Morris Cerullo, além de grandes profetas da nossa geração, como Silas Malafaia e Mike Murdock. O Louvor ficará por conta de David Quinlan, Toque no Altar, Ministério Doxxa e Aline Barros. Nestes dias, você será desafiado a receber o manto profético da unção e do poder de Deus. Não perca a oportunidade de estar no momento certo, na hora certa e no local certo, para receber porção dobrada da unção de Deus!"
Pois, quê? Mike Murdock é profeta? Justo ele que prega, em seu livro A Lei do Reconhecimento, lições recheadas de gnosticismo e apego ao dinheiro? Um homem materialista, que sustenta a idéia de que existem leis metafísicas governando o universo e a vida das pessoas, como a lei da semeadura financeira e a lei do reconhecimento, no mesmo sentido da Confissão Positiva de R.R.Soares e do Movimento da Fé? Esse ensino não é o mesmo de religiões orientais, do esoterismo, da Nova Era e, enfim, do livro O Segredo, com a tal lei da atração? Mike Murdock por acaso é profeta?
Silas Malafaia é profeta? Profetas mudam de opinião como ele, que deixou de ser contra a Teologia da Prosperidade para defendê-la abertamente?
E que manto profético é esse? Serão transmitidos a unção e o poder de Deus por meio de um manto? Pelo que pesquisei, eles não chegam a usar o manto de forma fetichista, mas empregam a idéia de que o poder de Deus se transmite em nossos dias pela dotação do "Espírito de Elias", que, segundo eles, será derramado nesse "tempo de transição profética" a quem estiver na hora certa, no lugar certo...
Numa hermenêutica absurda de II Rs 2.9-14, eles devem estar dizendo que foi o manto de Elias que transferiu poder a Eliseu. Mas até nisso erram, porque a porção dobrada do espírito de Elias passou a Eliseu quando este viu seu mestre subindo num carro de fogo, e isto serviu de sinal de que seu pedido de poder seria concedido por Deus. Depois do arrebatamento de Elias, foi que Eliseu tomou o manto do seu mestre e, com ele, dividiu as águas do Jordão, tal como Elias fizera pouco antes (II Rs 2.8). Como sabemos, simples narrativas não podem servir para doutrinar a Igreja, principalmente quando os fatos são distorcidos e ganham significados esdrúxulos.
Pelo que conheço da Bíblia, o que tem sido derramado a partir de At 2.1-4 é o Espírito de Deus ou Espírito Santo, e não - Deus me livre - o "Espírito de Elias". Será preciso explicar que a profecia de Ml 4.5,6 se refere à vinda de João Batista como precursor do Messias (Lc 1.17), e que ela já se cumpriu cabalmente? Jesus disse que João já veio (Mt 11.18; 16.12,13). Aquele que viria "na virtude de Elias" já apareceu. Não cabe a mim repetir o que coube exclusivamente a João, o Batista. Essa difícil missão e sublime privilégio foram personalíssimos.
Quanto à suposta necessidade de estar no momento certo, na hora certa, no lugar certo, o que é isso? Reinventaram os lugares sagrados de culto? Deus por acaso manifesta Seu poder em locais determinados pelos homens? Voltamos ao judaísmo que exaltava demasiadamente o templo? voltamos à teologia da mulher samaritana, que adorava somente em certo monte (Jo 4.20)?
Ora, o que está por trás disso são os variados modismos da Igreja brasileira nos derradeiros dias. Um dos ensinos espúrios é a ênfase em "atos proféticos" extraídos aleatoriamente do Antigo Testamento e aplicados à atividade eclesiástica com o objetivo de obter poder/autoridade. Fala-se da nomeação de novos apóstolos e profetas, criam-se novas "visões" e "moveres", ensina-se uma prosperidade egoísta, traçam-se estratégias para os evangélicos reinarem no Brasil e no mundo, algo totalmente alheio ao Evangelho do Nosso SENHOR Jesus Cristo.
Eu estou farto desse triunfalismo que golpeia a Igreja brasileira, e do empenho em viver um modismo após o outro. Minha garganta fica travada de tristeza. É preciso gritarmos contra isso. Não dá para sermos apenas a reação acanhada e crítica que estuda, pensa, ora e só. Precisamos altear a voz e pregar a verdade evangélica!!!
Para saber um pouquinho mais sobre esse movimento não-bíblico, veja ainda http://www.plantaogospel.info/index.php/2008/07/07/conferencia-profetica-passando-o-manto-com-dr-morris-cerullo/

Meu mundo e nada mais

Quando eu fui ferido vi tudo mudar
Das verdades que eu sabia
Só sobraram restos e eu não esqueci
Toda aquela paz que eu tinha
Eu que tinha tudo hoje estou mudo, estou mudado
À meia-noite, à meia luz, pensando
Daria tudo por um modo de esquecer
Eu queria tanto estar no escuro do meu quarto
À meia-noite, à meia luz, sonhando
Daria tudo por meu mundo e nada mais
Não estou bem certo se ainda vou sorrir
Sem um travo de amargura
Como ser mais livre, como ser capaz
De enxergar um novo dia


Guilherme Arantes

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Sobre a Epístola de Tiago

A Epístola de Tiago é singular no Novo Testamento:
a) destaca a sabedoria, tal como os Livros Sapienciais do Antigo Testamento (1.5-8; 3.13-18; cf. Pv 1.1-7, 20-33; 2; 3; 8; 9; Ec 10);
b) emprega um estilo parecido com o de Jesus (1.9-11; 3.11,12; 4.11,12; 5.12);
c) apela para a necessidade de praticar obras correspondentes à profissão de fé (1.22-25; 2.14-26; 3.13);
d) desafia profundamente a conduta dos crentes (2.1-13);
e) preocupa-se com o uso da língua, como Provérbios (3.1-12; 4.11,12; cf. Pv 10.11,13,14,18,19-1,31,32);
f) exalta o valor da Lei (1.25; 2.9-13; 4.11,12);
g) cita, a despeito de sua brevidade, vários personagens do Antigo Testamento: Jó e os profetas como modelos de paciência, Elias como referência de eficácia na oração, e Abraão e Raabe como exemplos de quem demonstrou fé por meio de obras (2.21-25; 5.10,11,17,18);
Tiago usa muitos verbos no imperativo (1.2,5-7,13,16,19,21,22; 2.1,12; 3.1,4,13,14,7-11,13; 5.7-10,12-14,16), o que ressalta sua ênfase na exortação.
De um modo geral, a Carta de Tiago é taxativa, diferente das Cartas doutrinais do apóstolo Paulo, ou do tratado teológico de Hebreus, ou, ainda, do jeito pastoral de João em suas três Cartas.
Tiago "não passa a mão pela cabeça", como dizem meus pais. Seu sermão é até um tanto agressivo (ver 4.1-10).
Com ele não há meio-termo: ou o homem é sábio segundo a sabedoria de Deus ou não; ou o homem tem fé e pratica boas obras ou não tem fé nenhuma; ou o homem pede e recebe porque pede bem ou pede e não recebe porque pede mal.
Munido de toda essa ênfase vetero-testamentária e apego à cosmovisão judaica, pode parecer que Tiago seja legalista, mas não é assim: ele sabe que Deus nos gerou segundo o seu querer pela palavra da verdade, para sermos como primícias de suas criaturas (1.18); que a palavra que devemos acolher com mansidão foi em nós implantada (1.21); que a palavra em nós implantada é poderosa para salvar a nossa alma (1.21); que a lei perfeita é a lei da liberdade (1.25; 2.10-13); que Jesus Cristo é o Senhor da glória (2.1); que a fé morta, porque sem obras, é uma não-fé, uma nulidade retórica (2.17,26).
Tiago contrapõe a fé meramente confessional à fé bíblica. Em sua argumentação cristalina, afirma que até mesmo os demônios crêem e estremecem (2.19). Só que a crença dos demônios é simplesmente um assentimento intelectual de que o que Deus diz é verdadeiro. A fé bíblica, por sua vez, consuma-se pelas obras (2.22), manifesta-se pelas obras assim como o espírito se pronuncia por meio do corpo (2.26).
Não há conflito entre Tiago e Paulo. Cada um deles foi usado pelo Espírito Santo para destacar um aspecto valioso da vida cristã: as obras que provêm da fé (Tiago) e a justificação pela graça mediante a fé (Paulo, especialmente em Romanos, Gálatas e Efésios). O próprio Paulo escreveu que fomos criados em Cristo para as boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que nelas andássemos (Ef 2.10). Dessa forma, o ensino paulino vai no sentido de que a finalidade da fé são as obras. Não é isso o que Tiago diz?
De todas as Epístolas neotestamentárias, Tiago é a que mais se assemelha ao ensino de Jesus em sua dimensão ética, que se observa com destaque em passagens como a do Sermão do Monte (Mt 5-7; Lc 6.20-23, 27-38, 46-49); da exortação aos ricos (Lc 6.24,25); da correspondência entre a qualidade da árvore e a qualidade do fruto (Mt 12.33-35; Lc 6.43-45). Enfim, Tiago verte em sermão epistolar parte do que os Evangelhos estabeleceram acerca do que Jesus ensinou. É, pois, um documento evangélico de extrema relevância!
A Carta de Tiago precisa ser visitada com urgência em nossos púlpitos. Há uma grande necessidade de avaliarmos a operosidade de nossa fé. A vida cristã não pode ser limitada a declarações, confissões e catecismos, tampouco a práticas eclesiásticas vazias e tradicionalistas, quiçá vaidosas. Precisamos atentar para o que Tiago ensinou, porque foi isso o que Jesus ensinou.
Parece-me que transformamos o credo da Salvação pela Fé num empecilho para a prática de boas obras ou numa justificativa para a inação. Conceitos como a regeneração são contemplados como algo metafísico, transcendente, e esquecemos de que para isso Cristo encarnou, ou seja, contextualizou a Divindade...

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Campo Grande/MS: campeã em divórcios e mortes no trânsito

Quando cheguei a Campo Grande/MS no início de 2007, logo soube que é uma cidade campeã em divórcios. Agora, para minha surpresa, fico sabendo que é campeã também em mortes no trânsito, com índices considerados alarmantes, e que a chamada Lei Seca não pegou por aqui.
De fato, Campo Grande (MS) encontra-se ao lado de Porto Velho (RO), Macapá (AP), Palmas (TO) e Cuiabá (MT) quando se trata de grande quantidade de mortes no trânsito. Em 2006, conforme o Ministério da Saúde, foram de 26 a 29 mortes a cada 100 mil habitantes, o que é péssimo.
Depois de minha surpresa, parei para pensar qual seria o motivo de tantas mortes, e estou imaginando que seja por causa da tremenda falta de educação que meus colegas motoristas demonstram ao volante todos os dias.
Ora, a cidade não é grande, o tráfego não é pesado, as ruas e avenidas são relativamente espaçosas, o asfalto não está tão ruim, além de não ser tão difícil encontrar os endereços por aqui. Mas, no aspecto dos motoristas, como são ruins e mau-educados tantos que vejo por aí! Ultrapassam o sinal vermelho na maior tranqüilidade, nem sempre sinalizam ao fazer a curva, ficam entre duas pistas, se atrapalham nos dias de chuva, é um horror! Sem falar em motociclistas alucinados, que aparecem como que do nada e, de repente, passam por nós, ziguezagueando entre os carros, e sendo os primeiros a sair quando o sinal fica verde. Talvez a influência do álcool seja importante, e uma fiscalização adequada ajudaria a verificarmos em que medida.
Bem, quanto ao trânsito o diagnóstico deve ser mais fácil - mas na questão dos casamentos encerrados, eu não faço idéia.

Informações acerca de Campo Grande/MS frente à Lei Seca o eventual leitor pode verificar no seguinte caminho: http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u425215.shtml

O hino de quem venceu

Se hoje aquele Dia nos inspira
A sonhar com o melhor que há de vir,
Qual não pode ser a alegria
De olhar o Redentor, e nele ver

As marcas da Cruz que em Seu corpo
Eterna e ternamente testemunham
O amor, que à justiça se igualando,
Provou ser a face do SENHOR!

A mente humana a todo o vapor
Num corpo glorioso, transformado,
Rompendo a (in)esperança de morrer,
E mesmo para quem, já descansado,

Deixou a sepultura ou os mares,
Talvez das cinzas recompondo tudo.
Ah, que imagem, que festa, que prazer:
Os salvos, de uma vez, em todo o mundo,

Do oriente ao ocidente, céus e terra vendo
O incomensurável Rebanho de Um só Deus...
E todos de alegria não cabendo em si
Ao entrar na glória, e na glória cantando

O hino de quem venceu por Cristo,
O hino, meu Deus, que cantarei.

A lista de passageiros do Kasato-Maru!

Acaba de ser descoberto, por acaso, no Arquivo Público do Estado de São Paulo, um documento de imenso valor histórico: a lista dos primeiros imigrantes japoneses, passageiros do navio Kasato-Maru, feita antes do embarque.
Acompanha a lista uma carta redigida pelo Cônsul brasileiro no Japão, Alcino Santos Silva, ao Secretário de Agricultura, Commercio e Obras Públicas de São Paulo. A carta é de 30 de abril de 1908.
O Cônsul dá conta de lacunas da lista, de aspectos culturais e de sua impressão dos japoneses. Diz, por exemplo, que a mudança de idade não esperava a passagem de 12 meses, mas tão-somente a virada do ano; que o japonês só sabe trabalhar para um chefe, obedecendo-o "cegamente"; que os imigrantes não deveriam ser levados a trabalhar mais que dois terços do que os imigrantes brancos; que a lista continha nomes de chefes de família que não embarcaram, pois o chefe de família, no Japão, era o parente mais chegado e velho, "em todas as circunstancias da vida" (sic); que o pessoal da ilha de Okinawa falava uma língua que os demais japoneses não compreendiam, que eram dados à agricultura, obedientes e ativos, além de fortes e resistentes; que os imigrantes seriam "justamente apreciados" em São Paulo; que o tipo japonês era de baixa estatura, de aparência mais fraca do que forte, e "bastante feio". Mas ele diz que a impressão que teve dos imigrantes "não foi totalmente desfavorável". Reconheceu que os costumes dos japoneses eram bem diferentes dos nossos.
Causou-me surpresa a informação de que nem o Cônsul sabia do contrato entre o Estado de São Paulo e a Companhia de Imigração, o que lhe foi informado pelo presidente dessa entidade. Mesmo assim, ele enviou o grupo.
Os imigrantes foram vacinados, e sua bagagem, desinfetada. O vapor era um navio-hospital russo de nome Kaiserin, encontrado pelos japoneses em Port-Arthur.
Fiquei muito satisfeito de acessar esse importante documento, que o eventual leitor pode ver por si mesmo no link abaixo:

terça-feira, 22 de julho de 2008

O Espírito Santo glorifica o Filho

Na prática, as igrejas pentecostais enfatizam demasiadamente a ação carismática do Espírito Santo em detrimento da mensagem da Cruz. Eu sou membro de igreja pentecostal, sei do que estou tratando, e não me importo em fazer essa constatação, porque é real. Se isso não ocorre em teoria, ao menos se mostra como realidade no cotidiano das igrejas dessa linha teológico-doutrinária.
Batismo no Espírito Santo, glossolalia, curas e milagres são a ênfase do Movimento Pentecostal. Valorizam-se as pessoas dotadas de dons espirituais, até mesmo com certo desprestígio àqueles que nunca falaram em línguas. Admito que parte da explicação para esse fenômeno resida no fato de que o avivamento pentecostal despertou igrejas contra o tradicionalismo que olvidava a atuação poderosa do Espírito, chamando a atenção para a doutrina da Terceira Pessoa da Trindade numa perspectiva diferente daquela que inspirava as igrejas históricas. No entanto, ressalvado esse aspecto histórico, o fundamento do kerygma evangélico deve ser sempre a anunciação dos eventos salvíficos em Cristo.
O que estou dizendo não desmerece a Pessoa e Obra do Espírito, mas enxerga a Pneumatologia sob a ótica do Plano de Salvação. Com efeito, em Suas derradeiras lições aos discípulos, o SENHOR Jesus Cristo deixou clara a natureza da missão do Espírito Santo na Igreja:
a) enviado pelo Pai mediante a intercessão do Filho, o Espírito viria como "outro Consolador", em sucessão à presença física de Cristo, a fim de estar "para sempre" conosco (Jo 14.16);
b) Ele é o Espírito da verdade, exclusivo à Igreja, habitando conosco e estando em nós (Jo 14.17);
c) o Espírito viria em nome do Filho para ensinar à Igreja todas as coisas, lembrando aos apóstolos o que Jesus lhes ensinara (Jo 14.26);
d) o Espírito viria para dar testemunho do Filho (Jo 15.26);
e) o envio do Espírito ou Consolador estaria intrinsecamente ligado à Ascensão do Filho e sua ausência (física) por um tempo (Jo 16.7);
f) o Espírito viria para convencer o mundo do pecado, da justiça e do juízo, sendo que o convencimento acerca da justiça seria necessário ante a ausência (física) do Filho (Jo 16.8-11);
g) o Espírito da verdade viria para guiar a Igreja a toda a verdade, não falaria de Si mesmo, dizendo tudo o que tinha ouvido, e anunciando as coisas que haveriam de vir (Jo 16.13);
h) o Espírito da verdade glorificaria o Filho, tendo recebido do que é do Filho para anunciar à Igreja (Jo 16.14).
Todas essas frases estão no futuro do pretérito porque me reporto às palavras de Jesus, mas já tiveram seu cumprimento segundo At 2.1-4.
É muito importante observar que a atividade do Espírito no coração do pecador tem em vista a persuasão a respeito do sacrifício de Cristo, vicário e expiatório. O que o Espírito faz é convencer o pecador dos méritos de Cristo, guiá-lo a toda a verdade, ensinar-lhe as palavras de Cristo, lembrar a Igreja das coisas necessárias, habitar no coração do crente e, com isso, efetuar toda consolação de que esta necessita nesses dias que antecedem a Segunda Vinda do Filho de Deus.
A dotação de poder à Igreja, na forma de dons espirituais, é, sim, muito importante, e tem base bíblica (Lc 24.49; At 1.5; 2.1-4; 4.31; 6.8; 8.6-8, 14-19; 10.44-47; 19.1-7; I Co 2.4,5; 12.1-7). Também é de grande importância o fruto do Espírito (Gl 5.22,23), o encher-se do Espírito (Ef 5.18), para que o crente não seja carnal nem infrutífero, mas amadurecido. Entretanto, todas essas atuações do Espírito devem estar devidamente relacionadas, na mente do cristão, à Obra Salvífica de Jesus Cristo.
O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado (Rm 5.5).
Todos os crentes em Cristo foram selados pelo Espírito de Deus para o Dia da Redenção (Ef 4.30).
Todos nós cristãos temos "as primícias do Espírito" (Rm 8.23), o que nos torna seguros de que o Filho um Dia virá nos buscar para Sua augusta e santa presença.
É por tudo isso que, tecnicamente, não é correto orar ao Espírito nem glorificar ao Espírito: a oração é dirigida ao Pai em nome de Jesus, com a intercessão do Espírito por nós, à vista de nossas fraquezas (Rm 8.26,27).
Portanto, precisamos compreender as coisas direito, valorizando imensamente a ação carismática do Espírito, mas conhecendo Seu papel no contexto maior da Salvação.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Rememorando os fundamentos da Fé Cristã

O Deus que Se revelou na Bíblia é Supremo e criou os Céus e a Terra, bem como sustenta todas as coisas (Gn 1.1; 14.19; Jó 38 e 39[1]; Sl 8; 19.1; 24.1,2; 136.1-9[2]; Is 45.8-12, 18; Jo 1.1-3; At 17.24-29; Hb 11.3; Ap 4.11).
O Deus da Bíblia é Único (Dt 6.4; Is 44.6-8; 45.18, 21, 22; I Co 8.4-6; I Tm 1.17; 2.5). Conforme a Escritura Sagrada não existem outros deuses. Deus é adorado por anjos e seres humanos que O conhecem. A Criação e Sustentação dos homens, animais, vegetais, minerais e de todo o Universo é atribuída, pela Bíblia, ao Único Deus.
Deus é um só em essência e substância, e subsiste eternamente em três Pessoas, a saber, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Não se trata de modalidades do mesmo Deus nem de formas sucessivas de manifestação divina, mas do Deus Único que subsiste eternamente em três Pessoas.
Considerando que a distância que separa o homem do Grande Deus é enorme, como podemos reverenciá-lO diretamente? Essa pergunta é a mais importante que pode existir. Vejamos como a Bíblia a responde:
Deus é transcendente, mas também é imanente. Ele é Altíssimo, mas Se ocupa dos assuntos dos homens e intervém na História (Sl 57; Is 56.15).
Deus interveio na História de duas maneiras principais: a Revelação de Sua Palavra e o envio de Seu Filho ao mundo.
A Revelação aconteceu por meio da Inspiração de cerca de 40 escritores ao longo de mil e quinhentos anos, mais ou menos. Eles foram santos homens de Deus que, movidos pelo Espírito Santo, escreveram o que Deus lhes ordenou (II Tm 3.14-17; I Pe 1.11,12; II Pe 1.19-21; 3.15,16). Isso não tem nada a ver com mediunidade nem psicografia, mas se define como Inspiração Verbal, em que Deus usou, de maneira misteriosa e excelente, a personalidade, biografia, cultura, estilo e conhecimento de cada autor para redigir a Palavra divina aos homens.
O envio de Cristo ocorreu por obra do Espírito Santo, tendo Ele nascido de uma virgem (Mt 1.18-25; Lc 1.26-38; 2.1-7). Muitos séculos antes, profetas haviam anunciado a Sua vinda (Gn 3.15; Dt 18.18,19; Is 9.6; Mq 5.2), bem como o propósito de Sua missão e Seu sofrimento (Sl 22; Is 53).
Jesus foi enviado ao mundo, e por isso tem o título de Cristo, termo grego equivalente ao hebraico Messias, que significa enviado, ungido. Seu nome é Jesus, que significa Salvação de Deus (Mt 1.21).
Jesus Cristo veio em carne – a isso se dá o nome de “Encarnação” (Jo 1.14; I Tm 3.16; Hb 2.14; I Pe 1.12; I Jo 1.1-4; 4.2,3).
Jesus Cristo foi tentado em todas as áreas da vida, mas não pecou jamais (Mt 4.1-11; Mc 1.12,13; Lc 4.1-13; Hb 2.18; 4.15).
Jesus Cristo veio ao mundo oferecer remissão (perdão) de pecados (Lc 5.17-26), Sua vida em resgate de muitos (Mt 20.28; Jo 10.17,18), adoção de filhos (Jo 1.12; Rm 8.14-16; Gl 4.4-6), vida espiritual abundante e eterna (Jo 10.10; Rm 8.1-11; Ef 2.1, 5), justificação gratuita mediante a fé (Rm 5.1,2; 8.1), regeneração ou novo nascimento (Jo 3.3-5; Tt 3.5; I Pe 1.3), convite dos pecadores ao arrependimento (Mt 9.13), Salvação gratuita, mediante a fé, para a prática de boas obras (Ef 2.8-10), e a condição de herdeiros de Deus (Rm 8.12-17).
Jesus Cristo morreu pelos pecadores (I Co 15.3).
Jesus Cristo ressuscitou, apareceu a muitas testemunhas e foi assunto ao Céu (Mt 28; Mc 16; I Co 15.1-8).
Para reverenciar a Deus diretamente, é necessário aceitar, pela fé, o sacrifício vicário e substitutivo de Jesus Cristo, Seu Filho, na Cruz, por nossos pecados. É preciso nascer de novo (Jo 3.3-5), o mesmo que ser regenerado (Tt 3.5).
O sacrifício é vicário porque é substitutivo. O sacrifício é expiatório porque tem a função de perdoar pecados. A condenação era dirigida para todos os seres humanos, mas Jesus tomou o nosso lugar e morreu por nós.
Jesus Cristo intercede pelos pecadores (Is 53.12).
Jesus Cristo é o Mediador entre Deus e os homens (I Tm 2.5).
Jesus Cristo veio reconciliar o mundo (as pessoas) com Deus (II Co 5.18).
Jesus Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14.6).
Jesus Cristo tem em si, corporalmente, a plenitude da Divindade (Cl 2.9).
Jesus Cristo é o Filho de Deus (Jo 5.17,18; Hb 1.3; 3.6; 4.14; Rm 8.3), o que significa que Ele tem a mesma natureza de Deus. A palavra huios, do grego, quer dizer “filho” e aparece duas vezes no Evangelho de João referindo-se exclusivamente a Cristo. Quando se trata de se referir a outras pessoas como filhas de Deus, a palavra grega é outra, como em Jo 1.12 (teknia). Jesus é Filho por natureza, não por adoção nem produção.
Jesus Cristo é o Advogado junto ao Pai (I Jo 2.1).
Jesus Cristo veio buscar e salvar o que se havia perdido (Lc 19.10).
Jesus Cristo é o Logos que se fez carne e habitou entre nós (Jo 1.1, 14). Logos é a Palavra eterna e dinâmica de Deus. Jesus Cristo é essa Palavra ou “Verbo vivo” (I Jo 1.1-4, 10).
Quem conhece a Jesus Cristo como o Filho de Deus conhece a Deus Pai como Deus Verdadeiro e recebe a vida eterna (Jo 17.3).
Jesus Cristo é Superior aos anjos (Hb 1.5-14).
Jesus Cristo é Superior a Moisés e sua Lei (Hb 3.1-6).
Jesus Cristo é Superior ao Sacerdócio estabelecido por Deus em Israel (Hb 7).
Jesus Cristo é a luz do mundo, a luz verdadeira, a luz que resplandece nas trevas, a luz que ilumina a todo homem, a luz testificada por João Batista, dentre outros (Jo 1.4-9; 8.12). Quando a Bíblia diz que os discípulos de Cristo são a luz do mundo, isso tem o sentido de testemunho público da única fonte de luz verdadeira, que é Jesus, o Cristo (Mt 5.13-16).
Como o homem pecou (transgrediu a lei de Deus), o Pai enviou Seu Filho para perdão de pecados, o que Ele fez derramando Seu sangue. O amor e a justiça de Deus se encontraram na Cruz.
Portanto, a única maneira de acessar a Deus é por meio de nosso SENHOR Jesus Cristo. Não há outro caminho.
[1] Os textos de Jó são poéticos.
[2] A menção ao “Deus dos deuses” não deve ser tomada como entendimento da existência de vários deuses, pois outros e abundantes textos declaram existir um só Deus. Essa expressão aponta, de maneira poética, para a supremacia de Deus sobre as idéias politeístas. A esse respeito é bom ler I Co 8.4-6.

As coisas na igreja têm que fazer sentido*

Eu não consigo participar ativamente de uma coisa em que não acredito. Vivo, portanto, um dilema entre o amor pela Causa de Cristo e a situação da Igreja evangélica brasileira, o que se reflete em comunidades tangíveis, com endereço definido.
Não consigo, por exemplo, aceitar que o culto seja algo tão desorganizado, tão sem propósito - Rick Warren não patenteou essa palavra ainda, certo? Não entendo como uma reunião cristã pode ser "esticada" por tantas horas sem direção do Espírito, apenas para agradar vaidades ou interesses menores que o da adoração a Deus, da comunhão fraternal e da audiência de Sua Santa Palavra.
Não compreendo como as atitudes num culto podem ser tão desajustadas. Admito que uma reunião cristã seja longa, desde que o tempo seja bem aproveitado, sob a orientação do Espírito de Deus, e não para satisfazer aqueles bilhetinhos que chegam ao dirigente "em cima da hora", nem para atender a caravanas que ali se reuniram a fim de cantar um hino num contexto de hinos em demasia.
Para quem, afinal, prestamos culto? É para Deus mesmo? Não é para nós, não? Às vezes parece que, como eu, Deus fica assistindo, quando Ele é Quem deve conduzir, enquanto eu deveria participar.
Como espectadores ficamos muitos, sentados em nossas cadeiras ou bancos, e vendo o desfile de bons cantores e músicos, para depois ouvirmos uma pregação que nem sempre é bíblica, e, não raro, contraria até mesmo a própria doutrina da denominação.
As coisas na igreja têm que fazer sentido. Viver como que tateando no escuro, ou "dando murros no ar", não é inteligente. E, perdoem-me a franqueza, nem sempre é inteligência o que vejo em nosso meio, mas uma certa teologia prática que exalta justamente o ininteligível.
* Também publicado em www.ultimato.com.br, na seção Palavra do Leitor.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

A certeza, a dúvida...

A certeza não se dobra. A dúvida já se curvou.
A certeza não estuda. A dúvida investiga.
A certeza é religiosa. A dúvida, filosófica.
A certeza se envaidece. A dúvida enlouquece.
A certeza tem muitos amigos. A dúvida se amargura num canto.
A certeza é segura. A dúvida se segura.
A certeza é promovida. A dúvida duvida.
A certeza começa pela conclusão. A dúvida, pelo rascunho.
A certeza jamais ganhará um Nobel. A dúvida ganhou todos.
A certeza está convicta. A dúvida crê ou pensa.
A certeza é medieval. A dúvida, cartesiana.
A certeza simplifica o que não sabe. A dúvida complica o que sabe.
A certeza gaba-se de si mesma. A dúvida ajoelha.
A certeza encerra o assunto. A dúvida nem começou a prosa.
A certeza é fundamentalista. A dúvida, dizem, é liberal.

Combater a violência com tiros na rua é burrice

A criminalidade no Rio de Janeiro tem um componente especial, que é o domínio de favelas por grupos de traficantes de drogas. Encastelados em morros, que são como cidades paralelas, os criminosos governam com armas pesadas e com a ausência do Estado. Por isso, combater esse tipo de violência exige ações inteligentes das forças policiais, associadas a uma política de segurança pública que valorize a prevenção.
De fato, uma coisa é prevenir e reprimir crimes comuns, não ligados ao tráfico. Parece-me que esses crimes podem ser controlados com certa facilidade - sempre sem a necessidade de tiros aleatórios e abordagens policiais confusas. Mas no caso do tráfico de entorpecentes, que gera uma série de outros crimes, demanda-se um grau muito mais elevado de especialização policial e política governamental de médio e longo prazo.
Na verdade, a política de segurança pública tem que ser política de Estado, e não apenas de governo. É necessário um conjunto de leis que estabeleçam instituições duradouras no combate ao crime, sem que se alterem as regras a cada quatro anos, numa oscilação medonha entre políticas linha-dura e políticas liberais.
Não creio que o crime seja um efeito da desigualdade social. Muito menos o crime organizado! Fosse assim, não poderíamos punir criminosos, porque seus atos seriam resultado de uma injustiça social, e não se explicaria o fato de a maioria dos pobres não entrar para o mundo do crime. Esse discurso de que a criminalidade é produto puro e simples da injustiça social é coisa de quem analisa todos os problemas do mundo sob a ótica sócio-econômica, como os herdeiros de Marx.
No entanto, é certo que a ausência do Poder Público nas favelas contribui para a) o aliciamento de menores por parte das quadrilhas; b) o grande risco de um confronto com bandidos atingir inocentes; c) a consolidação de uma ideologia do marginal, em lugar de um senso de pertencimento à sociedade política.
Por que motivo as favelas nunca são demasiado distantes do centro? Porque os moradores se acotovelam para morar mais perto das regiões centrais, com suas vantagens. Eles querem pegar menos ônibus, economizar. Se houver melhoria do transporte público, acredito que as favelas poderiam desaparecer aos poucos - que sonho!
Mas é preciso estancar a fonte de financiamento do tráfico ilícito de entorpecentes, que, por sua vez, produz homicídios, roubos, furtos, lavagem de dinheiro, evasão de divisas, formação de quadrilha, corrupção policial e criação de grupos de extermínio. Quem são, pois, os investidores do tráfico de drogas? São os usuários, agora protegidos pela Lei nº 11.343/2006, que, se não descriminaliza o porte de drogas, lhe conferiu verdadeira despenalização, que não se coaduna com um País que precisa, com urgência, diminuir drasticamente a expansão do tráfico de drogas.
Certamente boa parte do financiamento do crime de tráfico de drogas vem de ricos e da classe média. Os pobres, quando viciados, roubam, furtam ou fazem "seqüestros-relâmpago" para obter um dinheiro que lhes garanta um prazer passageiro. Tudo isso vai fomentando mais e mais os crimes violentos, porque, além dos crimes dos viciados, há os crimes atrelados à defesa dos territórios do comércio ilegal de drogas, seja contra as investidas da polícia, seja contra facções rivais.
Sei que estou escrevendo coisas óbvias, mas a vontade de que isso mude é tão grande que me arrisquei a procurar um caminho.

Eu não entendo Saul

Saul é um personagem bíblico que me intriga. Ele é tão estranho, e ao mesmo tempo tão próximo a nós, tão "de carne e osso"...
Depois de ser ungido rei de Israel e passar pela experiência carismática com o grupo de profetas em Gibeá, Saul simplesmente omitiu tudo isso quando seu tio lhe perguntou o que Samuel lhe dissera, e só relatou que o profeta lhe havia informado sobre as jumentas perdidas (I Sm 10.1-16).
No momento de ser apresentado ao povo como o escolhido de Deus para ser rei, foi achado "escondido entre a bagagem" (I Sm 10.17-22).
Ante a desconfiança dos tais "filhos de Belial" (ARA) ou "vadios" (NVI) acerca de sua capacidade para liderar, Saul simplesmente "se fez de surdo" (I Sm 10.27).
Embora tivesse grande talento para a área militar - o que ficou claro na batalha contra os amonitas e em sucessivas vitórias (I Sm 11.1-11; 14.47,48), Saul quase pôs tudo a perder diante dos filisteus, e por dois motivos:
a) Primeiro, por não aguardar Samuel, e realizar, por si mesmo, sacrifícios e ofertas pacíficas (I Sm 13). Ora, Samuel havia dito a Saul que o esperasse por sete dias, que ele mesmo faria sacrifícios ali em Gilgal (I Sm 10.8), mas Saul não quis esperar. Vendo que o povo se espalhava, e que Samuel não aparecia, Saul resolveu seguir sua própria cabeça. Ao ver Samuel, disse que, "forçado pelas circunstâncias" (I Sm 12), ofereceu holocaustos, e seu discurso dá a entender que não lhe passava pela mente o fato de ter cometido um pecado, uma tolice, uma desobediência contra o mandamento do SENHOR. Para ele, estava tudo certo. Isso lhe resultou uma dura repreensão dada por Samuel, e a perda do reino mais tarde (I Sm 13.13,14).
b) Segundo, por determinar que seus homens fizessem jejum em plena movimentação bélica, o que os deixou exaustos (I Sm 14.24-28). Não fosse seu filho Jônatas, os israelitas teriam sido derrotados. O próprio Jônatas, quando soube da ordem de seu pai, reconheceu que, se os homens tivessem comido, suas forças teriam sido revirogadas (I Sm 14.29,30).
Nesse ínterim, Saul conseguiu se preocupar porque os homens comiam sangue (I Sm 14.31-35), o que era ilícito perante a Lei de Moisés; mas não se preocupou em consultar ao SENHOR antes de um novo ataque aos filisteus. Mais uma vez, foi salvo por uma terceira pessoa, desta vez o sacerdote, que o orientou a consultar ao SENHOR (I Sm 14.36,37).
Não obtendo resposta de Deus, Saul logo entendeu que alguém tinha cometido pecado no meio do povo. Lançando sortes, a sorte caiu justamente sobre Jônatas, que comera mel antes do encerramento do jejum. Afoito, tendo feito juramento de que mataria até mesmo seu filho Jônatas se este fosse o culpado, queria acabar com a vida do filho ali mesmo, mas foi impedido pela prudência de terceiros, mais uma vez (I Sm 14.38-46).
Vale transcrever a sábia palavra do povo: "Morrerá Jônatas, que efetuou tamanha salvação em Israel? Tal não suceda. Tão certo como vive o SENHOR, não lhe há de cair no chão um só cabelo da cabeça! Pois foi com Deus que fez isso, hoje" (I Sm 14.45).
Saul era beligerante. O texto diz que "para onde quer que se voltava, era vitorioso" (I Sm 14.47); que agiu "varonilmente, e feriu os amalequitas, e libertou a Israel das mãos dos que o saqueavam" (I Sm 14.48); que por todos os dias de seu reinado houve guerra com os filisteus (I Sm 14.52); e que "a todos os homens fortes e valentes que via, os agregava para si" (I Sm 14.52).
No entanto, além dos erros cometidos anteriormente, Saul viria a reincidir. De fato, mesmo sabendo que teria que destruir tudo entre os amalequitas, desde os objetos e animais até o rei, Saul achou razoável salvar o melhor dos despojos, e, ainda, salvar o próprio rei Agague.
Diante disso, Samuel ouviu a palavra do SENHOR no sentido de que se arrependera de constituir Saul como rei, o que demonstra, não que Deus tivesse errado, mas que as coisas teriam que mudar. Por causa desse novo episódio de Saul, Samuel ficou triste a clamou a Deus a noite inteira (I Sm 15.10,11).
Enquanto isso, o displicente Saul foi erigir um momumento que o exaltasse (I Sm 15.12). Como se diz popularmente, ele "não estava nem aí". E, mais do que isso, ao ver Samuel, disse "executei as palavras do SENHOR" (I Sm 15.13)...
A tolice de Saul era tamanha que insistiu em dizer que cumprira o mandado de Deus porque só salvou o melhor dos despojos, além do rei, destruindo todo o resto - no entanto, a ordem era para destruir tudo!
Em sua forma de pensar, Saul achava que estava certo porque os animais salvos serviriam para sacriricar ao SENHOR. Ele teve que ouvir de Samuel que obedecer é melhor do que sacrificar; que a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e a obstinação, como a idolatria e o culto a ídolos; que, tendo rejeitado a palavra do SENHOR, seria rejeitado como rei; que Deus lhe rasgara o reino, dando-o para um que era melhor do que ele.
Esse foi o fim da legitimidade do reinado de Saul, que dali em diante nunca mais teve contato com Samuel (ver toda a passagem de I Sm 15.14-35).
Fico pensando em como Saul foi tolo, obstinado, rebelde. Suas atitudes soam tão estapafúrdias que não parece que ele fosse inteligente. Entretanto, não se tem aqui um caso de pouca inteligência, mas de incompetência moral - Saul pensava errado porque era desobediente, descompromissado, desprovido de intimidade com Deus.
Com efeito, me parece que Saul se encaixa em descrições salomônicas do tolo, em contraste com o sábio. A pessoa estulta, ou estúpida, "mete os pés pelas mãos", como diz a gíria; faz coisas absurdas; ouve um comando e faz exatamente o contrário; oferece argumentos esquisitos, sem fundamento.
Mas eu comecei dizendo que Saul é tão estranho quanto próximo a nós. Ele é, sim, uma figura cujos sentimentos não são heróicos de todo, nem de todo desprezíveis - ele não é um personagem de histórias de mocinho e bandido, em que o maniqueísmo impera. A meu ver, o maior pecado de Saul foi ter seguido seu próprio coração, deixando de lado a orientação divina. Sua obstinação o tornou um homem insensível à voz de Deus.
É triste a história de Saul, que, depois de perseguir Davi por tanto tempo, acabou se suicidando (I Sm 18.17-30; 19.8-11; 31.1-7). Mas todo esse registro de sua pessoa e obra tem grande valor para nós hoje.
Não queiramos ser obstinados como Saul! Avaliemos nossa conduta e intenções. Vejamos se não estamos operando uma justiça ao nosso próprio modo, alheios ao SENHOR.
Aliás, quando Adão e Eva comeram da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, eles não estavam lançando o precedente para Saul, ao rejeitar a ética de Deus e inaugurar a ética humana?

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Hoje recebi a edição de julho/agosto da revista Ultimato, da qual sou assinante desde a edição passada, mas que conheço há uns doze anos, desde quando cheguei a Viçosa-MG para estudar. Já li quase todos os artigos. A matéria de capa tem por título O sucesso de Edir Macedo e a pergunta que fica no ar. A revista é excelente, e essa edição enfrenta muito bem a teologia da prosperidade.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

A Operação Pecado Capital e os "evangélicos"

No dia 14 de julho, segunda-feira, enviei para o "site" www.ultimato.com.br um texto chamado O problema da subcultura evangélica, onde refleti sobre o fato de o grande número de evangélicos na cidade do Rio de Janeiro não fazer diferença em termos de transformação social. Entre outras coisas, disse que a ingerência de evangélicos no "mundo exterior" geralmente redunda em problemas...e infelizmente o noticiário tem destacado, desde ontem (15/07), a Operação Pecado Capital, em que diversas entidades evangélicas estariam envolvidas com o desvio de mais de 60 milhões de reais em verbas públicas...no Estado do Rio!
É certo que não são apenas igrejas evangélicas, havendo também associações de moradores, centros espíritas e outras tantas instituições. Mas a considerável quantidade de igrejas evangélicas assusta.
O "site" de O Globo tem a lista das Organizações Não-Governamentais (ONG´s) que integravam o esquema, segundo a denúncia do Ministério Público Estadual (http://www.oglobo.com.br/servicos/pop_infografico.asp?p=/fotos/2008/07/15/tabela_ongs_cheques.gif&l=655&a=6764).
Constam nomes de Assembléias de Deus de vários ministérios, igrejas pentecostais, enfim, diversos grupos intitulados evangélicos. Um tal de Projeto Filipenses teria desviado mais de 6 milhões de reais, sozinho...
Peço que o leitor examine por si mesmo os links que menciono abaixo, para entender do que se trata. Em suma, por meio do programa Saúde em Movimento, a PRO-CEFET, entidade contratada sem licitação, teria repassado dinheiro ao Projeto Filipenses e à Alternativa Social, que por sua vez teriam entregue quantias enormes a cerca de 138 ONG´s. Essas entidades sacavam, com cheques, valores sempre abaixo de R$100.000,00 para não passar pelo crivo do COAF (Conselho de Controle de Atividades Financeiras).
O esquema teria sido feito em 2005 e 2006, para beneficiar a pré-campanha presidencial de Garotinho. O casal Garotinho teve seus bens arrestados pela Justiça, havendo também o bloqueio de todos os valores que têm em instituições financeiras. Foram denunciados por desvio de verbas públicas e improbidade administrativa, com outras 32 pessoas.
Devemos acompanhar o caso. Estou repetindo o que li em jornais on line e assisti no Jornal Nacional. Mas precisamos desde já avaliar as coisas com discernimento, e entender de uma vez por todas que a inserção evangélica na sociedade está sendo a mais desastrada possível.
Adianto que não é o momento de pastores como Silas Malafaia e Jabes Alencar irem à televisão dizer que há perseguição da mídia contra os Garotinho e os evangélicos. Eu sou evangélico e não me sinto perseguido pela imprensa. Sinto-me perseguido pela tristeza em ver que o bom nome do Evangelho não tem sido empunhado por tanta gente que se diz cristã, e que só contribui para que a evangelização do Brasil seja cada vez mais difícil.
Fiquemos atentos. A justiça de Cristo não se coaduna jamais com a corrupção. Em vez de ideologias superficiais supostamente baseadas no Apocalipse, precisamos atentar para os fatos, para as coisas como elas se apresentam.
Informações podem ser consultadas no "site" do G1, do Jornal O Globo, e do Estadão.
garotinho_rosinha_gilson_cantarino-547276668.asp

Escrevo, com muita honra, para meia-dúzia de leitores

Eu sei que escrevo ainda para poucos leitores. Meu público é realmente pequeno, a julgar pelas duas enquetes que, juntas, não passaram de quinze votos - e eu garanto que não votei. Isso se deve ao fato de eu não ser uma pessoa conhecida.
Com efeito, quem me conhece em Campo Grande-MS são os colegas, professores e gestores da faculdade de teologia, os irmãos mais próximos na igreja e meus colegas de trabalho. Fiz divulgação por e-mail ou pessoalmente, além do blog constar do artigo que foi publicado na última edição do periódico O Cidadão Evangélico.
Fora isso, não vejo como poderia divulgar este espaço, pois não deparo com grandes públicos, não sou convidado a pregar em reuniões maiores de uns tempos pra cá, com a agravante de que nossa mudança para este Estado nos fez começar todo um rol de novos contatos e amizades.
Mesmo assim, procuro escrever todos os dias. O blog é para mim como um arquivo, um laboratório e um ministério: é um arquivo porque nele deposito muitos e muitos textos que talvez sirvam para outras iniciativas no futuro; é um laboratório porque experimento minha inclinação para escrever e testo os conhecimentos adquiridos no estudo da Bíblia e da teologia; e é um ministério porque a meia-dúzia de leitores precisa de edificação na fé.
Não nego que gostaria de ampliar o alcance do nosso trabalho, mas não vejo ainda como poderia fazê-lo. Não se trata - eu espero - de angariar o reconhecimento público, mas de influenciar pessoas por meio de reflexões bíblicas. Toda pessoa que escreve deseja convencer ou comover - eu quero fazer as duas coisas, mas principalmente convencer.
Em geral, tenho recebido boas críticas por e-mail ou cara a cara. É muito difícil alguém postar um comentário. Quando li um comentário anônimo, discordei do teor, que me atribuía o interesse de dividir reinos e de "mostrar o intelecto", dentre outras coisas; mas apreciei muito o fato de uma pessoa que provavelmente não conheço ter sido alcançada por este meio de comunicação.
Não é fácil para mim falar ou escrever a poucas pessoas. Eu tenho - e não nego - o desejo de ampliar meu campo de ação. Só não descobri a maneira.
Enquanto isso, tenho que aproveitar o tempo para ler, estudar, pensar, orar. Sim, orar...
Quando nós atingirmos um público maior, espero inserir um texto comemorando.

Ser avivado...

Não é gritar "aleluia" durante o culto.
Não é falar língua estranha para que todos ouçam.
Não é ter falado língua estranha n'algum dia remoto.
Não é fazer um culto desorganizado.
Não é emocionar as pessoas com gritos e frases de efeito.
Não é pregar de improviso nem viver de improviso.
Não é pregar a vitória sobre os problemas financeiros e outros tantos.
Não é omitir enfermidades e fingir que elas não existem.
Não é dar outro nome para o câncer.
Não é cantar músicas agitadas falando de fogo.
Não é gostar de multidões e festas da igreja.
Não é criticar os irmãos de igrejas históricas.
Não é se apoiar em pregações alegóricas.
Ser avivado é se arrepender verdadeiramente dos pecados.
É se voltar para a Palavra de Deus e a oração.
Ser avivado é vigiar os pensamentos, sentimentos e atitudes.
É contar com a Providência divina em qualquer situação.
Ser avivado é alimentar-se da ética de Deus.
É rever conceitos e revisitar os fundamentos da Fé.
Ser avivado é pedir perdão a Deus e ao próximo.
É pensar quais são os pecados ocultos
E os pecados de omissão.
Ser avivado é frutificar no Espírito
E trabalhar com os dons recebidos.
É saber que não há servo sem o seu SENHOR,
Nem crente sem o poder do Espírito.
Ser avivado é buscar a Deus arando a terra,
Semear na justiça e colher em misericórdia.
Ser avivado é cantar louvores de coração.
É adorar a Deus por Ele ser Quem é.
E não barganhar com o Criador.
Ser avivado é estar vivo
Naquele que venceu a morte.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Constatação

Há ovelhas sem pastor pelo meio dos montes.
Rebanhos inteiros lançados ao vento.
Os lobos, sempre a postos, à espreita de carne.
E as ovelhas, meu Deus, tão vulneráveis!
Ovelinhas com sede, com fome
- Há tempos a chuva não cai...
Elas querem pão, elas correm atrás
De qualquer um que se diz pastor.
Se o pasto é amarelado e seco,
Assim mesmo as ovelinhas comem.
A desnutrição é grande, o campo é grande,
O rebanho é grande, mas a comida não basta,
E é fraca, e é rala.
Quem dará de comer às ovelinhas?
Quem dará de beber às ovelinhas?
Existem rios, mas elas precisam ser conduzidas.
Existem pastos, mas não há quem as conduza.
Rios perenes e pão que desce do Céu,
Mas ovelha nenhuma vive sem o seu pastor.
É lamentável a situação das ovelhas.
Turba-se o espírito de quem ama o rebanho.

Moody - um "leigo" notável

Domingo eu terminei a leitura do livro Liderança Espiritual segundo Moody, de Steve Miller. Comprei o livro para minha esposa porque sei que há anos ela leu uma biografia de Moody e gostou muito. Agora, tivemos oportunidade de ver, juntos, algo mais sobre esse importante pregador americano do Séc. XIX.
Dwight Lyman Moody era um homem muito simples. Começou a vida como vendedor de sapatos em Boston, na loja de seu tio, que lhe exigiu assiduidade na escola dominical. Moody converteu-se justamente na escola bíblica dominical. Ele não sabia que tinha alma, até que o professor da escola bíblica lhe disse!
Moody era excelente vendedor e usou seu talento para atrair pessoas à igreja. Mudando-se para Chicago, ele começou a servir ao SENHOR entre as crianças do bairro pobre The Sands.
Quase analfabeto, sem ordenação pastoral, mas com um crescente desejo de servir a Cristo, Moody decidiu reservar cada vez mais tempo para a Obra do Mestre. Ele entendeu que pessoas "leigas" deveriam ser treinadas para atuar no serviço cristão, e com isso instituiu conferências e escolas de treinamento visando à preparação de cristãos que exerciam alguma profissão, e que, portanto, não tinham como dedicar tempo integral à igreja. Ele mesmo era um "leigo".
Confesso que neste contexto eu não gosto da palavra "leigo", e por isso a tenho escrito entre aspas. Acredito que a distinção entre oficiais e "leigos" venha da noção de que o ministro do Evangelho tenha que possuir formação acadêmica em teologia. Moody é prova incontestável de que um pregador ou pastor não tem que necessariamente passar por bancos escolares de teologia...
Veja bem: a formação bíblica é fundamental para o líder, mas essa formação nem sempre advém de uma instituição de ensino superior ou de um seminário. O conhecimento e o treinamento para o ministério não decorrem exclusivamente de um curso de teologia, ao passo que nem todas as matérias do curso de teologia são dirigidas ao pastor ou pregador - muitas vezes o que se tem em vista é a formação do teólogo, o que é diferente de pastor ou pregador!
Mas, voltando a Moody, ele me causa admiração por sua compreensão da Palavra de Deus e do caráter de Deus. Suas palavras sintetizam muito bem a missão do líder de igreja ou do pregador. Além disso, era humilde, estudava a Bíblia com afinco, valorizava a oração, buscava o poder do Espírito, e sabia incentivar outras pessoas na tarefa de evangelização. Outro aspecto importante é que ele sabia pedir desculpas quando estava errado.
Dentre as tantas coisas que despertam interesse na biografia de Moody é que ele desenvolveu um ministério dirigido à pessoa humana, e não a métodos inovadores nem mirabolantes. Um dos motivos de seu sucesso foi a valorização das pessoas. Como exemplo disso há o fato de que ele criou as chamadas "salas de interessados" para que as pessoas dialogassem e recebessem conselhos de obreiros "leigos" depois das reuniões. Ele não se conformava em despedir o povo sem ofertar uma atenção individual.
Assim, tanto as "salas de interessados" como as conferências e as escolas de treinamento foram organizadas para atingir as pessoas.
Estima-se que Moody alcançou muitos milhares de pessoas com a pregação do Evangelho.
Entre os eloqüentes e eruditos pregadores de seu tempo, não há muitos que, à semelhança de Moody, tenham deixado um legado tão rico para a posteridade. Por isso há tantas biografias suas, como as que Steve Miller usou para pinçar elementos de liderança espiritual.
Moody era tão humilde que às vezes deixava de pregar para ouvir homens muito mais novos ou inexperientes, não sem fazer suas anotações enquanto escutava o pregador. Moody achava que anotar era um bom método de guardar informações para o aprendizado. E não se sentia inferior por causa disso.
Curiosamente, o iletrado Moody deu origem ao que hoje se chama Instituto Bíblico Moody, um lugar que, entre outras coisas, promove o ensino bíblico.
Fiquei tão comovido com a história de D.L.Moody que inseri neste blog o único retrato que lhe restou, e que só foi salvo do incêndio em Chicago (1871) porque sua mulher insistiu. Se fosse por ele, o retrato se queimaria, pois considerava errado que a única coisa salva do incêndio fosse sua própria imagem.
A simplicidade do Evangelho fez de Moody um homem notável, o que ilustra o princípio absoluto de que os humilhados serão exaltados.
Cá com os meus botões, não dá para ler a história de Moody sem ficar ruborizado com o meu jeito de servir a Deus, e com a situação da Igreja no Brasil, que troca a simplicidade do Evangelho pelo orgulho espiritual e pela ambição materialista.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Um exemplo de administrador público

O judeu Neemias, copeiro do Imperador Artaxerxes no Séc. V a.C., tornou-se governador da província de Judá, e, mais do que isso, um reformador social. Como administrador público, Neemias foi um exemplo que precisa ser seguido por agentes públicos em todas as épocas. Vale dizer que muitos séculos antes do nascimento do Direito Administrativo, esse personagem bíblico viveu segundo princípios hoje tão caros ao ramo jurídico-administrativo.
Quais, foram, então, as virtudes públicas desse personagem? Vejamos:
(1) Neemias exerceu o poder para cumprir um serviço (Ne 1.11; 2.5). Antes de ser nomeado governador de Judá, Neemias pensou em reedificar o muro de Jerusalém, um símbolo da religião e da nacionalidade judaica. Assim, ele chegou ao poder porque tinha em mente um serviço a desempenhar. Como se diz hoje em Direito Administrativo, o poder público é um poder-dever, ou, mais propriamente, um dever-poder. Só existem poderes e prerrogativas públicas para que um dever seja cumprido em favor do maior número pessoas.
(2) Neemias buscava o bem de sua pátria (Ne 2.10). É a noção de bem comum, bem público, interesse público, interesse social. O governador Neemias não pensava em si mesmo quando se tratava do exercício do cargo.
(3) Neemias estabeleceu acordos coletivos em torno de objetivos comuns (Ne 2.16,17; 10). Ele não era individualista nem autoritário. Além de ser um princípio administrativo importante, o trabalho coletivo alicerça as iniciativas públicas, já que estas existem por causa do interesse público.
(4) Neemias tomava parte no trabalho social (Ne 4.1,6,12-15,21,23). Ele estava no meio do povo, dando ordens, inspecionando o trabalho. Via-se como um servidor, e não como um maioral, um poderoso, um membro da elite dominante.
(5) Neemias tinha senso de justiça social (Ne 5.1-12). Isso ficou claro na reforma social referente aos empréstimos a juros, quando todos foram compelidos a deixar de praticar a usura contra seus irmãos, e a libertar pessoas que tinham sido escravizadas em razão de dívidas insatisfeitas.
(6) Neemias tinha responsabilidade com a coisa pública e não usava sequer de privilégios legais (Ne 5.13-18). Tamanha era a seriedade de Neemias que ele não usava da comida reservada ao governador, a qual lhe era conferida por direito. Não cobrava tributos desnecessários e não deixava que seus "moços" (subordinados) dominassem sobre o povo, além de ter reparado o muro e colocado seus subordinados para trabalhar na obra também. Ele era tão justo que não só deixava de comer do pão reservado ao governador como custeava todas as despesas com os hóspedes que diariamente recebia em sua casa.
(7) Neemias preocupou-se com o sustento dos trabalhadores (Ne 10.39; 13.10-14). Refiro-me aos sacerdotes, levitas e cantores que viviam do serviço religioso e por isso dependiam dos dízimos, que eram naquele momento uma espécie de imposto do Templo.
(8) Neemias combateu duramente um caso de nepotismo (Ne 13.4-9). Embora o nepotismo apareça como preocupação menor, já que Neemias buscava combater principalmente a profanação do Templo, eu inclui a questão do nepotismo porque o texto deixa claro que o sacerdote Eliasibe, encarregado da câmara da Casa de Deus, havia beneficiado seu parente com uma câmara grande, sendo que esse parente não tinha direito de ocupar um cômodo no Templo. Se Neemias fosse um nepotista, como o sacerdote Eliasibe, o caso teria passado despercebido.
Esses oito pontos mostram, em linhas elementares, os princípios éticos que guiaram Neemias como governador. Quem dera nossos políticos e outros agentes públicos seguissem o exemplo de Neemias! Vejo que muito do que os membros do Ministério Público perseguem atualmente poderia ser evitado se outros como Neemias exercessem cargos de direção em nosso País.

Jesus veio quebrar paradigmas?

Se não estou enganado, usa-se muito agora a frase "Jesus veio quebrar paradigmas" com o objetivo de justificar modismos na Igreja evangélica brasileira. Rompendo com boas tradições e geralmente importando dos Estados Unidos aquelas "teologias" e estratégias de crescimento de igreja, alguns líderes têm repetido que "Jesus veio quebrar paradigmas", mas há que se refletir sobre o conteúdo dessa afirmação.
Jesus veio mesmo quebrar paradigmas? Eu sei que Jesus veio buscar e salvar o perdido (Mt 18.11; Lc 19.10), servir e dar a Sua vida em resgate por muitos (Mt 20.28; Mc 10.45), dar vida, e vida abundante (Jo 10.10).
Ora, Jesus veio morrer pelos pecados da Humanidade, a fim de oferecer perdão (remissão) de pecados, adoção de filhos, justificação pela graça mediante a fé, regeneração, aceitação junto ao Pai, e a Vida Eterna. Jesus veio salvar um povo, santificá-lo e conduzi-lo ao Céu. Em nenhum texto bíblico está escrito, sequer implicitamente, que Jesus tenha vindo para quebrar paradigmas.
Agora, ninguém pode negar que Ele quebrou muitos paradigmas. Jesus quebrou o paradigma farisaico de que o cumprimento da lei seria meramente externo, formal; Jesus quebrou o paradigma de que a lei poderia salvar; Jesus quebrou o paradigma de que o homem foi feito para o sábado; Jesus quebrou o paradigma de que judeus não podiam se dar com samaritanos; Jesus quebrou o paradigma de que mulheres eram de classe inferior; Jesus quebrou o paradigma de que publicanos (cobradores de impostos) não podiam ser salvos; Jesus quebrou o paradigma de que o Ser Humano não poderia ter acesso ao Pai, mesmo que se tratasse de um gentio. No entanto, o que Jesus veio fazer foi vencer o pecado, e, com isso, vencer a morte.
O problema das frases de efeito é a apresentação de uma verdade retórica. Como ninguém nega que Jesus tenha quebrado paradigmas, o adepto de modismos conclui sorridente: "Está vendo? O que estamos fazendo aqui é quebrar paradigmas como Jesus sempre fez".
Devemos avaliar as coisas com discernimento. Se nossa cosmovisão depender de frases de efeito, estaremos realmente desorientados, pois não há substância em argumentos dessa natureza.

Entre números e genealogias (II) - Quando Deus peleja por nós

Continuando a série Entre números e genealogias, gostaria, primeiro, de observar o seguinte: sei que é bastante delicado fazermos aplicações devocionais de determinadas passagens do Antigo Testamento, e para isso contribuem alguns fatores: a) a nossa falta de conhecimento de uma teologia bíblica do Antigo Testamento; b) as dificuldades apresentadas por certos textos "obscuros"; c) o medo de parecer "judaizante"; d) a ênfase natural que se dá ao Novo Testamento - já que a Igreja é neotestamentária -, sem que se faça um estudo mais profundo do Antigo; e) o perigo de alegorizar e dizer mais do que o texto diz.
Esses são fatores consideráveis. Em contrapartida, quero continuar esses estudos devocionais em I Crônicas porque a) o Antigo Testamento é também a Palavra de Deus; b) o Antigo Testamento é refletido no Novo Testamento; c) o Antigo Testamento fornece princípios do caráter de Deus e de Sua relação com os Homens; d) a incompreensão do Antigo Testamento favorece os judaizantes, porque são estes que depurpam figuras e episódios sumamente israelitas ou judaicos e querem aplicar à Igreja.
Até para combater a heresia judaizante, que cresce no Brasil, precisamos entender o Antigo Testamento e aproveitar seus ensinos, dentre os quais estão elementos de cunho devocional. Se fizermos isso com cautela, sem alegorias resultantes de nossa imaginação, haveremos de extrair preciosas lições acerca do caráter imutável de Deus.
Estamos agora diante do texto de I Cr 5.18-26, que transcrevo a seguir:

"Dos filhos de Rúben, dos gaditas e da meia tribo de Manassés, homens valentes, que traziam escudo e espada, entesavam o arco e eram destros na guerra, houve quarenta e quatro mil setecentos e sessenta, capazes de sair ao combate.

Fizeram guerra aos hagarenos, como a Jetur, a Nafis e a Nodabe.

Foram ajudados contra eles, e os hagarenos e todos quantos estavam com eles foram entregues nas suas mãos; porque, na peleja, clamaram a Deus, que lhes deu ouvidos, porquanto confiaram nele.

Levaram o gado deles: cinqüenta mil camelos, duzentas e cinqüenta mil ovelhas, dois mil jumentos; e cem mil pessoas.

Porque muitos caíram feridos à espada, pois de Deus era a peleja; e habitaram no lugar deles até ao exílio.

Os filhos da meia tribo de Manassés habitaram aquela terra de Basã até Baal-Hermom, e Senir, e o monte Hermon; e eram numerosos.

Estes foram cabeças de suas famílias, a saber: Éfer, Isi, Eliel, Azriel, Jeremias, Hodavias e Jadiel, guerreiros valentes, homens famosos, cabeças de suas famílias.

Porém cometeram transgressões contra o Deus de seus pais e se prostituíram, seguindo os deuses do povo da terra, os quais Deus destruíra de diante deles.

Pelo que o Deus de Israel suscitou o espírito de Pul, rei da Assíria, e o espírito de Tiglate-Pileser, rei da Assíria, que os levou cativos, a saber: os rubenitas, os gaditas e a meia tribo de Manassés, e os trouxe para Hala, Habor e Hara e para o rio Gozã, onde permanecem até ao dia de hoje" [grifei].

O cronista intercepta a seqüência genealógica para mais uma narrativa sucinta. Como no caso (anteriormente referido) de Jabez (I Cr 4.9,10), o narrador oferece explicações teológicas para o sucesso ou o fracasso de determinadas pessoas ou grupos de pessoas. Agora, ele tem em mente as tribos de Gade, Rúben e Manassés em certo período histórico. Vale dizer que muito tempo separa o evento do registro, e que o cronista viveu depois do povo judeu ter ido cativo para a Babilônica (I Cr 9.1).
As tribos de Gade, Manassés e Rúben faziam parte do Reino do Norte, cuja capital, Samaria, veio a ser invadida pelos assírios em 722 a.C. O cerco a Jerusalém, capital do Reino do Sul (Judá e a meia tribo de Benjamim), deu-se a partir de 605 a.C., com a deportação de judeus começando em 586 a.C.
Israel, Reino do Norte, caiu primeiro (lembre-se que a contagem do tempo antes de Cristo é decrescente ou "de trás para frente"). Os rubenitas, gaditas e os da meia tribo de Manassés têm aqui, conforme a pena do cronista, um registro mais detalhado de como as coisas lhes sucederam até a queda (vv.25,26).
Mas o início do texto revela um povo que confiava em Deus. De fato, embora fossem "homens valentes" e soubessem guerrear, manuseando escudo, arco e espada, sendo "capazes de ir ao combate", eles decidiram clamar a Deus e confiar n'Ele. Entre os da meia tribo de Manassés havia até mesmo "homens famosos". No entanto, não obstante a sua força bélica, eles entenderam que confiar no SENHOR seria melhor. E esse foi o motivo de seu êxito sobre os hagarenos e outros que os acompanhavam.
Por que Deus tomou a peleja para si? Simplesmente porque houve confiança n'Ele.
É importante recordar que as guerras de conquista eram consideradas legítimas na Antiguidade, quando povos migravam para outras terras e buscavam tomar propriedades pelo uso da força. Hoje essas guerras são consideradas injustas, de maneira que as guerras de conquista parecem estranhas a nós, indivíduos do Séc. XXI. Mas é necessário entendermos o contexto, pois esse era o modo natural de as nações estabelecerem seus domínios.
De toda sorte, a guerra entregue a Deus mediante a fé ilustra para nós a necessidade de depositarmos no SENHOR toda a nossa confiança. Deus aprecia a confiança n'Ele depositada, como dissemos no caso de Jabez, que foi mais ilustre do que seus irmãos porque confiou em Deus (I Cr 4.9,10).
Entretanto, o pecado atrapalha essa relação. O pecado sempre atrapalha. Ele é como um vírus, uma doença, uma infecção - Deus não compactua com o pecado. Essa é uma regra absoluta.
Justamente por isso, Deus não foi favorável aos gaditas, rubenitas e à meia tribo de Manassés depois que eles se prostituíram, seguindo outros deuses. Essa prostituição pode ser entendida como a idolatria, no sentido de infidelidade a Deus; e como o uso da prostituição cultual, muito difundida por vizinhos de Israel e que acabou contribuindo para a queda desse Reino no período do rei Oséias.
Quando o texto diz que Deus suscitou o espírito do rei da Assíria para levar israelitas ao cativeiro, isso indica a intervenção de Deus na História, mas não nos autoriza a ficar interpretando os acontecimentos históricos a partir de supostas explicações teológicas. Essa tarefa coube ao Espírito Santo ao inspirar, em geral, profetas e apóstolos, como fez também neste caso com o cronista. Precisamos somente atender ao fato de que Deus Se importa com o que sucede aos Seus servos.
Além disso, a palavra "espírito" não significa um demônio que supostamente usaria o rei da Assíria, mas denota, isto sim, a atitude, o ânimo desse rei. O Deus de Israel suscitou o ânimo do rei assírio para que ele se dispusesse a invadir Israel.
Mas o que eu quero destacar é o seguinte: quando o povo confiou em Deus e levantou um clamor diante de seus adversários, o SENHOR atendeu. Quando o povo pecou, Deus enviou outros adversários, ainda mais fortes, para executar Seu juízo.
Não adianta o Homem querer determinar absolutamente nada a Deus. Não adianta "tomar posse", decretar, exigir, reivindicar, ordenar, declarar...Basta pedir a Deus com fé para que, segundo a Sua soberana vontade, seja-nos concedido o que for melhor, de acordo com os santos e eternos propósitos do SENHOR. Isso vale para o Antigo e Novo Testamentos. Isso vale para a relação entre Deus e os Homens.



Fale comigo!

Gostaria de estabelecer contato com você. Talvez pensemos a respeito dos mesmos assuntos, e o diálogo é sempre bem-vindo e mais que necessário. Meu e-mail é alexesteves.rocha@gmail.com. Você poderá fazer sugestões de artigos, dar idéias para o formato do blog, tecer alguma crítica ou questionamento. Fique à vontade. Embora o blog seja uma coisa pessoal por natureza, gostaria de usar este espaço para conhecer um pouco de quem está do outro lado. Um abraço.

Para pensar:

Um dos terríveis problemas da Igreja evangélica brasileira é a falta de conhecimento da Bíblia como um sistema coerente de princípios, promessas e relatos que apontam para Cristo como Criador, Sustentador e Salvador. Em vez disso, prega-se um "jesus" diminuído, porque criado à imagem de seus idealizadores, e que faz uso de textos bíblicos isolados, como se fossem amuletos, peças mágicas a serem usadas ao bel-talante do indivíduo.

Arquivo do blog

Bases de Fé

Creio:
Em um só Deus e na Trindade.
Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristão.
Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal e sua ascensão aos céus.
Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor.
No batismo bíblico em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo.
Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus, através do poder do Espírito Santo.
No batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a intercessão de Cristo.
Na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja para sua edificação, conforme a sua soberana vontade.
Na Segunda Vinda de Cristo.
Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo.
No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis.
E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.