quarta-feira, 29 de outubro de 2008

491 anos da Reforma Protestante

O dia 31 de outubro é importante para o mundo genuinamente cristão, mas creio que aqui no Brasil somente os presbiterianos, luteranos e irmãos de outras igrejas reformadas chegam a comemorar a contento essa data marcante. Eu, um pentecostal histórico do tipo pretendente a "bereano", aprendi a admirar o pensamento teológico dos meus irmãos presbiterianos, e muito disso se deve certamente ao meu período de ABU (Aliança Bíblica Universitária) em Viçosa-MG, e ao meu contato com a revista Ultimato.
É certo que, em termos de uma sociologia da religião, os pentecostais parecem estar no "evangelicalismo", enquanto outros grupos, como os batistas, dizem que vieram antes da Reforma, que já existiam antes de Martinho Lutero cravar suas 95 Teses na porta da Capela da Universidade de Wittemberg. E efetivamente houve, antes de Lutero, homens que divergiram da Igreja de Roma.
Mas, de um modo geral, todo o pensamento cristão ortodoxo que conheço se abebera da Reforma, e todo cristão que se pretende maduro na Fé admite os Cinco Solas: Sola Gratia, Sola Fides, Sola Scriptura, Solus Christus, Soli Deo gloria (só a graça, só a fé, só a Escritura, só Cristo e glória somente a Deus).
Ressalvadas as questões da doutrina calvinista da predestinação (graça irresistível, chamamento eficaz etc.) e os resquícios romanistas que se vêem na obra de Lutero, todos nós cristãos não-católicos deveríamos nos sentir protestantes, porque tanto a doutrina da Salvação como toda a perspectiva da Bíblia como Palavra de Deus inerrante, definitiva e infalível veio a ser assentada pelo labor teológico dos reformados. Assim, sendo nós evangélicos, e, dentro desse espectro, sendo batistas, congregacionais ou pentecostais, além de tantos outros grupos que se queiram ortodoxos, todos nós somos herdeiros teológicos da Reforma.
Por falar em "ortodoxos", lembro que existe a Igreja Ortodoxa Grega, e todas aquelas tradições cristãs orientais das quais não tenho conhecimento, mas que antecedem a Reforma em séculos. Apesar disso, ninguém pode esquecer o quanto a Reforma produziu de benefícios para o mundo cristão, principalmente no que toca ao reconhecimento da autoridade das Sagradas Escrituras, enquanto o Romanismo depredou séculos e séculos (da Idade das Trevas) sob o tacão da ignorância e do poderio régio-papal.
O inconformismo recomendado por Paulo em Rm 12.2 é um ingrediente do crente não apenas reformado, mas transformado. E entendo que, mais do que movimento explicado por motivações políticas, culturais, sociais ou econômicas, a Reforma Protestante foi um verdadeiro avivamento, que, como tal, partiu da Escritura Sagrada, e a ela se voltou. E isso não anula nem afasta os precedentes históricos nem as conseqüências políticas, econômicas, culturais e nacionais que a Reforma engendrou.
Este é meu jeito de dizer que também comemoro o dia 31 de outubro, quando, agora em 2008, a Reforma comemora 491 anos!

sábado, 25 de outubro de 2008

Mais uma mudança e suas conseqüentes reflexões

A casa está como eu mesmo: desarrumada, cheia de caixas vazias para colocar coisas que mais uma vez tomarão novo rumo. Bahia, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Bahia de novo. São muitas mudanças em pouco tempo, em pouca vida, em poucos anos.
Amizades que se constroem e que se despedem. Contatos que deverão permanecer, enquanto outros ficarão na memória esquecida de minha mente limitada.
Não conheci o Pantanal, não fui a Bonito, quase não saí de Campo Grande. Mas há quem eu leve no coração, isso eu sei. Pessoas valem muito mais do que lugares. Quer gostar de um lugar? Goste de pessoas do lugar.
As três décadas que tenho não me ensinaram a não chorar na partida, mas me ensinaram a entender que não existe chão que, ao ser pisado, fique inerte. Todo chão deixa o seu ensino e as cores do seu cotidiano.
Menos de dois anos já foram capazes de criar relacionamentos que, espero, sejam duradouros. Conheci cristãos firmes na Fé, com os quais partilhei dúvidas, temores, problemas, alegrias, críticas, aprendizado. Também conheci crentes que professam uma fé materialista, que pensam em semear dinheiro para colher mais dinheiro ainda. Reconheci que o consumismo campograndense adentra às igrejas, agora com a roupagem "teológica" da Confissão Positiva.
Não posso negar: amo pessoas que aqui conheci. Professores, colegas do curso teológico, alguns pastores, colegas do meu trabalho, meus superiores. Acertei e errei, mas tenho certeza de que, em Cristo, apesar de meus erros e limitações, devo ter deixado a marca de quem foi salvo por Cristo. Espero ter deixado a marca de um homem íntegro, um homem de caráter regenerado, embora pecador.
Tenho a necessidade de mostrar que um cristão não precisa vender seus princípios para ser benquisto em sua igreja. Aliás, se eu sofrer oposições, como sofri, que seja pela Causa de Cristo. Não devo me importar se os homens não me ordenam a cargos importantes, se meu nome não é lembrado, se meus supostos talentos ficam adormecidos porque tenho certos embates com alguns que se mantém aferrados ao poder. Se eu tiver pregado o Evangelho, se eu tiver mantido meus princípios mais caros, entenderei que valeu a pena perder tudo aquilo que os homens gostariam de me dar, depois de tanto me arrancar.
As aulas na classe Melquisedeque e nas outras classes por onde passei - como esquecer?
As aulas que assisti na FATHEL - como esquecer?
As discussões (acaloradas ou não) na mesma Faculdade - como esquecer?
As palavras de apoio e incentivo de irmãos em Cristo, que, com seu abraço carinhoso e olhar sincero, muito me animaram a continuar nessa jornada que tantas vezes parece solitária.
Não posso esquecer de professores-pastores que vieram à minha casa conversar, aconselhar, orar, pastorear.
Não posso esquecer que em Campo Grande comecei a realizar o sonho de estudar Teologia, apesar de que, por ora, terei que estancar o curso...
Não posso esquecer de que foi aqui em Campo Grande que entendi mais um pouco sobre o meu chamado, embora haja tantas obscuridades em minha vocação (não que Deus seja obscuro, mas eu, quem sabe, inseguro).
Foi aqui que comecei a escrever num blog.
Foi aqui que desenvolvi um pensamento teológico, ainda que elementar.
Foi aqui que Elisa aprendeu a falar, e que um rebento foi concebido.
Aqui na terra morena, na terra do tereré, na terra da mandioca amarelinha, na terra do erre puxado, na terra do povo introspectivo, na terra dos muitos quartéis, na terra meio paulista, na terra também nipônica, na terra de árabes, gaúchos, sei lá. Aqui eu não tive como não aprender.
Este texto poderia ser mais longo, como longa é a saudade que já se avizinha do meu coração. Mas estranha é essa coisa de saudade: por mais que faça chorar, a saudade só existe no coração de quem consegue transformar vida em amor.







terça-feira, 21 de outubro de 2008

Resposta a um admirador de René Terra Nova e Cia.

Em comentário ao nosso artigo Silas Malafaia fala de sua relação com René Terra Nova, um leitor chamado "Berginho" escreveu o seguinte:
"Alex, calma camarada, se voce não tem condições de caminhar com a adversidade de pensamento fique na sua. não fique triste com o crescimento dos outros, seja g12,g29 ministerio disso ou daquilo alegre-se com as almas que estão se convertendo e deixa que Deus faça a parte DEle, de juiz, pois Ele somente Ele pode discernir se estamos ou não enganados com os nossos metodos. não precisamos meu bom homem brigar entre nós. prepare mensagens e coloque no seu blog e voce verá que terá resultados positivos. abraços" (sic).
Este comentário merece muitas observações, que faço a seguir:
1) O leitor deve ter querido se referir a "diversidade de pensamento", e não "adversidade", algo muito diferente;
2) Eu sei conviver com diversidade de pensamento, mas, à semelhança de Paulo, Pedro, Judas, Tiago, Jeremias, e principalmente nosso SENHOR Jesus Cristo, não posso concordar com o ensino falso, com o "outro evangelho" (Gl 1.6-8), com o comércio da fé, com o pragmatismo, com o materialismo, com a exaltação do método em detrimento da mensagem evangélica;
3) O leitor disse que devo me alegrar com "as almas que estão se convertendo". E eu lhe pergunto: estão se convertendo a quê e a quem, se o que se ouve é um "evangelho" centrado no homem, em heresias e modismos, e não em Jesus Cristo?
4) O leitor mostra ser uma pessoa pragmática. Sabe o que é isso? Pragmatismo é uma filosofia ou estilo de vida que leva em conta, como critério de validade das coisas, os seus "resultados positivos", que, no caso das igrejas que o leitor admira, se traduz em crescimento numérico a todo custo;
5) Ao dizer que devo deixar o julgamento a Deus, o leitor revela que não sabe qual a distinção entre o julgamento proibido em Mt 7.1 e o julgamento recomendado em At 17.11, I Ts 5.21, Rm 12.2, I Co 14.29, Jo 7.24, I Co 2.15, I Jo 4.1. Para lhe ajudar na interpretação desses textos, eis que, enquanto Mt 7.1 trata do preconceito e julgamento das motivações alheias, o julgamento de At 17.11 é juízo crítico responsável dos irmãos nobres que, ao ouvirem o pregador (Paulo), vão conferir nas Escrituras para ver se as coisas são de fato assim; o julgamento de I Ts 5.21 é o de examinar (julgar) tudo e ficar só com o que é bom; o inconformismo de Rm 12.2 é precedido de avaliação, julgamento, pois ninguém fica inconformado sem julgar os fatos com os quais não se conforma; o julgamento de I Co 14.29 é - veja só - sobre as profecias, que Paulo manda que os outros julguem; o julgamento de Jo 7.24, segundo palavras de Jesus (o mesmo Mestre de Mt 7.1) deve ser "pela reta justiça", e não pela aparência; o julgamento de I Co 2.15 é o discernimento que o homem espiritual deve ter de todas as coisas; o julgamento de I Jo 4.1 é dirigido aos "espíritos", para que não demos crédito, não acreditemos em qualquer palavra. Portanto, o amado irmão está completamente equivocado em sua perfunctória análise (nesse item, sugiro a leitura do livro Mais erros que os pregadores devem evitar, do Pr. Ciro Sanches Zibordi, especialmente o Cap. 8, que responde à pergunta Quem disse que não podemos julgar?).
6) Ao supor que estou triste com o "crescimento" de outros por não saber "caminhar com a adversidade de pensamento" (sic), o leitor mostra que, na verdade, fez avaliação subjetiva, a ponto de imaginar que escrevi o texto porque fiquei triste. Quem lhe disse que essa foi a minha motivação? Isso não é subjetivo demais? Repare, no entanto, que, se o seu julgamento partiu das entrelinhas do que eu disse, ou do que o leitor pensou que eu disse, meu texto é fruto de avaliação bíblica, sim senhor, com respaldo na Palavra de Deus, e não em minhas suposições;
7) Ao dizer que não devemos brigar entre nós, lembre-se de que em nenhum momento eu disse que participamos do mesmo grupo - não pense que combater heresias é combater a Igreja. Apoiar heresias é combater a Igreja. Não sei mesmo se estamos no mesmo barco, mas nesse ponto efetivamente não posso julgá-lo (entendeu a diferença?);
8) A sugestão para que eu escreva "mensagens" neste "blog" indica que o leitor não se deu ao trabalho de ler alguns de nossos estudos bíblicos, ensaios teológicos e esboços de aula na escola bíblica, talvez pela grande extensão dos mesmos;
9) Se o leitor acredita que não podemos avaliar se nossos métodos estão certos ou não, isso significa que vale tudo, à moda de Maquiavel, como se não tivéssemos a Bíblia como nossa regra definitiva de fé e conduta;
10) Por fim, espero que da próxima vez o leitor "Berginho" adentre ao mérito da questão e procure empregar, se os encontrar, argumentos bíblicos em defesa do G-12, do crescimento numérico sem conteúdo, das conferências "proféticas" de passar o manto etc. Use a Bíblia, e não o simples ataque que só tangencia, mas nunca expõe o verdadeiro Evangelho de Cristo, que salva o pecador, sem imitar o mundo.
Amado, não tenho nada contra a sua pessoa. Tenho tudo, porém, contra sua equivocada maneira de pensar. Mas publiquei seu comentário porque sei conviver com a diversidade de pensamento.
Em Cristo,


segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Desculpe: sou imperfeito

Você aprendeu a me admirar, mas esqueceu os meus defeitos. Achou que eu estava numa vitrine, intocável, insuspeito. Tendo visto meu nome na Galeria da Fé, logo imaginou que eu era santo demais, justo demais, forte demais. Mas não sou, não.
Você sabe que me chamam de Pai da Fé. Mas não se esqueça de que o importante mesmo é que essa fé apareça em você, como dom de Deus. Eu não acreditei em Deus porque fosse uma pessoa boa, mas porque conheci Aquele que me fazia as promessas. Eu cri nas promessas do SENHOR, não cultivei nada de pensamento positivo. Apenas cri nAquele que falava comigo, e saí de minha terra. A iniciativa foi toda d'Ele. Agora, por que Ele escolheu a mim, não me pergunte...
Eu era rico, sabe? Tinha de tudo que se possa imaginar em termos materiais. Mas o SENHOR me chamou para fora do meu mundo. Saí para uma terra desconhecida, e no percurso cometi muitos erros...
Deus me prometera um filho, mas, como eu era velho e minha esposa, velha e estéril, entendemos que Deus estaria se referindo a um filho por adoção legal. Então, arranjamos um jeito - como me custa lembrar! - de termos um filho por meios jurídicos, a fim de garantir o cumprimento da promessa. E estávamos enganados. Até um acordo de casal pode estar redondamente errado. Nosso filho nasceria depois por um milagre de Deus. Como fui incrédulo.
Por duas vezes seguidas, e de modo semelhante, cometi uma meia-verdade, que é outro nome para mentira completa: disse a dois homens poderosos que minha esposa era só minha irmã, e isso porque tinha medo de que me matassem por causa dela. Sim, fiz isso duas vezes! E me arrependi. Estava equivocado, e Deus só me ajudou por Sua misericórdia.
Deus confirmou Suas promessas, e não falou uma vez só, não. Ele conversava comigo, sempre tomando a iniciativa. O que eu fazia era cultuar ao Seu Nome, agradecer por Sua bondade. A graça divina me alcançou lá no paganismo. Eu mesmo nada tinha a oferecer ao SENHOR.
Certo dia, Deus me pediu aquele que eu mais amava, o meu único filho amado, o filho da promessa. E eu, naquele momento, por graça de Deus, tive fé. Entendi que Deus poderia ressuscitar meu filhinho. Entendi que meu relacionamento com Deus podia me dar essa esperança. Eu sabia que meu SENHOR provê todas as coisas necessárias. Mas isso, lembre bem, não veio de mim - não sou daqueles que se gabam de suas conquistas. Tudo o que tive, em todos os sentidos, proveio das promessas generosas do SENHOR.
Eu não inventei a fé. Eu não disse jamais que a fé é pensar positivamente e barganhar com Deus. Quando eu dei o dízimo ao Sacerdote do Deus Altíssimo, eu não estava esperando uma recompensa, uma coisa em troca. Eu entreguei o dízimo assim como entreguei minha vida. Nada posso dar a Deus em retribuição pelas vitórias obtidas em Sua presença. Não é com dinheiro e bens que alguém poderá agradar ao meu SENHOR. Não consigo pensar assim.
Sei que tem gente boba citando meu nome como se fosse um super-homem, que teve uma fé mágica, com super-poderes, com objetivos mesquinhos de ganhar dinheiro e bens. Dizem por aí que fiquei rico porque usei uma atitude mental "positiva". Se me conhecessem de fato, se passassem por mim, nem me cumprimentariam, porque achariam estranha a minha figura. Sou um homem trabalhador, simples e crente em Deus.
Desculpe se te decepcionei. Não tenho nada de explosivo para dizer no final deste texto.
Assinado: Abraão.
* Crônica baseada na História de Abraão, contada no Livro de Gênesis (11.26-25) e referida no Novo Testamento tanto por Jesus, nos Evangelhos (Mt 3.9; Lc 16.22; Jo 8.58), como pelo apóstolo Paulo nas Cartas aos Romanos (cap. 4) e aos Gálatas (3.6-1), bem como pelo autor anônimo de Hebreus (11.8-12) e por Tiago (2.21-24).

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

A Igreja dos Crentes Fiéis que Estão Esquentando o Banco

A Igreja dos Crentes Fiéis que Estão Esquentando o Banco está espalhada por todos os Estados do Brasil, e certamente se faz representar em cada Município. São muitas e muitas igrejas dispersas por este País. São muitos os crentes atuando nessa Igreja, mas não porque queiram...
O requisito para ser membro da Igreja dos Crentes Fiéis que Estão Esquentando o Banco é ser de algum modo divergente do que a liderança diz e faz. Maduros, espirituais e firmes na Fé, eles conhecem a Bíblia, foram bem doutrinados, mas cometem o "pecado" de discordar, de manter sua consciência livre de heresias, pragmatismo e antropocentrismo.
Atualmente a Igreja dos Crentes Fiéis que Estão Esquentando o Banco está crescendo muito, algo que as pesquisas do IBOPE não conseguem captar por uma razão muito simples: eles estão na informalidade!
São crentes de várias confissões de fé, que freqüentam diversos santuários, com placas as mais variadas. São crentes realmente diversificados no que toca a doutrinas secundárias, mas acima de tudo cristocêntricos, bíblicos. Só que, por sua insistência em não vender seus princípios mais caros, eles acabam se tornando esquentadores de banco, pois seus líderes sabem que, se falarem, se ousarem falar, haverá muita confusão, já que outras pessoas aprenderão que o pensar existe e foi feito para o crente também.
Mas não pense que esses irmãos sejam necessariamente inativos. Se esquentam banco durante os cultos da igreja formal, muitos deles criam alternativas para-eclesiásticas, como a evangelização por conta própria, a distribuição de folhetos na rua, a visita a presidiários, enfermos e enlutados, a criação de "blogs" na Internet, a pesquisa teológica auto-didata, a participação em cursos teológicos, a ministração de aulas e pregações para quem quiser ouvir.
Outros, porém, membros da mesma Igreja, se vêem tão aprisionados pela burocracia eclesiástica - do tipo "para evangelizar vá ao departamento de missões e evangelismo e peça para falar com o setor de distribuição de folhetos" - , digo, eles se vêem tão aprisionados que só esquentam banco mesmo, porque se sentiriam culpados se fizessem qualquer atividade típica de igreja fora da igreja formal. Com isso, não por sua culpa, vão perdendo a chance de se alegrar com o desenvolvimento de seus talentos naturais e dons espirituais.
Existe muita chance dessa Igreja crescer, na medida em que igrejas históricas têm sido infiltradas pela Confissão Positiva, Teologia da Prosperidade e Triunfalismo. Por se sentirem fora desse contexto herético, e por acharem que é seu dever empunhar a bandeira da sã doutrina, eles vão levando a vida cristã assim, como crentes de segunda categoria, como subcrentes, como os excluídos da igreja formal.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Quem era a mulher de Caim?

Em seu livro Erros que os pregadores devem evitar (veja a postagem anterior), precisamente à pp. 91/92 da 8ª edição (Rio de Janeiro: CPAD, 2006), o Pr. Ciro Sanches Zibordi deixa algumas perguntas ao leitor, como exercício de hermenêutica. Que bom! Façamos o exercício, ou melhor, tentemos fazê-lo.
A primeira questão é a seguinte: "quem era a mulher de Caim"? Afinal, com quem ele se casou, se até então o Livro de Gênesis trata apenas de quatro pessoas, a saber, Adão, Eva, Caim e Abel? Como resolver isso?
Estamos em Gn 4.16,17, bem no início da Bíblia.
(1) Observemos quatro diferentes traduções para o mesmo texto:
"E saiu Caim diante da face do SENHOR e habitou na terra de Node, da banda do oriente do Éden. E conheceu Caim a sua mulher, e ela concebeu e teve a Enoque; e ele edificou uma cidade e chamou o nome da cidade pelo nome de seu filho Enoque" (Almeida Revista e Corrigida ou ARC).
"Retirou-se Caim da presença do SENHOR e habitou na terra de Node, ao oriente do Éden. E coabitou Caim com sua mulher; ela concebeu e deu à luz a Enoque. Caim edificou uma cidade e lhe chamou Enoque, o nome de seu filho" (Almeida Revista e Atualizada ou ARA).
"Caim se retirou da presença de Iahweh e foi morar na terra de Nod, a leste de Éden. Caim conheceu sua mulher, que concebeu e deu à luz Henoc. Tornou-se um construtor de cidade e deu à cidade o nome de seu filho, Henoc" (Bíblia de Jerusalém ou BJ).
"Então Caim afastou-se da presença do Senhor e foi viver na terra de Node, a leste do Éden. Caim teve relações com sua mulher, e ela engravidou e deu à luz Enoque. Depois Caim fundou uma cidade, à qual deu o nome do seu filho Enoque" (Nova Versão Internacional ou NVI).*
Note-se que, enquanto a ARC e BJ usam o verbo "conheceu", dando a entender, para nossas mentes modernas, que Caim deparou com sua esposa na terra de Node, a ARA e a NVI usam expressões diferentes: "coabitou" (ARA) e "teve relações" (NVI), o que oferece a possibilidade de que Caim já era casado quando saiu peregrinando a partir do Éden.
O verbo "conhecer" é também empregado na ARC com o sentido de ter relações sexuais nas passagens de Gn 4.1 e 25, pelo menos (A Bíblia de Estudo Pentecostal tem uma nota acerca disso, para Gn 4.1).
Desse modo, não é que Caim tenha conhecido sua esposa numa terra chamada Node. O que ocorreu foi que ele teve relações com ela na terra por onde peregrinava, porque Node ou Nod significa justamente "peregrinação", segundo a Bíblia Anotada e a NVI, além da BJ, na edição de 2002, ligar esse nome ao caráter "errante" de Caim, conforme Gn 4.14.
Sendo assim, Caim deve ter saído do Éden com sua esposa, foi peregrinando, teve relações com ela, e não só formou uma família como fundou uma cidade.
(2) É necessário recorrermos a algumas informações técnicas:
Vejamos o que diz a Bíblia Anotada para Gn 4.17, quanto à mulher de Caim: "Obviamente uma filha de Adão (cf 5:4). Pode ter sido uma irmã, sobrinha ou até mesmo sobrinha-neta de Caim. Já que os sistemas genéticos de Adão e Eva não continham genes mutantes, tal casamento não seria perigoso então, como é em nossa época..." (São Paulo: Mundo Cristão, 1994).
O Novo Comentário da Bíblia anota o seguinte, sobre a frase "conheceu Caim a sua mulher": "Sua mulher era uma das filhas de Adão. Não há motivo para supor-se que Caim já não estivesse casado antes de cometer o assassinato; nem de supor-se que, presumindo que ainda não se tivesse casado, que ele ocasionalmente não retornasse ao seu antigo lar, no decurso de suas peregrinações, e não tivesse escolhido para si uma irmã como esposa, numa dessas ocasiões" (São Paulo: Vida Nova, 1963, V. I, p. 89).
E ainda a Bíblia de Estudo Pentecostal: "Adão e Eva tiveram outros filhos e filhas (5.4). Caim, portanto, deve ter se casado com uma de suas próprias irmãs. Semelhante relacionamento foi uma necessidade, no início. Posteriormente, devido à proliferação dos funestos efeitos da queda e os casamentos entre parentes multiplicarem as anomalias biológicas nos filhos, esse tipo de casamento foi proibido (Lv 18.6,9; 20.12,17-21; Dt 27.22,23)".
Ora, em algum momento, que não podemos precisar, Caim tomou uma de suas parentas como esposa.
(3) Olhemos ainda o contexto:
Em Gn 4.15, há um indício de que já existiam mais pessoas habitando a Terra, fora do Éden (?) ou de que isso poderia vir a ocorrer logo: "...E pôs o SENHOR um sinal em Caim para que não o ferisse de morte quem quer que o encontrasse". E o próprio Caim diz "quem comigo se encontrar me matará" (Gn 4.14).
Não pode haver dúvidas: havia ou haveria mais pessoas naquele momento, só não podemos precisar quando elas nasceram. Mas o certo é que vieram de Adão e Eva, os primeiros habitantes da Terra, criados por obra singular de Deus, sendo Adão considerado nosso ancestral comum (Gn 1.26,27; 2.7, 18-25; Lc 3.38; Rm 5.14; I Co 15.22, 45; I Tm 2.13). Os demais seres humanos nasceram por reprodução sexual, não pelo procedimento empregado ali.
Veja-se que em Gn 5.4 está escrito que, depois do nascimento de Sete, Adão e Eva tiveram "filhos e filhas". Certamente Caim se casou com uma dessas mulheres.
(4) Ainda sobre o contexto:
Devemos compreender também que naquela época o Ser Humano tinha uma expectativa de vida mais ampla do que a nossa. Adão viveu 930 anos (Gn 5.5), e tinha 130 anos de idade quando gerou Sete (Gn 5.3). Não precisamos entender diferente porque o texto é claro nesse sentido, o que pode ser explicado por condições ambientais distintas do que temos hoje, tendo em vista as conseqüências do pecado.
(5) Conclusão:
Considerando todos esses elementos, minha conclusão é que a esposa de Caim era descendente de Adão e Eva, não sei em que parentesco; a terra de Node é na verdade a terra pela qual Caim andou errante; circunstâncias biológicas podem explicar tanto a reprodução normal entre parentes como o maior tempo de vida desses nossos distantes ancestrais.
*Os grifos são meus.
** Quando não citei a tradução foi porque usei a ARA.




Sobre os livros "Supercrentes", do Pr. Paulo Romeiro, e "Erros que os pregadores devem evitar", do Pr. Ciro Sanches Zibordi

Na segunda-feira pela manhã, li a obra Supercrentes, do Pr. Paulo Romeiro. Só interrompi a leitura para tomar um cafezinho. De ontem para hoje, li o livro Erros que os pregadores devem evitar, do amado Pr. Ciro Sanches Zibordi, que mantém o blog http://cirozibordi.blogspot.com.
Trata-se de duas obras importantes para a Igreja brasileira porque, de modo simples, objetivo e contextualizado, versam sobre problemas teológicos e eclesiásticos como a Teologia da Prosperidade, a Confissão Positiva, o Triunfalismo e o "evangelho antropocêntrico" - para usar uma expressão do Pr. Ciro Zibordi.
O Supercrentes (São Paulo: Mundo Cristão, 2ª Ed., 2007, 110p.) é importante porque enfrenta com eficácia a Confissão Positiva e a Teologia da Prosperidade, e especialmente porque menciona os brasileiros Valnice Milhomens, R. R. Soares, Edir Macedo, além dos africanos Jorge Tadeu (Igrejas Maná) e Miguel Ângelo (Igreja Cristo Vive), expoentes desse segmento herético, o que traz o tema bem ao nosso contexto, citando nomes que conhecemos, pois todos estes atuam no Brasil.
Aliás, para minha tristeza, a Rede Boas Novas anda veiculando a programação desse tal "apóstolo" Jorge Tadeu, e um dos programas em que vi esse homem ensinando a Confissão Positiva foi justamente em torno de uma pregação dele na Assembléia de Deus paraense...o que não preciso ocultar porque passou na televisão.
Voltando ao livro Supercrentes, o autor cita a igreja Verbo da Vida como uma das manifestações do Movimento da Fé no Brasil. Aqui em Campo Grande-MS existe um de seus templos na Avenida Mato Grosso. Quem passar na frente vai ver ali estampado o vocábulo grego Rhema, cujo significado Hagin manipulou a fim de sugerir a noção de palavra que decreta cura e prosperidade, quando a diferença para logos, que também quer dizer "palavra", é, na verdade, irrelevante, e não tem nada que ver com "palavra criadora", essas coisas de determinação, profetizar bênçãos etc.
Com efeito, o Pr. Paulo Romeiro mostra algumas heresias do norte-americano Kenneth Hagin, como a afirmação de que somos deuses, e a falsa doutrina de que a salvação adveio de uma suposta morte espiritual de Cristo no inferno. Hagin disse ainda que Cristo assumiu natureza satânica, o que chega a ser uma blasfêmia!
Quanto ao Erros que os pregadores devem evitar (Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 8ª Ed., 2006, 159p.), foi o livro mais vendido pela CPAD no ano de seu lançamento, além de ser um best-seller - o que indica que nem todo best-seller evangélico merece nossa suspeita...
Com linguagem clara, criatividade, recursos de ironia e conhecimento bíblico-teológico, o Pr. Ciro vai tratando de diversas frases pseudo-bíblicas que vêm sendo utilizadas por pregadores por esse Brasil afora, o que tem o mérito de, como o livro Supercrentes, trazer uma mensagem ao povo evangélico brasileiro, tão carente de literatura teológica nacional de boa qualidade.
O autor ainda comenta letras de "hinos" que transmitem conceitos não-bíblicos, e chama nossa atenção para a autoridade infalível, inerrante e plena das Escrituras Sagradas. É um livro que deve ser lido por pregadores iniciantes e experimentados. Eu mesmo, que não prego faz tempo, mas que já preguei algumas vezes, vi-me um tanto mais reverente diante do que li.
Devo dizer que é muito bom ler uma obra que se aproxima de nossa realidade, pois, de fato, muitas e muitas daquelas frases mencionados pelo Pr. Ciro são recorrentes nas igrejas, e muito próximas de minha experiência eclesiástica.
É verdadeiramente oportuno que haja escritores como o Pr. Ciro, porque, de modo simples, direto e espirituoso, ele acaba tratando de vários temas teológicos de profundidade, como, por exemplo, o caráter cristocêntrico da Bíblia, a distinção entre Geena, Hades e Tártaro, a refutação ao Triunfalismo, à Confissão Positiva e à Teologia da Prosperidade, a autoridade definitiva da Palavra de Deus, o ofício do pregador, assuntos da Escatologia, além de ferramentas necessárias, como a boa homilética e a hermenêutica, dando sugestões práticas como a relevância do contexto, da análise gramatical e do estudo dos costumes antigos.
Fiquei imensamente feliz por perceber que meu pensamento tem se coadunado com o que pensam os pastores Paulo Romeiro e Ciro Zibordi. Eu tenho - de maneira mais limitada, é claro - defendido o mesmo Evangelho bíblico e cristocêntrico, e basicamente o que li nesses livros eu já entendia como verdades bíblicas. Sabe por quê? Porque os autores não inventaram - a qualidade de cada um deles é a de expor a sã doutrina por meio da escrita: o Pr. Paulo Romeiro fazendo uma pesquisa sobre um movimento herético, e o Pr. Ciro tecendo comentários bíblicos a partir da "teologia prática" disseminada em pregações inúmeras.
Olha, se eu puder recomendar alguma coisa a você agora, recomendo esses livros: Supercrentes e Erros que os pregadores devem evitar.

O gravíssimo erro de Marta Suplicy

Era pequeno quando a psicóloga Marta Suplicy falava no programa TV Mulher sobre sexualidade. Eu não sabia do que ela falava, pois era criança, mas lembro alguma coisa do programa matutino, como a música de abertura e outros lances meio apagados em minha memória distante.
A sexóloga Marta Suplicy celebrizou-se por defender temas polêmicos - e anti-bíblicos - como a união civil de homossexuais e a tal "diversidade" sexual. Assim ela foi eleita deputada federal, e depois prefeita da maior e mais rica cidade do País - São Paulo -, quando veio a se divorciar do respeitado senador Eduardo Suplicy, cujo nome ela ainda carrega.
Ora, leio e ouço alguns comentaristas políticos dizendo que Marta Suplicy venceu o preconceito e teve coragem de romper o casamento e ficar com o argentino Luis Favre, o que seria, dizem, um ato de coragem, frente ao risco político diante da sociedade civil. Entretanto, esses mesmos comentaristas se assustam, e com grande razão, com a atitude da campanha de Marta Suplicy ao questionar maldosamente se o prefeito Gilberto Kassab é casado e se tem filhos...A indagação foi claramente uma tentativa de dizer que Kassab seria homossexual, o que até mesmo homossexuais do PT reconheceram como um gesto "homofóbico".
Que coisa, não? A senhora da diversidade sexual, a paladina da liberação dos costumes, deixa que veiculem em seu programa eleitoral um ataque gratuito à privacidade do adversário, com insinuação sobre sua sexualidade, quando ela mesma diz achar normal que pessoas do mesmo sexo formem união civil, sendo ela, diga-se de passagem, a autora de um projeto de lei nesse sentido, mas que não foi aprovado - ao menos ainda.
Esse erro da Sra. Marta Suplicy foi gravíssimo porque intentou criar uma dúvida sem fundamento sobre a esfera privada do adversário, e foi mais grave ainda porque proveio dela, o que mostra como as pessoas podem transigir com seus valores (ou desvalores?) morais com o uso de métodos pragmáticos, em tempos de declínio nas pesquisas de intenção de voto.
Até considero que a vida privada do candidato deva ser analisada na medida em que isso possa repercutir na vida pública. Como diz a cientista política Lúcia Hippólito, da Rádio CBN, é importante saber se o candidato bate na mulher, se bebe, se suas empresas vão à falência, se ele se beneficia erroneamente do dinheiro público etc.
Penso que a opção sexual do candidato poderia entrar na pauta eleitoral se o objetivo fosse dialogar com aqueles setores sociais que, a exemplo dos evangélicos, discordam da Causa Gay. Sim, isso seria razoável para que o eleitor tivesse a oportunidade de pensar se escolheria como seu representante político uma pessoa homossexual, pois, para esse eleitor, esse aspecto teria a ver com a ética pessoal, com a moralidade. Mas o que pretendo frisar aqui é que esse não foi o objetivo da Sra. Marta Suplicy - o que ela quis foi tomar votos aos eleitores que ainda preservam valores familiares tradicionais, algo que ela há muito tempo não defende, dada a maneira como construiu sua vida pública.
Tudo isso é muito incoerente, e deve relembrar a todos nós o que Fernando Collor fez a Lula em 1989, no episódio Miriam Cordeiro...Será que os petistas não aprendem nem com os erros dos outros?

domingo, 12 de outubro de 2008

O desvirtuamento do culto público

Não fique chateado comigo se isso ocorrer na sua igreja, mas é errado denominar cultos tendo em vista o que se espera de Deus. Por exemplo, não deveríamos falar de "culto de libertação", "culto da vitória" nem "culto da prosperidade", dentre tantos outros, simplesmente porque essas expressões são contraditórias, são um abuso contra a lógica e contra a Bíblia.
O culto público é prestado a Deus pela igreja. Não se trata de uma reunião em que marcamos o que Deus deve fazer em nosso favor. O culto público é momento congregacional de adoração, exercício de dons espirituais, testemunho e pregação do Evangelho ou ensino da Palavra, não um período em que nossos interesses mesquinhos ou até legítimos deverão ser satisfeitos.
Há, sim, um desvirtuamento do culto público quando designamos o que e como Deus deve operar. Que negócio é esse de esperar que Deus liberte naquele dia e horário? E se Ele não o fizer? Deus acaso não é soberano para fazer ou deixar de fazer? Que direitos podemos exigir de Deus? Por acaso podemos exigir que Ele cure ou nos dê a "prosperidade" que almejamos?
Culto é ato do cristão para Deus, não o contrário. Nós prestamos o culto, não é Deus que vem prestar um culto ao nosso ego inflado ou sensível. O problema é que, em igrejas enfermadas pela pós-modernidade, estamos sendo acostumados a reclamar de Deus a satisfação de nossos desejos, como consumidores "cheios de razão" diante de um fornecedor. Para isso usamos a Bíblia como se fosse código de defesa do consumidor, apontando em suas páginas versículos que supostamente fundamentariam nossos "direitos" em face de Deus.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

DEVO SER MUITO CHATO

Devo ser muito chato por não gostar nem de ouvir falar desse pessoal que assume títulos de "profeta" e "apóstolo".
Devo ser muito chato por não aceitar essa coisa de tomar posse, declarar, decretar, rejeitar, determinar, restituir.
Devo ser muito chato por não admitir o G-12 nem pintado de célula ou coisa que o valha.
Devo ser muito chato por ser contra a Teologia da Prosperidade e o Triunfalismo.
Devo ser muito chato por abominar a lei da semeadura financeira.
Devo ser muito chato por ofertar na igreja sem esperar dinheiro em troca.
Devo ser muito chato por detestar o movimento judaizante de São Cristóvão.
Devo ser muito chato por não me importar que me chamem de "frio".
Devo ser muito chato por ficar com cara feia quando escuto heresias.
Devo ser muito chato por não ficar emocionado com mais pregações sobre vitória, vitória e vitória "nesta noite".
Devo ser muito chato por me sentir desmotivado de vez em quando.
Devo ser muito chato por não apreciar esse negócio de Igreja com Propósitos.
Devo ser muito chato por não ser fã de pregadores nem cantores.
Devo ser muito chato por entender que certo "missionário" prega um anti-evangelho com sua Confissão Positiva.
Devo ser muito chato por entender que certo "bispo" não é nem cristão.
Devo ser muito chato por acreditar que a igreja não deve lançar políticos com interesse no favorecimento próprio.
Devo ser muito chato por considerar que pastor é dom, e não título de carreira.
Devo ser muito chato por não engolir aquelas "profetadas" genéricas do tipo "Deus tem uma grande obra em sua vida" ou "tem gente aqui com dor na coluna".
Devo ser muito chato por ficar entediado com aqueles cultos enormes que servem para que todo mundo tenha a oportunidade de cantar na frente.
Devo ser muito chato por gostar de interpretar a Bíblia com fé e racionalidade ao mesmo tempo, tudo junto.
Devo ser muito chato por não aceitar que me façam de burro ou de palhaço.
Devo ser muito chato por ficar com a Bíblia, e não com os homens.
Devo ser muito chato por compreender aqueles irmãos que estão sem igreja.
Devo ser muito chato por escrever essas coisas para que todo mundo veja.
Devo ser muito chato por anunciar o Evangelho e denunciar o pecado.
Devo ser muito chato por desprezar livros de auto-ajuda disfarçados de evangélicos.
Devo ser muito chato por valorizar o estudo e a leitura, ainda que isso seja cansativo também para mim.
Devo ser muito chato por saber que sou chato e continuar chateado.
Devo ser muito chato por ter convicção de que esse texto chato edificará alguém.


quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Plenitude e vazio

A pregação pentecostal destaca o ser cheio do Espírito, que também podemos chamar de plenitude do Espírito. Há fundamento bíblico para isso? Sim, e está em diversos textos da Escritura Sagrada, principalmente na teologia lucana, o que você pode ver em Lc 1.15, 41, 67; 4.1, At 2.4, 4.8,31, 6.3,5; 7.55; 9.17, 11.24; 13.9, mas semelhantemente encontrado em Paulo, conforme Ef 5.18, onde somos exortados a nos enchermos do Espírito - até agora, tenho pensado que foi o "médico amado" (Cl 4.14) quem sistematizou o pensamento paulino, de natureza tão fragmentária e responsiva, mas este é outro assunto...
O tema da plenitude não escapou ao profeta Miquéias, no Antigo Testamento, que disse estar cheio do Espírito do SENHOR e de Seu poder (3.8).
De fato, é bíblica a doutrina do encher-se do Espírito. Todavia, pouca gente fala do esvaziar-se...
Sim, meu caro, antes do enchimento é necessário o vazio. É ordem de Cristo que nos esvaziemos de nós mesmos, e isso não pode ser ponto divergente entre pentecostais e históricos, porque constitui a essência do Cristianismo Bíblico!
Mas que pentecostal atrevido este, que vem nos falar de vazio, quando queremos ser cheios! Desculpe-me a franqueza, amigo leitor, mas não posso deixar de escrever sobre o que se passa em minha mente neste exato momento. Quero apenas afirmar que antes da plenitude há que existir o vazio.
Foi o próprio Jesus Quem deu o exemplo magistral ao Se esvaziar de si mesmo, tomando a forma de servo, assemelhando-se aos homens (Fp 2.7). A palavra grega aqui é kenosis. Cristo não deixou de ser Deus, mas Se esvaziou de Sua glória para assumir a forma de homem, a fim de viver para modelo dos fiéis e morrer para salvar os pecadores. Ele decidiu o caminho da humilhação, da obediência, do sofrimento, do sacrifício vicário, da renúncia e do perdão.
Assim devemos viver, negando a nós mesmos, tomando nossa cruz, e seguindo a Cristo dia após dia (Mt 16.24; Mc 8.34; Lc 9.23). Esse esvaziamento é um comportamento ético que imita a Cristo, se é que o queremos imitar como filhos de Deus (cf. Ef 5.1).
Com efeito, Paulo declarou ter sido crucificado com Cristo para que não mais vivesse por si mesmo, mas para que Cristo nele vivesse (Gl 2.19,20). Essa é a suma do Evangelho.
Não acredito em pregações que enfatizam um encher-se desprovido do esvaziar-se. Não há substância nisso. Quem propaga um enchimento desvinculado do esvaziamento está caminhando para o emocionalismo, que, por favor, não é o caráter de Cristo.

Duas categorias de políticos evangélicos

Meu amigo Marcos, aliás, Dr. Marcos, comenta da seguinte forma o nosso artigo Eu sempre desconfio de quem está no poder:


"Na sua cidade, Paulo Cézar foi eleito prefeito e Budog o vereador mais votado.Já em SSA, foram para o segundo turno dois evangélicos. Um faz campanha chamando o outro de mau caráter e traidor, enquanto o difamado apenas expõe suas propostas. Um bate, o outro dá o outro lado da face. Dois irmãos!?"

Somos conterrâneos, da boa terra de Alagoinhas-BA, mas ambos estamos tão longe de casa...Bem, seu comentário traz informações importantes, das quais gostaria de destacar o fato de que em Salvador, como eu já havia percebido, há dois evangélicos no segundo turno para prefeito: Walter Pinheiro, do PT, e João Henrique Carneiro, que se elegeu pelo PDT e hoje está no PMDB. Segundo Marcos, um ataca o outro, chamando-o de "mau caráter e traidor", ao passo que o injuriado simplesmente dá a outra face - como ordena a Bíblia - e oferece propostas.
Olha, eu não estou acompanhando de perto essa briga, mas imagino quem esteja fazendo o quê...
Gostaria - se o leitor me permite, e aproveitando o atilado comentário de Marcos - sim, gostaria de dizer que há pelo menos duas categorias de políticos evangélicos: um que usa o nome de "evangélico" para atrair massas de crentes eleitores, e outro que é membro de igreja evangélica, e, por vocação, adentra à vida pública.
Esse é um dos motivos pelos quais não voto em políticos que aparecem dizendo que fizeram e farão isto e aquilo pela sua igreja ou pelas igrejas evangélicas, porque isso é não só antidemocrático como fisiológico e eleitoreiro. Exemplifico com o caso de um político evangélico que acabou de ser eleito em determinada cidade deste País com milhares de votos a partir de sua trajetória como coordenador de atividades evangelísticas (!) e com o explícito objetivo de criar um gabinete denominacional na Câmara de Vereadores...Isso sem o menor constrangimento. Teria eu que avisar-lhe que isso é anti-ético e ilícito? Arriscaria minha cabeça nessa empreitada sem frutos?
O evangélico com espírito público é diferente. Ele torna-se conhecido por suas propostas, por sua biografia, por sua fome e sede de justiça. Ele parece com José, Moisés, Neemias e Daniel. O bom político evangélico pode merecer meu voto, mas do político que se aproveita da religião eu quero distância.
Creia, amigo leitor, que existem essas duas categorias. O segmento evangélico, por numeroso, tem sido alvo de oportunistas, de gente que usa o ser evangélico como chamariz eleitoral, e não duvido de que haja quem se diga cristão sem ter nascido de novo, tão-somente para angariar os votos de currais eleitorais, quero dizer, de rebanhos inteiros.
E, não esquecendo de que a Bahia é conhecida por seus cultos afrodescendentes, em que os times do Bahia e do Vitória deveriam dar empate por causa dos despachos cruzados, que ninguém apareça com a lamentável idéia de achar que também Deus estaria dividido entre dois candidatos evangélicos, porque as coisas da cidadania terrestre não se resolvem de maneira tão simplista. Se os soteropolitanos querem uma cidade melhor, e se os evangélicos de lá querem uma cidade melhor, que escolham a proposta mais apropriada ao interesse público, porque os critérios de justiça o nosso SENHOR já estabeleceu em Sua Palavra.
A escolha, devo dizer, é mesmo nossa.

Uma palavra de incentivo a professores da Escola Bíblica Dominical*

Socializo com o eventual leitor o material que preparei e apresentei numa igreja batista em Campo Grande/MS para professores de Escola Bíblica Dominical, esses incansáveis e destemidos servos de Deus, nem sempre honrados, e tantas vezes reprimidos. Veja abaixo, com pequenas adaptações que fiz para este blog:

O que falar a professores quando se trata de Escola Bíblica Dominical (EBD):
  • Fundamentos do ensino cristão;
  • Pedagogia cristã;
  • Administração da EBD;
  • Desafios atuais.

Nosso objetivo neste momento:

Abordar os fundamentos do ensino cristão

Princípios bíblicos do ensino:
O ensino é um dom de Deus (Rm 12.7; Ef 4.11);
O ensino tem uma recompensa (Dn 12.3);
O ensino faz parte da obra do Espírito Santo (Jo 14.26);
O ensino é a vida normal da igreja (At 2.42);
O ensino é o propósito da Escritura (II Tm 3.16,17);
O ensino protege a igreja contra heresias (II Pe 3.17,18);
O ensino que provém de Deus leva a Deus (Jo 6.45);
O ensino respeita a inteligência do Ser Humano (Pv 1.1,2).
O que é a EBD
Escola
Popular
Universal
Metódica
Ministério pessoal
A EBD...
Não é só departamento, mas a Igreja em sua dimensão de ensino;
Concilia Mt 28.18-20 e Mc 16.15;
É espiritual e intelectual;
Busca fincar raízes no coração do aluno (ver Mt 13.6).
O ensino na Bíblia
O ensino no A.T.:
Daniel e seus companheiros eram estudiosos (Dn 1.4,17,20).
Moisés foi informado pelos egípcios, mas formado por sua mãe (At 7.22; Hb 11.23-26).
A Lei de Moisés trazia (e traz) no Shemá a responsabilidade educacional dos pais (Dt 6.4-9), enquanto a palavra Torah, que traduzimos como "Lei", significa precisamente "instrução" (Rm 2.18-20).
Paulo disse que a Lei é “pedagoga” (Gl 3.24).
O Livro de Deuteronômio dá grande ênfase ao ensino (Dt 1.5; 31.9-13).
Os sacerdotes eram também professores (II Cr 15.3).
Houve um ensino institucional em Judá (II Cr 17.7-9).
Os Livros Sapienciais são conselhos dos sábios, figuras veterotestamentárias que costumamos esquecer, pois lembramos somente de reis, profetas, sacerdotes e juízes.
O Livro de Provérbios começa valorizando os dotes intelectuais (Pv 1.1-7).
O Livro de Eclesiastes é o Livro do Ensinador, embora chamemos o Eclesiastes de "Pregador".
Há Salmos que são classificados como "didáticos".
As escolas de profetas eram ambientes de formação de líderes na época de Samuel, e ainda de Elias e Eliseu. Havia transmissão de conhecimento.
Os profetas literários não ignoraram a Lei. Antes, estimularam um retorno à Lei.
O período do Exílio Babilônico foi o nascedouro das sinagogas, típicos lugares de ensino da Lei.
O período do pós-cativeiro foi rico em conhecimento da Escritura, tendo em Esdras seu expoente intelectual, porque ele se dispôs a estudar e ensinar a Palavra de Deus (Ed 7.10).
O avivamento narrado em Ne 8.1-8 não teve início em barulhos artificiais e meras emoções, mas com a simples leitura da Palavra de Deus, que produziu reformas importantes, mudança de atitude.

O ensino no N.T.:
As sinagogas podem ser comparadas a escolas bíblicas.
Jesus freqüentava assiduamente as sinagogas (Lc 4.16-20).
Jesus é Mestre (“Rabi”).
Jesus ensinava em diversos lugares;
Jesus ensinava tanto a multidões e pequenos grupos como a uma pessoa só.
Jesus empregava os métodos de parábola, exposição e diálogo.
O Apóstolos exerceram o ensino (Mc 6.30; At 5.21).
A Igreja Primitiva era uma comunidade de ensino (At 2.42; 5.42; 13.1):
Havia presbíteros ensinando (I Tm 5.17);
Havia pastor ensinando (I Tm 4.11; 6.3);
Estevão pregou ensinando (At 7.16-34);
Paulo e Barnabé ensinaram em diversas igrejas, tais como Antioquia (At 11.26), Éfeso (At 20.20,31), Corinto (At 18.11).
Paulo ensinou em Roma (At 28.31) e na escola de Tirano (At 19.9).
Paulo formou-se na escola de Gamaliel (At 22.3); fazia citações do A.T., manuseava fluentemente figuras de linguagem como alegorias, ilustrações, comparações, e detinha conhecimento vasto, abrangendo direito, filosofia, poemas não-cristãos.
Paulo usava de contextualização (At 17.16-34)
Dados históricos
A “Idade das Trevas” ou Idade Medieval coincidiu com o tempo em que a Igreja Católica Romana dominou o mundo e impediu o conhecimento da Escritura Sagrada. Não houve desenvolvimento cultural, econômico, social, científico, tecnológico nem político.
A Reforma Protestante (1517) foi um marco histórico mundial, e partiu do exame da Escritura, donde vieram princípios libertários que propiciaram o desenvolvimento de nações ocidentais, como a Inglaterra, a Suíça e a Alemanha.
Origem da EBD: começou com crianças pobres, na Inglaterra, e veio para o Brasil com o missionário e médico escocês Robert Reid Kalley.
Conclusão.
A Igreja apenas colabora na formação das crianças e adolescentes.
A educação primordial é dever dos pais.
A Igreja é uma comunidade de ensino.
Devemos fazer discípulos, não somente alunos.
Temos a unção do Espírito para nos ensinar (I Jo 2.27).
O triste declínio da Escola Dominical em tantas igrejas evangélicas brasileiras é um claro indício de que o crescimento evangélico em nosso País não tem sido sustentável.
IMPORTANTE:
Não adianta a igreja exigir que a Escola Dominical dê certo se a comunidade como um todo não for um ambiente de ensino; se os pastores e outros líderes não entenderem que todas as reuniões são momentos de ensino; e não haverá sucesso pedagógico se o que o professor de EBD disser em classe, com base na Bíblia e na confissão da igreja, for contrariado pelos líderes, ao púlpito! Nenhuma gincana, nenhuma campanha, nenhuma iniciativa da administração da igreja atrairá alunos se esses aspectos não forem observados. A incoerência não é uma boa professora.
*Também tenho isso em apostila e "slides", podendo disponibilizá-los gratuitamente a quem quiser. Peço apenas que mencione a fonte, por gentileza, não pelo conteúdo - que é preponderantemente bíblico - mas pelo trabalho que tive para organizar isso. Espero que sirva de ajuda nessa desafiadora tarefa de ser professor de EBD em tempos de inanição espiritual.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Carta ao Sr. Amin

Sr. Amin,

Escrevo-lhe esta missiva com o simples objetivo de dizer que o senhor precisa ler mais e escrever menos; ouvir mais e falar menos; trabalhar mais e descansar menos; pensar mais antes de agir, e praticar mais a Bíblia, em vez de simplesmente pregar e ensinar da boca pra fora uma fé formal e medíocre.
É fundamental, Sr. Amin, que estas atitudes sejam tomadas, para que o senhor não se torne como aqueles a quem critica. Não seja como os fariseus, que colocavam pesados fardos sobre os outros e nem sequer buscavam carregar esses mesmos fardos, como disse Jesus. Não seja como os que apontam o dedo contra as pessoas sem fazer primeiro um auto-exame.
Siga efetivamente as palavras de Jesus, de Seus profetas e de Seus apóstolos. Mas siga de verdade!
Ora, Sr. Amin, digo a ti, e digo a mim, que é necessário fugir do pecado o quanto antes! Digo-lhe isso com um sentido de urgência, pois a vida depende dessa tomada de atitude. A verdadeira vida depende do arrependimento!
Sr. Amin, haverá um dia a morte, e ela comprova nossa condição miserável, nossa finitude e absoluta insegurança quanto ao destino depois do derradeiro suspiro, a não ser que consideremos o que a Bíblia diz, que depois da morte vem a perdição eterna para os ímpios e a eternidade com Deus para os justos. Não esperemos pela morte para que venhamos a pensar no futuro. Pense agora, Sr. Amin, pense já!
A mim cabe apenas noticiar-lhe essas verdades bíblicas. Desde já cabe a mim, e cabe a ti, assumir posição quanto a Jesus Cristo, que veio para salvar, mas voltará naquele Dia para julgar.
Com os meus mais sinceros cumprimentos,
D. Esperantina da Consciência de Cristo.

Igrejas feudais

Igrejas feudais cercadas de muros:
Há bobos da coorte, senhores e servos.
Igrejas feudais - que tal, que absurdo!
E eu, no meu canto, pisado, conservo.

Igrejas feudais com reis e moedas
E nobres e clero e coisas que tais.
Igrejas feudais com truques e metas
E amplos favores nutrindo os quintais.

Igrejas feudais têm castas, têm grupos
E nomes e berços e clãs naturais.
Igrejas feudais são bem divididas,
São reinos eternos de seres mortais.

Igrejas feudais não são a Igreja
De Cristo, de Deus, da Bíblia, dos Céus.
Igrejas feudais: rascunhos urbanos
Do São Ledo Engano - são medievais.

O que os triunfalistas diriam de Cristo

Já faz um dia que ele morreu. Toda aquela história de Filho de Deus caiu por terra. Em pensar que eu acreditei quando vi os milagres, quando ouvi suas promessas, quando meu coração se estremeceu diante da sua figura e das suas palavras. É. Ele tinha uma boa oratória, e até gestos poderosos, mas não venceu como disse que venceria. Tudo não passou de truques e enganos.
Cara, ele disse que tinha vencido o mundo! Disse tantas coisas dignas de um rei, de um herói, de um vencedor, para acabar justamente daquele jeito, pendurado numa cruz! Não posso acreditar. É derrota demais para quem disse ser o Enviado de Deus, para quem prometia salvar a pátria.
Eu mesmo vi quando ele desfalecia no madeiro, que é a pior condenação que pode existir. Ele estava desfigurado, feio, totalmente desacreditado, como qualquer criminoso e pecador, como qualquer derrotado e fraco. E em vez de estar ladeado por príncipes, quem estava ao seu lado eram dois imprestáveis ladrões!
Eu conheço a Lei, os Profetas e os Escritos Sagrados. Sei que o Messias virá como Rei, como Senhor, e que Seu Reino será eterno. Ele será imbatível, invencível, glorioso, e estabelecerá para sempre o Reino de Israel, restaurando o governo à linhagem de Davi. Será um líder político, um libertador, um legítimo descendente de Davi, um homem poderoso em tudo e por tudo.
Não sei como fui me misturar àqueles pobres seguidores do Nazareno. Que erro cometi ao me reunir com o Pedro falastrão e com aquele bando de pobres coitados! Também não sei como foi que o Mateus se envolveu com aquele povo. Mateus era cobrador de impostos, não precisava se aliar a pobretões. Da mesma forma não entendo o que levou o doutor Nicodemos a se ligar ao Nazareno. Muito menos entendo como o senador José de Arimatéia decidiu dar seu jazigo novinho para aquele defunto que antes prometia vida plena. Ah, e lá estavam ainda os dois filhos de Zebedeu, que, pelo que sei, estavam se dando bem na empresa de pesca. Por que seguir um fracassado? Como foi que nos metemos nessa?
Aqueles galileus quase deram trabalho. O único judeu de verdade era o Judas Iscariotes, mas agora não sei por onde anda. Deve ter se dado bem com o dinheiro arrecadado das multidões que seguiam o Nazareno. Afinal, Judas era o tesoureiro. Que decepção eu tenho de não ter sido o tesoureiro...Pelo menos daria melhor destino àquela "dinheirama" toda. Poderia juntar o dinheiro para colaborar com o futuro Messias que virá com sua grande obra...
O homem morreu e tudo se acabou. Os fariseus e saduceus é que estão com a razão: temos que usufruir o favor dos romanos, enquanto preparamos o contra-ataque. Acaso não foi Herodes que reformou o Templo em Jerusalém? Que eu saiba, o Nazareno não colocou uma pedra sequer naquele Templo. Está vendo? Muito discurso, nenhum resultado. Todas as suas ovelhas estão agora desgarradas, espalhadas nos montes e sem pastor. Já os fariseus e saduceus, embora com suas divergências doutrinárias, continuam prosperando, porque sabem que o mais importante é o resultado, o que dá certo, o que atrai o povo. Se ficassem defendendo pontos de doutrina, acabariam como Jesus, crucificados numa cruz ao lado de ladrões.
Eu não quero isso. Nasci para vencer, sou filho do Rei, sou campeão, tenho um herói dentro de mim, tipo assim, um deus. Vou prosperar, vou ser rico também, vou liderar um grupo importante aqui em Jerusalém, e meu nome será conhecido. Prometo a mim mesmo nunca mais me envolver com promessas vazias, que não funcionam. Eu quero mesmo é quebrar paradigmas...

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Eu sempre desconfio de quem está no poder

Ó leitores, perdoai minha ousadia: eu sempre desconfio de quem está no poder.
Explico: não sou daqueles que defendem governos nem me vejo inflamado numa discussão em apoio a nenhum grupo político. Não gosto de ficar acreditando piamente em governantes. Na verdade, eu desconfio de todos eles.
Minha postura parece radical ou alienada? Que bom, continuo sendo radical e alienado. Talvez essa seja a minha "ideologia" política: a eterna suspeita quanto aos mandatários políticos.
Entendo que deve haver sempre e em toda parte uma desconfiança dirigida a quem exerce o poder governamental ou parlamentar, pois, do contrário, eles farão de nós o que quiserem.
É ridículo o comportamento de certos indivíduos que parecem estancar na condição de cabos eleitorais: eles têm tanto ardor na defesa de seus padrinhos políticos que não conseguem perceber mais nenhum vício, por mais visível que seja. Qualquer falha é explicada, há sempre uma resposta pronta, e o princípio de dois pesos e duas medidas (Pv 20.10) se torna um importante componente do discurso: o mesmo fato, quando praticado por governistas ou oposicionistas, pode receber comentários diametralmente distintos. Isso é ambigüidade de caráter, nome mais bonito para hipocrisia.
Essa minha opinião tem fundamento bíblico:
No Sl 146.3, vemos a seguinte admoestação: "Não confieis em príncipes, nem nos filhos dos homens, em quem não há salvação". É fato que o verso imediatamente posterior se refere à mortalidade dos homens - razão de não servirem de arrimo seguro - , mas o Sl 146 como um todo compara o governo de Deus com o governo humano, demonstrando que é Deus Quem verdadeiramente cuida dos oprimidos, dos que têm fome, dos encarcerados, dos cegos, dos abatidos, dos justos, dos desamparados pela sociedade, como órfãos e viúvas, dos peregrinos, e é Deus Quem estabelece toda a justiça.
Não estou dizendo que devemos ser distantes da política, porque, em verdade, a boa política é essencial, e envolve desde o chão em que pisamos - pavimentado ou não - até o preço do açúcar e o futuro de nossos filhos. Reconheço, porém, que em Rm 13.1-7, I Tm 2.1-3, Tt 3.1,2 e I Pe 2.11-17, relacionados à submissão às autoridades civis, o que se tem em vista é o princípio de autoridade, e não a pessoa investida de autoridade. Esta é digna de respeito, mas não de subserviência.
Confiemos nas instituições, lutemos por seu aperfeiçoamento, mas não entreguemos nossas vidas à mercê de homens. Precisamos ser mais atentos ao que eles fazem com o dinheiro público e, enfim, garantir a cidadania.
A democracia e toda forma de participação política nascem da certeza de que todo homem é limitado e vulnerável a se aboletar no poder. E, mesmo em tempos de monarquia, Salomão, inspirado pelo Espírito Santo, entendeu que o governo segue determinados critérios, os quais passam pelo caráter plural da concepção de decisões políticas.
Por exemplo, em Pv 11.14 está escrito: "Não havendo sábia direção, cai o povo, mas na multidão de conselheiros há segurança". Será que isso não tem nada a ver com política? É certo que tem. Se nós pudéssemos confiar cegamente num líder político, não haveria esse preceito acerca da pluralidade de conselheiros. De certo modo, temos aqui um princípio democrático ou, no mínimo, de governo consensual.
É o que ocorre também em Pv 15.22: "Onde não há conselho fracassam os projetos, mas com os muitos conselheiros há bom êxito". Assim, para quem gosta de ter um versículo bíblico para tudo, já estamos bem providos de ferramentas para a interpretação literal. Contudo, há mais...
Em Pv 14.15, lemos que "o simples dá crédito a toda palavra, mas o prudente atenta para os seus passos". Ora, não podemos acreditar em tudo o que ouvimos, certo?
Salomão sabia do que estava tratando. Ele, que foi rei em Israel, ainda escreveu: "Quando te assentares a comer com um governador, atenta bem para aquele que está diante de ti; mete uma faca à tua garganta, se és homem glutão. Não cobices os seus delicados manjares, porque são comidas enganadoras" (Pv 23.1-3). Isso é o que eu chamo de cautela diante de governantes!
Portanto, sejamos lúcidos. Nenhum detentor do poder é isento de males, e é justamente por isso que devem todos eles estar sob nosso olhar crítico e vigilante. Se não for desse jeito, sofreremos muito, porque são eles que gastam as verbas públicas e decidem em grande medida o rumo de nossas vidas.
Ah! Isso vale também para os políticos evangélicos...

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Há coisas que escrevo, mas que desejaria falar

Há coisas que escrevo porque não posso falar. Coisas que, se eu tivesse um microfone ou uma tribuna, sairiam de minha garganta como numa explosão. Às vezes, quando posso, quando sou convidado, exerço meu direito de dizer algumas verdades, aquelas verdades que muita gente gostaria de dizer se tivesse um microfone ou uma tribuna.
Basicamente tudo neste blog são ensaios. Seja em teologia, seja em crítica à Igreja brasileira, seja em política ou sociedade, quase tudo que escrevo é ensaio. Há alguns estudos bíblicos, alguns artigos um pouco mais técnicos, e até poemas e outros textos literários. Mas o que faço aqui é principalmente ensaiar.
Gostaria de ser um pesquisador teológico, mas ainda não posso fazê-lo, ou não me debrucei sobre isso. Uma pesquisa (monografia, dissertação, tese) requer metodologia científica, cronograma, revisão bibliográfica e orientação acadêmica, coisas que realmente não pude fazer ou receber na área de teologia, pelo menos por enquanto.
Sendo assim, vou escrevendo ensaios. Há muito o que dizer, muito o que pensar.
Noto que as pessoas hoje não querem ler nem estudar. Os crentes têm sido alvo de pregadores sensacionalistas, vazios, que não têm alimento sólido, tampouco o "leite racional" de que Paulo trata. As pessoas vão se acostumando ao nada, ao doentio, ao escasso, ao vazio.
É grande a necessidade da Igreja brasileira. Há grande confusão na mente de muitos e muitos "evangélicos".
Tenho pena desse povo errante, e por isso escrevo as coisas que queria falar. Se alguém ler, se um só ler, já terei conquistado um prêmio.
Há uma diferença que separa a minha pequena figura desses portentosos pregadores - enquanto eu ensaio, eles estão prontos; enquanto eu pergunto, eles respondem; enquanto eu critico, eles oferecem um pacote completo de promessas e afazeres.
Mas prefiro continuar ensaiando. Meus tubos de ensaio são pequenos e frágeis, mas meu jaleco permanece branco, graças a Deus.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Sobre votos pessoais como "raspar a cabeça"

SÍNTESE: Fazer votos a Deus, no âmbito da Igreja de Cristo, deve ser entendido como estabelecer propósitos voluntários de devoção, sem compromisso de reciprocidade. A palavra do crente deve valer por si, sem juramentos. O voto de raspar a cabeça é coisa da lei do nazireato, voto singular contido na Lei de Moisés.
O irmão Wesley Trindade, de Goiânia-GO, lançou-me a seguinte pergunta por e-mail:
"O que você me diz de propósitos pessoais como " Raspar a cabeça ", muito utilizados hoje na igrejas neo petencostais.
Qual fundamento" ?
Introdução.
Primeiramente devo dizer que é muito gratificante receber uma mensagem eletrônica vinda lá das terras goianas, especialmente de um irmão em Cristo que aproveita o espaço virtual para tecer um questionamento. Desde já, meu agradecimento a você, Wesley.
Sem medo de parecer desatualizado, confesso que ainda não tinha ouvido falar desse propósito pessoal de raspar a cabeça, tampouco que esse tipo de coisa vinha sendo feito em igrejas classificadas como "neopentecostais". Sendo assim, sua pergunta, Wesley, já me traz uma importante informação.
Parece-me que estamos na seara dos votos (Hb., neder), porque você usou a expressão "propósitos pessoais", dando como exemplo o "raspar a cabeça", que aparece em alguns textos bíblicos como espécie de voto.
Bem, antes de verificarmos especificamente a questão do "voto de raspar a cabeça", é indispensável sabermos qual a fundamentação bíblica dos votos, e sua eventual aplicabilidade aos dias atuais.
Definição de voto.
De acordo com o Mini Aurélio, "voto" é "promessa solene com que nos obrigamos para com Deus", "promessa solene", "juramento" e "súplica à divindade" - além do voto em sentido eleitoral, e do "desejo ardente". Há, então, numa acepção vernacular, a idéia de que o voto é um compromisso sério, dirigido a Deus, para a obtenção de algum favor.
Fundamentação bíblica.
Vamos ver sucintamente quais as passagens bíblicas que tratam de voto?
Em Gn 28.20-22, Jacó faz um voto de servir a YAHWEH como seu Deus, bem como tornar o lugar onde estava uma "casa de Deus", e pagar "fielmente o dízimo". Isso ele faria se em sua viagem Deus estivesse consigo e o guardasse pelo caminho, dando-lhe sustento, proteção e retorno seguro à casa de seu pai. Esse é um texto que expõe claramente os termos de um voto: o pedido feito a Deus e o compromisso assumido pelo indivíduo. Também aponta para a precedência dos votos em relação à Lei de Moisés, e, mais do que isso, à própria nação israelita, porque nessa época naturalmente não existiam os israelitas, mas tão-somente a linhagem hebréia.
Em Gn 31.13, vemos que Deus aceitou o voto de Jacó.
Já no período da Lei Mosaica, o voto foi instituído como compromisso do servo de YAHWEH, em contraste com as "ofertas voluntárias" (ARA) ou "dom voluntário" (BJ), e se referia à entrega de animais para sacrifício (Lv 22.18). Essa diferença entre ofertas votivas e voluntárias pode ser vista em Lv 7.16.
Diferentemente do caráter informal do voto pré-mosaico, o voto passa a integrar um sistema normativo-religioso, como fica patente em Lv 27.1-29, passagem que difere daquela de Lv 22.18 por acrescentar outras coisas que poderiam ser objeto de voto, além dos animais.
De fato, em Lv 27.1-29 é possível observar que animais, casas e campos podiam ser objeto de voto, sem falar na própria pessoa. Não quer dizer que a pessoa iria se entregar ao serviço religioso, mas que, conforme a idade e o sexo, haveria de ofertar determinada quantia, medida em siclos de prata. Há regras detalhadas, como a avaliação da pessoa ou coisa compromissada, assim como o resgate e eventuais deduções necessárias do preço original. Os preceitos assemelham-se a normas de Direito Civil, e vale lembrar que Israel, como nação, vivia uma teocracia, regime em que religião e Estado se misturam.
Israel, como nação, fez voto ao SENHOR para vencer uma guerra, nos tempos de Moisés (Nm 21.2).
Em Nm 30.1-16, lemos diversas regras disciplinando a prática dos votos em Israel, mais uma vez lembrando normas de Direito Civil, notadamente no que toca à validade do voto feito por certas pessoas, digamos, "não emancipadas juridicamente", assim como estabelecendo o princípio de que o silêncio do pai ou marido validaria o voto feito pela filha ou esposa, dentre outros regramentos.
É possível observar aqui o caráter jurídico do voto em Israel? Sim, não é só possível, mas plausível.
Em Dt 23.21-23, vemos que não era obrigatório fazer votos, mas que eles se tornavam compulsórios, uma vez assumidos. Esse preceito repercute nas palavras de Ec 5.4. Há uma idéia de declaração de vontade com efeitos normativos, assim como um contrato: ninguém é obrigado a contratar, mas, uma vez assinado o contrato...
Temos outras passagens que merecem destaque:
Em Jz 11.29-40, há o voto precipitado de Jefté, que acabou envolvendo sua filha num holocausto (v.31) ou num compromisso de castidade (v.37-39), o que fica a critério do leitor, porque há correntes nos dois sentidos, e não é nosso assunto no momento.
Absalão inventou a história de que tinha feito um voto só para dar um golpe de Estado (II Sm 15.8).
Pelo menos quatro Salmos (20.5; 22.25; 56.12, estes de Davi, e 116.14) se referem ao voto como parte da devoção, do culto ao SENHOR. Assim, se por um lado Moisés trabalha seu aspecto normativo, os salmistas contemplam o aspecto devocional, embora ambos se complementem. Há um elemento de súplica, de intimidade com Deus, de fidelidade quanto ao propósito assumido, bem como de alegria pela bênção alcançada.
Segundo R.de Vaux, em suas Instituições de Israel no Antigo Testamento, precisamente à p. 503, textos como Lv 7.16,17; 22.18-23; Dt 12.6,11,17 - por causa da alternância de ofertas votivas e voluntárias - bem como dos Salmos, em 50.14, 61.8 e 65.1 - por causa da menção geral - sugerem que o voto, saindo do conceito de reciprocidade, "evoluía para a simples promessa, sem contrapartida reclamada da parte de Deus" (p.503). Isso, portanto, já no Antigo Testamento!
O voto de nazireu.
Ainda na Lei de Moisés, havia um voto especialíssimo, incondicional, que era o voto do nazireado, ou nazireato, disposto em Nm 6.1-21, tendo como uma de suas obrigações o deixar o cabelo crescer livremente. Mas não era só isso: a pessoa, homem ou mulher, consagrava-se ao SENHOR, abstinha-se de vinho ou bebida forte, dentre outras coisas, "até que se" cumprissem "os dias para os quais se consagrou" (v.5). Esses seriam seus sinais de santidade ao SENHOR durante os dias de consagração, contando também com a proibição de se contaminar com cadáver e com a exigência de sacrifícios relativos ao fim do seu nazireado, diante da Tenda da Congregação, num ritual bem desenhado na Lei. A cabeleira era rapada ao término do nazireado, juntamente com os sacrifícios respectivos.
É curioso que voto (neder) e nazireu (nazir) vêm, segundo R. de Vaux (p.503), de ndr e nzr, duas raízes sinônimas que têm que ver com consagração, interdição, separação. O nazireu era santo ao SENHOR, o que implicava em distância de contaminações quaisquer, definidas na Lei.
Sansão foi consagrado "nazireu de Deus" para a guerra, por mandado divino, que seria por toda a vida (Jz 13.4,5,7,13,14; 16.17).
Foi o voto de nazireado que Ana fez ao SENHOR (I Sm 1.11), consagrando seu futuro filho a Deus, pelo que o menino Samuel foi entregue aos cuidados sacerdotais para se tornar, também ele, um sacerdote.
Amós referiu-se a nazireus em Israel, em paralelo com os profetas, e dando uma noção de sua vocação divina (2.11,12).
Foi provavelmente o voto de nazireado que o próprio apóstolo Paulo cumpriu certa vez, conforme o seguinte texto:
Em At 18.18, lemos: "Mas Paulo, havendo permanecido ali ainda muitos dias, por fim, despedindo-se dos irmãos, navegou para a Síria, levando em sua companhia Priscila e Áqüila, depois de ter raspado a cabeça em Cencréia, porque tomara voto" (ARA).
Cumpre observar que, embora cristão, Paulo era culturalmente judeu, o que não pode ser desprezado pelo hermeneuta. Isso faz com que nos distanciemos do apóstolo nessa questão de raspar a cabeça, pois a lei do nazireado não perdurou no Novo Testamento, ou, para ser mais claro, não se fixou como doutrina para a Igreja.
Quando Paulo chegou a Jerusalém em certa ocasião, foi orientado por Tiago e pelos anciãos judeus a se purificar junto com mais quatro homens, cujas despesas cerimoniais o próprio Paulo iria custear, para mostrar a todos que ele não era contrário aos costumes da Lei, quanto aos que fossem judeus (At 21.15-26). Tratava-se, mais uma vez, do voto do nazireado, com suas dispendiosas cerimônias de purificação, que contava, como disse, não só com o corte de cabelo, mas também com sacrifícios de animais. Isso devia ser feito antes da entrada no Templo, que, como sabemos, substituiu a referida Tenda da Congregação.
Sem nenhuma dúvida, o voto de raspar a cabeça estava intimamente ligado ao nazireado, ou melhor, ao seu término: quem deseja, em nossos dias, fazer esse voto de raspar a cabeça, precisa entender que ele estava envolvido no contexto maior da consagração do nazireu, ou, mais precisamente, no ritual de "desconsagração". Quem assume uma parte das leis veterotestamentárias cerimoniais deve ser coerente, e assumir todo o resto. E, se o fizer, não estará sendo bíblico, porque essas coisas foram postas como "sombra de coisas que haviam de vir" (Cl 2.17 na BJ; ver ainda Hb 8.5; 9.23).
Conclusão.
Que mais posso dizer? Sei que existe hoje um movimento judaizante em certas igrejas classificadas como "neopentecostais", que adotam símbolos e festas do Antigo Testamento, interpretando erroneamente aquela Parte da Bíblia, como se não houvesse princípios de distinção quanto ao contexto, destinatários, estilo literário ou objetivo de cada seção bíblica. Isso pode explicar o uso de votos como o raspar a cabeça, que, sinceramente, é totalmente dispensável em nossos dias, pois não há fundamento neotestamentário a respaldar sua aplicabilidade hoje.
Registre-se que o raspar a cabeleira, enquanto item da lei do nazireado, tinha todo um significado, que por sua vez estava sumamente associado à consagração da pessoa a Deus. O mesmo cabelo que se deixava crescer livremente por um período era depois cortado no tempo da "desconsagração". Esse contexto não pode ser olvidado pelo intérprete da Palavra.
Para não me alongar mais, digo que os votos podem ser realizados pelo crente, mas não como espécie de comércio com Deus, nem para substituir a veracidade do compromisso assumido, pois Deus aborrece o juramento falso (cf. Mt 5.33-37 e Tg 5.12).O importante é que haja entrega voluntária a Deus, sem atitude de troca, em processo gradual de santidade, tendo em vista, ainda, que já fomos santificados pelo Espírito (cf. I Pe 1.2), sendo que todos os cristãos, todos os nascidos de novo, são santos na presença do SENHOR. Tendo sido santificados pelo Espírito, somos santificados a cada dia, sem que para isso precisemos estabelecer votos especiais. 
O que se deve fazer acima de tudo é devotar a vida a Deus, incondicionalmente, e afastar-se da prática de exigir de Deus o que não é de Sua soberana vontade.

Referências:
Mini Aurélio Século XXI Escolar. O minidicionário da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 4ª Ed. Rev. e Ampl., 2001, 790p.
R. de Vaux. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Teológica, tradução de Daniel de Oliveira, 2003, 622p.














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Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
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