sábado, 31 de janeiro de 2009

O desabamento do teto da Renascer em Cristo e a reflexão que ele exige*

O desabamento do teto da sede mundial da Igreja Renascer em Cristo, em São Paulo/SP, traz o casal Hernandes de volta ao noticiário nacional. Com nove mortos e centenas de feridos, a igreja assiste agora às investigações policiais e ao trabalho do Ministério Público Estadual, tendo ainda que apresentar documentos e explicações sobre sua eventual responsabilidade nessa tragédia.

Não creio ser correta qualquer tentativa de ligar o caso às ocorrências policiais do casal Hernandes (como o episódio que os levou à prisão e condenação nos Estados Unidos por quererem entrar naquele País com dólares não declarados). Também não sei se podemos fazer ilações legítimas quanto às acusações de estelionato, falsidade, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro que correm contra eles no Brasil. Embora essas condutas criminosas e/ou suspeitas de crime possam sugerir pecados do “apóstolo” e da “bispa”, as notícias relacionadas ao drama do dia 18 de janeiro devem ser aquelas que possam indicar algum desprezo às leis municipais de segurança de imóveis, porque é isso que interessa objetivamente. Hipóteses mais especulativas poderão redundar em julgamento indevido e desrespeito ao sentimento dos enlutados.

Entretanto, é altamente reprovável, se for mesmo verdade, a afirmação de Estevam Hernandes no sentido de que a culpa é de Satanás (conforme matéria da Época). Com efeito, segundo a revista, o “apóstolo” disse em culto transmitido da prisão domiciliar nos Estados Unidos que a Igreja Renascer deve pisar com os pés sangrando na cabeça do gigante Satanás. Ora, nem na hora da dor mais cruel esse homem deixa de lado sua teologia triunfalista, notadamente quando ela se mostra flagrantemente irreal? É diante de posturas como essa que as críticas à teologia e à ética da Renascer são apropriadas, confrontando-a com o teto que desabou.

Devo, com toda a seriedade que o tema requer, asseverar que, antes de culpar o diabo, é necessário fazer um auto-exame e pelo menos ficar calado diante de cenário tão triste. Adão pôs a culpa na mulher, que pôs a culpa na serpente, mas quem deu ouvidos à mulher foi Adão, e disso ele não poderia se furtar (Gn 3.6,12,13). Aliás, lembre-se de que ele também quis responsabilizar ao próprio Deus, quando afirmou “A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi”(Gn 3.12). Afinal, até onde vamos nós com as nossas racionalizações?

Não podemos espiritualizar onde os problemas podem ser explicados de maneira comum: alguma coisa estava errada com aquela estrutura que desabou, e isso ainda está sendo apurado. Caso as autoridades venham a concluir que tudo estava bem e mesmo assim o teto caiu, aí sim poderemos começar a buscar explicações diferentes.

Até aqui, não é o caso de culpar o diabo nem recorrer ao sobrenatural. O mínimo que se deve fazer é esperar com humildade o desenrolar dos fatos, e colaborar com a Justiça. Por outro lado, eu poderia escrever sobre a sensação estranha de ver o teto de um templo cair, quando a gente sempre se considera de algum modo refugiado e seguro na igreja. Não obstante, para não fugir ao assunto, limito-me ao que escrevi acima.
*Publicado também na Palavra do Leitor do "site" www.ultimato.com.br, no dia 27/01/09.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Os evangelizadores que pedem fogo do céu e a evangelização em Salvador-BA

Pensemos sobre evangelização e alguns lampejos de missão urbana a partir de Lc 9.51-56.
Em certa ocasião, ao depararem com samaritanos que não quiseram lhes dar pousada, os irmãos Tiago e João pediram permissão a Jesus para fazerem cair fogo do céu, a fim de que as pessoas fossem consumidas. A negativa dos samaritanos partiu da impressão de que os apóstolos seguiam para Jerusalém, o que indica um preconceito cultural-religioso por parte dos aldeões.
Por causa desse temperamento explosivo, os filhos de Zebedeu foram chamados de Boanerges, que significa “filhos do Trovão” (Mc 3.17). Digno de nota é que eles conseguiram achar um precedente “histórico-teológico” no episódio em que Elias pediu fogo do céu!
Vale observar que, embora não tivessem pregado aos samaritanos, Tiago e João estavam com Jesus havia cerca de três anos e apesar disso não conseguiram entender que mensagem Ele viera anunciar. Sendo assim, acharam que sua proclamação do Reino de Deus nada tinha que ver com os samaritanos.
Mais do que isso, os filhos de Zebedeu se colocaram como vítimas, exatamente porque, aos olhos dos samaritanos, quem ia para Jerusalém não merecia sequer uma pousada. Aqui está um claro exemplo de hostilidade religiosa, que sufoca qualquer comunicação antes que ela comece.
Em vez de misericórdia, os dois apóstolos clamaram por destruição. Mesmo tendo recebido a palavra do Reino de Deus, quiseram detonar as vidas dos samaritanos. Mas Jesus, pleno de compaixão, não levou em conta essa ignorância, e aproveitou o momento para ensinar um pouco mais sobre Sua missão salvadora.
De fato, contrariando a intenção homicida dos incautos discípulos, Jesus disse que o Filho do Homem não veio destruir as almas dos homens, mas salvá-las.
Tempos depois, João se tornaria um amável pastor de almas, e que, pelos seus escritos, se tornaria conhecido, vejam só, como o “apóstolo do amor”. Nada parecido com aquele rapaz que pedia fogo do céu sobre os incrédulos!
Semelhantemente, Tiago mudou, a ponto de entregar sua vida à espada de Herodes, por amor do Evangelho.
Essa passagem deve nos ensinar que o Evangelho não pode ser vivenciado como uma denúncia sem compaixão. O querigma do Reino de Deus é amoroso, cheio de graça e misericórdia, para salvação dos pecadores. Embora devamos denunciar veementemente o pecado, não podemos nos voltar contra o pecador, porque Jesus não nos ensinou a agir dessa forma.
Pedimos fogo do céu sobre os samaritanos todas as vezes em que brigamos com as pessoas porque elas não nos aceitam. Nesse sentido nos posicionamos como “filhos do Trovão”, em lugar de nos apresentamos como “filhos da luz” ou “filhos de consolação”.
Sei que não é fácil ser cristão hoje, pois as resistências são muitas e graves. Eu mesmo estou sempre em contato com pessoas que rejeitam a pregação do Evangelho, ou simplesmente discordam da defesa de valores morais absolutos, tachando-nos, indiretamente, de hipócritas, julgadores e autoritários. Mas não me importo, desde que assuma uma postura de amor por essas pessoas.
Que farei? Agora trabalhando em Salvador, vejo que é muito mais complicado pregar o Evangelho aqui do que eu poderia imaginar. A capital do meu Estado respira os ares de festas comerciais-culturais-religiosas-políticas o ano inteiro. O calendário religioso é extenso, e as festas populares misturam crenças afro-brasileiras com costumes centenários. Dinheiro e poder político mesclam-se à multifacetada e colorida cultura baiana. Monumentos protegidos pelos Poderes Públicos são demonstrações históricas da religiosidade ou da antiga instituição oficial do Catolicismo, bem como benefícios governamentais apoiam o candomblé e segmentos similares.
Em meio a essa tessitura social, fala-se muito de tolerância racial e religiosa, num claro recado, a meu ver, de que o discurso evangélico de alguns grupos precisa encontrar um limite. À tolerância nada podemos opor, pois é bíblica e constitucional – mas continuaremos a pregar o Evangelho, com toda a tolerância do mundo e sem pedir fogo do céu, nem para samaritanos nem para soteropolitanos.
Acredito que Deus pode transformar vidas, e é o que Ele tem feito em muitas regiões do País. Não sei exatamente como tem sido o desenvolvimento das igrejas em terras baianas, e especialmente em Salvador, mas vejo que a presença evangélica parece maior do que há alguns anos. No entanto, mais do que em outras capitais, Salvador oferece grandes dificuldades ao cristão, porque a atmosfera da cidade é tomada de carnaval, erotismo, exploração econômica e culto a demônios – um caldeirão e tanto.
Um item a ser analisado em Salvador é a extrema desigualdade social. Vejo condomínios e mansões de alto luxo ao lado de favelas e inúmeros pedintes nas ruas. Parece que aqui não há classe média, só ricos e pobres. Isso porventura é coisa de que alguém possa se orgulhar? Certamente as políticas tradicionais não conduziram o Estado ao desenvolvimento, o que fez com que baianos migrassem para a capital, superlotando-a e esvaziando o grande interior.
Diante de tudo isso, repito que não vou pedir fogo do céu. Quem sou eu para querer que pecadores como eu sejam destruídos, se eu mesmo fui inexplicavelmente alcançado pelo amor de Deus em Cristo? Entendo, pois, que em Salvador é hora de pedir, não o fogo do céu para destruir, mas o fogo do céu para encher a Igreja de poder do Espírito Santo – só assim dá para evangelizar com eficácia, principalmente num lugar melindroso como este.

A religião cristã não é um toque mágico em Jesus Cristo

Na cidade galiléia de Cafarnaum, enquanto seguia para a casa de Jairo a fim de curar sua filha, Jesus, comprimido pela multidão, foi tocado por uma mulher que sofria de hemorragia já há doze anos. Ela entendeu que seria curada se ao menos tocasse na orla de Suas vestes. É o que narram Mateus, Marcos e Lucas.
Tratava-se de uma pessoa atribulada, primeiro por ser mulher numa sociedade patriarcal, segundo por ser doente, e terceiro porque essa doença lhe dava a pecha de cerimonialmente imunda (Lv 15.25). Vencendo todas essas barreiras, a mulher se aproximou de Jesus e tocou em Sua roupa.
Ao perceber que fora tocado de modo especial, Jesus perguntou: “Quem me tocou”? Como Seus discípulos acharam estranha a pergunta, dada a multidão ao redor, Jesus disse que dele saíra poder.
Pensemos um pouco sobre esse ponto: de onde aquela mulher tirou a idéia de que tocar na roupa de Jesus poderia lhe dar a cura? Naquela época, pensava-se que tocar na roupa ou passar pela sombra de uma pessoa poderosa faria com que dela saísse poder. Foi assim que multidões levavam seus enfermos a Jesus a fim de que fossem curados ao menos pelo toque na orla de suas vestes. Vê-se, então, que a iniciativa não partiu de uma criação mental daquela senhora, mas de um pensamento comum na superstição popular.
Jesus costumava tocar nas pessoas, mas isso não significa que reconhecesse a validade da superstição. O toque de Jesus frequentemente comunicava compaixão, solidariedade, amor, afeição, além de empregar também o simbolismo da imposição de mãos, que decorre dos tempos do Antigo Testamento, significando agora, em síntese, uma transmissão de poder, seja para a plenitude do Espírito, seja para bênção em geral, seja, ainda, para consagração de oficiais da Igreja. Mas não existe poder nas mãos daquele que as impõe: o poder pertence a Deus, e somente a Ele. Como Deus, Jesus tem poder em Si mesmo, e como Homem, recebeu poder quando de Seu batismo, ao ser ungido pelo Espírito Santo na forma de pomba.
É certo que Jesus curou um leproso com um toque, e chegou a colocar lodo nos olhos de um cego para que passasse a enxergar. Mas quanto à cura no contexto da Igreja, a promessa de Jesus foi “Imporão as mãos sobre os enfermos e os curarão”. Essa é a forma simples e clara de curar enfermos em nome de Jesus. Não há técnicas especiais nem fórmulas verbais que devam ser empregadas, mas um gesto simbólico de transmissão de poder.
Entretanto, a religiosidade do populacho perpassou o período de Jesus com essa noção um tanto fetichista. Em At 5.15, vemos que em Jerusalém muitas pessoas buscavam passar pela sombra de Pedro para serem curadas. Semelhantemente, muitas outras, em Éfeso, afluíam a Paulo, para que ao menos pudessem tocar em seus lenços de uso pessoal e nos aventais que ele usava para fazer tendas (At 19.11,12). No entanto, em sua narrativa, Lucas em nenhum momento afirma que essa fosse uma regra a ser seguida pela Igreja. Além disso, não se pode doutrinar exclusivamente com base em narrativas, o que é demasiado perigoso e pode fomentar heresias.
Devemos fugir de tudo o que possa parecer com o fetichismo, que consiste no emprego de objetos com efeitos espirituais. Em setores chamados “neopentecostais” – que prefiro chamar de “pseudopentecostais” – ocorre o uso de galhos de arruda, sal grosso, rosas, e tantos outros objetos com significação esdrúxula, inventada por figuras cada vez mais criativas e de imaginação incrivelmente fértil para toda sorte de “campanhas”. Tudo isso fazem os pajés, das tribos indígenas, e os pais-de-santo, das religiões afro-brasileiras. Tudo isso se parece muito com feitiçaria e artes mágicas, e não encontra fundamento na Palavra de Deus.
A espiritualidade cristã não pode ser confundida com um simples toque no sobrenatural. A espiritualidade cristã define-se com um relacionamento pessoal com Deus em Cristo Jesus, pela habitação do Espírito Santo na vida dos regenerados. Em vez de apenas curar, Jesus quis saber quem Lhe tocou, o que denota o sentido de comunhão.
Embora a mulher que tocou em Jesus estivesse com uma expectativa limitada e um conhecimento equivocado, Jesus não a desprezou. Pelo contrário, a recebeu em Sua comunhão, dando-lhe a paz e a saúde física. Como vimos, multidões buscavam a Jesus com esse mesmo propósito de cura por meio do toque, mas Jesus, como resta claro nessa passagem, sempre deseja o relacionamento espiritual, que é mais profundo do que um simples toque.
Ademais, outro episódio lança luz ao tema: justamente aquele em que um centurião afirma que somente uma palavra de Jesus já seria suficiente para curar seu criado, mesmo à distância. E qual foi a reação do Mestre? Disse que nem mesmo em Israel encontrou tamanha fé. Qual o diferencial da fé do centurião romano? Ele tinha uma fé que ia além das distâncias, que não dependia de objetos nem sombras.
Em outra linha de idéias, como devemos interpretar a frase de Jesus quanto a ter saído poder de Si? Ora, não nos é dada nenhuma informação sobre a qual possamos especular. Sabemos simplesmente que algum processo sobrenatural ocorreu ali. Em seguida, ao obter o esclarecimento da mulher, que estava trêmula e com medo, Jesus disse “A tua fé te curou” ou “salvou”. Isso não quer dizer que sua fé foi vista por Jesus como um ente autônomo, independente do próprio Jesus. Significa, isto sim, que a fé foi o instrumento da cura, e não a sua causa. Quem cura e salva é sempre Jesus Cristo. Vemos isso claramente em Ef 2.4-10.
No meio pentecostal e pseudopentecostal, causam sensação as pregações e discursos em torno do sobrenatural como solucionador de problemas os mais diversos. Essa é uma tentação antiga, voltada à satisfação de curiosidades quanto ao misterioso e extraordinário. Mas, será que a nossa espiritualidade se resume a isso? Será que nossa religião é assim parecida com tantas religiões fetichistas que há no mundo? Seremos nós também animistas? Que tipo de espiritualidade temos proposto ao mundo? É bom pensarmos nisso para não corrermos o risco de chamarmos de Cristianismo uma religião experiencial fundamentada em bases pagãs.
Querer de Jesus apenas um toque é uma coisa quase mágica – para fazer referência a Helmut Thielicke. Mais uma vez, cumpre lembrar que não se trata de menosprezar a fé daquela senhora, mas é necessário avançarmos em nossa concepção a respeito de Cristo. De uma perspectiva aproximada da magia, podemos e devemos partir para uma perspectiva cristã, que não pode ser menos que relacional.

A oferta da Salvação e o julgamento moralista

Tento discernir em minha pregação e pensamento as fronteiras do oferecimento da Salvação e do discurso moralista. Tenho receio de que, com o ímpeto de explicar a depravação humana, acabe me parecendo farisaico, com julgamentos distorcidos a respeito dos outros e de mim mesmo.
Estou ciente de que não há arrependimento sem consciência de pecado. Isso é fundamental. É necessário que o pecador se conscientize de sua reprovação diante das exigências divinas. Essa conscientização advém da evangelização, sem nenhuma dúvida. Por isso, a pregação precisa ser clara e alicerçada na Palavra de Deus.
Entretanto, considerando o contexto evangélico atual, principalmente na seara pentecostal – da qual faço parte –, fico pensando sobre como as pessoas têm ouvido nossa proclamação do amor de Deus, já que não temos demonstrado uma ética muito melhor que a do mundo, e não temos sido competentes em esclarecer qual a necessidade da Salvação, e o que levou Jesus Cristo a morrer por nós, explicitando qual o sentido disso.
Em se tratando de ética, temos nos limitado a condenar o aborto, o homossexualismo e a eutanásia, por exemplo; mas não denunciamos a corrupção política, o nepotismo, a sonegação fiscal, as corruptelas do cotidiano, a burla das regras de trânsito, as muitas formas de injustiça social. Até nos entregamos a alianças com políticos em troca de favores clientelistas, ao mesmo tempo em que muitas de nossas igrejas se vêem solapadas por uma política de promoções e mandonismo”.
Na senda teológica e querigmática somos muito fracos. Primeiro, porque nossa teologia se faz de cima para baixo, sem uma interface com os obreiros que têm contato com o povo mesmo – os quais muitas vezes são avessos à própria palavra “teologia”; segundo, porque nosso querigma (pregação) é uma repetição de palavras conhecidas e frases de efeito, apropriação de conceitos tradicionais e adição de valores pentecostais, mas sem um aprofundamento do que seja a mensagem da cruz.
Dizer que Jesus morreu pelos pecados da humanidade é correto, mas qual o significado disso para uma pessoa culta, que tem todo o conforto necessário para viver bem e informações suficientes para julgar teorias e fatos? Não adianta virmos com o argumento descontextualizado de que “o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos”, porque isso só iria transferir para o Diabo nossa ineficiência evangelística. Não podemos ficar culpando a serpente quando o assunto é a nossa inaptidão para pregar o Evangelho a diferentes classes sociais.
O que critico é nosso interesse em interromper a reflexão com argumentos supostamente bíblicos, mas que apenas retiram versículos de seu contexto. Paulo não está dizendo que devemos deixar de lado pessoas dessa ou daquela estirpe, mas que o diabo terá cegado o entendimento de muitas pessoas que ouvirem o Evangelho. Então, teremos feito a nossa parte, mas a incredulidade permanecerá no coração dos que assim desejarem, como ensinado por Jesus na Parábola do Semeador.
Ora, conheço pessoas que, além de não fazerem o mal a terceiros, promovem o bem – trabalham pela justiça, são incansáveis na defesa do que acham justo, dão exemplo de correção em seu procedimento diário, mas não frequentam uma igreja evangélica, não professam a Fé em Cristo nem usam a Bíblia como regra de fé e conduta. Dogmaticamente, sei que estão condenadas ao Inferno, e é completamente claro para mim que o juízo de Deus não erra. Todavia, como eu transmito essas noções a esse tipo de interlocutor, se é que o faço?
Todos os seres humanos são pecadores, o leitor evangélico dirá com acerto. Mas, o que é pecado, se nosso discurso tem sido no sentido de que pecar é matar, roubar, beber, fumar, freqüentar certos lugares e adulterar? Quando encontro pessoas que não praticam nada dessas coisas, como me comporto? Como me comporto frente aos “incrédulos” que parecem mais justos do que eu?
Não deveria eu ter mais assentadas em meu coração as verdades da carência espiritual de todo ser humano e a indispensabilidade de comunhão com o Pai? Em vez de falar ao sofredor, não deveria eu falar ao pecador? Quem anunciará as Boas Novas ao intelectual, ao funcionário público, ao estudante de ciências sociais, ao politicamente engajado, ao chefe de família consciente de seus deveres, ao trabalhador honesto, ao promotor de justiça?
Quando perdemos o cerne da mensagem da cruz, nossas pregações e conversas ficam moralistas, porque teremos que falar em pecado, mas não falaremos do quanto é bom pertencer a Cristo. Isso ocorre quando perdemos o senso de realidade do Evangelho.
Minha sugestão é que estudemos na Escritura o que Jesus fez por nós, e por que fez. Precisamos ir além das teorias e do testemunho de nossa experiência – precisamos transmitir aos outros, consistentemente, a mensagem de que sem Jesus não há propósito para a vida, porque sem Jesus não se acessa o Pai.

Não quero ser um burocrata de igreja nem um moralista sisudo

Preocupa-me a possibilidade de me tornar um burocrata de igreja, que zela pelo andamento das coisas religiosas sem atender à voz de Deus nem à voz dos crentes, e sem estar sensível à voz daqueles que não professam a fé cristã (aqui lembro do livro Ouça o Espírito, Ouça o Mundo, de John Stott). Esse receio tem sobrevindo à minha mente agora que minha vida tomou rumo distinto em diferentes aspectos, mudando o foco de minhas cogitações teológicas.
Também não quero ser um moralista sisudo, desses que espreitam o comportamento alheio e apontam o erro com um dedo farisaico dirigido ao pecador, meu igual. Sinto tristeza sempre que me vejo agindo parecido com isso.
Tanto a ação na igreja como a moralidade cristã devem estar fundamentadas no amor. Devo ir ao templo e fazer julgamentos éticos a partir de uma concepção cristã construída na Palavra de Deus pela fé. Devo formular argumentos sólidos para tentar convencer meus interlocutores, mas sem a pretensão de ser melhor do que ninguém – sabendo, antes, que o respeito ao próximo é imperativo da ética de Cristo.
Numa conversa sobre costumes, sexualidade, valores morais, as pessoas não-evangélicas ou não-cristãs podem nos ver como fanáticas, obscurantistas, legalistas. Pode ser que nos vejam assim ainda que tenhamos um discurso amoroso e sincero, mas devemos evitar que suas impressões sejam verdadeiras. Que nos chamem de ignorantes e nos rotulem, mas não lhes demos razões para isso.
Em dias de pós-modernidade, o relativismo ensina que não existe o certo e o errado, o adequado e o inadequado, que tudo depende do ponto de vista, da subjetividade. Acabou-se a moral. Sob o pretexto de que não se pode julgar, de que não se pode atirar a primeira pedra, de que todo mundo é pecador, dizem que não podemos fazer juízos de valor, o que seria, naturalmente, o fim de toda discussão ética, e a cessação, em última análise, até mesmo de minha profissão ligada ao Direito.
As pessoas afirmam que não podemos impor a ética cristã à sociedade, e nisso estão certas. Mas não aceito a alegação de que não podemos propor ao mundo os postulados da ética cristã. Dito de outro modo, cabe a mim argumentar de maneira suficientemente clara e segura sobre os motivos que tornam a ética bíblica uma solução para os males sociais, e o critério de aperfeiçoamento humano. A questão é a seguinte: “Estou preparado para isso”? Creio que eu não estou, pois costumo ser contundente demais em diálogos com pessoas que negam peremptoriamente a autenticidade da Bíblia ou a validade das exigências éticas ali contidas.
Para estar preparado ao diálogo com o mundo, preciso não ser um burocrata cristão. Preciso ir além de uma rotina eclesiástica de ir ao culto e preencher um calendário de afazeres que tão-somente cumpre as tradições e anseios da religiosidade evangélica e de minha denominação. Devo renunciar ao ativismo de Marta e me apegar à humildade de Maria.
Não é fácil ser cristão de verdade. Fácil é ser burocrata e moralista. Fácil é comportar-se como o fariseu frente ao publicano, como os líderes de Israel frente a Jesus e Seus acompanhantes “maltrapilhos”, para usar uma expressão de Brennan Manning.
Definitivamente, só aceito ser cristão porque Jesus me aceitou primeiro. O sistema ético de Cristo é tão moral e intelectualmente elevado que nenhuma criatura poderia conceber seus valores de per si. Por outro lado, ser burocrata e moralista é tão fácil que acaba sendo comuníssima tentação, tangidos que estamos pela vontade de agradar a Deus, mas fustigados a todo instante pela sedução do legalismo e da hipocrisia.

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Para pensar:

Um dos terríveis problemas da Igreja evangélica brasileira é a falta de conhecimento da Bíblia como um sistema coerente de princípios, promessas e relatos que apontam para Cristo como Criador, Sustentador e Salvador. Em vez disso, prega-se um "jesus" diminuído, porque criado à imagem de seus idealizadores, e que faz uso de textos bíblicos isolados, como se fossem amuletos, peças mágicas a serem usadas ao bel-talante do indivíduo.

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Bases de Fé

Creio:
Em um só Deus e na Trindade.
Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristão.
Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal e sua ascensão aos céus.
Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor.
No batismo bíblico em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo.
Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus, através do poder do Espírito Santo.
No batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a intercessão de Cristo.
Na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja para sua edificação, conforme a sua soberana vontade.
Na Segunda Vinda de Cristo.
Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo.
No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis.
E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.