quarta-feira, 31 de março de 2010

A diferença que faz o bom discurso

Assisti a pequenos trechos dos discursos de Dilma Rousseff e José Serra neste dia de desincompatibilização dos cargos. Mesmo assim, deu para ver um aspecto com muita clareza: ainda que José Serra não seja um manancial de simpatia e carisma, ele fala muito melhor que Dilma. Muito melhor.
Sem dizer expressamente que é candidato, José Serra o disse de outra maneira: falou em "nova etapa" e no Brasil. Criticou indiretamente o Governo Lula, que convive tranquilamente com a desonra. Foi incisivo, assertivo. Demonstrou que, embora tenha o semblante carregado e o perfil de "rolo compressor" da política, pode fazer diferença na campanha devido à boa oratória.
Certo dia, assistindo a um excelente programa do repórter Kennedy Alencar no site da Rede TV!, vi a entrevista com o senador pernambucano Sérgio Guerra, que é presidente do PSDB. Ele disse uma coisa interessante, mais ou menos assim: "Tasso [Jereissati], depois de ouvir o discurso da Dilma [na Semana da Mulher, no Senado] me disse: 'Eu estava preocupado com o Serra, não estou mais'". E o próprio senador Sérgio Guerra emendou: "Porque, cá para nós, a Dilma é muito ruim".
A Sra. Dilma Rousseff não tem nenhum carisma. É uma tecnocrata egressa da luta armada brasileira. Jamais disputou uma eleição e não sabe fazer discursos. Suas falas são recheadas de números, de power points, como aquelas aulas chatas na Universidade. Ela não discursa; dá palestras e prestação de contas. Um líder precisa falar bem. Nisso o seu mentor Lula, que não gosta do bom português, é mestre: ele sabe falar com as massas - embora eu não goste do seu estilo de oratória. Mas ele sabe, sim, falar com o povo. Dilma, não.
Bem por isso, entendo quando analistas dizem que a campanha pode mudar tudo. É nos debates que se testa o candidato. Já pensou se a Sra. Dilma responder aos adversários ou jornalistas com um sonoro "meu filho?", como costuma fazer com os que lhe fazem perguntas que a irritam?
A voz atribulada de Dilma Rousseff não combina com o pedido de votos. Não quero ser intimidado a votar em alguém. Quero ser convencido.
Dos quatro pré-candidatos mais importantes, Ciro Gomes é, sem dúvida, o que fala melhor. Inteligente, abre a boca e as palavras vão saindo em profusão.
Todavia, não temos, nem de longe, um Barack Obama. E faz falta, viu? Faz falta aquele político que sabe conscientizar, convencer, fazer boa política, falar ao coração do povo sem mentir. A oratória não deve ser desprezada. As pessoas gostam de ouvir boas palavras, que reflitam a realidade e as intenções verdadeiras. As pessoas precisam de um líder que tenha carisma e caráter.
Infelizmente, caráter não se tem visto com fartura na praça, e até no carisma quem passa passa raspando.

Somos o que cremos

Que tipo de sociedade os evangélicos brasileiros são capazes de produzir?
Rio de Janeiro, Espírito Santo e o Distrito Federal estão repletos de crentes. Há muitos evangélicos em Brasília, o que se percebe por seu destaque nos escândalos do mensação do DEM. Temos até um senador (sem voto) evangélico, o empresário Adelmir Santana. Os evangélicos chegaram ao poder!
Mas, pergunto: essa é a sociedade maravilhosa dos evangélicos? Que país estamos ajudando a construir? O que a nossa fé, adaptada à cultura brasileira, tem produzido?
Ensaio algumas sugestões: se nossa fé é emocional e pouco intelectual, produzimos uma sociedade sensacionalista e ignorante. Se lemos somente livros de autoajuda, produzimos uma sociedade superficial. Se lemos a Bíblia sem pensar, sem dar atenção a um estudo sistemático, contribuímos para uma sociedade inculta e fraca.
Que sociedade somos? Quem somos? Que fé é a nossa? Materialista? Mundana? Sensorial? Empírica?
A cultura influencia a fé e vice-versa, mas a fé deve prevalecer. Temo que no Brasil tenhamos construído um deus à nossa imagem e semelhança. Oh, desespero da vida! Só Cristo é a nossa esperança.

Junto à fonte

A Bíblia tem lindas metáforas: uma delas é a da fonte. Diz o belo texto de Gn 49.22:
"José é um ramo frutífero, ramo frutífero junto à fonte; seus galhos se estendem sobre o muro".
Estamos diante da bênção profética de Jacó sobre seus filhos, dos quais descenderiam as Doze Tribos de Israel. José é o filho predileto, o filho de Raquel, aquele que por um tempo fora roubado a seu pai, dado como morto, vendido como escravo, acusado injustamente, aprisionado e depois elevado a governador do Egito.
A metáfora da árvore junto às águas encontra-se também no Salmo 1.3 e Jr 17.17,18. O homem próspero aos olhos de Deus é como a árvore frutífera que "estende as suas raízes para o ribeiro e não receia quando vem o calor", suas folhas não murcham, e nunca deixa de dar fruto, mesmo na estação seca. Para o salmista, essa prosperidade resulta da meditação diária na Palavra de Deus. Para o profeta, tudo está em confiar no SENHOR, esperar somente n'Ele.
José era um homem verdadeiramente próspero. Sua história nos diz que "o SENHOR era com ele". Mas José não era rico. Ele era próspero antes de ser honrado pelo rei do Egito. Sua prosperidade vinha de estar junto à fonte.
Penso na imagem da fonte das águas e isso me deixa com uma ponta de esperança nesses tempos de sequidão. Jesus disse que aquele que recebe da água que Ele tem para dar tem dentro de si uma fonte a jorrar para a vida eterna (Jo 4.14); e que quem n'Ele crer, como diz a Escritura, "rios de água viva" fluirão do seu interior (Jo 7.38). É João quem explica a metáfora: Jesus estava se referindo ao Espírito Santo, que não havia sido dado por Jesus Cristo não ter sido glorificado (Jo 7.39).
Certa vez, em Alagoinhas/BA, há muitos anos, ouvi um pregador dizer que, embora reconhecesse que a glorificação de Jesus fosse a Sua assunção ao Céu, entendia que era necessário dar glórias a Deus para receber o Espírito Santo, o batismo com fogo. Seu erro é duplo: confundir glorificação de Jesus com glorificação a Jesus, e achar que o recebimento do Espírito Santo conforme Jo 7.38 seria recebimento em poder. Nesse caso, é recebimento para a Salvação!
Eu tenho dentro de mim essa fonte a jorrar para a vida eterna. Jesus me deu o Espírito Santo. Aleluia! Glória a Deus! Jamais falei em línguas estranhas, nem sei se um dia falarei. Acham que não fui ou não sou batizado com o Espírito Santo. Tudo bem. Sei que é revestimento de poder (At 1.8). Mas me recuso a admitir que Jo 7.38,39 se refira ao batismo com fogo. Estamos tratando da fonte aberta a todo o que crê. Nisso não há absolutamente nenhuma distinção: quem tem fé em Cristo como SENHOR e Salvador desfruta das bênçãos inefáveis de ser ramo frutífero junto à fonte, uns mais, outros menos.
Fiquemos junto à fonte. Desse mundo nada temos a aproveitar. Só Jesus nos permite o acesso às águas de refrigério.


terça-feira, 30 de março de 2010

O Palácio da Justiça

Imagine um lugar que ostente a placa "Palácio da Justiça". Esse lugar deve ser um poço de correção. Seus "palacianos" devem ser pessoas justas, probas, cujas decisões se baseiam sempre no bem comum e nas leis. Essas pessoas devem ter uma conduta exemplar, além de qualquer manual ou código de ética. Suas comissões de sindicância funcionam. A lei serve para todos, desde o zelador até o chefe da instituição. Esse deve ser um lugar ideal.
Todavia, não é assim. Estamos no mundo. Numa sociedade secularizada como a nossa, o mesmo palaciano que promove a justiça pública erra feio na vida privada. Adultera, xinga, mente, provoca ira nos filhos, destrata subalternos, apavora quem dele precisa, goza privilégios ilegais (o que já é público), defende um corporativismo infantil, não vê a necessidade do pobre. Sua justiça é farisaica, como um sepulcro caiado - bonito por fora e horrível de ossos secos por dentro.
Quem promoverá a avaliação da moralidade alheia? Qual será o concurso, qual será o critério para apurar a idoneidade de cada candidato ao Palácio da Justiça? Há testes psicológicos, mas são para a mente. Há testes de conhecimento, mas são, também, para a mente e o uso da técnica. Há testes de conduta social e da vida pregressa, mas nada que aprofunde muito, nada que veja além das certidões cíveis e criminais. Não há mesmo como vasculhar o coração do homem. E ninguém deve julgar.
Então, como fazer com a hipocrisia dos palacianos? Como aceitar que o juiz aceite suborno, que o defensor da lei seja o primeiro a descumpri-la? Como confiar numa pessoa que engana a sua esposa? Como confiar em quem detesta o mundo e os homens que nele habitam?
Esse é o desafio de todos nós. Vivemos numa sociedade complexa. O mundo é complexo. Nem sempre a justiça pública se fundamenta nos valores verdadeiros. Nem sempre os encarregados da administração da justiça são efetivamente pessoas que se preocupam em andar direito. E a maioria das pessoas enxerga isso como sendo normal: "uma coisa é o trabalho dele, outra é o lado pessoal".
Tudo bem. É assim, até certo ponto. Haverá um Dia em que até os palacianos serão julgados. Estarão eles sem nenhuma proteção institucional, sem foro privilegiado, sem máscaras, sem corporações. Estarão todos nus diante do Rei dos reis. Todos estarão atentos à prolação da Sentença Final. E naquele Dia todos serão iguais perante o Rei.

O estudante, a guerrilheira...e a moça da Amazônia

Chegamos ao liminar de mais uma eleição presidencial. Lembro que em 2002, ao fazer as considerações finais no último debate antes das eleições, na TV Globo, o candidato José Serra disse: "Temos aqui um metalúrgico, um professor, um nordestino e um radialista. Isso é muito auspicioso".
O metalúrgico-sindicalista-migrante era Luiz Inácio Lula da Silva, que viria a ganhar a eleição. O nordestino (nascido, porém, em Pindamonhangaba/SP) era Ciro Gomes, que fez sua vida no Ceará. O radialista era Anthony Garotinho - para mim ficaria melhor ele ter dito que Garotinho era o primeiro evangélico candidato a presidente da República no Brasil, mas radialista foi o que ele quis mencionar. O professor era o Serra. Aliás, não apenas professor, mas ex-líder estudantil.
Daqui a alguns meses sairá o metalúrgico e um novo presidente levará sua coorte para o Planalto. O nordestino Ciro tenta se firmar, sem muitas alianças, sem muito tempo de TV e sem muito empenho, talvez, de seu próprio PSB. Queria ser a alternativa à polarização PT-PSDB. Queria discutir o Brasil pós-Lula. Queria firmar uma posição de homem público que pensa o Brasil, progressista, chateado com o fisiologismo do PMDB, mas sem a força partidária de outros candidatos. E sem novidade.
Surge, nesse cenário, a senadora Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente, sucessora de Chico Mendes na luta acriana, mulher amazônida, evangélica que não faz disso uma plataforma. Admiro a postura de Marina Silva que, mesmo sendo membro da Assembleia de Deus, não aproveita essa condição para tentar arrebanhar os votos de milhões de evangélicos. Garanto que a maioria dos assembleianos não sabe que Marina Silva é da mesma igreja. Na verdade, eles sequer a conhecem. Mas ela surge com o seu projeto de desenvolvimento sustentável, com sua biografia limpa, com sua crítica inteligente, com sua experiência, com sua bonita história de quem aprendeu a ler com 16 anos para depois se graduar e se pós-graduar. Se Lula acha que sua história é a mais bela de todas as que surgiram "neste país" - expressão de seu gosto -, é bom atentar para o diferencial dessa senhora: ela estudou. Queria eu uma perífrase para a senadora Marina Silva, mas não vou chamá-la de seringueira, nem de assembleiana: chamá-la-ei de "moça da Amazônia".
Agora, os mais destacados candidatos são José Serra e Dilma Rousseff. Serra é o professor, o líder estudantil que precisou se exilar no Chile e depois estudou nos Estados Unidos. É o administrador público, o economista, o planejador. É o homem frio que consegue não ser candidato em sendo candidato. É o cérebro.
De outro lado nessa polarização à brasileira, temos a ex-guerrilheira com fama de técnica rigorosa. Sua história de militância extremista deve ser lida pelos eleitores. Ela queria derrubar o poder pela força. Para que? Para implantar a democracia? Não sei...Hoje é candidata à presidência pela vontade do popular presidente Lula da Silva. Ela nunca disputou eleições, mas é candidata ao cargo mais importante da República. A gerente passaria a ser chefe política. A ex-guerrilheira comandaria as Forças Armadas. A segunda pessoa do presidente seria a primeira pessoa do país.
Estamos assim: de um lado, a ex-guerrilheira estatizante; de outro, não menos esquerdista, o estudante. Não que a esquerda seja ruim, amados leitores. Mas essa polarização à brasileira é engraçada: os dois lados são ligeiramente diferentes, pois em José Serra não parece haver aquele empenho privatista que lhe querem imprimir. Ele ainda é, para mim, um esquerdista, com alguma inclinação ao centro.
De qualquer maneira, todos esses candidatos são os melhores que pudemos produzir, certo? A guerrilheira, o estudante, a moça da Amazônia...e a alternativa inominada chamada Ciro Gomes. Acho que é um grande progresso. Não há entre eles nenhum filho da ditadura, nenhum gangster, nenhum coronel do meu nordeste, nenhum deputado federal paulista procurado pela polícia internacional. Não há também nenhum político caindo de para-quedas contra tudo e todos, nenhum messias, nenhum candidato que surge do nada para produzir retrocessos.
Nada me faz proferir o meu voto. Não digo de jeito nenhum. Mas o leitor poderá escolher entre o estudante, a guerrilheira, a moça da Amazônia e a alternativa inominada Ciro Gomes. Ou entre os candidatos de partidos sem tempo de TV, alguns desejosos de aplicar uma política não respaldada na Constituição.
Sou, porém, um eterno pessimista com a política. É melhor ser pessimista, para ser surpreendido com o bem, do que ser cabo eleitoral para depois curtir frustrações. Pelo menos para mim.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Relíquias evangélicas

Um leitor anônimo fez o seguinte comentário ao texto "E disseram Macedo e Soares: 'Haja Valdemiro'. E houve."

"Bela materia, li recentemente o livro do Paulo Romeiro, suor carisma e controversia onde ele faz uma critica a mundial Infelizmente nao podemos mais dizer que somos evangelicos pois vamos ser confundidos com essa turma ai da idolatria e amantes das antigas RELIQUIAS catolicas.
Hoje me intitulo protestante quando me perguntam se sou evangelico" (Anônimo, neste blog).

E mais (não sei se do mesmo leitor):

"Que tal uma materia comparando as reliquias catolicas com as reliquias evangelicas ?"

Há duas questões fundamentais no comentário: as relíquias evangélicas e o problema do ser evangélico hoje.
Começo pelo segundo tema. Não creio que devamos abdicar do termo "evangélico". Tenho pensado sobre isso também, e escrito algumas coisas. Se somos evangélicos, se defendemos a fé evangélica, os que não são devem ser instados a deixar de usar erroneamente um nome que não lhes diz respeito. Precisamos dizer claramente à sociedade o que é o evangelicalismo, qual a definição de Evangelho e do movimento ao qual pertencemos. Se for muito explicarmos o evangelicalismo sociologicamente, ao menos devemos explicá-lo biblicamente - o que é, sem dúvida, o essencial.
Quanto às relíquias, que assunto formidável! Nós, evangélicos brasileiros, gostamos de materializar a fé. Isso chama-se "fetichismo": usar objetos com supostos efeitos espirituais. Já escrevi aqui neste blog sobre esse tema, e me referi, ainda, àquele negócio de viajar a Israel para ser batizado no Jordão. Isso é puro fetichismo, sacralização das coisas, dos seres inanimados. Materializar a fé é o mesmo que não ter fé. Quem precisa de objetos de fé não tem fé de verdade.
Tudo isso é fruto da ausência do ensino da Palavra de Deus, da exposição sistematizada e contínua da Bíblia. Pregações sensacionalistas e teologia de ouvido não levam a lugar nenhum. Talvez levem ao inferno.

Guilherme de Pádua - um proscrito - e os crentes

"Toda vez que saía da prisão, transferido, ou para ser julgado, havia uma multidão me esperando para xingar. Jogaram até cocô em mim. No meio daquilo tudo, estavam sempre dois ou três crentes com a Bíblia, pregando a paz. Eu os achava uns malucos, mas quem mais me tratava como gente?"

As palavras acima foram extraídas do artigo "Guilherme de Pádua, livre há 7 anos, diz se sentir preso", da Folha On Line, 15 de outubro de 2006. Na entrevista ao repórter Paulo Sampaio, o ex-ator, condenado pelo assassinato de Daniela Perez, em 1992, revela sua dificuldade em retornar ao pleno convívio social. E diz que a religião foi a única alternativa. Enquanto as pessoas estavam dispostas a linchá-lo, ainda havia alguém disposto ao perdão.
Segundo a reportagem, Guilherme de Pádua cumpriu um terço da pena de 19 anos, voltou à sua cidade (Belo Horizonte/MG), tornou-se membro da Igreja Batista da Lagoinha e se casou com uma moça da igreja. Pode-se afirmar que no Brasil as penas não são efetivamente cumpridas, que há muitos benefícios legais, que pouco mais de seis anos de prisão não é justo para um assassino. Todavia, essa foi a pena aplicada pela Justiça Penal, e isso o Guilherme de Pádua cumpriu. Dessa forma, o desafio agora é a reinserção social, tão difícil quanto a pena em si.
Mas o que me chamou a atenção na entrevista foi o fato de Guilherme de Pádua ter reconhecido naqueles crentes "com a Bíblia" uma demonstração de que nem tudo estava perdido. Para mim, que sou um tanto racional demais - o que reconheço -, ficar com a Bíblia na mão na frente de um fórum, apelando contra o linchamento ou dizendo que Jesus perdoa pecados, não é a melhor maneira de evangelizar. Mas foram esses irmãos que despertaram a fé no coração do homem condenado por homicídio.
Nos dias de julgamento do casal Nardoni, havia um homem com a Bíblia na mão, pregando contra a fúria da multidão. Perturbada, a massa queria bater no homem. O que é isso?
Lembro do filme O motim em que se retratava o problema dos "intocáveis" da Índia. Intocáveis eram pessoas que, por algum erro cometido, caíam em desgraça. Dessa forma, Guilherme de Pádua pode ser considerado um tipo de pária pela sociedade, que, não satisfeita com a condenação penal, impõe a condenação eterna.
Isso ocorre independentemente da pena. Mesmo se houvesse uma pena perpétua, o rapaz continuaria sendo visado como o eterno assassino. Sim, ele foi julgado e considerado culpado, mas a posição da sociedade em relação aos ex-presidiários precisa ser revista.
Não digo que seja uma situação fácil. Temos muitos preconceitos, e há casos de reincidência e real periculosidade. Mas não podemos simplesmente entregar essas pessoas ao limbo. Um meio de atenuarmos a nossa rigidez demasiada é pensarmos o seguinte: e se fosse eu no lugar dele?



O artigo da Folha pode ser encontrado no seguinte endereço:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u127056.shtml


domingo, 28 de março de 2010

E disseram Macedo e Soares: "Haja Valdemiro". E houve.

A revista Época traz uma reportagem sobre o "império" formado pelo "apóstolo" Valdemiro Santiago e sua Igreja Mundial do Poder de Deus. O título é sugestivo: "Milagres e milhões". Em suma, traça-se um perfil do líder da igreja, além da narrativa sobre seus bens mais vistosos, suas ligações políticas, seu avanço sobre a mídia e os problemas policiais e administrativos em que a igreja se envolveu.
Uma coisa que eu não sabia era que, à semelhança de três pastores da Mundial um dia desses, em Mato Grosso do Sul, o próprio Valdemiro já foi pego com armas em seu carro, no ano de 2003. Disse que era caçador, segundo a revista. Mas deixemos isso de lado...
Pensemos sobre o homem e seu estilo: alto, negro, rouco, simples, falador, carismático, apreciador de um chapéu de abas largas. Um homem que prega a cura extraordinária, com a proposta de voltar aos tempos de Jesus, à Igreja Primitiva. Faz-se um claro combate à Universal, de onde Valdemiro é dissidente desde 1998.
Notemos a proximidade entre os nomes de três igrejas que, de certo modo, são geneticamente relacionadas: Igreja Universal do Reino de Deus; Igreja Internacional da Graça de Deus; Igreja Mundial do Poder de Deus. Todas as três pretendem ser grandes: universal, internacional, mundial. Todas as três têm em seu nome a palavra "Deus". Todas as três enfatizam algum aspecto religioso: Reino, Graça, Poder...As semelhanças não são casuais. Elas vêm do mesmo bojo, da mesma cepa. São frutos da mesma árvore.
Acontece que Edir Macedo, da Universal, e R. R. Soares, da Internacional da Graça de Deus, são mais polidos. Edir Macedo, com aquele estilo de palestrante motivacional e mega-empresário das comunicações, faz seguidores desde 1977 com sua voz rouca e sotaque carioca, que todos os bispos e pastores da igreja imitam - até mesmo o defeito que o bispo tem na mão direita eles querem imitar! O Romildo Ribeiro Soares (esse é o nome dele) parece o Sílvio Santos evangélico, como alguém já observou, com sua fala mansa, seu jeito de professor e sua risadinha de gente boa. Mas Valdemiro é original...
Vejam bem: tanto Edir Macedo quanto seu cunhado Romildo Ribeiro Soares são os líderes que aparecem na televisão nacional e se colocam como referência para seus grupos. Todavia, sob sua proteção e incentivo existem as coisas mais curiosas que se possa imaginar: a "rosa do puxamento espiritual", o "shopping do céu", a "fogueira santa de Israel", o sal grosso, a "cruz com água sacrossanta e fluidificada", a "estola sacerdotal", a garrafa onde o "cramulhão" vai entrar, a "toalha de fogo". São tantas coisas que eu poderia fazer uma imensa lista.
Já escrevi aqui um artigo sobre isso, com o título Lembra do Super-homem e do Bizarro? Eles estão na Igreja evangélica brasileira. É isso. Os mocinhos posam de politicamente corretos - ainda que sem deixarem ocultas as muitas heresias. Nos bastidores, militam tenazmente os seus soldados.
Agora, porém, não é assim. Com Valdemiro, pelo menos tudo é mais sincero: ele mesmo aparece, ele mesmo, criatura formada por Macedo e Soares, sai de sua simplicidade de bastidor e ganha os holofotes, ganha as ruas, ganha o país, ganha canais de TV e rádio, ganha o mundo. Se Macedo e Soares queriam se aproveitar da liderança de pessoas como Valdemiro, deveriam atentar para o fato de que, um dia, esses homens iriam sair dos fundos da casa para se mostrar a todos, com seu jeito natural, com os fetichismos mais criativos.
Fico sabendo, ainda pela reportagem de Época, que Valdemiro deixa que seu suor seja dado aos "fiéis", que esfregam uma toalha com o suor do "apóstolo" em documentos e fotos. Além do detalhe sudoríparo e nada higiênico, estamos voltando - eu não, eles - ao medievalismo, em que todo objeto da Terra Santa era vendido para abençoar pessoas. Criticamos os católicos, mas somos seus iguais (essa é a tese do Rev. Augustus Nicodemus Lopes, em seu texto "A alma católica dos evangélicos no Brasil", no livro "O que estão fazendo com a Igreja"?).
O crescimento da igreja de Valdemiro é absurdo mesmo. Quer dizer que até 2012 eles podem ultrapassar a Universal? Que coisa!
O Brasil tem dessas. Da mistura de um milionário palestrante motivacional a um excelente comunicador de programa de auditório, sai um peão da fé, um populista do milagre, um representante das massas.
Nem vou me referir aqui ao "trízimo" (!) de Valdemiro, nem à sua autoproclamação apostólica. Referi-me à "teologia do suor", já está bom. Fiquemos ao menos com esse pensamento: Valdemiro foi apenas o primeiro. Macedo, Soares, fiquem espertos: foram vocês!

Onde encontrar o texto a que me refiro:

sábado, 27 de março de 2010

Correção ao texto Estudos sobre Herodes (3) - O genocídio

Acabo de retificar o artigo Estudos sobre Herodes (3) - O genocídio, depois de ler um texto da revista Ultimato, com o título Até Herodes, o Grande, se curva diante do Menino de Belém!, publicado na edição nº 323, março/abril, Ano XLII, p. 14, 2010.
No texto, dizem os redatores: "Não se deve pensar na morte de milhares de crianças e muito menos em 144 mil mortes - para combinar com a passagem do Apocalipse (14.1-5) - como alguns fazem. Tendo em vista o tamanho de Belém, o teólogo William Hendriksen supõe que teriam morrido de quinze a vinte crianças".
De fato, quando escrevi o texto, usei a palavra "genocídio", o mesmo que matança de um grupo étnico, milhares ou até milhões de pessoas. Mas, segundo o teólogo, como vimos, a cidade era pequena, o que se estende a seus arredores. Realmente, sempre soube que Belém era pequena, mas me veio a impressão errônea de que Herodes mandara matar todos as crianças judias com dois anos ou menos, talvez porque a família de Jesus precisou fugir para o Egito. Mas o texto bíblico é claro: tratava-se de Belém e seus arredores.
Sendo assim, mudei o termo para "infanticídio", que significa precisamente "assassinato de criança ou de crianças". No Direito, o vocábulo "infanticídio" é usado para um crime específico, cometido pela mãe contra o recém-nascido no que chamamos de "estado puerperal", abalada que está por problemas psicológicos ligados ao parto. É uma espécie de homicídio privilegiado, em que há crime, mas com pena menor por se considerar o estado emocional da mãe. No entanto, em acepção comum, pode-se usar o termo para a matança de crianças (faço a ressalva para não ser acusado de falta de técnica pelos meus colegas bacharéis em Direito).
Portanto, ficamos assim. A correção já consta do post.

Os caminhos da Justiça

Agora que o casal Nardoni foi condenado em primeira instância pelo homicídio triplamente qualificado e pela fraude processual, sinto maiores condições de me manifestar acerca do caso, quando, antes, havia escrito posts sobre o caráter substitutivo do processo e sobre a diferença entre justiça e justiçamento. Ainda assim, não gosto de me pronunciar publicamente sobre casos dessa natureza, mas tratarei de nuances não-processuais.
Notemos o comportamento de alguns atores nesse processo: o juiz Maurício Fossen, sempre demonstrando a serenidade e sobriedade que se espera dos juízes, não apareceu na TV, não permitiu que filmassem o julgamento, não deu opiniões pessoais sobre o caso e depois se recolheu à sua vida normal. O promotor Francisco Cembranelli demonstrou firmeza, objetividade e clareza de raciocínio, sabendo utilizar os meios de comunicação para dar satisfação à sociedade a respeito do seu entendimento do que havia ocorrido. O advogado Roberto Podval, cumprindo o que a Constituição denomina "função essencial à Justiça", colocou-se ao lado dos réus, necessitados de apoio, de conversa, de ouvido, de amparo jurídico. Esse tripé juiz-promotor-advogado andou bem. É assim que deve ser.
Entre os operadores do Direito, é comum dizer-se que ao juiz cabe a serenidade, o recato, o desapego à vaidade. Aos promotores cabe a indignação, a combatividade, o anseio pela justiça. Aos advogados fica bem a moderação, a capacidade de ponderar a versão dada pelo Ministério Público. É muito bom que cada um desses atores faça o melhor possível. Diss resulta o devido processo legal.
Nota-se que aquelas pessoas enfurecidas do lado de fora do prédio do Fórum de Santana ficaram satisfeitas com a pena de mais de 31 anos para Alexandre e de 26 anos para Anna Jatobá. Se queriam o linchamento, contentaram-se com a privação de liberdade. O juiz Maurício Fossen foi sensível à necessidade de resguardar a credibilidade da Justiça, e por isso manteve a prisão cautelar. Homem sábio. Também se pôde constatar ali como um juiz deve prolatar a sentença: sem fúria, sem parcialidade, sopesando a pena, apresentando os fundamentos, dando os artigos do Código Penal e de outras leis, mostrando, enfim, por que disse o direito daquela maneira e não de outra.
Quanto à mídia, houve excessos, mas, de um modo geral, a cobertura não foi ruim. O caso em si causava clamor público, sem nenhuma dúvida. Como é que um pai é acusado de defenestrar sua filha pequena do 6º andar do edifício, com a ajuda da madrasta? Causa clamor mesmo, surpresa, perplexidade, e por isso a imprensa deve estar preparada. Não posso criticar demasiadamente a cobertura "minuto a minuto" porque seria hipocrisia de minha parte, logo eu que, quando posso, entro nos sites, leio a Folha de S. Paulo, sigo o blog do G1, assisto aos programas de TV, tudo para ficar por dentro dos fatos. Até cheguei a ouvir, ao vivo, a leitura da sentença, o que para mim foi salutar porque, entre outras coisas, estava ali a Justiça dando satisfação à sociedade. Depois do crime e do julgamento, vem o juiz, com serenidade, dizer o direito (jurisdictio), em vez de nos reportarmos à força bruta.
É claro que eu gostaria de que muitos outros crimes fossem apurados como esse foi. Nunca vi um trabalho pericial tão divulgado, não me lembro. E é certo que nem todo crime recebe o devido tratamento pericial e policial. Mas aí chegamos ao problema social. Como diz minha esposa, a questão não é jurídica, mas social. Se todo mundo tivesse advogado e poder aquisitivo, as coisas seriam mais céleres e mais claras.
De tudo o que vi, entendo que nesse caso a Justiça foi feita. O Tribunal do Júri deu o seu veredicto. Assim deve ser o Estado de Direito. Que possamos aprender com esse episódio - que, aliás, só começou.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Joseph Ratzinger em situação difícil

Joseph Ratzinger, também conhecido como Papa Bento XVI, anda em situação difícil: repetem-se acusações de leniência quanto a crimes de pedofilia na Igreja Católica. Não se trata mais de ter que se manifestar sobre casos de abusos sexuais praticados por padres, mas de afirmar-se que o chefe católico foi omissso quanto a crimes cometidos quando de sua gestão num Arcebispado da Alemanha, além de sua suposta omissão quando de reiteradas cartas-denúncia que lhe foram enviadas quando já era cardeal e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.
As acusações são gravíssimas. Chega a conhecimento mundial a prática romanista de apenas mudar de paróquia os padres pedófilos.
Não se está diante de uma perseguição contra a Igreja Católica ou contra a pessoa de Joseph Ratzinger, mas da realidade de que essa Igreja age mal quanto a denúncias de crimes sexuais em seu seio. O problema não é que uma igreja tenha pastores corruptos, porque existem lobos. O problema é acobertar os lobos. Calar a verdade dos atos de criminosos é, de alguma forma, tomar parte em seus crimes. Merece pena aquele que, sabendo da existência de um crime, e conhecendo sua autoria, nada faz, deixa de comunicar às autoridades e faz de tudo para esconder as coisas.
O teólogo católico Hans Küng anda bem quando diz que o celibato é um dos maiores defeitos da Igreja Romana, mas creio que essa tolerância para com o pecado vai além do vício do celibato. Se padres impuros atacam menores por sua incontinência sexual desenfreada, bispos e outras autoridades parecem ter acostumado a fingir que isso não existe. Nesse caso o responsável não é somente o celibato, mas a arrogância, a prepotência, o orgulho, a vaidade.
Escrevendo aos coríntios, Paulo se dirige àqueles que, por sua jactância, toleravam um pecado sexual cometido por um de seus membros. A omissão daquela igreja era tão grande que o relacionamento sexual de um homem com a esposa de seu pai passou como coisa normal. Até mesmo para a promíscua cidade de Corinto parece, pelas palavras de Paulo, que o incesto era insuportável. Para os crentes coríntios, porém, dava para "engolir o sapo".
Gosto de repetir, quando tenho oportunidade, que a Igreja deve anunciar o Evangelho e denunciar o pecado. Não estou afirmando com isso que a Igreja Romana seja igreja segundo os padrões bíblicos. Mas, se pretende ser, está obrigada a denunciar o erro, a começar pelos seus.
Todavia, é impossível para uma igreja que se pretende mater et magistra, e que tem supostamente o "infalível" sucessor de Pedro como seu líder, aceitar que comete pecados. É difícil para um papa pedir desculpas. É impossível para o perfeito reconhecer pecados.



quarta-feira, 24 de março de 2010

A resposta de Ultimato a quem questiona sua seriedade

Conheço a revista Ultimato há muitos anos, desde a Universidade, que, por sinal, fica em Viçosa, onde a editora se encontra. A partir de 1996, quando comecei o curso de Direito, conheci a família do Rev. Élben Magalhães Lenz César, fundador e diretor da revista e da editora Ultimato, bem como fundador do Centro Evangélico de Missões, da Rebusca (entidade de ação social) e pastor emérito e fundador da Igreja Presbiteriana daquela cidade. A Ultimato veio para mim, naquela segunda metade da década de 90, como um rico material teológico e eminentemente cristocêntrico.
Hoje, ao folhear a revista de março/abril deste ano, que veio às minhas mãos no dia de ontem, deparo com a Carta aberta aos que questionam a seriedade da revista Ultimato. E que carta! De uma forma que nunca vi eles fazerem, os principais responsáveis pela revista - entre eles o Rev. Élben - respondem às críticas de ser ela esquerdista, pós-modernista, ecumênica no mal sentido, e de dar espaço a ideias de irmãos como Ricardo Gondim, devido ao seu teísmo aberto, e a Bráulia Ribeiro, devido a seus "exageros" - que, por sinal, a revista admite no próprio texto.
Repito que nunca vi a revista se manifestar de maneira tão forte quanto ao que dizem a seu respeito. Mas foi necessário. Por mais que eu discorde da teologia relacional de Ricardo Gondim ou da estranha forma de escrever da missionária Bráulia Ribeiro - que parece gostar de chocar -, eles são colaboradores, e não editores. Além disso, há maneira melhor de pedir que a revista selecione ou supervisione os textos de seus articulistas, como tenho certeza que fazem, o que também dizem expressamente no mesmo texto. Afirmar algum tipo de "neocristianismo" em Ultimato é demais.
Demais disto, quem conheceu o Rev. Élben, como eu, não pode achar que ele não seja cristocêntrico. O assunto preferido do Rev. Élben é Jesus. Disso não tenho dúvida nenhuma. Ele é cristão e reformado, mas muito mais cristão do que presbiteriano ou calvinista. É, na verdade, um dos cristãos que tive o imenso prazer de conhecer: humilde, sincero, íntegro, fervoroso, sábio, inteligente, bíblico, amoroso e trabalhador. Uma referência em tempos difíceis. Um imitador de Cristo.
Conversando com um pastor, cheguei a afirmar que me preocupa alguma tendência esquerdista na Ultimato, a partir de uma afirmação que ele fez sobre a revista. Todavia, hoje em suas páginas vi o artigo de Norma Braga intitulado Por que não sou de esquerda. Isso é o bom pluralismo. Continuo pensando que algumas tendências podem ser reexaminadas, como essa visão um tanto de esquerda. Mas essa é a minha opinião, que pode estar completamente errada - ninguém é obrigado a ser conservador como eu, e a revista é, sim, conservadora quanto à doutrina e conservadora quanto a homossexualismo, aborto, eutanásia. Não penso em cancelar minha assinatura por causa de eventuais diferenças de pensamento. Gosto de Ultimato. Ela tem mais valores do que defeitos. Muito mais valores.
O Rev. Élben foi o primeiro pastor a fincar raízes em Viçosa. Recordo que os batistas diziam ter chegado lá primeiro, mas foram embora, e voltaram quando a Igreja Presbiteriana de Viçosa já estava instalada. A ABU (Aliança Bíblica Universitária), de que participei ativamente entre 1997 e 1999, tendo sido presidente em Viçosa, começou naquela cidade por influência do Rev. Élben e do hoje presbítero Dayson, que também é pesquisador e foi presidente da FAPEMIG (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais). Na época em que chegou a Viçosa, seu Dayson andava assoviando hinos, a ver se algum crente o pararia na rua. Outros tempos aqueles. Poucos cristãos evangélicos e muitos católicos liderados por um padre que não desejava a permanência dos cristãos protestantes ali. Mas eles ficaram, cresceram e estão até hoje.
Dou esse depoimento porque acho injusto atacar a revista Ultimato da forma como alguns têm feito, sem responsabilidade e sem proporcionalidade.

Justiça e justiçamento

Um homem chuta o advogado Roberto Podval quando este retorna do almoço para o Tribunal do Júri. Ele também é vaiado. Cartazes pedem justiça e paz ao mesmo tempo em que dizem peremptoriamente que o casal é culpado. A família Nardoni é malvista pela massa, que clama pela condenação. Do lado de fora do prédio, esses "juízes" não querem justiça, mas justiçamento.
Certamente existe aí o fenômeno do bode expiatório: condena-se o casal antes da hora, sem legitimidade para qualquer decisão a respeito, não por um elevado sentimento de justiça, mas por uma projeção dos próprios pecados naqueles dois que se sentam no banco dos réus. A sociedade purga seus pecados, ou acha que o faz, quando vê alguém "pior": um acusado de assassinar a própria filha, jogando-a pela janela, e a madrasta, acusada de provocar asfixia. Será que esse pessoal é tão justo assim? São tão sensíveis quanto a outras questões como têm sido no Caso Isabella Nardoni?
Por que não há comoção em situações outras?
E mais: é errado imaginar que o Dr. Roberto Podval seja um carrasco por ter pedido que a mãe da menina Isabella ficasse à disposição da Justiça. O juiz deferiu o pedido, o que sugere sua legalidade. E não se pode falar em confinamento, pois todas as testemunhas são incomunicáveis. É bom recordar que foi o Promotor quem arrolou a mãe da menina como testemunha, o que fez provavelmente com fundamentos sólidos. Da mesma forma, esse direito assiste à Defesa.
Enquanto milhões de pessoas estão trabalhando no país afora, algumas se aglomeram em frente ao fórum, e algumas se exaltam. Condenam a família, condenam os advogados. Para essas pessoas, parece que o ideal seria voltarmos à Idade Média, com a ausência de defesa, ou à Antiguidade, com as ordálias dos povos "bárbaros" - em que, por exemplo, o acusado era jogado no rio: se sobrevivesse, é porque era inocente; se morresse, era culpado, e Deus o castigou com a morte.
Justiça é uma virtude. Justiçamento é um pecado. Se a defesa faz seu trabalho com esforço, há os demais componentes do tripé: julgadores e acusação. O sistema deve funcionar bem, e se o advogado for muito ruim o tribunal pode anular o julgamento por inépcia da defesa, já que todos têm direito ao devido processo legal, com ampla defesa e contraditório.
Não vou dizer o que penso sobre a culpabilidade ou inocência do casal Nardoni. Isso não cabe neste espaço, por uma série de razões. Reprovo, porém, o arbítrio e o julgamento precoce. Deixemos que o Tribunal do Júri tome a sua decisão soberana.



terça-feira, 23 de março de 2010

O "espinho na carne" de Paulo

Especula-se sobre o que seria o "espinho na carne" referido pelo apóstolo Paulo, segundo o qual se tratava de um "mensageiro de Satanás", que o esbofeteava, a fim de que ele não se exaltasse em razão das excelentes revelações. Não devemos procurar respostas quando a Bíblia se cala (cf. Dt 29.29), e por isso não temos como afirmar se Paulo tinha uma enfermidade ou qualquer outra coisa. Os teólogos apontam possibilidades: enxaqueca, doença nos olhos (devido a Gl 4.12-15 e 6.11), problemas físicos decorrentes do apedrejamento na cidade de Listra - mas nada é conclusivo.
O fato é que Paulo orou três vezes para ser liberto daquele "espinho na carne" e não obteve o que desejava. Deus lhe disse simplesmente: "A minha graça de basta. O meu poder se aperfeiçoa na fraqueza". Não sabemos o que foi o "espinho", mas sabemos qual a sua finalidade: dar a Paulo um limite, para que ele não se ensoberbecesse.
A expressão "espinho na carne" é uma metáfora, assim como o esbofeteamento de Paulo praticado pelo mensageiro de Satanás. Paulo sentia-se fustigado como que por um espinho, e agredido violentamente. Sabia que o inimigo tinha ódio dele, mas que todas as coisas só acontecem sob autorização divina. Paulo não "amarrou" Satanás, não se achou pior que os outros, não descreu em Deus, não ficou com raiva do mundo. Ele sabia que deveria sofrer por Cristo, pois isso lhe foi dito desde o início de sua caminhada cristã.
Ontem, quando eu dava aula sobre isso na Escola Bíblica Dominical, um senhor me perguntou se todo crente tem um "espinho na carne". Respondi que eu mesmo não tenho nenhum: "Tenho problemas, mas não tenho 'espinho na carne'". E expliquei: "Quanto mais se tem possibilidade de flutuar, maior deve ser o peso para prender ao chão". Como a capacidade de flutuação de Paulo era muito maior que a minha - dadas as revelações, que eu não tenho -, ele tinha seu "espinho". Eu tenho problemas, mas não considero que tenha algo parecido com o "espinho na carne". Admito, porém, que outros crentes podem passar por experiências dessa natureza com essa finalidade.
Quem tem maiores revelações recebe maiores responsabilidades - e talvez dores.

O caráter substitutivo da jurisdição e o Caso Isabella Nardoni

Em teoria geral do processo, os estudantes do Direito aprendem que uma das características da jurisdição é o ser substituta das partes. Em vez de resolvermos nossos problemas com as próprias mãos - o que é crime -, somos obrigados a entregar à Justiça a responsabilidade de apurar os fatos e punir os culpados. Esse é o sentido do processo. Com o Caso Isabella Nardoni, fartamente divulgado pela imprensa desde a morte da menina em 29 de março de 2008, isso fica muito bem ilustrado.
Com efeito, uma multidão se dirigiu ao Fórum de Santana, Zona Norte de São Paulo, para observar, pedir justiça, fazer protestos, por ocasião da instalação do Tribunal do Júri. A fúria da turba fez com que Antonio Nardoni, pai de Alexandre, fosse vaiado ao chegar ao fórum. Mas, por que ele foi vaiado? Por ser pai de um acusado de assassinato? Por ter dado tudo ao filho (casa, carro, curso, estágio)? Por pagar os advogados? Por achar que o filho é inocente? Por que mesmo aquele homem foi vaiado?
Fico pensando o que ocorreria se Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá fossem colocados no meio do povo. Graças a Deus, temos tribunais, temos códigos penal e de processo penal, temos leis, temos direitos e garantias fundamentais. Existe o juiz natural, o promotor natural, o devido processo legal, a ampla defesa, o contraditório, a Constituição. Se não fosse isso, teríamos a barbárie, o apedrejamento, o linchamento em praça pública. É necessário que as pessoas sejam acusadas mediante processo formal, perante um juiz previamente designado, sem contaminações. Isso é Estado de Direito.
É justo ficarmos indignados, mas cabe ao Tribunal do Júri a competência para julgar se o casal é culpado de homicídio triplamente qualificado e fraude processual. A instituição do júri é altamente discutível, pois os jurados não têm formação jurídica mas acabam julgando o direito, já que respondem se houve legítima defesa, por exemplo, instituto juridicamente concebido. Além disso, serão sete pessoas legítimas representantes do povo? Isso é passível de discussões, mas é o que temos hoje em nosso ordenamento jurídico, e são aquelas sete pessoas que irão decidir a vida de Alexandre e Anna Carolina. Ao juiz caberá dosar a pena e fixar o regime inicial de cumprimento da mesma.
Acompanho o noticiário e, dentre muitas outras coisas, percebo que o ser humano é o mesmo, não muda nunca. Se não houver aperfeiçoamento das instituições, a barbárie sempre falará mais alto. Somos embrutecidos. Perdoem-me os otimistas, mas nós não somos bons.

sábado, 20 de março de 2010

Estado contra Estado

A chamada "Emenda Ibsen", que já passou na Câmara, tem dado o que falar. Prestes a ser discutida no Senado, provocou uma passeata de mais de cem mil pessoas no Rio de Janeiro, contrárias à proposta de supressão dos royalties do petróleo, que somam 7 bilhões anuais ao Estado. O Espírito Santo deixaria de arrecadar 500 milhões por ano. No Rio Grande do Sul também houve protestos, pois algumas de suas cidades temem perder receita, por terem refinarias instaladas (Tramandaí, Imbé, Osório e Sidreira).
Esse projeto de emenda, que sai das mãos dos deputados federais Ibsen Pinheiro (PMDB/RS) e Humberto Souto (PMDB/MG), é uma coisa daquelas que eu nunca testemunhei em minha vida: políticos se posicionando francamente contra todo um Estado, ou mais de um Estado, como fez o deputado Ibsen Pinheiro, que, em suas declarações públicas, não tem feito questão de ser suave. Numa delas, disse que os Estados produtores de petróleo terão, no máximo, "vista pro mar, que já é maravilhosa" - engraçado é que ele é gaúcho e há muitos gaúchos chateados com ele!
O que está em jogo é o Pacto Federativo. Somos mesmo uma Federação? Cada Estado tem mesmo autonomia política? Então, os Estados não podem ser solapados em suas riquezas, ainda que se faça, com justiça, uma política de compensações e de desenvolvimento regional e nacional.
Ora, os Estados do Rio e do Espírito Santo, produtores de petróleo, já não recebem ICMS decorrente dessa produção, porque o mesmo é recolhido nos Estados consumidores. Isso já é uma perda considerável. Têm eles perdas ambientais, e, mais do que isso, é em seu território que se encontra a riqueza, assim como ocorrerá com a Bacia de Santos, em São Paulo, outro potencial prejudicado.
E se alguém quiser dividir os lucros advindos do minério de Minas Gerais, do leite do Rio Grande do Sul, do turismo do Rio Grande do Norte (esses exemplos são de Ruy Castro), do gado de Mato Grosso do Sul, da soja de Mato Grosso? Isso seria justo?
A União recebe bilhões com impostos federais, colhidos de atividades realizadas nos Estados e Municípios - lembremos, a União só se faz com os Estados e Municípios. Se isso já ocorre, por que retirar de Estados produtores aquilo que é de suas riquezas, aquilo que sai de suas entranhas, aquilo que demonstra sua "vocação natural"?
Bom, essas são apenas algumas ideias. Estou aberto à discussão.
Por ora, uma palavra ao doutor Ibsen: o povo do Rio de Janeiro poderia ser tratado com mais fidalguia.

Não é falta de respeito discutir o uso da ayahuasca

Tem sido inevitável debater o uso religioso da ayahuasca depois da morte do cartunista Glauco Villas-Boas e seu filho Raoni, pois Glauco era líder e fundador do Céu de Maria, núcleo da seita Santo Daime, e o assassino havia frequentado as reuniões daimistas para se livrar da dependência química.
No post O caso Glauco, Santo Daime e ayahuasca, publicado aqui no dia 14 de março, eu me referi à legislação brasileira e à necessidade de um controle social mais rígido sobre o uso desse chá que é, sim, alucinógeno, embora o uso religioso diga tratar-se de um componente que conduz ao autoconhecimento. Respeito a fé dessas pessoas, como espero que respeitem a minha, mas não posso deixar de registrar que para a ciência a ayahuasca é uma droga, e como tal deve ser tratada, em nome da saúde das pessoas envolvidas, principalmente menores de idade e aqueles que passam por doenças psíquicas.
Não estou só nessa questão. Os colunistas Carlos Heitor Cony e Bárbara Gancia, da Folha de S. Paulo, jornal para o qual Glauco trabalhava, escreveram artigos chamando a atenção para esse problema. Mesmo de luto, mesmo respeitando a liberdade religiosa, eles não hesitaram em tratar de um tema inevitável e importantíssimo, pois o que todos queremos é a promoção do bem-estar, e não uma guerra contra as seitas que usam a ayahuasca, palavra que vem do quéchua e que significa "cipó dos espíritos".
Se uma pessoa precisa tomar remédios com efeitos na psique, por menores que sejam, deve obter uma prescrição médica, e o remédio é "controlado". Isso quer dizer, grosso modo, que a farmácia irá reter a receita, a qual deverá conter os dados pessoais do paciente. Até mesmo com um tranquilizante inofensivo é assim que se procede. Por que, então, a ayahuasca não precisaria passar por um controle social mais rígido? Só porque se trata de um chá considerado sagrado? Onde estão, pois, outros valores constitucionais, como o direito à saúde e a proteção às crianças, adolescentes e pessoas com problemas emocionais?
Em exemplo extremo, mas não menos razoável, o direito brasileiro não admite o sacrifício de pessoas em rituais religiosos, em favor, claro, do direito à vida. Se protegemos o direito à vida, também devemos proteger a saúde, especialmente de indivíduos com alguma incapacidade, seja provocada pela idade, seja por alguma doença ou transtorno.
Aquela história de liberação do uso da maconha é típica de um Estado secularizado, em que se pensa em coibir apenas os problemas sociais como, nesse caso, o tráfico ilícito de entorpecentes e a violência, mas sem atentar para as carências individuais, sob a alegação de que essas coisas se encerram na esfera de liberdade do cidadão.
Não podemos esquecer que nossa sociedade admite o uso e a venda de cigarro, charuto e bebidas alcoólicas, não menos nocivos que a maconha. Por isso, seria desarrazoado centrar fogo apenas contra a maconha e a ayahuasca. Todavia, em qualquer circunstância, precisamos estar atentos a um controle social que leve em consideração a pessoa humana, que deve ser tratada em sua dignidade. Aliás, penso que para a grande maioria das religiões a pessoa humana é o valor mais sagrado de todos.
Dizer que houve um estudo sobre o uso religioso da ayahuasca é correto, assim como sua regulamentação demorou quase 20 anos. Mas isso não significa que houve representatividade nas discussões, nem que o debate tenha sido levado à sociedade. Havia, sim, representantes de grupos interessados, mas não de toda a sociedade. E disso talvez tenha resultado aquilo com o que mais me preocupo: a decisão de deixar com as mães o poder de permitir que seus filhos consumam o chá, da mesma forma que se fez com as gestantes. Pergunto: isso é certo?
Eu faria o mesmo raciocínio se evangélicos fossem defrontados com práticas abusivas. Se, acaso, pastores usarem suas igrejas para lavagem de dinheiro, estarão absolutamente errados e merecerão duras críticas.
Muitas críticas é o que tenho feito aqui neste blog, às vezes sendo acusado de criticar demais os meus "irmãos". Se eu não criticar os "de dentro", irmãos, que legitimidade terei para tratar de assuntos variados com alguma imparcialidade?
Portanto, continuo pensando a mesma coisa. Respeito imensamente as pessoas do Santo Daime, da União do Vegetal, da Barquinha, de todos os grupos que observam a ingestão da ayahuasca como chá sagrado. Entretanto, isso não me desautoriza a discordar e pedir maior controle sobre o uso desse chá.

sexta-feira, 19 de março de 2010

O pecado e as doenças

Pessoas com Depressão, Síndrome do Pânico e outras enfermidades emocionais sofrem preconceito de todos os lados, especialmente de crentes que atribuem a causa dessas doenças à falta de fé, ao pecado ou aos demônios. A origem de todos os males físicos é, sim, a condição pecaminosa universal, mas nem toda doença pode ser explicada por uma deficiência moral ou espiritual. Por outro lado, há mais doenças explicadas por pecados do que apenas as doenças psíquicas.
Vejamos o caso da glutonaria, que é pecado tanto quanto a incredulidade, a ansiedade ou a fúria descontrolada. Se não ter fé, ficar ansioso demais ou alimentar a raiva podem causar enfermidades emocionais, comer sem controle pode implicar em obesidade, diabetes, aumento do "colesterol ruim". O pecado de bebedice traz a doença do alcoolismo. Pecados análogos a esses são o uso de drogas, como a maconha, a cocaína, o LSD, o crack, a cola de sapateiro (à base de tolueno) e, por que não dizer, o alcatrão e a nicotina. Essas drogas trazem dependência, viciam, e seu consumo consciente e deliberado não agradam ao Criador. Deus não fez o Ser Humano para ele ser dependente de drogas, sejam naturais, sejam sintéticas.
Glutonaria e bebedices são dois daqueles pecados que atrapalham a saúde física. Não foram inventados pela Igreja Romana, mas se encontram na Bíblia mesmo, nos chamados "Catálogos de Vícios". Creio que a maioria das pessoas não se interessa muito por enxergar a glutonaria como pecado. E por isso muita gente sofre com doenças que poderiam ser evitadas, assim como incredulidade demais, ansiedade demais e raiva demais podem deprimir e/ou causar pânico, dependendo da natureza da enfermidade.
A Depressão pode ter causa eminentemente biológica, e há pessoas muito bem resolvidas que passam por ela. Também pode solapar a alegria e a disposição de quem já tem uma tendência à melancolia. Da mesma forma, pessoas podem ficar obesas por problemas como o tamanho do estômago, uma disfunção na tireoide ou porque comem demais. Precisamos ter cuidado em nossos julgamentos.

Temos que pagar tributo a Marx?

Dizem que "os alemães inventaram a teologia, os americanos estragaram e nós consumimos". Dos americanos vêm esses livros de autoajuda evangélica que enchem as prateleiras de livrarias e frequentam supermercados. Certa vez li uma crítica do Pr. Ricardo Gondim dizendo que já não aguentava mais ler aqueles exemplos de beisebol em livros evangélicos, totalmente descontextualizados para nós, o que entendo como a demonstração de que precisamos de teologia brasileira.
Por outro lado, não concordo com a noção de que uma teologia latinoamericana seria um outro tipo de teologia, pois a Palavra de Deus é uma só. Teologia latinoamericana deve ser entendida como teologia feita na América Latina, e não alguma espécie diferente, com doutrinas diferentes só porque produzida por gente do chamado Terceiro Mundo.
Vou direto ao ponto: refiro-me à Teologia da Libertação, que nem teologia ortodoxa é. Trata-se de teologia liberal, um fruto do Marxismo dentro da Igreja Romana e cativado por alguns evangélicos. Defender essa teoria teológico-marxista é como travestir o Evangelho de roupagem dialética e materialista, quando a Bíblia nos traz a mensagem do Reino de Deus, que não é deste mundo. Não quero dizer que devamos esquecer as questões políticas, econômicas e sociais, mas que introduzir conceitos humanos na leitura da Bíblia é um grave erro.
Deus criou o Ser Humano à sua imagem, mas os marxistas criaram um deus a partir de suas ideias preestabelecidas sobre a opressão econômica e social. Dizer que a origem de todos os males é a injustiça social consiste em um atentado às Escrituras e um reducionismo absurdo.
Concordo com a necessidade de produção de uma teologia brasileira, não porque precisemos reinventar a roda, mas, sim, porque as nossas perguntas podem ser distintas daquelas para as quais os europeus e americanos acharam respostas.
Se temos um Edir Macedo com sua abominável Teologia da Prosperidade, nem por isso precisamos ressuscitar a arcaica Teologia da Libertação. Ambos os extremos são perigosos.

terça-feira, 16 de março de 2010

Provérbios populares e outras coisas

Quando estava na Universidade, eu gostava de brincar com nomes fictícios de livros sagrados: Atos dos Apóstatas, Primeiro Livro de Heresias, Provérbios Populares. Mas a brincadeira, como dizem, tem um fundo de verdade...
Ontem, lendo a Folha de S. Paulo, lia a reportagem Empresários veem ex-ministro como avalista de Dilma quando deparei com a afirmação, logo no início do texto, de que a frase "Dize-me com quem andas e te tirei quem és" é bíblica! Imediatamente, enviei uma comunicação de erro à Folha, de que sou assinante, informando que a correção era pertinente por se tratar de um Livro que é, pelo menos, um dos mais importantes da Humanidade.
Hoje não vi a correção na seção Erramos, pode ser que eles a publiquem noutro dia ou que não o façam. Tudo bem. Mas não custa lembrar que o jornalista poderia ter pesquisado se aquela frase era mesmo bíblica, em vez de confiar no senso comum.
Sim, é do senso comum a suposição de que outras frases ganharam o registro escriturístico: "Faz a tua parte que eu te ajudarei"; "Não cai uma folha da árvore se Deus não deixar", dentre outras.
Bem, isso mais parece ideia para mais um livro de Ciro Sanches Zibordi, do tipo Erros que os jornais devem evitar.
Creio que tenho lido jornal demais. Mas não é de agora a minha percepção de que os jornalistas precisam tomar cuidado com informações supostamente bíblicas - sem falar nas jurídicas!
Jornalistas vivem dizendo que Pedro foi o primeiro Papa só porque a Igreja Católica o diz, sem absolutamente nenhum fundamento histórico ou bíblico a alicerçar essa tradição. Que mais? O leitor pode me ajudar com outras coisas ditas cem vezes e que, repetindo Goebbels (eita lugar-comum) se tornam "verdade"?

Carta dos "superapóstolos" a Paulo

Os apóstolos de Corinto, renomados em retórica e cheios de sabedoria humana e filosófica, ao apóstolo Paulo: saudações.
Sabemos que fundaste a igreja na cidade de Corinto, na Acaia, porto marítimo de grande importância comercial, polo cosmopolita em que convivem judeus, gregos e romanos.
Sabemos também que envias Cartas a diversas igrejas, com admoestações e doutrinas pretensiosamente espirituais e éticas.
Todavia, queremos lhe avisar que de agora em diante nós, os superapóstolos, administramos a igreja local. Isso mesmo: com o consentimento de pessoas importantes daqui, e seus diversos partidos eclesiásticos, passamos a destilar nosso conhecimento das coisas excelentes, cobrando o devido valor financeiro que os ouvintes pagam com prazer, dada a nossa alargada cultura. Além disso, a partir de nossos múltiplos saberes helenísticos, temos sido admirados por nossa brilhante retórica.
Tivemos a oportunidade de examinar alguns de vossos escritos, e, é necessário lembrar, confrontamo-los com vossas palavras quando presente entre nós. Foi constatada a fraqueza verbal e pobreza de oratória, contrastadas com exortações duras postas nos pergaminhos. Ora, Paulo, por que não mostraste tanto empenho e firmeza quando o vimos cara a cara? Seria algum temor ou dubiedade de sentimentos?
Nós aqui estamos serenos quanto ao trabalho que desempenhamos: pregamos a nossa justiça, somos bem aceitos pelo povo, apresentamos nossas obras a quem quiser ver. E todos se alegram com a nossa presença. É mesmo motivo de honra e orgulho para os coríntios, adeptos de novidades, que estejamos aqui com nossa erudição.
Não é sem razão, Paulo, que o convidamos a retomar sua vida antiga, quando, aos pés de Gamaliel, aprendia coisas elevadas sobre a doutrina dos hebreus. Lá o senhor cumpria um papel até valioso, como aprendiz, em vez de se arriscar em jornadas e pelejas nem sempre frutíferas.
Fique tranquilo, Paulo, que nós cuidaremos bem do rebanho.

P.S.: texto fictício que me veio à mente com a leitura do cap. 11 e de parte do cap. 10 da Segunda Carta de Paulo aos Coríntios.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Que diplomacia, hein?

O presidente Lula, candidato a estadista mundial, tem feito algumas coisas que demonstram com eficácia a sua terrível linha diplomática: apoia o enriquecimento de urânio pelo Irã, cujo presidente, Mahmoud Ahmadinejad, já disse claramente querer riscar Israel do mapa; em sete anos de governo, fez quatro visitas oficiais a Cuba e comparou os dissidentes cubanos em greve de fome aos presos de São Paulo; aceitou que Evo Morales, da Bolívia, fizesse pirotecnia com os investimentos brasileiros da Petrobras, sem dar nenhuma resposta em favor dos brasileiros; tomou partido de Manuel Zelaya enquanto a Corte Suprema de Honduras determinara a destituição daquele presidente por violação constitucional; afaga Hugo Chávez sempre que pode, sendo este um projeto de ditador latinoamericano.
Agora, em sua pretensiosa visita a Israel e à Palestina, quebrou o protocolo de maneira grave: deixou de visitar o túmulo de Theodor Herzl, fundador do movimento sionista, que criou o Estado de Israel - mas vai visitar o túmulo de Yasser Arafat, que foi terrorista. Será que foi por acaso que o Chanceler israelense, Avigdor Liebman, não compareceu ao discurso de Lula no Parlamento de Israel?
Essa diplomacia de Lula causa estupor. Não posso deixar de comentar como acho estranhas as aparições do Sr. Marco Aurélio Garcia, que carrega o pomposo título de "assessor especial da presidência para assuntos internacionais". A cada declaração o Sr. Garcia consegue se superar. Dessa vez, quanto aos dissidentes cubanos, ele saiu-se com duas pérolas da desumanidade: "O governo brasileiro relaciona-se com governos, não com dissidentes" e, antes disso, "violações de direitos humanos ocorrem no mundo inteiro". Foi ele o mesmo que se viu um dia apertado com a divulgação de cenas em que fazia gesto obsceno quando o Jornal Nacional, da Globo, mostrava que o acidente com o avião da TAM em 2007 pode ter sido causado por falha mecânica, e não pelas péssimas condições da pista do aeroporto.
Voltando a Lula, hoje, em Israel, ele disse ter sido contaminado com o "vírus da paz" quando ainda estava no ventre de sua mãe. Ele deve ter tomado algum remédio contra esse vírus quando se recusou a interceder pelos dissidentes cubanos. Sim, senhores, paz e direitos humanos têm tudo a ver. O direito à paz é um dos chamados "direitos globais" ou direitos de terceira geração, ao lado do direito à qualidade de vida, ao meio ambiente saudável e ao desenvolvimento sustentável. Se Lula tem mesmo esse vírus da paz instalado em seu pensamento, deve estar muito bem tratado por seus assessores, a exemplo do Marco Aurélio Garcia, ou talvez sua virose seja seletiva.
Além disso tudo, não é pequena a pretensão do presidente brasileiro ao viajar a Israel e à Palestina para se colocar como artífice de um processo de paz que nem os Estados Unidos nem a ONU conseguem desatar.
Tudo bem, os esquerdistas mais fanáticos me dirão que tenho aquela baixa autoestima própria da cultura brasileira quando confrontada com a imensidão do mundo, mas eu lhes direi que não é baixa autoestima, mas pé bem firmado no chão. Aquele conflito, amigos, não é para nós resolvermos. Vamos tentar resolver nossas pendências aqui: a absurda concentração demográfica nos grandes centros urbanos, a desigualdade social, o apodrecido sistema político, o injusto endinheiramento dos bancos, a violência urbana, a violência rural, a pesadíssima carga tributária sem a contrapartida em serviços públicos de qualidade, a prostituição infantil e sexual, o trabalho escravo, a invasão de estrangeiros em nossa floresta amazônica com objetivos contrários ao interesse nacional, o tráfico de drogas etc.
Lula usa dois pesos e duas medidas. Aos irmãos Castro, uma aplicação canhestra do princípio da não-intervenção; a Israel, uma pose de diplomata mundial, que aparece para dar lições de paz aos briguentos do mundo.
Excelente pergunta foi feita a Lula por um repórter israelense: "Se o senhor fosse presidente em 1398, 1939, apoiaria Hitler, como apoia Ahmadinejad"? Sem saber o que dizer, o folclórico presidente saiu-se com essa: "Esse tipo de pergunta é tão radical quanto Ahmadinejad". Mas nada explicou, como sempre.

domingo, 14 de março de 2010

O caso Glauco, Santo Daime e ayahuasca

Temos assistido aos desdobramentos dos crimes que ceifaram as vidas do cartunista Glauco, da Folha de S. Paulo, e de seu filho Raoni. As primeiras notícias diziam que se tratava de uma tentativa de assalto ou de sequestro. Depois, tudo mudou: o assassino seria Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, frequentador ou ex-frequentador da seita do Santo Daime, da qual Glauco era um dos principais líderes. O rapaz era conhecido da família e da comunidade do Céu de Maria, lugar fundado por Glauco para os rituais com o chá alucinógeno chamado "ayahuasca".
De assaltante ou sequestrador, o indivíduo passou a ser apresentado como alguém que apareceu batendo nos familiares de Glauco e no próprio cartunista, e lhe pedindo que fosse até São Paulo para convencer sua mãe de que era Jesus Cristo. A história não está muito clara, mas dá conta de que, ao chegar da faculdade, Raoni discutiu com Carlos Eduardo ao ver seu pai ensanguentado, e os tiros foram disparados, dez ao todo. O rapaz fugiu num carro com outro jovem. Havia várias testemunhas.
Há muitas coisas que eu gostaria de comentar, a começar pelo tratamento que a imprensa vem dando ao caso: como lembra Reinaldo Azevedo, da "Veja", no texto Daime, inconsistências e absurdos, tem-se classificado o Santo Daime como "doutrina cristã", coisa que ele não é. Seu fundador, um seringueiro chamado Raimundo Irineu Serra, o Mestre Irineu, misturou cristianismo, espiritismo e xamanismo, a partir de seu contato com um xamã peruano. Assim nasceu o Santo Daime, com um discurso de que o chá da ayahuasca levaria à autoconsciência, ao encontro com Deus, à espiritualidade. Mas, só porque ele chama sua doutrina de Cristianismo, a imprensa não precisa fazer essa afirmação peremptória. E não é de Cristianismo que se fala porque, entre outras coisas, a Bíblia reprova a pharmakeia, ou seja, a prática de feitiçaria em suas diversas formas, e especialmente o uso de plantas com efeitos "espirituais" (qualquer semelhança com "fármacos", ou "drogas", não é mera coincidência).
Outra coisa que me incomoda: jornalistas têm chamado a comunidade "Céu de Maria" de "igreja", palavra eminentemente neotestamentária, que não pode ser dissociada de seu conteúdo cristão: igreja, do grego ekkesia, é a assembleia tirada para fora. Numa alusão às assembleias gregas, chamadas para a praça com o objetivo de discutir temas civis ou políticos, a ekklesia é o nome que se dá ao povo de Deus, aos que foram chamados para fora do mundo, para fora das trevas, para fora do reino do Inimigo, a fim de adentrarem ao Reino de Deus. Curiosamente, os mesmos jornalistas não hesitam em chamar igrejas evangélicas de "seitas".
Dentro disso, algo me chamou a atenção: numa reportagem no Jornal Hoje, depois da morte de Glauco e de Raoni, a repórter, falando sobre o Santo Daime, disse que "alguns médicos consideram a bebida alucinógena". Não, senhora, não são "alguns médicos". É a medicina mesmo, a ciência.
A ayahuasca é uma bebida alucinógena, usada por índios amazônicos, e composta pelo cozimento de um cipó e da folha de uma planta, a "rainha". O cipó tem propriedades alucinógenas, por causa do componente DMT, que, conforme reportagem de "Veja", em 1996, com o título A seita do barato - a qual cito abaixo - não pode ser absorvido pelo organismo. O chá só tem efeito alucinógeno porque a planta "rainha" neutraliza a ação da enzima que impede a absorção. Por isso, há a alteração do estado mental, e a pessoa chega a "miragens", o mesmo que as "viagens" das pessoas usuárias de drogas.
Na referida reportagem de "Veja", li histórias sobre suicídios, um assassinato e até um esquartejamento envolvendo pessoas "daimistas" - consumidoras do chá. Ao lado do aspecto um tanto romântico da seita - pela participação, no passado, de artistas como Lucélia Santos, Maitê Proença, Ney Matogrosso e Carlos Augusto Strazzer, e da origem amazônica, há relatos macabros de crimes cometidos por pessoas que, de repente, saíram de si. Também há a notícia de que as comunidades daimistas exercem coerção sobre pessoas jovens, tirando-as de suas famílias, muitas delas ricas ou de classe média.
Numa dessas histórias, aparece o cartunista Glauco, na década de 1990. Uma moça chamada Verônica, cuja mãe lutava para ter sua guarda, teria obtido a ajuda de Glauco para ir à Colônia 5000, um dos redutos do Santo Daime. A moça foi e não mais voltou (pelo menos até a data da reportagem de "Veja"), segundo o relato de sua mãe, Alicia Castilla, ex-daimista.
Por questões de liberdade religiosa, o Estado Brasileiro não proscreveu o uso da ayahuasca, desde que no contexto dos rituais religiosos.
A Resolução nº 05/2004, do Conselho Nacional Antidrogas (CONAD), preceitua que cabe aos pais, e somente a eles, a decisão sobre dar ou não ayahuasca a seus filhos menores. Esse poder de decisão foi entregue também às grávidas.
As crianças recebem o chá desde a tenra idade, e não há controle sobre quem tem problemas mentais ou não - muito menos sobre interações medicamentosas, como exemplificado naquela clássica pergunta dos médicos: "Você toma algum remédio"?, justamente para evitar misturas indevidas. E, cá para nós, não é difícil haver pessoas com problemas mentais sem saber que os têm, principalmente num país em que psiquiatra é "coisa de doido".
Creio que a abordagem desse caso deve ser a mais imparcial possível, como em todos os casos. Nisso mais uma vez concordo com Reinaldo Azevedo, segundo o qual o advogado da família não falou de início que se tratava de alguém conhecido. Se as informações não forem as mais precisas, os crimes podem ficar sem apuração eficaz, notadamente quanto às circunstâncias, à relação do autor com as vítimas e à motivação dos crimes - elementos essenciais para a reconstrução da cena e a dosagem da pena ou estabelecimento da medida de segurança, para a hipótese de se tratar de um surto ou doença qualquer que impediu o rapaz de entender o que fazia e de se conduzir de acordo com esse entendimento.
A ordem jurídica brasileira permite o uso religioso da ayahuasca em nome da liberdade de religião e em defesa da cultura indígena.
O que diz a Lei nº 11.343/2006, que estabelece a Política Nacional de Combate às Drogas?
"Art. 2º. Ficam proibidas, em todo o território nacional, as drogas, bem como o plantio, a cultura, a colheita e a exploração de vegetais e substratos dos quais possam ser extraídas ou produzidas drogas, ressalvada a hipótese de autorização legal ou regulamentar, bem como o que estabelece a Convenção de Viena, das Nações Unidas, sobre Substâncias Psicotrópicas, de 1971, a respeito de plantas de uso estritamente ritualístico-religioso".
Hoje, com base em decisões do CONAD e nos estudos produzidos pela Câmara de Assessoramento Técnico- Científico (CATC) e pelo Grupo Multidisciplinar de Trabalho, que contou com a representação de entidades adeptas do chá, o uso religioso da ayahuasca é permitido dentro de algumas balizas, dentre as quais uma das mais difíceis é, na minha concepção, proibir o tráfico e selecionar criteriosamente as pessoas que podem ingerir o chá.
Isso se dá em nome da liberdade religiosa e do respeito às culturas indígenas. Todavia, quando se trata de saúde e de ordem social, precisamos nos preocupar. Esse caso do cartunista Glauco talvez abra os olhos da sociedade - não sou tão otimista assim - para os problemas relacionados ao uso de substâncias psicotrópicas, e da necessidade de um controle social que dependa de debates mais apurados do que os entabulados até agora.




Achei o texto de Veja (A seita do barato) em:

O texto de Reinaldo Azevedo (Daime, inconsistências e absurdos) pode ser encontrado em:

A regulamentação atual do uso religioso da ayahuasca encontra-se descrita no Relatório Final do Grupo Multidisciplinar de Trabalho - Ayahuasca.

http://www.ayahuascabrasil.org/index.php?op=legis101


Resolução nº 05, de 2004, do CONAD:

http://www.ayahuascabrasil.org/index.php?op=legis100

sexta-feira, 12 de março de 2010

Não existe esse dualismo platônico, não

Nestes dias, tenho escrito alguns textos sobre política e generalidades: cotas para negros, Tancredo Neves, dissidentes cubanos, férias dos juízes, violência, judeus importantes, sala onde está preso o governador José Roberto Arruda. São assuntos variados. Embora este seja um blog voltado a estudos e ensaios bíblicos, há também espaço para quaisquer assuntos que me venham à mente. Mas, por quê? Simplesmente porque esses assuntos chamam a minha atenção.
Quando leio o jornal, o que tenho feito todos os dias, vou para a parte de política. Minha esposa gosta de ciências, mas eu gosto de política. Gosto também do direito e de temas religiosos. Não fico lendo apenas livros teológicos. Não leio somente a Bíblia. E, quando assisto TV, procuro ver vários jornais, assistir a mesma notícia em emissoras diferentes. É um passatempo. Então, quando escrevo sobre temas "sensíveis" ou polêmicos ou difíceis para um evangélico, não o faço tanto por missão, mas por prazer.
Todavia, por mais que eu veja nisso mais um prazer do que uma missão, entendo não existir aquele dualismo que muitos evangélicos veem entre mundo, de um lado, e espiritualidade, de outro. Reino de Deus, de um lado, e sociedade, de outro.
Será que não compreendemos que o Romanismo ainda persiste em não querer sair de dentro de nossa mentalidade? Ora, isso é fruto dos ensinos de Agostinho, para quem o mundo estava dividido em bom e mau, espírito e matéria, corpo e alma, algo importado de Platão. Para Platão, o mundo não passa de uma cópia muito ruim da dimensão ideal, que é superior e perfeita. Para os Gnósticos, há o dualismo entre o mundo espiritual (superior, bom) e o mundo material (inferior, mau). Por isso, com esse aporte platônico e agostiniano, a Igreja Católica separou as coisas em sagradas e profanas, mas nas coisas profanas colocou a política, a sociedade, a ciência, a tecnologia, o direito, a cultura. E nós evangélicos aprendemos isso!
Tudo o que Deus criou é bom, incluindo o Ser Humano (v.g., Gn 1.31). Só o pecado é ruim, porque não provém de Deus. Sociedade, cultura, política, filosofia, ciência e tecnologia são itens sujeitos à ação do bem e do mal. O diabo não criou nada, apenas deturpou: havia a sexualidade criada por Deus e o diabo criou o adultério, a masturbação, a prostituição, as relações pré-maritais, a impureza, a lascívia. Havia o trabalho e o diabo criou a exploração econômica e social. Havia o senhorio humano sobre o meio ambiente e o diabo criou o uso irracional dos recursos naturais. Havia a cultura e o diabo criou a perversão com o nome de cultura. Havia a palavra falada e o diabo criou a fofoca. Havia a administração e o diabo criou a dominação. Havia a força e o diabo criou a violência.
Digo que o diabo criou essas coisas porque introduziu o pecado no mundo, mas houve a participação fatal da Humanidade, que inventou práticas erradas ou deu ensejo à condenação divina.
Sendo assim, não devemos assimilar conceitos platônicos, gnósticos ou agostinianos para deixar de tratar de assuntos considerados não espirituais ou pouco "santos". Tudo o que vem de Deus é bom.
Não estou afirmando que todo blogueiro deva escrever sobre diversos assuntos, mas que eu escrevo, primeiro porque gosto, segundo porque creio que seja importante.
Não há profetas nas igrejas - ainda creio nisso! -, mas há a missão profética da Igreja. Não conheço profetas individuais, mas conheço o profetismo da Igreja de Cristo, chamada para anunciar o amor de Deus e denunciar o pecado. E o pecado, já faz tempo, deixou de ser apenas sexual ou doutrinário - ou nunca foi apenas sexual nem apenas doutrinário (quero dizer, o pecado não se resume a praticar relações sexuais ilíticas ou publicar uma Bíblia de Estudos cheia de heresias. A criatividade humana é maior que isso).

Pastores de armas

Não errei no título: meu objetivo não era escrever "pastores de almas", mas "pastores de armas" mesmo. Vimos ontem na televisão como três pastores foram presos em Campo Grande/MS, dois deles trazendo muitas armas de grosso calibre, que seriam vendidas para traficantes de drogas do Rio de Janeiro/RJ. Os pastores, interceptados na estrada pela Polícia Rodoviária Federal, delataram um terceiro. Todos são da Igreja Mundial do Poder de Deus, aquela do "apóstolo" Valdemiro Santiago.
É triste admitir que já tínhamos sabido, também pela imprensa, de pastores envolvidos em crimes contra o patrimônio e coisas dessa natureza. Ninguém vai se acostumar com isso jamais, nem deve. Isso é um escárnio. E essa notícia agora de pastores vendedores de armas é qualquer coisa de inominável.
Alguém dirá que isso é caso isolado; que não pode entrar para as estatísticas; que a igreja não tem culpa de nada; que os indivíduos eram falsos pastores. De fato, esses argumentos são razoáveis, mas há que se chamar a atenção para o aspecto da banalização do ofício de pastor. Se qualquer pessoa pudesse assumir essa função, não haveria tantos requisitos nas Cartas Pastorais, escritas por Paulo.
Traficantes de armas? Enquanto pastores e outros cristãos sobem os morros das favelas do Rio para lutar contra o mal ali instalado, salvando inúmeras vidas, esses três homens vendiam armas para traficantes de drogas!
A palavra "pastor" é uma das mais belas que conheço. Não consigo ver nela a pecha de iniquidade que lhe querem emprestar. O pastor é um cuidador de ovelhas, um homem dotado de um dom especial, um vocacionado, um apascentador, um homem de família, amoroso, gentil, hospitaleiro, apto a ensinar, cordial, sensato. Acima de tudo, uma pessoa chamada para cuidar de outras pessoas a partir dos conselhos da Bíblia. Quando uma pessoa ostenta o nome de "pastor" e pratica crimes, isso para mim é uma zombaria tão grande, algo que não se encaixa.
Tomemos sempre o cuidado de verificar o que a Escritura diz sobre os Últimos Dias. Haverá "lobos devoradores" introduzidos nas igrejas, falsos profetas e falsos mestres, ladrões, libertinos, ímpios, mentirosos, hereges, amantes dos prazeres. Eles estão entre nós.
Mas a certeza dos "sinais dos tempos" não pode ofuscar nossa sensibilidade. Não podemos nos acostumar com isso, como fazem os simpatizantes de um governo corrupto só porque ele dá dinheiro aos pobres. Deve haver indignação, sim, deve haver tristeza, sim, deve haver descontentamento, sim. E para não ficarmos acabrunhados nem amargurados, lembremos dos bons exemplos, dos "nossos guias" de que fala a Epístola aos Hebreus no capítulo 13. Há bons exemplos. Há seguidores de Jesus. Há os que lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro. Jesus é bom e vai voltar para buscar Sua Igreja. Essa é a minha esperança. Ele virá.

Justiça é só para os outros?

O ministro Cezar Peluso, que tomará posse na presidência do STF em 23 de abril, disse ontem numa entrevista à Folha de S. Paulo que, embora concorde com as férias de 60 dias para juízes, não vai entrar em "batalha perdida" e defender a manutenção do atual regime. Quando enviar ao Congresso o projeto de Lei Orgânica da Magistratura, em substituição à de 1979, proporá férias de 30 dias, como todo trabalhador brasileiro.
As associações de magistrados não gostaram. Qual a justificativa? É aquela lógica interna, própria da mentalidade comum a juízes e membros do Ministério Público: nas férias, eles aproveitam para decidir processos parados, aliviar a carga processual, além de levarem processos para casa nos finais de semana e não receber pelos plantões. É isso.
Todavia, essa justificativa não é plausível de jeito nenhum. Como eu disse, decorre de uma lógica que pouca gente consegue entender. Se há serviço demais, que trabalhem por mais concursos para juízes e criação de varas especializadas. Que proponham mudanças significativas para a celeridade processual. O problema deve ser enfrentado de maneira objetiva, não deixando a solução para a subjetividade de cada magistrado, que pode escolher entre trabalhar nas férias ou gozar 60 dias. E há ainda aquela história de vender férias, consumindo dinheiro público.
A Bíblia tem inúmeras passagens sobre os juízes. Eles devem ser justos em suas decisões, não aceitar prêmios indevidos, valorizar o critério ético. Essa é sua função. Quando uma classe que deveria lutar pela justiça passa a usar um critério de ética muito particular e corporativista, a sociedade pode se considerar em grave estado de deterioração.

Fale comigo!

Gostaria de estabelecer contato com você. Talvez pensemos a respeito dos mesmos assuntos, e o diálogo é sempre bem-vindo e mais que necessário. Meu e-mail é alexesteves.rocha@gmail.com. Você poderá fazer sugestões de artigos, dar idéias para o formato do blog, tecer alguma crítica ou questionamento. Fique à vontade. Embora o blog seja uma coisa pessoal por natureza, gostaria de usar este espaço para conhecer um pouco de quem está do outro lado. Um abraço.

Para pensar:

Um dos terríveis problemas da Igreja evangélica brasileira é a falta de conhecimento da Bíblia como um sistema coerente de princípios, promessas e relatos que apontam para Cristo como Criador, Sustentador e Salvador. Em vez disso, prega-se um "jesus" diminuído, porque criado à imagem de seus idealizadores, e que faz uso de textos bíblicos isolados, como se fossem amuletos, peças mágicas a serem usadas ao bel-talante do indivíduo.

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Bases de Fé

Creio:
Em um só Deus e na Trindade.
Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristão.
Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal e sua ascensão aos céus.
Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor.
No batismo bíblico em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo.
Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus, através do poder do Espírito Santo.
No batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a intercessão de Cristo.
Na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja para sua edificação, conforme a sua soberana vontade.
Na Segunda Vinda de Cristo.
Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo.
No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis.
E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.