quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

DISCERNINDO OS TEMPOS

O “ESPÍRITO DA ÉPOCA”.
Para começar nosso estudo, leiamos o texto de Rm 13.11 em diferentes traduções:

“E digo isto a vós outros que conheceis o tempo: já é hora de vos despertardes do sono; porque a nossa salvação está, agora, mais perto do que quando no princípio cremos” (ARA).

“E isto digo, conhecendo o tempo, que já é hora de despertarmos do sono; porque a nossa salvação está agora mais perto de nós do que quando aceitamos a fé” (ARCF).

“Façam isso, compreendendo o tempo em que vivemos. Chegou a hora de vocês despertarem do sono, porque agora a nossa salvação está mais próxima do que quando cremos” (NVI).


Nesta passagem, o apóstolo Paulo trata da necessidade prática de “despertarmos do sono”, diante da iminente consumação de todas as coisas, pois “a nossa salvação”, a que Paulo se refere, é a redenção do nosso corpo, a glorificação dos salvos.
Aqui recordamos do conceito neotestamentário de “Últimos Dias” (“Ultimo Tempo”, “Última Hora), etapa escatológica que começou com o Bloco Histórico-Redentivo (encarnação, vida, sofrimento, morte, ressurreição e ascensão de Cristo) e se encerrará com o fim da História.
“Sono” está relacionado a letargia, abandono à própria sorte, dormência, entorpecimento, alienação. Despertar do sono é deixar essa condição de alheamento e tomar a atitude correta perante a realidade, de acordo com a vontade de Deus.
Mas, para esse despertamento, é fundamental conhecer, compreender ou discernir o tempo, ou seja, avaliar, diagnosticar e interpretar o tempo em que vivemos, não o tempo no sentido cronológico (chronos), mas a natureza do tempo histórico (kairós), o conjunto de características que o definem. Com a expressão “espírito da época” (zeitgeist, em alemão) se quer aludir às tendências, ideologias, princípios, valores, crenças e filosofias de determinado período.
Precisamos, então, compreender o espírito da época.

UM POUCO DE HISTÓRIA.
A Pré-História foi o período anterior à Descoberta da Escrita, dividido em Paleolítico (Idade da Pedra Lascada), Neolítico (Idade da Pedra Polida) e Idade dos Metais. Na Bíblia, os onze primeiros capítulos do Livro de Gênesis cobrem a Pré-História.
A Idade Antiga ou Antiguidade estendeu-se da Descoberta da Escrita até 476 d.C, quando ocorreu a Queda de Roma ante os povos bárbaros. Foi na Idade Antiga que se desenvolveram as civilizações (sumérios, mesopotâmios, egípcios, babilônios, hebreus, medo-persas, gregos e romanos, entre outros).
O Homem Antigo era basicamente politeísta e imerso num ambiente repleto de mitos, que empregava para explicar o mundo, a natureza e a própria humanidade. Foi na Antiguidade que se formaram a astrologia, o misticismo, o dualismo (matéria e espírito), o panteísmo.
A Idade Média ou Idade Medieval durou de 476 até 1453 d.C, ocasião em que a cidade de Constantinopla, antiga Bizâncio, foi tomada pelos turcos otomanos (muçulmanos), tornando-se Istambul (Turquia). Esse período seria caracterizado, por Petrarca, como a “Era das Trevas”. Havia o predomínio da Igreja Católica Apostólica Romana, e a centralidade do dogma religioso, da tradição. Não houve grande avanço no conhecimento humano, que se reservava à própria Igreja; as técnicas eram insipientes, a cultura era embebida de religiosidade, e as artes eram sacras. Os teólogos mais importantes do período foram Agostinho de Hipona (354-430 d.C.) e Tomás de Aquino (1225-1274 d.C.).
A Idade Moderna começou em 1453 e se estendeu até 1789 d.C., com a Revolução Francesa. Nesse tempo houve grandes eventos históricos e transformações profundas na Europa Ocidental, com repercussões em outros continentes.
Foi na Idade Moderna que teve lugar a Renascença (Renascimento), entre os Sécs. XIV e XVI, quando a Europa Ocidental redescobriu o pensamento, a literatura e as artes grego-romanas (Antiguidade Clássica).
Despontou o Humanismo, com o destaque a valores humanos. O Antropocentrismo (centralidade do Homem) substituiu o Teocentrismo (centralidade de Deus). A frase de Protágoras, homem da Antiguidade Clássica, define bem o Antropocentrismo e Humanismo: “O homem é a medida de todas as coisas: das que são enquanto são, e das que não são enquanto não são”.
Aquele foi o período de desenvolvimento da Ciência Moderna, que se desprendeu da Filosofia e da Religião. Surgia ali o Empirismo, isto é, a doutrina segundo a qual se devem extrair conclusões a partir da experiência, e não da revelação.
Foi também a Idade Moderna a Era dos Descobrimentos, com a Descoberta da América (1492) e do Brasil (1500), por exemplo, no contexto das Grandes Navegações, pelo que se operou a Colonização da Ásia, da África e das Américas.
A Reforma Protestante (1517) e a Contrarreforma (a partir de 1545) foram eventos da Idade Moderna, assim como o Iluminismo, movimento filosófico baseado no enaltecimento da Razão, e tendo como expoentes figuras como Voltaire, John Locke e Jean-Jacques Rousseau.
O Racionalismo e a Secularização foram marcas da Idade Moderna. Com o Racionalismo se operou um realce da Razão em lugar da Religião e da Tradição. Com a Secularização houve um distanciamento do Homem em relação ao Sagrado e à autoridade da Igreja.
O Liberalismo ou Modernismo Teológico teve suas raízes no Racionalismo e Iluminismo, e por isso se inclinou, em suas diversas correntes e autores, a uma descrença em doutrinas bíblicas, como a operação de milagres, a concepção virginal de Maria, a ressurreição e volta de Cristo.
Nasceu a chamada “Alta Crítica”, método de análise bíblica pautado por racionalismo, e, nessa esteira, surgiram teorias documentárias, que buscavam explicar a formação dos Livros da Bíblia, não a partir da inspiração pelo Espírito Santo, mas da interpretação que Israel e a Igreja conferiam aos acontecimentos que testemunhavam.
Por exemplo, Rudolf Bultmann, um diácono luterano, criou seu “programa de demitologização” (ou demitização) da Bíblia, uma forma de explicar naturalmente o que se deu subrenaturalmente.
A Idade Contemporânea teve início em 1789, e perdura até os nossos dias.

MODERNIDADE.
A Modernidade, nascida na Idade Moderna, atravessou os séculos XVIII, XIX e XX.
O Homem Moderno viveu um otimismo baseado na supremacia da Razão em relação à Fé, e na esperança de que a Ciência ensejaria o progresso e a paz mundial. Seus valores fundamentais eram a liberdade, a igualdade, a fraternidade, a autonomia e a emancipação.
Para o Homem Moderno o critério da verdade era a Razão, na Ciência ou na Filosofia.
O Homem Moderno passou a ser um livre-pensador.
Alguns homens são essenciais para se compreender a Modernidade. São eles Charles Darwin, Karl Marx, Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud.
O inglês Charles Darwin, por meio de seu livro “A Origem das Espécies”, disseminou a Teoria da Evolução, o que veio a enfraquecer paulatinamente a crença na doutrina da Criação.
O judeu-alemão Karl Marx, ao lado de seu amigo Friedrich Engels, postulou o Materialismo Histórico e Dialético, bem como o Socialismo Científico, propondo que a História se desenvolve a partir da luta de classes (Capital x Trabalho), que “a Religião é o ópio do povo”, que os problemas fundamentais de uma sociedade são gerados por questões como a propriedade dos meios de produção e a mais-valia. Assim, em lugar do Pecado, passou-se a admitir outra causa essencial para os problemas e conflitos humanos, minando-se, desse modo, a responsabilidade individual. Vale observar que Marx era de uma família protestante (luterana).
O alemão Friedrich Nietzsche trouxe a ideia de que a religião cristã enfraquece o Homem, pois as virtudes cristãs iriam contra a necessária “vontade de poder”. É de Nietzche a célebre frase “Deus está morto”, pelo que o Homem deveria viver de acordo com os valores por ele mesmo estabelecidos.
O judeu-austríaco Sigmund Freud, considerado “o Pai da Psicanálise”, desenvolveu uma teoria em torno da compulsão sexual e de traumas da infância, fatores que seriam determinantes no comportamento humano.
A Era Moderna foi a era das grandes narrativas, ou seja, dos grandes esquemas de interpretação e explicação da realidade, como o Marxismo, as demais utopias socialistas, o Liberalismo, a Social Democracia. O Comunismo, baseado nas ideias de Marx, ganhou revigoramento por meio dos estudos do comunista italiano Antonio Gramsci e da Escola de Frankfurt, agora não mais com teor revolucionário, mas ideológico e cultural (Marxismo Cultural).
Houve na Modernidade uma fuga da religiosidade, por causa do Materialismo e do Cientificismo.
O filósofo polonês Zigmunt Bauman chama a Modernidade de “Modernidade sólida”.

PÓS-MODERNIDADE.
As sementes da Pós-Modernidade foram lançadas no Séc. XX:
O terror das duas Guerras Mundiais, a Primeira (1914-1918) e a Segunda (1939-1945), fragilizou a ilusão da paz mundial. O homem viu o quanto ele pode ser destrutivo e maligno em relação ao seu semelhante.
O Existencialismo (do francês Jean-Paul Sartre, entre outros) substituiu a preocupação com a essência do Homem pela ênfase na existência. O existencialista lida com os conceitos de caos, absurdo, ansiedade, angústia, alienação. Para ele, o Homem deve ser definido, não de acordo com suas intenções e potencialidades, mas conforme aquilo que ele realiza para ser feliz e superar o mal que a existência lhe oferece.
A Revolução Sexual dos Anos 60, estimulada pela invenção da pílula anticoncepcional; o Movimento Hippie; o Festival de Woodstock e o Maio de 68 foram eventos emblemáticos de uma contracultura que se levantava contra a autoridade, os pais, a tradição, a ordem estabelecida.
O Fim da Guerra Fria (capitalistas x comunistas), representada pela Queda do Muro de Berlim (1989) e pelo Colapso da União Soviética (1991), sepulparam a Modernidade, dando ensejo à Pós-Modernidade.

O HOMEM PÓS-MODERNO.
Há quem prefira denominar a Pós-Modernidade como “Hiper-Modernidade” (Gilles Lipovetsky), pois, enquanto “pós” sugere a ideia de algo que vem depois, substituindo o que é anterior, “hiper” dá a noção de uma exacerbação, já que, segundo essa hipótese, os valores hiper-modernos são os mesmos valores modernos, porém aumentados.
Zigmunt Bauman chama a Pós-Modernidade de “Modernidade líquida”, porque se amolda facilmente às novas situações, sem possuir uma forma definida.
O Homem Pós-Moderno, diferente do Moderno, é tomado pelo pessimismo. Ele se desencantou com as grandes narrativas, com a Razão e com o progresso.
Em lugar do Antropocentrismo – centralidade do Homem – tem-se o Subjetivismo – a centralidade de “cada homem”.
O Relativismo Filosófico consiste no entendimento de que não existe verdade absoluta (“tudo é relativo”), o que produz o Relativismo Moral, pelo que “tudo é permitido”. Um traço do Relativismo é o Situacionismo: a verdade dependerá da situação.
De acordo com o Pluralismo, coexistem muitas verdades, sem que haja valores universais, e, quando essas verdades são expressas em diferentes culturas, se fala em “Multiculturalismo”.
O Hedonismo é o culto ao prazer, que se pode exprimir em prazer sexual, poder político, status social, vaidade espiritual, entretenimento, consumismo.
O Utilitarismo é uma filosofia ética pautada pela vantagem auferida, e seu critério de verdade é “o que dá certo”, e não “o que é certo”. Uma premissa básica do Utilitarismo é o “princípio do bem-estar máximo”.
O Pragmatismo, intimamente relacionado ao Utilitarismo, constitui uma doutrina filosófica segundo a qual uma teoria vem a ser comprovada por seus resultados práticos.
O Privatismo é a tendência de definir os próprios conceitos e o comportamento individual independentemente de convenções, tradições e instituições.
O Homem Pós-Moderno vive uma crise de identidade e de pertencimento.
Na Pós-Modernidade, aspira-se a uma “religiosidade sem religião”, buscando-se uma espiritualidade desvinculada de compromissos e instituições. Deseja-se o bônus, mas sem o ônus, numa aversão às instituições, tradições, convenções sociais, formalidades e enraizamento.
A Era da Informação deixa o Homem Pós-Moderno sempre conectado, mas sem sabedoria e sem conhecimento. É ele um omni-channel, ligado a muitas plataformas, mas, ao mesmo tempo, fragmentado e superficial.

SINAIS DA PÓS-MODERNIDADE NA IGREJA.
OS “DESIGREJADOS”.
Um dos fenômenos pós-modernos verificados no que diz respeito à Igreja é o que se tem chamado de “desigrejados”, que consiste numa grande quantidade de pessoas que se dizem cristãs, mas não querem pertencer a nenhuma igreja formal.
Não se trata daqueles que, por algum motivo (conflitos, abuso espiritual, dificuldades de relacionamento, questões doutrinárias e teológicas), deixam de congregar temporariamente, mas de uma disposição no sentido de manter a fé cristã sem os compromissos institucionais dela advindos.
São pessoas que, por exemplo, se contentam em assistir cultos ou pregações pela internet; não querem contribuir financeiramente; não pretendem se submeter a uma liderança pastoral; não se encaixam ou não se identificam com nenhuma tradição eclesiástica; costumam lembrar da corrupção de uma parcela dos líderes de igrejas como pretexto para não aderir a nenhuma denominação; se definem como avessas à “religiosidade”, ao “formalismo religioso”, ao “farisaísmo”, ao “fundamentalismo” e ao que eles entendem por “evangélicos”.
Essas pessoas poderiam recordar do texto de Hb 10.25 e Pv. 18.1

HERESIAS DO “NEOPENTECOSTALISMO”.
O chamado “Neopentecostalismo” pode ser definido, grosso modo, como um movimento extremamente heterogêneo que, partindo de postulados pentecostais, ganhou autonomia ao se afastar da autoridade e suficiência das Escrituras, sendo caracterizado por sinais evidentes de pós-modernidade, como o utilitarismo, o pragmatismo, o hedonismo, o relativismo, o pluralismo, o consumismo religioso e o privatismo.
Algumas das heresias ou movimentos ligados ao Neopentecostalismo são a Teologia da Prosperidade (Confissão Positiva); a Cura Interior; a Maldição Hereditária; a Cobertura Espiritual; o G12 e M12; o Restauracionismo; a Igreja Emergente; a Adoração Extravagante; as Igrejas-corporação; a Autoajuda evangélica; a Restauração do Ministério Apostólico; o Movimento Judaizante; os Atos Proféticos; conceito de “geração” (“geração de Daniel” etc.).
Há no Neopentecostalismo ênfase em ações de propaganda e marketing, descompromisso com a objetividade das Escrituras, sensacionalismo, emocionalismo, falsos apóstolos (II Co 11.13; Ap 2.2), triunfalismo.

“IDEOLOGIA É A NOVA HERESIA”.
Na Pós-Modernidade, algumas ameaças importantes contra a Fé Cristã se encontram na Teologia da Missão Integral, no Feminismo, nas “Igrejas inclusivas” (Agenda Gay) e no Politicamente Correto.



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Um dos terríveis problemas da Igreja evangélica brasileira é a falta de conhecimento da Bíblia como um sistema coerente de princípios, promessas e relatos que apontam para Cristo como Criador, Sustentador e Salvador. Em vez disso, prega-se um "jesus" diminuído, porque criado à imagem de seus idealizadores, e que faz uso de textos bíblicos isolados, como se fossem amuletos, peças mágicas a serem usadas ao bel-talante do indivíduo.

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Em um só Deus e na Trindade.
Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristão.
Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal e sua ascensão aos céus.
Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor.
No batismo bíblico em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo.
Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus, através do poder do Espírito Santo.
No batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a intercessão de Cristo.
Na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja para sua edificação, conforme a sua soberana vontade.
Na Segunda Vinda de Cristo.
Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo.
No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis.
E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.