segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Minha homenagem à memória do Professor Peter Klassen

Com tristeza recebi a notícia de que no dia 23 de dezembro faleceu repentinamente o meu querido professor de Teologia Pr. PETER KLASSEN. Soube disso na sexta, dia 26, pela manhã.
Conheci o Pr. Peter neste ano de 2008, em Campo Grande-MS, na Faculdade Theológica (FATHEL). Tive com ele apenas uma disciplina, Teologia Prática, mas desde então criamos uma boa amizade. O Pr. Peter era uma pessoa alegre, simples, inteligente, cujos olhos claros irradiavam simpatia, assim como seu sorriso farto em meio à barba branca indicavam um misto de experiência e disposição. Era também um homem trabalhador, que eu encontrava muitas vezes digitando num dos computadores da faculdade. Ele tinha projetos.
Por coincidência, numa conversa descobrimos que um dos tios de minha esposa, o Pr. Hitoshi Watanabe, fora colega de seminário do Pr. Peter em Londrina (no ISBEL). De algum modo, me senti honrado, ainda que tenha sido o tio de minha esposa, e não um tio meu. Afinal, eu queria mesmo houvesse qualquer vínculo com o Pr. Peter - mas nós tínhamos: éramos irmãos em Cristo, comprados pelo sangue precioso do nosso Salvador.
Eu conversava com o Pr. Peter sobre algumas coisas de minha vida, principalmente acerca de algumas querelas, digamos, teológicas...E ele me deu conselhos, como "Escreva um artigo para a editora de sua denominação. Por que não"?
Dei um material para o Pr. Peter ler e dar sugestões. Ele disse que eu poderia ser útil escrevendo, que eu tinha vocação para isso, que eu poderia empregar a escrita e atingir um número maior de pessoas...
Em nossa derradeira conversa, na biblioteca da FATHEL, numa tarde em que, se não me engano, fui pegar o histórico escolar - porque estava de mudança para a Bahia - falei de um projeto que eu estava concebendo, e ele me disse, entre duas estantes de livros: "Quando estiver pronto, quero ser o primeiro a ler". Creio que foram as últimas palavras que ouvi dele.
Ora, tenho absoluta convicção de que a despedida do Pr. Peter foi preparada por Deus. Depois de entregar seu trabalho à faculdade, o SENHOR o levou para as paragens celestiais. É assim que vejo.
Se eu puder ser o mais sincero e leal à memória do meu querido Professor, direi o seguinte: queira Deus eu possa conter em meu coração um pouco do ideal que movia o prezado e inesquecível Professor Pastor PETER KLASSEN.
Que Deus conforte a todos nós, os que ficamos.

sábado, 27 de dezembro de 2008

EVANGELHO E AMIZADE - o que uma coisa tem que ver com a outra?*

Definição de amizade.
Segundo o Mini Dicionário Aurélio, amizade é o “sentimento fiel de afeição, estima ou ternura entre pessoas que em geral não são parentes nem amantes...; ternura”. Para o mesmo dicionário, amigo é aquele que “é ligado a outrem por laços de amizade” (idem).
A amizade é uma afeição, digamos, gratuita. As pessoas ficam amigas “de graça”. Enquanto os parentes têm o amor familiar, e os cônjuges, o amor conjugal, a amizade é um amor diferente, que não se explica pelos laços sanguíneos nem pela parceria afetivo-sexual.
Dito de outro modo: todo mundo espera que os parentes e cônjuges se amem; mas a amizade entre as pessoas é um sentimento que se explica por si.
Agora, o que a amizade tem que ver com o Evangelho? Façamos um estudo acerca disso.

Exemplos de amizade na Bíblia.
Deus e Abraão – Abraão foi chamado de “amigo de Deus” (II Cr 20.7; Tg 2.23). Por quê? Porque Abraão conversava com Deus, confiava n’Ele inteiramente e se mostrava fiel. Enquanto todos os outros deuses são tidos como inacessíveis, o Deus de Abraão é Aquele que deseja um relacionamento de amizade com o ser humano.
Deus e Moisés – Deus falava a Moisés “face a face, como qualquer fala a seu amigo” (Ex 33.11).
Rute e sua ex-sogra Noemi – Sem nenhuma obrigação legal, e numa situação de calamidade, Rute declarou fervorosa amizade à mãe de seu marido morto (Rt 1.16).
Davi e Jônatas – Davi e Jônatas eram muito amigos. O Texto Sagrado diz que “a alma de Jônatas se ligou com a de Davi” (I Sm 18.1). Sua amizade era tão verdadeira que mereceu registro nas Escrituras Sagradas. Havia companheirismo e lealdade, a ponto de Jônatas salvar a vida do amigo por mais de uma vez, contra a vontade de seu pai, o rei Saul (ver I Sm 18.1-4; 19.1-10; 20.1-43).
Paulo e Tito – em certa passagem da vida, o apóstolo Paulo só ficou confortado depois que recebeu a visita de seu amigo Tito (II Co 7.5-7).
Os amigos de Jesus de Nazaré – Além de uma relação de Senhor e servos, Mestre e discípulos, Jesus estabeleceu com os Doze Apóstolos uma relação de amizade, algo mais profundo do que a relação de senhorio (Jo 15.13-15).
Num dia em que multidões se aglomeravam em torno de Jesus, a ponto de se atropelarem, Ele se dirigiu especialmente aos Seus discípulos, chamando-os de “amigos” (Lc 12.4).
Havia, porém, amigos mais próximos, como Pedro, Tiago e João, que Jesus levava consigo em ocasiões especiais (ver em Mt 17.1-8; Mc 9.2-8 e Lc 9.28-36 o episódio da Transfiguração; e Mt 26.36-46; Mc 14.32-42; Lc 22.40-46, na oração no Getsêmane, quando, ao se afastar para orar, Jesus levou somente Pedro, Tiago e João, embora os demais discípulos também estivessem ali).
Dentre os três amigos mais chegados, João era o discípulo a quem Jesus amava, e os textos demonstram claramente que ele tinha maior intimidade com Jesus do que qualquer outro discípulo (Jo 13.23-25 e 21.20).
Havia também os irmãos Lázaro, Marta e Maria, todos amigos de Jesus (Jo 11.5). O próprio Lázaro foi chamado por Jesus de “nosso amigo Lázaro” (Jo 11.11).
Jesus foi reconhecido como “amigo de publicanos e pecadores” porque comia e bebia com eles, sem preconceito (Mt 11.19; Lc 7.34).
E, mesmo sabendo que Judas Iscariotes estava ali para o entregar aos soldados, Jesus o chamou de “amigo” no Jardim do Getsêmane (Mt 26.50).
Aprendemos, assim, que o Homem Jesus tinha amigos, uns mais chegados que outros. Isso ocorreu porque é natural ao Ser Humano construir relações mais profundas que outras, amizades mais íntimas que outras.
No entanto, quando se trata da amizade de Cristo com Sua Igreja, precisamos compreender que Jesus é Amigo de todos os que nasceram de novo. Veremos isso em outro tópico.

O que a Bíblia diz da verdadeira amizade.
A verdadeira amizade é contemplada na Bíblia como uma coisa muito boa, uma relação saudável e valiosa. Senão, vejamos:
• O amigo mostra compaixão ao aflito (Jó 6.14).
• O amigo ora pelos seus amigos, ainda que eles se revelem falsos (Jó 42.10; c/c 6.27 e 16.20). No Sl 35, Davi afirma que tratou como amigos uns homens que depois se revelaram seus inimigos (ver vv. 13-16).
• O amigo ama “em todo o tempo”, e na angústia “nasce o irmão” (Pv 17.17).
• O “conselho cordial” do amigo é comparado ao “óleo e o perfume”, pois alegra o coração (Pv 27.9). Na profecia de Isaías, Jesus Cristo é chamado de “Maravilhoso Conselheiro” (Is 9.6) porque Seus conselhos são perfeitos e produzem milagres na vida de quem os recebe.
• Não se deve abandonar o amigo (Pv 27.10).
• A amizade é importante na formação do caráter, assim como o ferro que se afia com o ferro (Pv 27.17).

As limitações da amizade humana.
No Sl 41.9, texto messiânico, o salmista Davi prevê o momento em que até o “amigo íntimo” de Cristo levantaria o calcanhar contra Ele. Algo semelhante está no Sl 55.12,13, quando o salmista, também se referindo profeticamente a Cristo, diz que suportaria a afronta de um inimigo, mas não de um amigo íntimo, companheiro e homem igual a ele. Essa dor é maior.
A profecia do Sl 41 cumpriu-se em Jo 13.18, quando Jesus disse que um que comia do mesmo pão que Ele lhe levantaria o calcanhar. Esse homem foi Judas Iscariotes, o traidor. Judas traiu não apenas uma religião – ele traiu uma amizade.
Num contexto de crise nacional, o profeta Jeremias foi perseguido por amigos íntimos (Jr 20.10).
Por causa de uma doença e da pobreza repentina, Jó foi abandonado por todos os seus amigos íntimos (Jó 19.19). Seus parentes e conhecidos fizeram o mesmo (Jó 19.14). Mas certamente a dor maior não veio da distância de parentes e conhecidos – o pior é ser deixado pelos amigos íntimos.
Parece que Davi também foi desprezado por amigos devido a uma doença (Sl 38.11). Isso ele podia esperar de adversários, talvez até de vizinhos e conhecidos (Sl 31.11), mas não de amigos íntimos. Só que isso às vezes acontece, como o Salmo sugere.
O salmista Hemã, de igual modo, expressou em poesia a dor de ser abandonado pelos próprios amigos (Sl 88.8,18).
O difamador separa os maiores amigos (Pv 16.28).
Curiosamente, o mesmo autor de Provérbios diz que “o homem que tem muitos amigos sai perdendo; mas há amigo mais chegado do que um irmão” (Pv 18.24). O que isso quer dizer? A Bíblia Anotada traz uma tradução alternativa: “Um homem com amigos demais será quebrado em pedaços”. E dá a seguinte explicação: “Amigos indiscriminadamente escolhidos podem trazer problemas, mas um verdadeiro amigo permanece fiel na alegria e na tristeza” (p. 812).
Há “amigos” que aparecem aos montes quando alguém fica rico, mas, ao mesmo tempo, fica o pobre desamparado de seus amigos (Pv 19.4). Essa é a amizade interesseira, que, na verdade, não é amizade coisa nenhuma. São os amigos que surgem quando o indivíduo ganha na loteria, tão-somente para gastar sua fortuna; e que desaparecem assim que a riqueza se esvai.
Há “amigos” que são bajuladores dos que dão presentes (Pv 19.6). Dependendo da situação, comportam-se como capachos.
Numa sociedade afastada de Deus, o profeta Miquéias precisou dizer para não se confiar no amigo, e para não se falar nada àquele que reclina a cabeça sobre o seu peito (Mq 7.5-7). Esse é um cenário de problemas familiares e sociais, bem parecido com o que temos hoje no mundo.
Devido às muitas limitações da amizade humana, há quem perca a esperança. Mas a amizade é um bem precioso, que deve ser construído como num processo. De toda maneira, há uma amizade que transcende todo sentimento humano, e que só Jesus Cristo pode ofertar.

Jesus, o Amigo Incomparável.
Jesus apresenta-se como SENHOR, Mestre, Rei, Pastor, Noivo, Juiz, Primogênito, mas também como Amigo. Ele é o maior Amigo, o verdadeiro Amigo.
Por que Jesus é o maior Amigo?
Jesus sempre está disposto a nos ajudar;
Jesus sempre tem tempo para Seus amigos;
Jesus tem conselhos maravilhosos (Is 9.6).
Jesus é fiel;
Jesus é leal;
Jesus não muda;
Jesus não mente.
E, o que é mais importante, Jesus deu a Sua vida por nós, quando ainda éramos Seus inimigos.
É até possível que alguém dê sua vida por um amigo. Mas só Jesus Cristo ofereceu sua vida por Seus inimigos.
A amizade de Cristo implica em intimidade, conhecimento mútuo, diálogo aberto e lealdade.
Vejamos a seguir, com base bíblica, em que consiste a amizade de Cristo.

O Evangelho é a oportunidade de fazer as pazes com Deus.
Em Rm 5.7-11, Paulo explica o Evangelho de uma forma muito clara: mesmo que dificilmente, pode ser que alguém se anime a morrer por um justo, por uma pessoa boa; mas Deus prova o Seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós sendo nós ainda pecadores. De fato, quando ainda éramos inimigos de Deus, Ele enviou Seu Filho para morrer pelos nossos pecados, para nos reconciliar. Agora, tendo recebido a reconciliaçao, e sendo, portanto, amigos de Deus, “seremos por ele salvos da ira” (v.9), “seremos salvos pela sua vida” (v.10). Isto porque agora somos amigos de Deus, fizemos as pazes com Deus.
Paulo escreveu que “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (II Co 5.18-20), e nos deu a palavra ou o ministério da reconciliação. Isto significa que o mundo estava em conflito com Deus, e que Jesus Cristo veio fazer as pazes entre Deus e os homens. Como um mediador, advogado ou conselheiro, Jesus Cristo veio restaurar a amizade do Homem com Deus, perdida na Queda (Gn 3.1-7).
Com Sua morte na Cruz, Jesus Cristo derrubou “a parede da separação”, que era a “inimizade” (Ef 2.11-22). Quem era estrangeiro, passou a ser da “família de Deus”; quem era peregrino passou a ser “concidadão dos santos”; quem era gentio (pagão) passou a ser parte da “comunidade de Israel”; quem estava longe foi aproximado pelo sangue de Jesus.

Conclusão.
Há muitas formas de explicar o Plano de Salvação, mas percebo que a mensagem cristã evangélica não tem sido compreendida pela sociedade, talvez por nossa incompreensão pessoal da essência do Evangelho.
Espero que esta palavra sobre a amizade e o Evangelho tenha contribuído para um entendimento do que Jesus Cristo fez pela Humanidade.
*Material preparado para pregação no Culto do Amigo, na Congregação da Assembléia de Deus do Riacho do Mel, em Alagoinhas-BA, a ser realizada no dia 28 de dezembro de 2008.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Ética Bíblica

Definição de ética.
Ética divina e ética humana.
Por que a Bíblia é um Código de Ética?
A Lei de Moisés.
Os Dez Mandamentos.
Ética Cristã.
O Sermão do Monte.
Conclusão.


Definição de ética.
Ética é o conhecimento do bem e do mal, do certo e do errado, do justo e do injusto. Está relacionada ao caráter, à moralidade, aos bons costumes, ao que é bom e justo, ao que é direito, honesto.
A palavra “ética” vem do grego ethos, e significa estilo de vida, costumes, conduta ou prática. Aparece 12 vezes no Novo Testamento , enquanto o plural, ethes, surge uma só vez, em I Co 15.33 (“costumes”). É importante também ressaltar que o vocábulo “ética” decorre diretamente do texto bíblico, e assim se difundiu pelo mundo .


Ética divina e ética humana.
Além da ética divina, existe a ética humana, secular ou filosófica.
Antes da Queda, Adão e Eva alimentavam-se da ética divina. Deus dizia qual o procedimento correto.
A tentação da Serpente foi no sentido de que eles se tornassem como Deus, sabendo o bem e o mal. Ou seja: a tentação para que Adão e Eva comessem da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal significou uma insinuação de que eles poderiam escolher seus próprios caminhos, independentemente de Deus, e, assim, podendo se tornar autônomos, independentes, emancipados.
Veja os textos de Gn 2.16,17 (mandamento e consequência) e Gn 3.1-7 (tentação e Queda).
A tentação colocou em dúvida a Palavra de Deus; lançou a idéia de que o mandamento divino era uma tortura; lançou a idéia de que comer da Árvore proibida era necessário; lançou a idéia de que viver com Deus era mais negativo do que positivo, com uma proibição supostamente injusta; lançou a idéia de que Deus não queria que eles se tornassem como Ele, sabendo o bem e o mal, quando, na realidade, Deus queria que eles se conduzissem de acordo com a ética divina, e não com a ética pessoal.
Ali houve o pecado, que é basicamente desobediência à Palavra de Deus.
A morte, como consequência do pecado, é separação de Deus. Tem os aspectos moral, espiritual e físico.

Por que a Bíblia é um Código de Ética?
A Bíblia é um Código de Ética porque trata de como as pessoas devem se comportar diante de Deus e do próximo.
A Bíblia tem regras, mandamentos, estatutos, ordens, preceitos, juízos, normas de conduta. Essas palavras têm que ver com o certo e o errado, o bem e o mal, o justo e o injusto, o lícito e o ilícito. Por isso, a Bíblia é um Livro ou Código de Ética, mas de Ética Divina.
Nós, cristãos, temos na Bíblia nosso modelo ético absoluto, perfeito e imutável. Ela nos ensina a ter um comportamento ético na família, no trabalho, na sociedade e na igreja.

A Lei de Moisés.
A Lei de Moisés, presente nos Livros de Êxodo a Deuteronômio, contém regras de conduta para o povo de Israel, e muitos princípios de ética divina que servem para todos os seres humanos, especialmente para a Igreja de Cristo.
A Lei de Moisés possui regras morais, cerimoniais e civis. As regras cerimoniais tinham função religiosa, e eram dirigidas apenas a Israel (leis sobre sacerdotes, levitas, sistema de sacrifícios e outros rituais religiosos). As regras civis também se dirigiam a Israel, mas no sentido jurídico, para Israel enquanto Nação, e diziam respeito às normas de convivência social. Eram regras referentes a crimes, indenizações, impostos, descanso da terra, dentre outras.
As leis morais são universais, e, por isso servem para todas as pessoas em qualquer época e lugar. Estão resumidas nos Dez Mandamentos (Ex 20.1-17), e tratam do respeito a Deus e ao próximo.
Os Dez Mandamentos valorizam:
1 – O culto exclusivo, espiritual e reverente a Deus (Ex 20.1-7);
2 – A administração do tempo (Ex 20.8-11);
3 – O respeito aos pais (Ex 20.12);
4 – O direito à vida (Ex 20.13);
5 – A instituição do casamento (Ex 20.14, 17);
6 – O direito de propriedade, que envolve o direito do trabalhador e o direito de crédito (Ex 20.15, 17);
7 – O respeito à honra e à justiça, em sentido forense (Ex 20.16).
A Lei de Moisés protegia os mais fracos: pobres, escravos, estrangeiros, órfãos e viúvas.


Ética cristã.
Ética cristã é o padrão de conduta baseado nas palavras de Jesus Cristo e nas Cartas Apostólicas.
A Ética Cristã está bem caracterizada no Sermão do Monte.

O Sermão do Monte.
O Sermão do Monte encontra-se em Mt 5 a 7 (com textos paralelos em Mc 9.50 e Lc 6.20-49; 11.2-4; 34-36; 12.22-31; 13.24; 14.34,35).
A ética cristã é completamente diferente da ética humana, e pode ser resumida nos seguintes princípios:
1. Renúncia aos valores mundanos e apego aos valores do Reino dos Céus (Mt 5.3-12; Is 57.15; Sl 126.5); “mansos” são os altruístas, os que pensam nos outros, conforme Sl 37.11; II Pe 3.13; “limpos de coração vêm de uma referência a Sl 24.4, Sl 51.10 e 73.1;
2. Necessidade de fazer a diferença e conservar da corrupção (Mt 5.13-16; Jo 8.12; II Co 4.5,6);
3. Interiorização da Lei (Mt 5.17-20) – aplicado à questão do homicídio (21-26); do adultério (27-32); dos juramentos (33-37; Nm 30.2); da vingança (38-42;); e ao tema das relações entre as pessoas (43-48; Lv 19.18);
4. Humildade em tudo, como no caso das esmolas (6.2-4); das orações (6.5-8); do jejum (16-18);
5. Simplicidade quanto às coisas materiais (6.19-21, 24);
6. Entendimento de que a ética não pode ser de fora para dentro, mas de dentro para fora (6.22,23);
7. Priorização do Reino de Deus e de sua justiça, confiança na providência divina (6.25-34);
8. Fuga da hipocrisia e do julgar aos outros (7.1-5; diferente do discernimento dentro das questões da igreja, como, por exemplo, em I Co 5.3,12,13);
9. Compromisso e auto-negação, enquanto a maioria segue confortavelmente pelo caminho espaçoso (13,14);
10. Valorização dos frutos do caráter, e não dos supostos milagres nem das meras palavras ou cargos eclesiásticos (7.15-23; Jr 14.14; 27.15; Sl 6.8);
11. Aplicação das palavras de Cristo (7.24-27).

A chamada Lei Áurea está em Mt 7.12 – o critério da vida em sociedade deve ser aquilo que eu quero que façam comigo. Isso mesmo eu devo fazer aos outros.
Rm 13.10 – A Ética Cristã é o amor.

Conclusão.
Estamos vivendo na época da Pós-Modernidade. A sociedade é relativista, pluralista, hedonista, materialista, individualista e pragmática.
Vemos o avanço da criminalidade, da corrupção política, do tráfico de drogas ilícitas, do homossexualismo, do sexo livre e da desagregação familiar. Vemos também que muitos que se dizem cristãos evangélicos pensam e praticam obras segundo a ética mundana, e não segundo a Ética Cristã.
Só a Ética Cristã vai na contramão de tudo isso. Não podemos sucumbir diante da ética do mundo.
Mundanismo não é só usar roupas dessa ou daquela maneira: mundanismo é deixar que os valores do mundo tomem conta da igreja, mesmo que disfarçadamente.
*Material preparado para a "Festa dos Senhores", na Congregação da Assembléia de Deus no Bairro Jardim Petrolar, em Alagoinhas-BA, onde congreguei de 1988 a 1995. Trata-se de um estudo feito a partir da Revista da CPAD para o IV Trimestre de 2008, especificamente sobre a Lição "A Bíblia: O Código de Ética Divino". A palavra foi ministrada no dia 07 de dezembro de 2008.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Idiossincrasia do meu povo, na perspectiva da auto-crítica

Nós construímos templos centrais enormes e confortáveis, mas nem sempre atendemos às congregações menores, periféricas e pobres.
Nós apoiamos projetos gigantescos que dão visibilidade a líderes personalistas.
Nós não apreciamos ações anônimas pelo Reino de Deus.
Nós empregamos o tosco argumento de que o líder fulano de tal ensina umas heresias de vez em quando, mas dá frutos, ganha almas para Jesus...
Nós parecemos os políticos brasileiros que votam projetos visando a interesses pessoais, interesses de grupos e interesses mesquinhos.
Nós lutamos pelo poder, mesmo que seja sobre um pequeno rebanho de irmãos analfabetos funcionais, ou sobre o grupo da mocidade, o grupo das senhoras, o conjunto coral...
Nós imitamos o mundo, ao mesmo tempo em que criamos uma cultura evangélica toda especial, com linguagem, música e costumes diferentes.
Nós não temos influenciado positivamente a sociedade brasileira.
Nós não somos mais perseguidos nem tolerados, mas abertamente aceitos pela sociedade pluralista – e achamos vantajosa essa triste simbiose.
Nós idolatramos pregadores sensacionalistas, ocos de conteúdo, que têm simplesmente o poder de encantar platéias e fazer teatro com a Bíblia em punho.
Nós não entendemos a diferença entre teologia e formalismo teológico – achamos que estudar teologia conduz necessariamente a um tipo de esfriamento espiritual.
Nós acusamos os irmãos tradicionais de frieza, e nisso somos injustos.
Nós fechamos os olhos para o que a Universal do Reino de Deus e a Internacional da Graça de Deus têm feito, e ainda queremos descobrir o segredo do sucesso deles, ainda que sejamos um tanto tímidos na imitação de suas artimanhas.
Nós estamos abandonando o grande legado deixado pelos pioneiros e pelos primeiros pastores e líderes de nossa igreja, mas achamos que nossa tradição tem sido seguida à risca.
Nós estamos nos vendendo à Teologia da Prosperidade, à Confissão Positiva.
Nós consagramos certos cantores evangélicos a praticamente profetas para a nossa juventude, quando sua teologia é centrada no subjetivismo, na auto-ajuda e no antropocentrismo.
Nós desprezamos as excelentes revistas de escola dominical e a farta literatura de nossa igreja, e nos apegamos a festas, congressos e outras coisas que às vezes me soam meras frivolidades.
Nós temos uma teologia muito séria na teoria e uma teologia "nonsense" na prática.
Nós gostamos de títulos e aparatos.
Nós temos em nosso meio muitos e muitos irmãos tristes ou amargurados desde o dia em que aprenderam a pensar diferente.
Nós instituímos, ao longo dos anos, a noção de que pastor é senhor, quando deveria ser servo.
Nós instituímos, ao longo dos anos, a noção de que pastor-presidente é um homem todo-poderoso, inacessível, de mando unilateral, quando em outras igrejas, ou mesmo em algumas das nossas, a gente vê que pastor é um homem vocacionado para servir pela Palavra de Deus, com humildade e pessoalidade.
Nós aprendemos que ser crente é participar ativamente de todos os trabalhos da igreja, compor aqueles conjuntos musicais, usar uns chavões, e que mais crente ainda é o que um dia falou em "línguas estranhas".
Nós também temos muitas qualidades, mas o auto-exame para a correção de pecados ainda é uma virtude cristã.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Diálogo com o jovem Naor, adepto confesso da Teologia da Prosperidade

Transcrevo* abaixo o segundo comentário que o jovem Naor (16 anos) fez ao nosso texto “Silas Malafaia e a Conferência Profética Passando o Manto”. O primeiro comentário desse irmão já havia sido respondido por mim no espaço próprio, mas agora, com os argumentos que ele declina, entendo que podemos construir um diálogo mais construtivo, que é nosso interesse neste "blog".
Segue, portanto, "ipsis litteris", o comentário do irmão Naor, com as minhas considerações em seguida, na forma de tópicos:

“Alex,desculpe estava com pressa na hora de escrever.rsrs.
O Apostolo Paulo afirma que muitos pregam o evangelho por contenda,e por ganancia,mas o importante é que Jesus seja pregado.
Sou adepto da Teolgia da Prosperidade(com bases biblicas).Quando Jesus diz que o Reino dos céu é dos pobres,acredito que Ele esteja afirmando sobre pobres de Espirito,humildes etc.
Sou contra a FAMOSA a afirmção:VENHA PRA JESUS ELE TE ENRIQUECERÁ..Pois Jesus nos fala para buscarmos primeiro o reino dos céus,e as demais coisas nos serão acrescentadas.
Jesus fala mais sobre dinheiro nos evangelhos do que outra coisa,e também fala mais sobre o inferno do que sobre o céu.
A prosperidade em que acredito é a emocional,sentimental e financeira.
O salmista afirma que nunca viu o justo mendigar o pão e Jesus também afirma que veio para dar vida e vida em abundância(em todas areas de nossas vidas).
Concordo que não podemos amar ao dinheiro e a Deus ao mesmo tempo isto é pecado de cobiça e idolatria,mas creio que Deus sim levanta ministros para levar sua palavra ministrando cada um em sua area ex.cura,libertação,prosperidade etc.Claro todos com bas na Palavra.
Eu tenho visto os frutos do ministerio do Silas Malafaia,sou contribuinte,e Deus cada vez mais tem me abençoado,tambe´m fui muito impactado com os livros de MURDOCK(esqueci como escreve o nome dele suahusahusa, por isso digo para olharmos os frutos,por que Jesus disse que uma arvore boa não produz frutos maus,e uma arvore má não produz frutos bons.
Vidas tem sido levadas a Cristo,e em tudo o que eles tem ensinado usam como base a palavra.
Sim vemos muitos se pertendo,e cobiçando o que não agrada a Deus,mas não posso crer em Deus que não abençoa o seu povo,vemos na biblia que Deus sempre a abençou seu povo com milagres na area financeira,e sim tem pessoa que Deus não deixa rico,por que Ele não deseja.
os pregadores da prosperidade são exagerados,quando falam deste assunto,mas não chegam a ser heresias,como também muitos tradicionais,só valoriza a pobreza em extremo,o certo eh o temperado:No mundo Tereis aflições,mas tende bom animo pois eu venci o mundo,como disse jesus,e Pualo que disse de tudo ter esperimentado,e saber estar bem em todas as situações.
Meu pai é um Pr.Assembleiano,e acredito que você saiba que els são bem resistentes a esta Teologia,e ele(não que ele seja alguém importante)esta de acordo com que o Sila tem Ministrado,e temos experimentado prosperidade em nosso lar.

Desejo sim crescer com Cristo Alias tem somente 16 anos,e em nenhum momente te julguei por que eu disse:vamos produzir frutos,assim me incluindo também.

Jesus abençoe..

xD”.

Minha resposta, em atenção a cada proposição do irmão Naor:

“O Apostolo Paulo afirma que muitos pregam o evangelho por contenda,e por ganancia,mas o importante é que Jesus seja pregado” [sic].
Creio que o jovem Naor não quis dizer que o Pr. Silas Malafaia prega o Evangelho por contenda ou ganância, mas é razoável entender que seu emprego do texto paulino serve para tentar justificar a pregação a todo custo, como costumam fazer muitas pessoas. É mesmo recorrente usar o texto de Fp 1.15-18 para dizer que vale tudo em nome da propagação do Evangelho, como se Paulo estivesse aprovando o pragmatismo, o evangelho de resultados, dos fins que justificam os meios, à moda de Maquiavel. Mas o texto paulino não diz isso. Se observarmos com atenção toda a passagem de Fp 1.12-26, veremos que Paulo se refere a motivações errôneas, e não a conteúdo errôneo. Paulo jamais vendeu doutrinas e princípios cristãos. O que ele diz é que alguns pregam com sentimentos de inveja, fingimento e porfia, e não que seja válido pregar evangelho adulterado, porque ele mesmo, o apóstolo Paulo, disse que não se poderia aceitar outro evangelho (veja Gl 1.6-9, por exemplo). Em suma: se alguns pregam o Evangelho de Cristo, mas por motivações equivocadas, o importante é que o nome de Jesus seja anunciado, sabendo, por outro lado, que cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus, e isso não é brincadeira, conforme II Co 5.10. Paulo nunca aprovaria a pregação de evangelho diferente! Creio que está claro assim. O argumento do Naor nesse caso foi pragmático.

“Sou adepto da Teolgia da Prosperidade(com bases biblicas).Quando Jesus diz que o Reino dos céu é dos pobres,acredito que Ele esteja afirmando sobre pobres de Espirito,humildes etc” [sic].
Gosto da sinceridade do irmão Naor: reconhece ser adepto da Teologia da Prosperidade. Mas há uma contradição, pois a Teologia da Prosperidade, ligada que é à Confissão Positiva, não tem as “bases bíblicas” referidas pelo irmão Naor. Concordo com a proposição de que os “pobres” são os “pobres de espírito”, os humildes, os que se enxergam como pecadores, os pequeninos, conforme Mt 5.3 e 11.25. Também creio que a “opção pelos pobres”, ensinada pela Igreja Romana, está fundamentada em bases erradas. No entanto, uma coisa não sustenta a outra. Dito de outro modo: o fato de eu crer que a Salvação se dirige a pobres e ricos não faz com que eu acredite que a prosperidade seja o mesmo que riqueza material, nem me induz a buscar bênçãos materiais como distintivo de espiritualidade cristã ou aprovação divina à minha vida. O argumento do Naor nesse caso foi silogístico, pois é como se tivesse dito: “se os pobres de espírito não são os pobres no sentido material, logo o Evangelho faz com que a pessoa deixe de ser pobre. Esse argumento não tem lógica, e por isso eu o chamo de argumento silogístico, lastreado que está em afirmações sem sentido.

“Sou contra a FAMOSA a afirmção:VENHA PRA JESUS ELE TE ENRIQUECERÁ..Pois Jesus nos fala para buscarmos primeiro o reino dos céus,e as demais coisas nos serão acrescentadas” [sic].
Neste item eu concordo inteiramente com o irmão Naor. Creio que a promessa de enriquecimento instantâneo, como ingrediente da Salvação, não merece maiores comentários. O argumento do Naor nesse caso é bíblico, e, por ser bíblico, anda longe da Teologia da Prosperidade.

“Jesus fala mais sobre dinheiro nos evangelhos do que outra coisa,e também fala mais sobre o inferno do que sobre o céu” [sic].
Gostaria que o jovem Naor me mostrasse como chegou a essa conclusão. Ele contou os textos em que Jesus fala de dinheiro? Contou quantas vezes Jesus fala de céu e inferno? Não entendi a relação entre falar mais em dinheiro e falar mais em inferno...O argumento do Naor nesse caso é infundado.

“A prosperidade em que acredito é a emocional,sentimental e financeira” [sic].
A afirmação de que a prosperidade abrange os aspectos emocional, sentimental e financeiro parece muito boa, se extraída, afastada do contexto da Teologia da Prosperidade. De fato, quem não admite que a prosperidade bíblica possa abarcar todos os aspectos da vida humana? Todavia, a frase, tomada isoladamente, não justifica a priorização que se faz do dinheiro, da saúde e do bem-estar. A Teologia da Prosperidade confunde prosperidade com riqueza e ausência de doenças e sofrimento. A Teologia da Prosperidade não tem piedade dos que sofrem, dos que padecem enfermidades e ficam sem cura, dos que morrem sem a solução de problemas. A prosperidade bíblica deve ser entendida como o efeito de uma vida pautada por princípios sagrados (veja o Sl 1), cumprimento das obrigações sociais, pagamento de impostos, respeito aos contratos, valorização do trabalho, esforço, busca de melhores condições de vida. Mas isso não anula a possibilidade do sofrimento, da cura que não vem, dos acidentes e incidentes, da falência, da falta de emprego ou morte na família. O argumento do Naor nesse caso é deficiente.

“O salmista afirma que nunca viu o justo mendigar o pão e Jesus também afirma que veio para dar vida e vida em abundância(em todas areas de nossas vidas)” [sic].
Aqui temos dois textos bíblicos mencionados: Sl 37.25 e Jo 10.10. Nenhum dos dois prega o evangelho da prosperidade. Quando Davi afirma que, em sua experiência de vida, jamais viu o justo mendigar o pão, nem a sua descendência padecer necessidade, ele está se referindo à providência divina, que nos livra da miséria, mas não diz que o justo não pode ser pobre (há vários exemplos bíblicos de justos que foram pobres, como a conhecida “viúva pobre”, de Lc 21.1-4, e a própria família de Jesus, como se depreende de Lc 2.21-24 c/c Lv 12.6-8). Vale dizer que pobreza é diferente de miséria. Quanto ao outro texto, de Jo 10.10, Jesus se refere à plenitude espiritual. O argumento do Naor nesse caso é hermeneuticamente errado.

“Concordo que não podemos amar ao dinheiro e a Deus ao mesmo tempo isto é pecado de cobiça e idolatria,mas creio que Deus sim levanta ministros para levar sua palavra ministrando cada um em sua area ex.cura,libertação,prosperidade etc.Claro todos com bas na Palavra” [sic].
Naor, não existe dom de ministrar prosperidade. Nenhuma lista de dons no Novo Testamento aponta para ministério de prosperidade. Pode procurar. Isso é invenção de certos pregadores norte-americanos. Pense nisso. Por mais que seja agradável ouvir promessas de cura certa e prosperidade financeira, isso não passa de “palavras fictícias” quando a palavra não procede de Deus (II Pe 2.3, na Almeida Revista e Atualizada). Jeremias enfrentou corajosamente falsos profetas que prometiam paz e prosperidade, quando Deus falava de juízo e necessidade de arrependimento (veja Jr 8.11, por exemplo). O argumento do Naor nesse caso não é bíblico.


“Eu tenho visto os frutos do ministerio do Silas Malafaia,sou contribuinte,e Deus cada vez mais tem me abençoado,tambe´m fui muito impactado com os livros de MURDOCK(esqueci como escreve o nome dele suahusahusa, por isso digo para olharmos os frutos,por que Jesus disse que uma arvore boa não produz frutos maus,e uma arvore má não produz frutos bons” [sic].
Em seu livro A Lei do Reconhecimento, Mike Murdock prega disfarçadamente preceitos próprios do Gnosticismo e do Esoterismo. A primeira frase do livro consiste em dizer que o maior problema da humanidade é a ignorância – essa afirmação é gnóstica, e, conforme a Bíblia, entendemos que o maior problema da humanidade é o pecado, pois gera a morte (Rm 3.23; 6.23, por exemplo). Quanto à lei do reconhecimento em si, associada à tal lei da semeadura financeira, não passa de preceito esotérico, como a lei da atração, no bojo das supostas leis místicas que governariam o Universo. Nada disso é bíblico, mas próximo, isto sim, da Confissão Positiva e da Nova Era.
Eu admirava muito o Pr. Silas Malafaia, que, aliás, é de minha denominação (!). Eu o admiro ainda por sua grande capacidade de expressão, articulação e conhecimento bíblico e teológico. Mas passei a discordar de seu trabalho quando ele aderiu à Teologia da Prosperidade, quando passou a discordar de si mesmo, ao defender muito daquilo que antes combatia com tanta veemência. É como se houvesse dois pastores com o nome de Silas Malafaia...
Mas o principal argumento nesse caso é relativo aos frutos, que Naor menciona tendo em vista o texto de Mt 12.33-37, com o paralelo de Lc 6.43-45. O jovem Naor diz que tem sido abençoado ao contribuir, que foi “impactado” com os livros do Mike Murdock – e eu pergunto: isso por acaso são frutos suficientes para que a Teologia da Prosperidade seja aprovada? Veja que não questiono as motivações pessoais de nenhum dos pastores citados, e, por isso, não os julgo (Mt 7.1-5). Mas avalio o conteúdo de sua mensagem, e dela discordo, porque a Bíblia é minha regra de fé e prática (veja o Sl 119 todinho, bem como II Tm 3.16,17). Devemos conferir nas Escrituras para ver se as coisas são de fato como nos dizem (At 17.11). Com relação aos diversos tipos de julgamento, leia-se, por favor, o nosso artigo, neste mesmo “blog”, sob o título “Resposta a um admirador de René Terra Nova e Cia.”

“Vidas tem sido levadas a Cristo,e em tudo o que eles tem ensinado usam como base a palavra” [sic].
Bom, não posso dizer se todas essas vidas têm sido levadas a Cristo. Não posso adentrar a mérito tão profundo, que só pertence a Deus. Mas minhas avaliações são feitas sobre o parâmetro objetivo das Escrituras, e, apoiado nelas, posso afirmar categoricamente que a Teologia da Prosperidade não tem suporte bíblico, em absoluto (veja I Tm 6.3-10; Fp 4.10-23).

“Sim vemos muitos se pertendo,e cobiçando o que não agrada a Deus,mas não posso crer em Deus que não abençoa o seu povo,vemos na biblia que Deus sempre a abençou seu povo com milagres na area financeira,e sim tem pessoa que Deus não deixa rico,por que Ele não deseja” [sic].
Deus realmente abençoa o Seu povo – mas o que é bênção para você? Confunde-se com riqueza, saúde certa, imunidade ao sofrimento? Então, precisamos explicar que Deus, sim, sempre abençoa o Seu povo, mas que o próprio sofrimento pode ser um meio de bênção, como todas as provações (veja Tg 2.1-11; I Pe 1.6-9).

“os pregadores da prosperidade são exagerados,quando falam deste assunto,mas não chegam a ser heresias,como também muitos tradicionais,só valoriza a pobreza em extremo,o certo eh o temperado:No mundo Tereis aflições,mas tende bom animo pois eu venci o mundo,como disse jesus,e Pualo que disse de tudo ter esperimentado,e saber estar bem em todas as situações” [sic].
Ora, os exageros dos pregadores da prosperidade são, sim, heresias, eis que falsos ensinos são heresias. O texto de Jo 16.33 só atesta essa afirmação.


"Meu pai é um Pr.Assembleiano,e acredito que você saiba que els são bem resistentes a esta Teologia,e ele(não que ele seja alguém importante)esta de acordo com que o Sila tem Ministrado,e temos experimentado prosperidade em nosso lar" [sic].
Infelizmente o ser assembleiano não significa mais, em todos os lugares, o combate a heresias, especialmente à Teologia da Prosperidade. Eu sei o que estou dizendo. A Teologia da Prosperidade é um câncer que se abateu sobre muitas igrejas de nosso País, o que certamente não isenta muitas Assembléias de Deus, para minha enorme tristeza e decepção, porque não foi esse o Evangelho que recebi de minha mãe e de meus amados pastores da infância e adolescência (veja I Co 15.1-3; II Tm 1.5).

“Desejo sim crescer com Cristo Alias tem somente 16 anos,e em nenhum momente te julguei por que eu disse:vamos produzir frutos,assim me incluindo também” [sic].
Finalizando, quero elogiar o irmão Naor pela sua gentileza e disposição para o diálogo. Sendo ele um adolescente de 16 anos, tem toda a vida pela frente, e espero, sinceramente, que seu crescimento em Cristo seja um testemunho a muitas pessoas. A humildade que demonstrou em seu segundo comentário, explicando com detalhes a sua posição, depõe em favor de seu bom caráter. Quero aproveitar este momento para dizer que o objetivo deste "blog" é alcançado sempre que se faz o diálogo construtivo ou a exposição de doutrinas bíblicas. No mais, todo aquele que busca pensar merece meu respeito, e foi o que o Naor fez, ainda que tenhamos grandes divergências teológicas, que nos colocam em campos bem distintos.
* Reproduzi as palavras do irmão Naor do jeito que vieram, e por isso inseri entre colchetes o termo latino "sic". Para esclarecimento a respeito, consulte-se o seguinte endereço: http://www.sualingua.com.br/04/04_sic.htm

Só uma nota rápida - de outras que certamente virão!

Quem quiser entender por que escrevi textos como "Minha vida de blogueiro" e "Por que não faço parte do ministério da crítica", dentre outros, leia por favor comentários de leitores aos textos "Silas Malafaia fala de sua relação com René Terra Nova" e "Silas Malafaia e a 'Conferência Profética Passando o Manto'". Inserindo um desses nomes na ferramenta de busca do próprio "blog", o senhor ou a senhora verá automaticamente onde estão esses artigos.
Estou ficando cansado de ver como tem gente que pensa pequeno nos arraiais que se dizem evangélicos. É cansativo ter que ensinar a leitores desavisados algumas coisas que são basilares. É cansativo, e parece até que estou aqui para fazer defesas pessoais, como de certo modo imaginou um respeitável leitor chamado Lavrador. Não, eu não estou aqui para destilar demasiados pronomes pessoais do caso reto, na primeira pessoal do singular, mas minha própria consciência e honra demandam defesas pessoais quando leitores acostumados a bajular pregadores de renome vêm aqui me atacar. E aos leitores que me aborrecem: se quiserem, fiquem nos seus mundos, e me deixem trabalhar, pois tenho muito, muito o que fazer. Mas, se porventura querem construir algo realmente sólido, leiam mais a Bíblia, procurem boa literatura - que não seja de auto-ajuda -, e depois venham aqui conversar comigo, pois terei muito prazer em dialogar em atitude de respeito, mesmo que com divergências, desde que bem fundamentadas.

domingo, 23 de novembro de 2008

Por que não faço parte do "ministério da crítica"

Certa vez minha esposa proferiu uma frase que considerei muito interessante, sendo mais ou menos assim: "Parece que tem pessoas que exercem o ministério da crítica". Ela tem razão: existem pessoas que constroem carreira à base de criticar opiniões e posturas alheias, mas sem fornecer uma contribuição positiva ao mundo.
Ela não estava se referindo aos críticos de cinema, de música nem de literatura - embora haja quem defenda a tese de que um crítico é um artista frustrado...Mas, pelo que lembro, ela se referiu aos crentes que vivem de criticar, e só.
Considerando alguns comentários que recebi por causa deste "blog", e que menciono no texto "Minha vida de blogueiro", fiquei pensando se eu sou um membro do tal "ministério da crítica", se estou baseando meu trabalho cristão na crítica aos outros, sem fazer nada - porque essa é uma acusação que já me fizeram aqui.
Por causa de comentários dessa natureza, já fiz outros textos neste "blog", ou comentários a comentários de leitores. Tenho por objetivo neste "blog" mostrar que a fé cristã tem que ver com raciocínio; que devemos ser como os crentes de Beréia, analisando tudo o que se nos é apresentado(At 17.11); que não podemos aceitar tudo o que se diz "evangélico" só porque alguém disse que é bom; que minha cabeça foi feita para funcionar; que profetas e apóstolos enfrentaram duramente heresias e heréticos, como falsos profetas e falsos apóstolos; que é necessário conhecermos as doutrinas fundamentais da Fé Cristã; que devemos nos afastar de influências como o Gnosticismo, Esoterismo e Religiões Orientais, que andam se apossando até mesmo de mentes de cristãos históricos!
Entendo que a redação destes textos é importante, mas não exclusiva. Há muitas outras vozes ortodoxas, e bem mais fundamentadas do que a minha. Apenas creio que cada um deve cumprir o seu chamado. Se eu fui chamado para ensinar, escrevendo ou falando, e se estou vendo que heresias e modismos têm marcado o suposto "crescimento evangélico" no Brasil, por que irei me calar? Não, eu não me calo, e nem por isso devo ser considerado o último dos profetas, um pequeno messias, um herói incompreendido. Sou cristão histórico e pronto, com o adjetivo de pentecostal porque sou membro da Assembléia de Deus. Mas não exerço pura e simplesmente a pena contundente da crítica, já que escrevo sobre doutrinas e textos bíblicos também.
O que acontece é que hoje está-se criando um abismo entre os evangélicos históricos e os evangélicos das diversas ondas que o Bispo Robinson Cavalcanti tem chamado acertadamente de grupos "pseudopentecostais". Somos muito diferentes mesmo! E depois querem que eu não critique?
Veja só como não posso aderir a esse "oba-oba" de certas igrejas e comunidades tupiniquins ou importadas:
a) Não creio em direitos em face de Deus: tudo que tenho e sou decorre da Graça. Por isso não posso reivindicar nada diante de meu SENHOR, tampouco exigir restituição, determinar, decretar, tomar posse, visualizar a bênção;
b) Não creio que a igreja deva priorizar templos suntuosos, mas as pessoas;
c) Entendo que o novo nascimento é algo que deve ser ensinado com insistência, assim como todas as doutrinas fundamentais do Evangelho de Cristo;
d) Estou certo de que a Revelação cessou, estando plenamente contida no Antigo e Novo Testamento;
e) Estou certo de que o Novo Testamento é espelho e cumprimento do Antigo;
f) Não me emociono com pregações sensacionalistas, de auto-ajuda, teatrais e alegóricas;
g) Estudo a Bíblia usando a cabeça e a fé;
h) Valorizo a teologia porque estudar não é pecado, mas ferramenta dada pelo próprio Deus para o conhecimento e edificação;
g) Entendo que não posso ser medido pelo que faço ou deixo de fazer, mas pelo fruto, que é questão de caráter;
h) Tenho total desconfiança de projetos eclesiásticos erigidos sobre líderes centralizadores;
i) Corro de alianças entre igrejas e políticos, e tenho profunda tristeza quanto aos políticos que se aproveitam de serem evangélicos;
j) Não aceito de modo nenhum a confissão positiva porque ela é de origem pagã, hindu;
l) Não me satisfaço com argumentos do tipo: "Você pensa assim porque não crê". E respondo: "Você crê assim porque não pensa".
m) Tenho convicção de que a Bíblia não pode ser interpretada como uma colcha de retalhos, um baú de talismãs, uma caixinha de promessas - a Bíblia tem princípios, histórias concatenadas, normas de conduta, critérios intrínsecos de interpretação, não podendo ser lida ao bel-talante do individuo;
n) O fato de eu não ser pastor não me impede de escrever isso, pois sou sacerdote. Se não sabe por quê, leia I Pe 2.9;
o) Finalmente, tenho liberdade para escrever o que penso porque sou independente. Sou membro de igreja, que frequento regularmente, sou até professor de escola dominical, mas minha independência mora em minha consciência, e é por isso que sou um homem livre.
Agora, eventual leitor, se você ainda supõe que não contribuo para o Reino de Deus, devo entender que você precisa conhecer ainda os rudimentos da Fé, que aqui procuro defender, enquanto muitos desconhecem e distorcem.
E, por fim, devo dizer que existem muitos dons, mas não o de criar e ensinar heresias, assim como não existe na Bíblia o ministério da crítica. O que existe é a necessidade de obedecer à Palavra de Deus, porque Jesus Cristo, enfim, é a Palavra (Jo 1.1-3).

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Minha vida de blogueiro

Sou um blogueiro cristão evangélico desde janeiro deste ano. De lá para cá, inseri mais de 400 postagens, entre artigos teológicos, poemas, aforismos, desabafos e comentários gerais sobre cultura, política e comportamento. Dentre os poucos leitores, já que sou desconhecido, recebi elogios por meio de mensagens eletrônicas, comentários no próprio "blog" ou pessoalmente. Também recebi críticas ácidas, geralmente anônimas, a maioria delas relacionadas aos textos "Silas Malafaia e a Conferência Profética Passando o Manto" e "Silas Malafaia fala de sua relação com René Terra Nova".
Devo admitir que até me sinto importante quando leitores que não conheço fazem comentários contra mim. Isso quer dizer que eu de alguma forma lhes comuniquei o meu pensamento, embora eles nem sempre tenham realmente compreendido minha motivação ou a própria postagem.
De fato, já me disseram que não tenho discernimento, que preciso me aprofundar em Deus, que serei cobrado por não obedecer à Palavra, e indagaram acerca de minha contribuição para o Reino, se estou ganhando almas, discipulando...Os textos são tão parecidos que me levam a pensar em duas alternativas: ou esse anônimo é uma só e mesma pessoa ou existe um punhado de irmãos dispostos a defender com unhas e dentes as práticas heréticas de crescimento de igreja, sendo, portanto, pragmáticos.
A propósito, se o (a) leitor (a) vem acompanhando este "blog", deve ter notado que nossa enquete derradeira desapareceu. Explico: eu perguntava se crescimento numérico, dinheiro e espaço na mídia demonstram a aprovação divina à pregação de uma igreja. A votação já havia alcançado dezenas de pessoas, mas eu, por um lapso, na tentativa de aperfeiçoar o "blog", fiz a enquete desaparecer, assim como algumas fotos, o selo da União de Blogueiros Evangélicos e outras coisas... Mas fiquei feliz por saber que cerca de 86% dos leitores que votaram não pensam que aqueles itens demonstram a aprovação divina à pregação de uma igreja, justamente porque acreditar no contrário é ser pragmático, e o pragmatismo não é bom. Dito de outro modo: não são os resultados aparentemente positivos que a Bíblia exalta como critério de verdade absoluta. O único critério de verdade absoluta é a Palavra de Deus!
Mas eu estou aqui tratando de minha vida de blogueiro. Ora, o blogueiro, via de regra, é, a meu ver, uma pessoa desconhecida que gosta de expressar opiniões ou dados de seu cotidiano. E isso é engraçado, porque a gente acaba se expondo às ferramentas de busca, como as do Google, e vem a ser encontrado por pessoas distantes ou próximas, as quais concordam ou discordam de nossas idéias e/ou estilo. Isso faz com que anônimos se tornem, em maior ou menor grau, celebridades pardas, dependendo da gama de acessos ao seu blog.
Sendo eu um simples servo de Deus, trabalhador, professor de Escola Dominical, mas desejoso de aprender e de produzir conhecimento bíblico, fico me sentindo quase que vocacionado à tal “blogosfera”. Talvez descubram afinal que os blogueiros são pessoas com um ego enorme. Talvez descubram que a maioria de nós só se expressa em "blogs" porque não tem espaço em suas igrejas. Mas não penso ser isso o que me conduz a manter o meu "blog". Não quero sucumbir à tentação do egocentrismo nem me reunir aos isolacionistas. Estou blogueiro porque essa é uma das ferramentas mais ágeis de comunicação que pode existir em nossos dias – e, mais do que isso, é gratuita!
Houve um leitor (ou leitora) que fez uma crítica que, em parte, tem um caráter elogioso: disse, entre outras coisas, que eu não deveria (como é que foi mesmo?) me exaltar, não sei se foi essa a palavra, mas que eu não deveria ficar lastreado em minha “intelectualidade”. E eu nunca disse que sou intelectual, e sei que não sou. Só que essa pessoa foi longe demais: querendo usar base bíblica, fez comparação entre Pedro e Judas Iscariotes, perguntando qual deles, afinal, era o intelectual. Ora, para bom entendedor, essa pessoa quis dizer que sou um traidor de Jesus..., já que, antes disso, supôs que tanto eu como Judas éramos intelectuais, e não me consta que nem um nem outro o tenham sido alguma vez na vida.
Essa é a minha vida de blogueiro. Sem querer ser pouco modesto, observo que esses irmãos que ficam chateados comigo não utilizam o conteúdo bíblico que eventualmente possuam. Suas críticas são pragmáticas e vazias, sequer tangenciam o mérito das questões, mas se limitam a defender seus admirados. E com isso reforçam minhas idéias no sentido de que o propalado crescimento numérico da Igreja brasileira é verdadeiro inchaço, acompanhado de heresias e de uma cosmovisão tosca. Desafio-lhes a me retrucar! Digam em que se fundamenta a tese de que vale tudo para supostamente ganhar almas para Cristo! Essa tese não é maquiavélica?
Estou atualmente com dificuldade de atualizar todos os dias o meu "blog" - também descobrimos que a rua em que passamos a morar não é servida de Internet!!! Mas não quero ser vencido pelo tempo nem pelo cansaço. Quero continuar nesse propósito - porque o famoso Rick Warren não patenteou a palavra “propósito”...
Enfim, sou um blogueiro com propósito, mas meu propósito não é outro senão o de ajudar o povo de Deus a pensar a Fé. Esse é meu chamado, essa é a minha missão. Para isso fui vocacionado por Deus, não tenho nenhuma dúvida quanto a esse aspecto de minha vocação. Se me quiserem ouvir ou ler, que bom! Mas se não quiserem, e se me virarem as costas, ficarei triste, mas firme. Porque não quero arredar o pé daquilo para o que fui chamado. Não posso negar a mim mesmo.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Salvador, tu precisas do Salvador!

No aeroporto que leva o nome do falecido filho do também falecido Antônio Carlos Magalhães, eu, minha esposa e minha filha, assim como todos os demais passageiros, fomos recepcionados por um grupo de "baianas" que saculejavam ao som ritmado que certamente embala sessões de candomblé e congêneres nos muitos terreiros da Cidade. Não gostei nada disso. Esperava chegar sem essa estranha recepção, e sei que, se isso for pago pelo dinheiro público, fico deveras indignado, porque o Estado brasileiro é laico.
É necessário distinguir baianidade, afrodescendência e religiões afro-brasileiras. Baianidade - arrisco-me a definir - seria um traço cultural que mistura alegria, simpatia e acolhimento. Afrodescendência, em minha opinião, não poderia ser designação apenas dos oriundos da África Subsaariana, porque há uma África que não é negra (algo que ouvi certa vez do meu professor Ivan Gonçalves, e que faz muito sentido).
Quanto às religiões afro-brasileiras, não posso aceitá-las como elemento cultural e folclórico porque contrariam a Palavra de Deus, adoram a vários deuses, praticam fetichismo, crêem no animismo, fazem despachos para prejudicar pessoas, tratam com o obscuro mundo da feitiçaria. Não posso chamar isso de simples cultura, pois é, de fato, religião, e, em se tratando de religião, devemos ter sempre em mente que o Estado é laico, e que Cristo é o exclusivo SENHOR.
Com efeito, não se pode confundir cultura e religião, sob pena de se alimentarem preconceitos e medidas políticas que favorecem a desigualdade. Aliás, nesse mundo que exalta o tal pluralismo, só não há espaço para idéias fundamentadas na Bíblia. Para nós cristãos evangélicos, eles negam o pluralismo, o direito de expressão. Isso demonstra que o pluralismo é uma falácia pós-moderna.
É por isso que digo que a Cidade de Salvador precisa do Salvador, do SENHOR Jesus Cristo. Vejo aqui em Salvador uma combinação não-saudável de religiosidade e política. Eu discordaria do mesmo jeito se dissessem que o Cristianismo evangélico seria a religião oficial, como discordo de dias consagrados a santos ou mesmo de dias dedicados aos evangélicos. Nada disso é constitucional, nem creio que seja compatível com a Escritura Sagrada.
Aqui em Salvador eu sou minoria porque minha pele é branca e meus cabelos, lisos. Mas não é assim que vejo o mundo: essa distinção baseada em raças é ridícula, pois todos somos humanos, não há raças entre nós. Somos a Humanidade, devemos defender valores humanos, e não valores negros, brancos, asiáticos ou indígenas. Devemos, sim, defender interesses de pessoas efetivamente prejudicadas, mas não podemos proteger nem prejudicar ninguém em razão da cor de sua pele. É por isso que discordo das cotas e de outras eventuais medidas que partam da premissa de que ser negro é ser necessariamente oprimido. Conheço brancos que são muito pobres e ignorantes, e negros que são ricos e cultos. Conheço, mais do que isso, pessoas mestiças, em cujas características é impossível, a olho nu, discernir que percentual de negritude terão.
Faço referência a isso porque me parece que a defesa da negritude enquanto raça é um aspecto muito forte em Salvador.
Isso não vai gerar no Brasil um "apartheid"? Não estamos vendo o que a não-integração dos indígenas está causando em Roraima? Queremos um País dividido, enquanto Obama, num País realmente dividido, fala em união e harmonia?
Há uma outra coisa em Salvador que me faz ter certeza do quanto ela precisa do Salvador: a Cidade está estabelecida sobre o fundamento de festas carnais, o Carnaval e seus similares. Exalta-se o corpo, o erotismo, o prazer descompromissado. Que sociedade pode se gloriar de um fundamento desses?
Existe ainda um aspecto digno de nota: a extrema desigualdade social. E, em plena área nobre, vejo os muito pobres deitados nas calçadas, pedindo esmola. As favelas também são um retrato dolorido aos nossos olhos, porque ali tem gente excluída mesmo.
Sou baiano, mas não me orgulho dessas contradições. Gosto de ser baiano, mas antes de tudo sou cristão.
O bom mesmo é ver que nem todas as praias foram dominados pelos ricos, e que o mar, o grande mar, é ainda visto por qualquer um de nós, numa equidade emocionante que só pode vir de Deus.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

O rei que se foi sem deixar saudades

"Era da idade de trinta e dois anos quando começou a reinar, e reinou oito anos em Jerusalém; e foi sem deixar de si saudades; e sepultaram-no na cidade de Davi, porém não nos sepulcros dos reis" (II Cr 21.20, na versão Almeida Corrigida e Revisada Fiel).
Embora os reis de Judá tenham sido em sua maioria aprovados por Deus, tal não aconteceu quanto a Jeorão, que, como o texto acima deixa claro, governou durante 08 anos e saiu de cena sem deixar saudades...
Filho do bom rei Josafá, Jeorão herdou o trono por ser o mais velho, mas não herdou a piedade dos seus antepassados. Ao se fortalecer, matou à espada todos os seus irmãos e alguns líderes de Israel (leia-se "Judá"). Além de se casar com uma filha do rei israelita Acabe, andou nos caminhos deste e da maioria dos reis de Israel, cometendo idolatria. O SENHOR só não destruiu a dinastia de Jeorão por causa do juramento divino feito a Davi, de que não lhe faltaria sucessor no reino.
Em seu tumultuado governo, Jeorão contemplou o grito de independência dos edomitas e da cidade de Libna. E foi explicitamente reprovado por Deus, numa carta redigida pelo profeta Elias! Com uma anamnese do que Jeorão fazia como rei, Elias profetizou que seriam feridos o povo, os filhos, as mulheres e o próprio rei, este com uma enfermidade nos intestinos.
Não bastasse, levantaram-se contra Jeorão os filisteus, os árabes e os etíopes, todos impulsionados pelo juízo divino. Houve "hostilidade" por parte desses três povos contra Jeorão, o que conduziu uma invasão ao reino judeu, que resultou no saque de bens do palácio real, além do rapto de mulheres e seus filhos. Só ficou Acazias de sobra, seu filho mais novo.
Ao final de tudo, veio a enfermidade a respeito da qual Elias havia escrito, e o rei morreu sem deixar saudades, a tal ponto que sequer foi sepultado nos túmulos dos reis.
Com essa história, que está narrada em II Cr 21, não tem como eu não lembrar de certo George w. Bush, que, depois de arranjar a inimizade e a antipatia de quase todo o mundo, sai de cena no dia 20 de janeiro de 2009 sem deixar saudades. Será o fim melancólico de um "rei" bonachão, texano legítimo, de sorriso fácil, empurrado pela direita protestante, mas que não me pareceu um rei segundo o coração de Deus - essa é minha opinião pessoal, e para isso não me importa o fato de ele ser contra o aborto, o casamento gay ou as pesquisas com células-tronco embrionárias, pois a verdade também é um valor cristão, e nisso o presidente Bush vacilou muitas vezes, ao dizer que perseguia Saddam Hussein por causa de supostas armas de destruição em massa, que, descobriu-se, não existiam. Interesses outros, muito menores, guiaram a guerra da doutrina Bush.
E, neste dia 05 de novembro, eis que surge certo mulato com Hussein no sobrenome, e cujo pré-nome, Barack, me faz lembrar de um general descrito nas páginas bíblicas (Jz 4). Este Baraque, porém, diferentemente do Barack Obama, não quis seguir para a guerra sem a companhia de uma mulher forte. Mas essa é outra bela história...

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Os seguidores atuais da "teologia" de Judas Iscariotes

Parece-me que hoje há muitos seguidores da "teologia" de Judas Iscariotes. Não estou me referindo a nenhum suposto livro escrito pelo apóstolo-traidor, nem afirmo que exista uma doutrina sistemática de seus inexistentes ensinos. Refiro-me a um tipo de atitude para com Jesus Cristo que muito se aproxima do que Judas de fato foi e fez.
Antes gostaria de lembrar que Judas era o único judeu dentre todos os apóstolos. Tinha, portanto, de que se orgulhar perante os rudes pescadores galileus, como Simão Pedro. Essa é mesmo uma grande ironia bíblica, pois os judeus desprezavam não-judeus, principalmente galileus e samaritanos, considerados como um povo misturado com os gentios.
Judas foi escolhido por Jesus, disso não há absolutamente nenhuma dúvida (Mt 10.1-5; Mc 3.13-19; 6.7-13; Lc 9.1-6). Ele foi separado para o ministério apostólico, um verdadeiro "episcopado", que, conforme anotação da Nova Versão Internacional, designa a "função pastoral"(At 1.15-20).
Judas assumiu a tesouraria do grupo que seguia a Jesus (Jo 12.6). Deve ter merecido essa confiança, pois ninguém entrega dinheiro a uma pessoa com reputação ruim.
Judas recebeu poder para expulsar demônios, curar enfermos, ressuscitar mortos, pregar o Evangelho (Mt 10.1,2; Mc 6.12; Lc 9.6). Ele não estava somente no time dos 70 que foram enviados de dois em dois para anunciar as Boas-Novas em cidades e aldeias de Israel (Lc 10.1-23) - ele estava num grupo mais seleto, de doze homens escolhidos sob oração (de Jesus ao Pai): o Colégio Apostólico.
Judas era na verdade ambicioso, mas seu discurso certa vez foi politicamente correto, social, em favor dos pobres, quando criticou Maria, irmã de Lázaro, que derramou perfume precioso sobre os pés de Jesus, em atitude de adoração (Mt 26.6-13; Mc 14.6-9; Jo 12.1-8). É certo que, se por um lado Marcos e Mateus dizem que essa recriminação foi feita por "alguns dos presentes" (Mc 14.4) ou "os discípulos" (Mt 26.8), o próprio Marcos deixa claro que "então, Judas Iscariotes, um dos Doze, dirigiu-se aos chefes dos sacerdotes a fim de lhes entregar Jesus. A proposta muito os alegrou, e lhe prometeram dinheiro. Assim, ele procurava uma oportunidade para entregá-lo" (Mc 14.10,11). Uma coisa tem que ver com a outra: o dissimulado era também ganancioso.
O apóstolo Judas, o judeu Judas, o tesoureiro Judas, o "altruísta" Judas revelou-se o traidor de Cristo. Ele escolheu seu próprio caminho, entendeu de vender seu amigo Jesus por um punhado de moedas. Ali estava um homem sem integridade, uma pessoa mesquinha. E, mesmo depois de entender que havia pecado, não se arrependeu, ficando tão-somente com o sentimento de remorso que toma conta de quem se sente culpado e não procura o perdão (Mt 27.1-10).
"Mas o que fez o personagem Judas"? "Que mal há nisso"? Essas perguntas seriam feitas pelos fariseus, saduceus, sacerdotes e anciãos que entregaram Jesus aos romanos motivados por inveja. Afinal, por mais que tenha recebido dinheiro em troca, seu ofício foi o de cumprir o que a religião oficial exigia - matar os que supostamente se levantavam contra Moisés e o Templo. E esse foi o argumento oficial contra o Mestre nazareno.
Se Judas fez o que fez, e ainda levou dinheiro, cumpriu o dever e saiu no lucro, diriam os cristãos materialistas de hoje, os pragmáticos, os egoístas, os alienados de Deus, os que seguem a boiada, os que traem princípios em favor de prestígio e poder.
A teologia de Judas Iscariotes - por favor, saiba que a Epístola Geral de Judas não foi escrita por ele, mas outro Judas! - eu dizia que a teologia de Judas Iscariotes é perfeitamente compatível com essa prática de ficar ao lado dos "vencedores" deste mundo, em vez de ficar com o crucificado, com o sofrido, com o cadáver que dizem que ressuscitou, com o homem que pregava arrependimento e era seguido por ex-prostitutas, ex-bêbados, ex-traidores da pátria (caso de Mateus e Zaqueu), ex-guerrilheiros (caso de Simão, o zelote), ex-tudo o que existe de ruim nessa vida. Que tipo de teologia era aquela de Jesus, diriam os hipócritas e materialistas...Que tipo de teologia era aquela que não deu em nada, ou melhor, deu em morte, "derrota", dispersão, divisão de famílias, perseguição pelo governo?
Tome cuidado, leitor, para que você não seja um dos seguidores do apóstolo Judas Iscariotes. Não adianta argumentar que ele operou milagres, isso não adiantará no Dia do Juízo (Mt 7.22,23). Não adianta evocar prerrogativas de nascimento, credibilidade humana ou apostolado. O que importa mesmo é não trair a Cristo, o que significa não vender princípios cristocêntricos por moedas de prata, dólares ou reais. E não vale sequer usar a tese de que os métodos da traição fazem a igreja crescer e aparecer para a sociedade. Quem não assume os princípios da Cruz deve ter estancado em algum momento, quem sabe no Getsêmane, quem sabe com um beijo aparentemente gentil (Mt 26.47-56; Mc 14.43,44; Lc 22.47; Jo 18.1-3).

Sobre o livro "O que estão fazendo com a Igreja", de Augustus Nicodemus Lopes

Na quarta-feira 29 de outubro minha turma de escola dominical e alguns irmãos mais próximos fizeram um churrasco de despedida (por conta de minha remoção de Campo Grande-MS para Salvador-BA). Dentre as boas e emocionantes palavras de consideração, deram-me o excelente livro "O que estão fazendo com a Igreja", do Rev. presbiteriano Augustus Nicodemus Lopes. A dedicatória foi assinada pelo prezado irmão Carlos Lima, nosso anfitrião naquela festa e dedicado colega de classe.
O presente foi dado numa ocasião muito oportuna: dois dias antes do 31 de outubro, em que se comemora a Reforma Protestante (1517). Digo isso porque o pastor Nicodemus é reformado, e porque a leitura do livro me fez pensar no excelente legado protestante para todas as igrejas que se pretendem evangélicas.
Começando a ler o livro em meio às preocupaçõs da mudança e da locação de uma casa na Bahia, li a maior parte no ônibus até São Paulo e o terminei aqui na casa da tia de minha esposa. E agora, mais sereno e confortavelmente instalado, me ponho a resenhar, ainda que de modo simples, essa considerável obra.
O livro nasceu do blog http://tempora-mores.blogspot.com, que eu já conhecia, e o Pr. Nicodemus divide com seus amigos Mauro Meister e Solano Portela. Trata-se de uma reunião de "posts" sobre a crise teológica e moral que se abate sobre o evangelicalismo brasileiro.
Quatro linhas teológicas são enfrentadas com maestria pelo pastor calvinista: a) os liberais; b) os neo-ortodoxos ou neoliberais; c) os libertinos; d) os neopentecostais.
De acordo com o autor, conquanto o liberalismo teológico tenha perdido a influência nos Estados Unidos e na Europa, é necessário tratar dele por causa de seminários e escolas de teologia com índole liberal, especialmente quando evangélicos buscam cursos com aprovação do Ministério da Educação, mas desprovidos da ortodoxia cristã, nos quais se ensinam mais dúvidas do que certezas sobre a Bíblia, a partir do método histórico-crítico, suplantando-se o método gramático-histórico de interpretação.
Os liberais gostam de dizer que a Bíblia está repleta de mitos, que não há milagres, que não há uma ação sobrenatural de Deus, e, seguindo o suíço Karl Barth (1886-1968) os neo-ortodoxos ou neoliberais pressupõem as mesmas coisas, com a diferença de que buscam ressaltar que isso não importa, que o que vale é o encontro existencial do indivíduo com a Bíblia, ainda que seja, segundo eles, um livro religioso que expressa simplesmente a reação de um povo a acontecimentos naturais, dando-lhes conotação espiritual.
O pastor Augustus Nicodemus ainda trata dos libertinos, que defendem o casamento gay, o aborto, a eutanásia, o sexo antes e fora do casamento, além de outras coisas moralmente indefensáveis à luz da Palavra de Deus.
Os neopentecostais - termo que o autor emprega para igrejas capitaneadas pela Universal do Reino de Deus e pela Renascer em Cristo - são caracterizados pela ênfase à teologia da prosperidade, batalha espiritual, relativismo, pluralismo religioso, e uma estrutura eclesiástica centrada em apóstolos e bispos.
O autor defende a idéia de que todos esses grupos poderiam ser chamados de "esquerda teológica", por sua tendência a advogar teses da esquerda política, mas tem o cuidado de dizer que isso não significa que todo esquerdista político será esquerdista teológico, embora o esquerdista teológico tenha a inclinação a ser esquerdista na política, como os democratas-liberais norte-americanos.
O pastor Nicodemus não deixou de tratar dos fundamentalistas, puritanos e pastores conservadores em geral. Fez um classificação dos fundamentalistas cristãos históricos, fundamentalistas americanos, fundamentalistas denominacionais e fundamentalistas teológicos. Expôs o lado bom dos puritanos (Séculos XVI a XVIII) e o quanto esse termo tem sido usado com um tom pejorativo (assim como o neologismo "puritânicos"). Mencionou os neopuritanos que hoje mantêm uma atitude de não-conformismo diante do consumismo, e até pedem maior intervenção estatal para corrigir distorções sociais.
Quanto aos pastores conservadores, o autor busca explicações para suas igrejas serem "minúsculas". Esse é um importante auto-exame, não no que diz respeito ao autor, mas às igrejas históricas, que, muitas vezes premidas pelo crescimento de igrejas chamadas neopentecostais, acabam sendo levadas a buscar crescimento numérico a todo custo.
Por fim, observe-se que o autor tratou de defender peremptoriamente a inerrância, a inspiração divina e o caráter autoritativo das Escrituras Sagradas, assim como a pureza sexual, o valor da piedade, da oração, e a necessidade de pensarmos sobre os motivos de as igrejas teologicamente sérias ficarem estagnadas a pequenos rebanhos.
Gostei muito do livro. Cheguei a dizer várias vezes à minha esposa: "Esse livro é bom!". Meus alunos realmente parecem ter compreendido que eu gostaria de ler uma obra dessas. Creio que isso deve ter a ver com o que lhes falei em nossas aulas, defendendo a sã doutrina, a importância do pensar a Fé, e a crítica saudável à situação do que se denomina "Igreja evangélica brasileira".
Então, querido leitor, se eu puder lhe recomender alguma coisa agora, recomendo a leitura do livro "O que estão fazendo com a Igreja - ascensão e queda do movimento evangélico brasileiro" (LOPES, Augustus Nicodemus. São Paulo: Mundo Cristão, 2008, 201p).

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

491 anos da Reforma Protestante

O dia 31 de outubro é importante para o mundo genuinamente cristão, mas creio que aqui no Brasil somente os presbiterianos, luteranos e irmãos de outras igrejas reformadas chegam a comemorar a contento essa data marcante. Eu, um pentecostal histórico do tipo pretendente a "bereano", aprendi a admirar o pensamento teológico dos meus irmãos presbiterianos, e muito disso se deve certamente ao meu período de ABU (Aliança Bíblica Universitária) em Viçosa-MG, e ao meu contato com a revista Ultimato.
É certo que, em termos de uma sociologia da religião, os pentecostais parecem estar no "evangelicalismo", enquanto outros grupos, como os batistas, dizem que vieram antes da Reforma, que já existiam antes de Martinho Lutero cravar suas 95 Teses na porta da Capela da Universidade de Wittemberg. E efetivamente houve, antes de Lutero, homens que divergiram da Igreja de Roma.
Mas, de um modo geral, todo o pensamento cristão ortodoxo que conheço se abebera da Reforma, e todo cristão que se pretende maduro na Fé admite os Cinco Solas: Sola Gratia, Sola Fides, Sola Scriptura, Solus Christus, Soli Deo gloria (só a graça, só a fé, só a Escritura, só Cristo e glória somente a Deus).
Ressalvadas as questões da doutrina calvinista da predestinação (graça irresistível, chamamento eficaz etc.) e os resquícios romanistas que se vêem na obra de Lutero, todos nós cristãos não-católicos deveríamos nos sentir protestantes, porque tanto a doutrina da Salvação como toda a perspectiva da Bíblia como Palavra de Deus inerrante, definitiva e infalível veio a ser assentada pelo labor teológico dos reformados. Assim, sendo nós evangélicos, e, dentro desse espectro, sendo batistas, congregacionais ou pentecostais, além de tantos outros grupos que se queiram ortodoxos, todos nós somos herdeiros teológicos da Reforma.
Por falar em "ortodoxos", lembro que existe a Igreja Ortodoxa Grega, e todas aquelas tradições cristãs orientais das quais não tenho conhecimento, mas que antecedem a Reforma em séculos. Apesar disso, ninguém pode esquecer o quanto a Reforma produziu de benefícios para o mundo cristão, principalmente no que toca ao reconhecimento da autoridade das Sagradas Escrituras, enquanto o Romanismo depredou séculos e séculos (da Idade das Trevas) sob o tacão da ignorância e do poderio régio-papal.
O inconformismo recomendado por Paulo em Rm 12.2 é um ingrediente do crente não apenas reformado, mas transformado. E entendo que, mais do que movimento explicado por motivações políticas, culturais, sociais ou econômicas, a Reforma Protestante foi um verdadeiro avivamento, que, como tal, partiu da Escritura Sagrada, e a ela se voltou. E isso não anula nem afasta os precedentes históricos nem as conseqüências políticas, econômicas, culturais e nacionais que a Reforma engendrou.
Este é meu jeito de dizer que também comemoro o dia 31 de outubro, quando, agora em 2008, a Reforma comemora 491 anos!

sábado, 25 de outubro de 2008

Mais uma mudança e suas conseqüentes reflexões

A casa está como eu mesmo: desarrumada, cheia de caixas vazias para colocar coisas que mais uma vez tomarão novo rumo. Bahia, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Bahia de novo. São muitas mudanças em pouco tempo, em pouca vida, em poucos anos.
Amizades que se constroem e que se despedem. Contatos que deverão permanecer, enquanto outros ficarão na memória esquecida de minha mente limitada.
Não conheci o Pantanal, não fui a Bonito, quase não saí de Campo Grande. Mas há quem eu leve no coração, isso eu sei. Pessoas valem muito mais do que lugares. Quer gostar de um lugar? Goste de pessoas do lugar.
As três décadas que tenho não me ensinaram a não chorar na partida, mas me ensinaram a entender que não existe chão que, ao ser pisado, fique inerte. Todo chão deixa o seu ensino e as cores do seu cotidiano.
Menos de dois anos já foram capazes de criar relacionamentos que, espero, sejam duradouros. Conheci cristãos firmes na Fé, com os quais partilhei dúvidas, temores, problemas, alegrias, críticas, aprendizado. Também conheci crentes que professam uma fé materialista, que pensam em semear dinheiro para colher mais dinheiro ainda. Reconheci que o consumismo campograndense adentra às igrejas, agora com a roupagem "teológica" da Confissão Positiva.
Não posso negar: amo pessoas que aqui conheci. Professores, colegas do curso teológico, alguns pastores, colegas do meu trabalho, meus superiores. Acertei e errei, mas tenho certeza de que, em Cristo, apesar de meus erros e limitações, devo ter deixado a marca de quem foi salvo por Cristo. Espero ter deixado a marca de um homem íntegro, um homem de caráter regenerado, embora pecador.
Tenho a necessidade de mostrar que um cristão não precisa vender seus princípios para ser benquisto em sua igreja. Aliás, se eu sofrer oposições, como sofri, que seja pela Causa de Cristo. Não devo me importar se os homens não me ordenam a cargos importantes, se meu nome não é lembrado, se meus supostos talentos ficam adormecidos porque tenho certos embates com alguns que se mantém aferrados ao poder. Se eu tiver pregado o Evangelho, se eu tiver mantido meus princípios mais caros, entenderei que valeu a pena perder tudo aquilo que os homens gostariam de me dar, depois de tanto me arrancar.
As aulas na classe Melquisedeque e nas outras classes por onde passei - como esquecer?
As aulas que assisti na FATHEL - como esquecer?
As discussões (acaloradas ou não) na mesma Faculdade - como esquecer?
As palavras de apoio e incentivo de irmãos em Cristo, que, com seu abraço carinhoso e olhar sincero, muito me animaram a continuar nessa jornada que tantas vezes parece solitária.
Não posso esquecer de professores-pastores que vieram à minha casa conversar, aconselhar, orar, pastorear.
Não posso esquecer que em Campo Grande comecei a realizar o sonho de estudar Teologia, apesar de que, por ora, terei que estancar o curso...
Não posso esquecer de que foi aqui em Campo Grande que entendi mais um pouco sobre o meu chamado, embora haja tantas obscuridades em minha vocação (não que Deus seja obscuro, mas eu, quem sabe, inseguro).
Foi aqui que comecei a escrever num blog.
Foi aqui que desenvolvi um pensamento teológico, ainda que elementar.
Foi aqui que Elisa aprendeu a falar, e que um rebento foi concebido.
Aqui na terra morena, na terra do tereré, na terra da mandioca amarelinha, na terra do erre puxado, na terra do povo introspectivo, na terra dos muitos quartéis, na terra meio paulista, na terra também nipônica, na terra de árabes, gaúchos, sei lá. Aqui eu não tive como não aprender.
Este texto poderia ser mais longo, como longa é a saudade que já se avizinha do meu coração. Mas estranha é essa coisa de saudade: por mais que faça chorar, a saudade só existe no coração de quem consegue transformar vida em amor.







terça-feira, 21 de outubro de 2008

Resposta a um admirador de René Terra Nova e Cia.

Em comentário ao nosso artigo Silas Malafaia fala de sua relação com René Terra Nova, um leitor chamado "Berginho" escreveu o seguinte:
"Alex, calma camarada, se voce não tem condições de caminhar com a adversidade de pensamento fique na sua. não fique triste com o crescimento dos outros, seja g12,g29 ministerio disso ou daquilo alegre-se com as almas que estão se convertendo e deixa que Deus faça a parte DEle, de juiz, pois Ele somente Ele pode discernir se estamos ou não enganados com os nossos metodos. não precisamos meu bom homem brigar entre nós. prepare mensagens e coloque no seu blog e voce verá que terá resultados positivos. abraços" (sic).
Este comentário merece muitas observações, que faço a seguir:
1) O leitor deve ter querido se referir a "diversidade de pensamento", e não "adversidade", algo muito diferente;
2) Eu sei conviver com diversidade de pensamento, mas, à semelhança de Paulo, Pedro, Judas, Tiago, Jeremias, e principalmente nosso SENHOR Jesus Cristo, não posso concordar com o ensino falso, com o "outro evangelho" (Gl 1.6-8), com o comércio da fé, com o pragmatismo, com o materialismo, com a exaltação do método em detrimento da mensagem evangélica;
3) O leitor disse que devo me alegrar com "as almas que estão se convertendo". E eu lhe pergunto: estão se convertendo a quê e a quem, se o que se ouve é um "evangelho" centrado no homem, em heresias e modismos, e não em Jesus Cristo?
4) O leitor mostra ser uma pessoa pragmática. Sabe o que é isso? Pragmatismo é uma filosofia ou estilo de vida que leva em conta, como critério de validade das coisas, os seus "resultados positivos", que, no caso das igrejas que o leitor admira, se traduz em crescimento numérico a todo custo;
5) Ao dizer que devo deixar o julgamento a Deus, o leitor revela que não sabe qual a distinção entre o julgamento proibido em Mt 7.1 e o julgamento recomendado em At 17.11, I Ts 5.21, Rm 12.2, I Co 14.29, Jo 7.24, I Co 2.15, I Jo 4.1. Para lhe ajudar na interpretação desses textos, eis que, enquanto Mt 7.1 trata do preconceito e julgamento das motivações alheias, o julgamento de At 17.11 é juízo crítico responsável dos irmãos nobres que, ao ouvirem o pregador (Paulo), vão conferir nas Escrituras para ver se as coisas são de fato assim; o julgamento de I Ts 5.21 é o de examinar (julgar) tudo e ficar só com o que é bom; o inconformismo de Rm 12.2 é precedido de avaliação, julgamento, pois ninguém fica inconformado sem julgar os fatos com os quais não se conforma; o julgamento de I Co 14.29 é - veja só - sobre as profecias, que Paulo manda que os outros julguem; o julgamento de Jo 7.24, segundo palavras de Jesus (o mesmo Mestre de Mt 7.1) deve ser "pela reta justiça", e não pela aparência; o julgamento de I Co 2.15 é o discernimento que o homem espiritual deve ter de todas as coisas; o julgamento de I Jo 4.1 é dirigido aos "espíritos", para que não demos crédito, não acreditemos em qualquer palavra. Portanto, o amado irmão está completamente equivocado em sua perfunctória análise (nesse item, sugiro a leitura do livro Mais erros que os pregadores devem evitar, do Pr. Ciro Sanches Zibordi, especialmente o Cap. 8, que responde à pergunta Quem disse que não podemos julgar?).
6) Ao supor que estou triste com o "crescimento" de outros por não saber "caminhar com a adversidade de pensamento" (sic), o leitor mostra que, na verdade, fez avaliação subjetiva, a ponto de imaginar que escrevi o texto porque fiquei triste. Quem lhe disse que essa foi a minha motivação? Isso não é subjetivo demais? Repare, no entanto, que, se o seu julgamento partiu das entrelinhas do que eu disse, ou do que o leitor pensou que eu disse, meu texto é fruto de avaliação bíblica, sim senhor, com respaldo na Palavra de Deus, e não em minhas suposições;
7) Ao dizer que não devemos brigar entre nós, lembre-se de que em nenhum momento eu disse que participamos do mesmo grupo - não pense que combater heresias é combater a Igreja. Apoiar heresias é combater a Igreja. Não sei mesmo se estamos no mesmo barco, mas nesse ponto efetivamente não posso julgá-lo (entendeu a diferença?);
8) A sugestão para que eu escreva "mensagens" neste "blog" indica que o leitor não se deu ao trabalho de ler alguns de nossos estudos bíblicos, ensaios teológicos e esboços de aula na escola bíblica, talvez pela grande extensão dos mesmos;
9) Se o leitor acredita que não podemos avaliar se nossos métodos estão certos ou não, isso significa que vale tudo, à moda de Maquiavel, como se não tivéssemos a Bíblia como nossa regra definitiva de fé e conduta;
10) Por fim, espero que da próxima vez o leitor "Berginho" adentre ao mérito da questão e procure empregar, se os encontrar, argumentos bíblicos em defesa do G-12, do crescimento numérico sem conteúdo, das conferências "proféticas" de passar o manto etc. Use a Bíblia, e não o simples ataque que só tangencia, mas nunca expõe o verdadeiro Evangelho de Cristo, que salva o pecador, sem imitar o mundo.
Amado, não tenho nada contra a sua pessoa. Tenho tudo, porém, contra sua equivocada maneira de pensar. Mas publiquei seu comentário porque sei conviver com a diversidade de pensamento.
Em Cristo,


segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Desculpe: sou imperfeito

Você aprendeu a me admirar, mas esqueceu os meus defeitos. Achou que eu estava numa vitrine, intocável, insuspeito. Tendo visto meu nome na Galeria da Fé, logo imaginou que eu era santo demais, justo demais, forte demais. Mas não sou, não.
Você sabe que me chamam de Pai da Fé. Mas não se esqueça de que o importante mesmo é que essa fé apareça em você, como dom de Deus. Eu não acreditei em Deus porque fosse uma pessoa boa, mas porque conheci Aquele que me fazia as promessas. Eu cri nas promessas do SENHOR, não cultivei nada de pensamento positivo. Apenas cri nAquele que falava comigo, e saí de minha terra. A iniciativa foi toda d'Ele. Agora, por que Ele escolheu a mim, não me pergunte...
Eu era rico, sabe? Tinha de tudo que se possa imaginar em termos materiais. Mas o SENHOR me chamou para fora do meu mundo. Saí para uma terra desconhecida, e no percurso cometi muitos erros...
Deus me prometera um filho, mas, como eu era velho e minha esposa, velha e estéril, entendemos que Deus estaria se referindo a um filho por adoção legal. Então, arranjamos um jeito - como me custa lembrar! - de termos um filho por meios jurídicos, a fim de garantir o cumprimento da promessa. E estávamos enganados. Até um acordo de casal pode estar redondamente errado. Nosso filho nasceria depois por um milagre de Deus. Como fui incrédulo.
Por duas vezes seguidas, e de modo semelhante, cometi uma meia-verdade, que é outro nome para mentira completa: disse a dois homens poderosos que minha esposa era só minha irmã, e isso porque tinha medo de que me matassem por causa dela. Sim, fiz isso duas vezes! E me arrependi. Estava equivocado, e Deus só me ajudou por Sua misericórdia.
Deus confirmou Suas promessas, e não falou uma vez só, não. Ele conversava comigo, sempre tomando a iniciativa. O que eu fazia era cultuar ao Seu Nome, agradecer por Sua bondade. A graça divina me alcançou lá no paganismo. Eu mesmo nada tinha a oferecer ao SENHOR.
Certo dia, Deus me pediu aquele que eu mais amava, o meu único filho amado, o filho da promessa. E eu, naquele momento, por graça de Deus, tive fé. Entendi que Deus poderia ressuscitar meu filhinho. Entendi que meu relacionamento com Deus podia me dar essa esperança. Eu sabia que meu SENHOR provê todas as coisas necessárias. Mas isso, lembre bem, não veio de mim - não sou daqueles que se gabam de suas conquistas. Tudo o que tive, em todos os sentidos, proveio das promessas generosas do SENHOR.
Eu não inventei a fé. Eu não disse jamais que a fé é pensar positivamente e barganhar com Deus. Quando eu dei o dízimo ao Sacerdote do Deus Altíssimo, eu não estava esperando uma recompensa, uma coisa em troca. Eu entreguei o dízimo assim como entreguei minha vida. Nada posso dar a Deus em retribuição pelas vitórias obtidas em Sua presença. Não é com dinheiro e bens que alguém poderá agradar ao meu SENHOR. Não consigo pensar assim.
Sei que tem gente boba citando meu nome como se fosse um super-homem, que teve uma fé mágica, com super-poderes, com objetivos mesquinhos de ganhar dinheiro e bens. Dizem por aí que fiquei rico porque usei uma atitude mental "positiva". Se me conhecessem de fato, se passassem por mim, nem me cumprimentariam, porque achariam estranha a minha figura. Sou um homem trabalhador, simples e crente em Deus.
Desculpe se te decepcionei. Não tenho nada de explosivo para dizer no final deste texto.
Assinado: Abraão.
* Crônica baseada na História de Abraão, contada no Livro de Gênesis (11.26-25) e referida no Novo Testamento tanto por Jesus, nos Evangelhos (Mt 3.9; Lc 16.22; Jo 8.58), como pelo apóstolo Paulo nas Cartas aos Romanos (cap. 4) e aos Gálatas (3.6-1), bem como pelo autor anônimo de Hebreus (11.8-12) e por Tiago (2.21-24).

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

A Igreja dos Crentes Fiéis que Estão Esquentando o Banco

A Igreja dos Crentes Fiéis que Estão Esquentando o Banco está espalhada por todos os Estados do Brasil, e certamente se faz representar em cada Município. São muitas e muitas igrejas dispersas por este País. São muitos os crentes atuando nessa Igreja, mas não porque queiram...
O requisito para ser membro da Igreja dos Crentes Fiéis que Estão Esquentando o Banco é ser de algum modo divergente do que a liderança diz e faz. Maduros, espirituais e firmes na Fé, eles conhecem a Bíblia, foram bem doutrinados, mas cometem o "pecado" de discordar, de manter sua consciência livre de heresias, pragmatismo e antropocentrismo.
Atualmente a Igreja dos Crentes Fiéis que Estão Esquentando o Banco está crescendo muito, algo que as pesquisas do IBOPE não conseguem captar por uma razão muito simples: eles estão na informalidade!
São crentes de várias confissões de fé, que freqüentam diversos santuários, com placas as mais variadas. São crentes realmente diversificados no que toca a doutrinas secundárias, mas acima de tudo cristocêntricos, bíblicos. Só que, por sua insistência em não vender seus princípios mais caros, eles acabam se tornando esquentadores de banco, pois seus líderes sabem que, se falarem, se ousarem falar, haverá muita confusão, já que outras pessoas aprenderão que o pensar existe e foi feito para o crente também.
Mas não pense que esses irmãos sejam necessariamente inativos. Se esquentam banco durante os cultos da igreja formal, muitos deles criam alternativas para-eclesiásticas, como a evangelização por conta própria, a distribuição de folhetos na rua, a visita a presidiários, enfermos e enlutados, a criação de "blogs" na Internet, a pesquisa teológica auto-didata, a participação em cursos teológicos, a ministração de aulas e pregações para quem quiser ouvir.
Outros, porém, membros da mesma Igreja, se vêem tão aprisionados pela burocracia eclesiástica - do tipo "para evangelizar vá ao departamento de missões e evangelismo e peça para falar com o setor de distribuição de folhetos" - , digo, eles se vêem tão aprisionados que só esquentam banco mesmo, porque se sentiriam culpados se fizessem qualquer atividade típica de igreja fora da igreja formal. Com isso, não por sua culpa, vão perdendo a chance de se alegrar com o desenvolvimento de seus talentos naturais e dons espirituais.
Existe muita chance dessa Igreja crescer, na medida em que igrejas históricas têm sido infiltradas pela Confissão Positiva, Teologia da Prosperidade e Triunfalismo. Por se sentirem fora desse contexto herético, e por acharem que é seu dever empunhar a bandeira da sã doutrina, eles vão levando a vida cristã assim, como crentes de segunda categoria, como subcrentes, como os excluídos da igreja formal.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Quem era a mulher de Caim?

Em seu livro Erros que os pregadores devem evitar (veja a postagem anterior), precisamente à pp. 91/92 da 8ª edição (Rio de Janeiro: CPAD, 2006), o Pr. Ciro Sanches Zibordi deixa algumas perguntas ao leitor, como exercício de hermenêutica. Que bom! Façamos o exercício, ou melhor, tentemos fazê-lo.
A primeira questão é a seguinte: "quem era a mulher de Caim"? Afinal, com quem ele se casou, se até então o Livro de Gênesis trata apenas de quatro pessoas, a saber, Adão, Eva, Caim e Abel? Como resolver isso?
Estamos em Gn 4.16,17, bem no início da Bíblia.
(1) Observemos quatro diferentes traduções para o mesmo texto:
"E saiu Caim diante da face do SENHOR e habitou na terra de Node, da banda do oriente do Éden. E conheceu Caim a sua mulher, e ela concebeu e teve a Enoque; e ele edificou uma cidade e chamou o nome da cidade pelo nome de seu filho Enoque" (Almeida Revista e Corrigida ou ARC).
"Retirou-se Caim da presença do SENHOR e habitou na terra de Node, ao oriente do Éden. E coabitou Caim com sua mulher; ela concebeu e deu à luz a Enoque. Caim edificou uma cidade e lhe chamou Enoque, o nome de seu filho" (Almeida Revista e Atualizada ou ARA).
"Caim se retirou da presença de Iahweh e foi morar na terra de Nod, a leste de Éden. Caim conheceu sua mulher, que concebeu e deu à luz Henoc. Tornou-se um construtor de cidade e deu à cidade o nome de seu filho, Henoc" (Bíblia de Jerusalém ou BJ).
"Então Caim afastou-se da presença do Senhor e foi viver na terra de Node, a leste do Éden. Caim teve relações com sua mulher, e ela engravidou e deu à luz Enoque. Depois Caim fundou uma cidade, à qual deu o nome do seu filho Enoque" (Nova Versão Internacional ou NVI).*
Note-se que, enquanto a ARC e BJ usam o verbo "conheceu", dando a entender, para nossas mentes modernas, que Caim deparou com sua esposa na terra de Node, a ARA e a NVI usam expressões diferentes: "coabitou" (ARA) e "teve relações" (NVI), o que oferece a possibilidade de que Caim já era casado quando saiu peregrinando a partir do Éden.
O verbo "conhecer" é também empregado na ARC com o sentido de ter relações sexuais nas passagens de Gn 4.1 e 25, pelo menos (A Bíblia de Estudo Pentecostal tem uma nota acerca disso, para Gn 4.1).
Desse modo, não é que Caim tenha conhecido sua esposa numa terra chamada Node. O que ocorreu foi que ele teve relações com ela na terra por onde peregrinava, porque Node ou Nod significa justamente "peregrinação", segundo a Bíblia Anotada e a NVI, além da BJ, na edição de 2002, ligar esse nome ao caráter "errante" de Caim, conforme Gn 4.14.
Sendo assim, Caim deve ter saído do Éden com sua esposa, foi peregrinando, teve relações com ela, e não só formou uma família como fundou uma cidade.
(2) É necessário recorrermos a algumas informações técnicas:
Vejamos o que diz a Bíblia Anotada para Gn 4.17, quanto à mulher de Caim: "Obviamente uma filha de Adão (cf 5:4). Pode ter sido uma irmã, sobrinha ou até mesmo sobrinha-neta de Caim. Já que os sistemas genéticos de Adão e Eva não continham genes mutantes, tal casamento não seria perigoso então, como é em nossa época..." (São Paulo: Mundo Cristão, 1994).
O Novo Comentário da Bíblia anota o seguinte, sobre a frase "conheceu Caim a sua mulher": "Sua mulher era uma das filhas de Adão. Não há motivo para supor-se que Caim já não estivesse casado antes de cometer o assassinato; nem de supor-se que, presumindo que ainda não se tivesse casado, que ele ocasionalmente não retornasse ao seu antigo lar, no decurso de suas peregrinações, e não tivesse escolhido para si uma irmã como esposa, numa dessas ocasiões" (São Paulo: Vida Nova, 1963, V. I, p. 89).
E ainda a Bíblia de Estudo Pentecostal: "Adão e Eva tiveram outros filhos e filhas (5.4). Caim, portanto, deve ter se casado com uma de suas próprias irmãs. Semelhante relacionamento foi uma necessidade, no início. Posteriormente, devido à proliferação dos funestos efeitos da queda e os casamentos entre parentes multiplicarem as anomalias biológicas nos filhos, esse tipo de casamento foi proibido (Lv 18.6,9; 20.12,17-21; Dt 27.22,23)".
Ora, em algum momento, que não podemos precisar, Caim tomou uma de suas parentas como esposa.
(3) Olhemos ainda o contexto:
Em Gn 4.15, há um indício de que já existiam mais pessoas habitando a Terra, fora do Éden (?) ou de que isso poderia vir a ocorrer logo: "...E pôs o SENHOR um sinal em Caim para que não o ferisse de morte quem quer que o encontrasse". E o próprio Caim diz "quem comigo se encontrar me matará" (Gn 4.14).
Não pode haver dúvidas: havia ou haveria mais pessoas naquele momento, só não podemos precisar quando elas nasceram. Mas o certo é que vieram de Adão e Eva, os primeiros habitantes da Terra, criados por obra singular de Deus, sendo Adão considerado nosso ancestral comum (Gn 1.26,27; 2.7, 18-25; Lc 3.38; Rm 5.14; I Co 15.22, 45; I Tm 2.13). Os demais seres humanos nasceram por reprodução sexual, não pelo procedimento empregado ali.
Veja-se que em Gn 5.4 está escrito que, depois do nascimento de Sete, Adão e Eva tiveram "filhos e filhas". Certamente Caim se casou com uma dessas mulheres.
(4) Ainda sobre o contexto:
Devemos compreender também que naquela época o Ser Humano tinha uma expectativa de vida mais ampla do que a nossa. Adão viveu 930 anos (Gn 5.5), e tinha 130 anos de idade quando gerou Sete (Gn 5.3). Não precisamos entender diferente porque o texto é claro nesse sentido, o que pode ser explicado por condições ambientais distintas do que temos hoje, tendo em vista as conseqüências do pecado.
(5) Conclusão:
Considerando todos esses elementos, minha conclusão é que a esposa de Caim era descendente de Adão e Eva, não sei em que parentesco; a terra de Node é na verdade a terra pela qual Caim andou errante; circunstâncias biológicas podem explicar tanto a reprodução normal entre parentes como o maior tempo de vida desses nossos distantes ancestrais.
*Os grifos são meus.
** Quando não citei a tradução foi porque usei a ARA.




Sobre os livros "Supercrentes", do Pr. Paulo Romeiro, e "Erros que os pregadores devem evitar", do Pr. Ciro Sanches Zibordi

Na segunda-feira pela manhã, li a obra Supercrentes, do Pr. Paulo Romeiro. Só interrompi a leitura para tomar um cafezinho. De ontem para hoje, li o livro Erros que os pregadores devem evitar, do amado Pr. Ciro Sanches Zibordi, que mantém o blog http://cirozibordi.blogspot.com.
Trata-se de duas obras importantes para a Igreja brasileira porque, de modo simples, objetivo e contextualizado, versam sobre problemas teológicos e eclesiásticos como a Teologia da Prosperidade, a Confissão Positiva, o Triunfalismo e o "evangelho antropocêntrico" - para usar uma expressão do Pr. Ciro Zibordi.
O Supercrentes (São Paulo: Mundo Cristão, 2ª Ed., 2007, 110p.) é importante porque enfrenta com eficácia a Confissão Positiva e a Teologia da Prosperidade, e especialmente porque menciona os brasileiros Valnice Milhomens, R. R. Soares, Edir Macedo, além dos africanos Jorge Tadeu (Igrejas Maná) e Miguel Ângelo (Igreja Cristo Vive), expoentes desse segmento herético, o que traz o tema bem ao nosso contexto, citando nomes que conhecemos, pois todos estes atuam no Brasil.
Aliás, para minha tristeza, a Rede Boas Novas anda veiculando a programação desse tal "apóstolo" Jorge Tadeu, e um dos programas em que vi esse homem ensinando a Confissão Positiva foi justamente em torno de uma pregação dele na Assembléia de Deus paraense...o que não preciso ocultar porque passou na televisão.
Voltando ao livro Supercrentes, o autor cita a igreja Verbo da Vida como uma das manifestações do Movimento da Fé no Brasil. Aqui em Campo Grande-MS existe um de seus templos na Avenida Mato Grosso. Quem passar na frente vai ver ali estampado o vocábulo grego Rhema, cujo significado Hagin manipulou a fim de sugerir a noção de palavra que decreta cura e prosperidade, quando a diferença para logos, que também quer dizer "palavra", é, na verdade, irrelevante, e não tem nada que ver com "palavra criadora", essas coisas de determinação, profetizar bênçãos etc.
Com efeito, o Pr. Paulo Romeiro mostra algumas heresias do norte-americano Kenneth Hagin, como a afirmação de que somos deuses, e a falsa doutrina de que a salvação adveio de uma suposta morte espiritual de Cristo no inferno. Hagin disse ainda que Cristo assumiu natureza satânica, o que chega a ser uma blasfêmia!
Quanto ao Erros que os pregadores devem evitar (Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembléias de Deus, 8ª Ed., 2006, 159p.), foi o livro mais vendido pela CPAD no ano de seu lançamento, além de ser um best-seller - o que indica que nem todo best-seller evangélico merece nossa suspeita...
Com linguagem clara, criatividade, recursos de ironia e conhecimento bíblico-teológico, o Pr. Ciro vai tratando de diversas frases pseudo-bíblicas que vêm sendo utilizadas por pregadores por esse Brasil afora, o que tem o mérito de, como o livro Supercrentes, trazer uma mensagem ao povo evangélico brasileiro, tão carente de literatura teológica nacional de boa qualidade.
O autor ainda comenta letras de "hinos" que transmitem conceitos não-bíblicos, e chama nossa atenção para a autoridade infalível, inerrante e plena das Escrituras Sagradas. É um livro que deve ser lido por pregadores iniciantes e experimentados. Eu mesmo, que não prego faz tempo, mas que já preguei algumas vezes, vi-me um tanto mais reverente diante do que li.
Devo dizer que é muito bom ler uma obra que se aproxima de nossa realidade, pois, de fato, muitas e muitas daquelas frases mencionados pelo Pr. Ciro são recorrentes nas igrejas, e muito próximas de minha experiência eclesiástica.
É verdadeiramente oportuno que haja escritores como o Pr. Ciro, porque, de modo simples, direto e espirituoso, ele acaba tratando de vários temas teológicos de profundidade, como, por exemplo, o caráter cristocêntrico da Bíblia, a distinção entre Geena, Hades e Tártaro, a refutação ao Triunfalismo, à Confissão Positiva e à Teologia da Prosperidade, a autoridade definitiva da Palavra de Deus, o ofício do pregador, assuntos da Escatologia, além de ferramentas necessárias, como a boa homilética e a hermenêutica, dando sugestões práticas como a relevância do contexto, da análise gramatical e do estudo dos costumes antigos.
Fiquei imensamente feliz por perceber que meu pensamento tem se coadunado com o que pensam os pastores Paulo Romeiro e Ciro Zibordi. Eu tenho - de maneira mais limitada, é claro - defendido o mesmo Evangelho bíblico e cristocêntrico, e basicamente o que li nesses livros eu já entendia como verdades bíblicas. Sabe por quê? Porque os autores não inventaram - a qualidade de cada um deles é a de expor a sã doutrina por meio da escrita: o Pr. Paulo Romeiro fazendo uma pesquisa sobre um movimento herético, e o Pr. Ciro tecendo comentários bíblicos a partir da "teologia prática" disseminada em pregações inúmeras.
Olha, se eu puder recomendar alguma coisa a você agora, recomendo esses livros: Supercrentes e Erros que os pregadores devem evitar.

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Para pensar:

Um dos terríveis problemas da Igreja evangélica brasileira é a falta de conhecimento da Bíblia como um sistema coerente de princípios, promessas e relatos que apontam para Cristo como Criador, Sustentador e Salvador. Em vez disso, prega-se um "jesus" diminuído, porque criado à imagem de seus idealizadores, e que faz uso de textos bíblicos isolados, como se fossem amuletos, peças mágicas a serem usadas ao bel-talante do indivíduo.

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Bases de Fé

Creio:
Em um só Deus e na Trindade.
Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristão.
Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal e sua ascensão aos céus.
Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor.
No batismo bíblico em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo.
Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus, através do poder do Espírito Santo.
No batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a intercessão de Cristo.
Na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja para sua edificação, conforme a sua soberana vontade.
Na Segunda Vinda de Cristo.
Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo.
No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis.
E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.