Alex Esteves

Seja bem-vindo a este "blog"! Meu objetivo principal é depositar aqui reflexões bíblico-teológicas, com espaço também para poemas, crônicas e idéias sobre política, cultura e generalidades. E acredito que Fé e Razão não precisam viver em conflito.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

De piadas prontas

O José Simão, com seu personagem "Macaco Simão", da Folha de São Paulo e do UOL, brinca com a sua tese de que o Brasil é "o país da piada pronta". Às vezes a gente depara com situações em que essa tese parece se confirmar.
Certo dia, num supermercado, eu e minha esposa vimos o seguinte livro à venda: A Felicidade Conjugal seguido de O Diabo (Editora L&PM Pocket). É um livro com duas obras do escritor russo León Tolstói (1828-1910), autor de Guerra e Paz, trazendo A Felicidade Conjugal e O Diabo. Mas ficou estranho - felicidade conjugal seguida do Diabo? Nem mesmo a questão da concordância nominal (felicidade/seguido) impede essa observação imediata, devido ao que se diz dos casamentos infelizes, em que Deus não tem a primazia.
Referida editora ainda tem: O coronel Chabert seguido de A mulher abandonada (Balzac) - a mulher devia estar abandonada mesmo! Enquanto há a felicidade conjugal seguida pelo Diabo, há um coronel seguido por uma mulher abandonada...
Para muitos, pode ser assim mesmo: vem a felicidade dos enamorados seguida pelos problemas da rotina considerada chata, da perda do amor ou da quebra de confiança, coisas nada parecidas com as declarações iniciais dos nubentes.
Mas não foi só isso. Ontem à noite, pesquisando em sites de editoras, vi o título Como conviver bem com as pressões esgotado. Estava escrito assim mesmo, pois não havia nenhuma pontuação entre "pressões" e "esgotado". Na verdade, a obra, publicada pela Editora Betânia e de autoria de Richard A. Swenson, chama-se Como conviver com as pressões, e o "esgotado" quer dizer que a obra não tem mais exemplares à venda. Mas, do jeito que estava escrito, ficou engraçado - como conviver bem com as pressões se a pessoa está esgotada?
Dessa forma, seja num título bem escrito, porém pego pelas coincidências, seja por um pequeno e nada importante detalhe de ortografia num portal na internet, as coisas ficam engraçadas.
Sei lá, creio que eu e minha esposa somos muito observadores. Talvez haja muito mais piadas prontas do que imaginamos, a depender de quem olha e da área de interesse de cada um.
Não sei como concluir essa postagem. Está aí outra piada pronta: o camarada reúne duas informações e não sabe como arrematar o artigo...Mas o pior seria eu inventar aqui uma conclusão só para justificar a postagem, e, sinceramente, eu quis apenas referir essas coisas curiosas que vi.
Fica sem conclusão mesmo.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Estudos sobre Herodes (8) - A esposa piedosa do procurador de Herodes

Vemos em Lc 8.1-3 que "algumas mulheres" acompanhavam Jesus em Sua jornada evangelística por cidades e aldeias da Galileia, as quais "prestavam assistência com os seus bens". Uma dessas mulheres era Joana, "mulher de Cuza, procurador de Herodes". Outra era Suzana, e outra, ainda, era Maria, de Magdala, da qual haviam sido expelidos sete demônios.
Com a ajuda da BÍBLIA ANOTADA, fico sabendo que o cargo de "procurador de Herodes" era "uma posição elevada que envolvia a gerência das finanças do rei Herodes (p. 1823).
A BÍBLIA DE JERUSALÉM ressalta o fato de se tratar da "companhia feminina de Jesus", anotação colocada antes de Lc 8.1 (p. 1801).
Vê-se claramente que essas mulheres financiavam o trabalho de Jesus, como explicam os seguintes comentários:

"Estas mulheres ajudavam a financiar o ministério de Cristo" (A BÍBLIA ANOTADA, p. 1283).

"Lucas descreve um aspecto no ministério do Senhor, durante este período [de missão na Galileia], que não é mencionado em nenhuma outra parte. Ele e os doze formaram um grupo viajante, indo de um lugar para o outro com a mensagem do reino de Deus; outro grupo, composto por mulheres de bens, providenciavam o necessário para que eles fossem recebidos e mantidos (1-3). Esse grupo de mulheres seguiu a Jesus até a Cruz (vide 23:49)" (O Novo Comentário da Bíblia, p. 1038).

De fato, conta-nos Lucas (23.49) que "todos os conhecidos de Jesus e as mulheres que o tinham seguido desde a Galiléia permaneceram a contemplar de longe estas coisas [relacionadas à Sua morte]".
E mais:

"1 Mas, no primeiro dia da semana, alta madrugada, foram elas ao túmulo, levando os aromas que haviam preparado.
2 E encontraram a pedra removida do sepulcro;
3 mas, ao entrarem, não acharam o corpo do Senhor Jesus.
4 Aconteceu que, perplexas a esse respeito, apareceram-lhes dois varões com vestes resplandecentes.
5 Estando elas possuídas de temor, baixando os olhos para o chão, eles lhes falaram: Por que buscais entre os mortos ao que vive?
6 Ele não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos de como vos preveniu, estando ainda na Galiléia,
7 quando disse: Importa que o Filho do Homem seja entregue nas mãos de pecadores, e seja crucificado, e ressuscite no terceiro dia.
8 Então, se lembraram das suas palavras.
9 E, voltando do túmulo, anunciaram todas estas coisas aos onze e a todos os mais que com eles estavam.
10 Eram Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago; também as demais que estavam com elas confirmaram estas coisas aos apóstolos.
11 Tais palavras lhes pareciam um como delírio, e não acreditaram nelas.
12 Pedro, porém, levantando-se, correu ao sepulcro. E, abaixando-se, nada mais viu, senão os lençóis de linho; e retirou-se para casa, maravilhado do que havia acontecido" (Lc 24.1-12).

Vê-se em Lc 24.10 menção expressa de Joana, esposa do procurador de Herodes, como uma das mulheres que a) testemunharam a morte de Jesus; b) viram onde o corpo de Jesus foi sepultado; c) prepararam aromas para o corpo de Jesus; d) guardaram o sábado; e) se dirigiram ao túmulo de Jesus para perfumar Seu corpo; f) viram o túmulo vazio; g) se assustaram com a presença dos dois anjos; h) lembraram das palavras de Jesus acerca dos eventos de Sua iminente morte e ressurreição; i) e foram contar tudo aos apóstolos e aos que com eles estavam reunidos.
Ora, a mulher do procurador de Herodes estava entre as servas de Jesus Cristo? Como pode? Não disse a Teologia da Libertação que Jesus fez a "opção pelos pobres"? Pode mesmo uma pessoa assim ser sincera em sua confissão de fé?
Essas perguntas podem parecer infantis, mas há pessoas que não acreditam na conversão de mulheres de procuradores. Pensam que o Evangelho é apenas para os pobres, para os descamisados, para os miseráveis, para os fracos e oprimidos. Com isso, afastam o Evangelho dos ricos, dos poderosos, dos dominadores, dos endinheirados deste mundo. E o Evangelho é para todos, ricos e pobres, homens e mulheres.
Na realidade, o Evangelho de Lucas é reconhecido por sua ênfase na Salvação de pessoas variadas: crianças, pobres, ricos, gentios, mulheres, samaritanos. Não é preciso ser judeu, nem pobre, nem sacerdote, nem homem.
Aquela senhora chamada Joana não se encaixaria no perfil médio dos evangélicos brasileiros: era rica, bem posicionada socialmente e ligada ao poder. Jesus não a rejeitou. Jesus não rejeita a ninguém, nem mesmo por ser ela a esposa de um alto funcionário de Herodes Antipas, a "raposa" que mataria João Batista.
Gosto de saber que Joana se converteu a Cristo. Que mulher! Ela conseguiu se desvencilhar do pensamento dominante e não se deixou levar pelo partido dos herodianos, bajuladores do rei (como vimos no estudo anterior). A senhora Joana foi liberta das trevas criadas pelo "deus deste século", que é Satanás (cf. II Co 4.4). Jesus a libertou, como faz todos os dias com mulheres e homens ao redor do mundo.
Amém.

Referências bibliográficas:


A BÍBLIA ANOTADA. The Ryrie Study Bible/ Texto Bíblico: Versão Almeida, Revista e Atualizada, com introdução, esboço, referências laterais e notas por Charles Caldwell Ryrie. Sã o Paulo: Ed. Mundo Cristão, 1994, 1835pp.


BÍBLIA DE JERUSALÉM. Tradução do texto em língua portuguesa diretamente dos originais. Tradução das introduções e notas de La Bible de Jérusalem, edição de 1998, publicada sob a direção da "École biblique de Jérusalem". Edição em língua francesa. São Paulo: Paulus, 2002, 2206pp.

O NOVO COMENTÁRIO DA BÍBLIA. SHEDD, Russell P. (editor em português). São Paulo: Edições Vida Nova, V. II, 1963, 1487pp.


Estudos sobre Herodes (7) - Os herodianos

"Retirando-se os fariseus, conspiravam logo com os herodianos, contra ele, em como lhe tirariam a vida".
(Mc 3.6)

Nos tempos de Jesus, havia diversos partidos e seitas entre os judeus: fariseus, saduceus, essênios, zelotes e...os herodianos. Estes últimos eram adeptos do poder político da Dinastia Herodiana e dela se beneficiavam.
Enquanto os demais partidos ou seitas se baseavam em argumentos religiosos, os herodianos eram apenas um grupo político. O que eles pretendiam era simplesmente aproveitar as benesses que Herodes lhes podia conceder. Tratava-se, pois, de um grupo de lobistas, por assim dizer.
No versículo em tela, os fariseus se uniram a seus inimigos herodianos a fim de se endenterem sobre a morte de Jesus porque Ele havia curado no sábado, o que, na concepção deles, constituía violação à Lei Mosaica.
Note-se que os fariseus não se davam com os herodianos. Fariseu (="separado") era o membro de um partido político-religioso de matiz nacionalista que surgira com o objetivo de manter os costumes judaicos isentos da contaminação helenística (=grega). Já os herodianos eram "entreguistas" (NOVO COMENTÁRIO DA BÍBLIA, p. 993). Mas ambos os grupos estavam certos de que Jesus não podia viver.
Para os fariseus, Jesus não podia viver porque violava a Lei de Moisés. Para os herodianos, Jesus era uma ameaça ao status quo.
Vejamos outra passagem em que herodianos e fariseus se encontram, e que se acha em Mt 22.15-22, com paralelos em Mc 12.13-17 e Lc 20.20-26:

"15 Então, retirando-se os fariseus, consultaram entre si como o surpreenderiam em alguma palavra.
16 E enviaram-lhe discípulos, juntamente com os herodianos, para dizer-lhe: Mestre, sabemos que és verdadeiro e que ensinas o caminho de Deus, de acordo com a verdade, sem te importares com quem quer que seja, porque não olhas a aparência dos homens.
17 Dize-nos, pois: que te parece? É lícito pagar tributo a César ou não?
18 Jesus, porém, conhecendo-lhes a malícia, respondeu: Por que me experimentais, hipócritas?

19 Mostrai-me a moeda do tributo. Trouxeram-lhe um denário.
20 E ele lhes perguntou: De quem é esta efígie e inscrição?
21 Responderam: De César. Então, lhes disse: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.
22 Ouvindo isto, se admiraram e, deixando-o, foram-se".


Nesse episódio, nacionalistas e entreguistas usaram, não um motivo religioso, como o sábado, mas um tema eminentemente político para capturar Jesus em algum tropeço. Vejamos o que o NOVO COMENTÁRIO DA BÍBLIA traz a esse respeito:

"Os herodianos (16). Membros do partido que favorecia à dinastia de Herodes e apoiava a autoridade romana. Seu interesse na religião era mínimo e geralmente eles se opunham amargamente aos fariseus. O recado deles, citado no vers. 16, era insincero, cheio de palavras hipócritas e lisongeiras (sic). A finalidade da pergunta no vers. 17 era embaraçar o senhor. Se ele respondesse afirmativamente, seria denunciado perante o povo como traidor. Respondendo negativamente, podia ser denunciado às autoridades romanas" (p. 975).

Confiram-se também as anotações da BÍBLIA DE JERUSALÉM acerca dos herodianos:

"Partidários da dinastia de Herodes (Mc 3,6+), expressamente escolhidos para que fossem transmitir à autoridade romana a declaração hostil a César que, como esperavam, Jesus devia pronunciar" (p. 1743).

"É preciso reconhecer aos herodianos algo mais do que simples funcionários; são judeus políticos, zelosos pela casa de Herodes Antipas, tetrarca da Galileia (cf. Lc 3,1+), e com influência junto a ele" (cf. Mt 22.16+).

Há, ainda, que se observar o que diz a BÍBLIA ANOTADA:

"...os herodianos. Um partido judaico que favorecia a dinastia dos herodianos, defendiam 'a paz a qualquer preço' e uma convivência pacífica com os romanos" (p. 1218).

De uma forma ou de outra, queriam eles pegar Jesus em falta, mas isso não foi possível, pois Jesus é Sábio e com Ele mora toda a Sabedoria. Jamais foi pego em qualquer palavra, porque jamais pecou com os lábios, nem tampouco disse alguma coisa sem pensar. Além disso, Jesus mostrava com Sua resposta que é possível obedecer a Deus e ao Estado desde que não haja interferências indevidas.
De fato, uma coisa é a obediência e submissão às autoridades constituídas, no sentido de ordem jurídico-política (cf. Rm 13.1-7; I Tm 3.1-3; I Pe 2.11-17). Outra coisa, bem diferente, é a conivência com pessoas investidas de autoridade, em busca de favorecimento pessoal - algo procurado pelos herodianos.
Frise-se bem: ao afirmar que se deve dar "a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (Mt 22.15-22; Mc 12.13-17 e Lc 20.20-26), Jesus declarou a separação entre a Religião e a Sociedade Política, fornecendo o princípio da laicidade do Estado. Jesus não avalizaria a construção de uma sociedade secularizada - que vive como se Deus não existisse. Mas aprova integralmente a distinção entre a órdem sócio-política e a esfera espiritual.
Quando o apóstolo Paulo afirma que devemos ser sujeitos às autoridades (Rm 13.1), ele não está se referindo à pessoa em si, mas ao princípio de autoridade, pois no contexto ele menciona a finalidade para a qual a autoridade existe: promoção do bem, castigo dos maus. Tem-se aqui o primado da impessoalidade da administração pública.
Os herodianos faziam política, sim, mas de maneira errada: eles eram clientelistas, politiqueiros, pragmáticos. Interessava-lhes o poder pelo poder, e não como elemento dotado de função social (promoção do bem de todos).
Quando, em nossos dias, a Igreja procura benefícios junto a políticos e grupos políticos sem atentar para os princípios da impessoalidade, laicidade e autoridade, ela está se aproximando do partido de Herodes. Quando a Igreja entrega seus caminhos ao SENHOR e se submete à ordem jurídica naquilo que não contraria a Lei de Deus (At 4.19,20), ela está sendo parecida com Jesus Cristo.
É curioso falar de fé e não esperar em Deus. Proclamar fé em Deus e procurar favores políticos é um pecado social.


Referências bibliográficas:

A BÍBLIA ANOTADA. The Ryrie Study Bible/ Texto Bíblico: Versão Almeida, Revista e Atualizada, com introdução, esboço, referências laterais e notas por Charles Caldwell Ryrie. Sã o Paulo: Ed. Mundo Cristão, 1994, 1835pp.

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Tradução do texto em língua portuguesa diretamente dos originais. Tradução das introduções e notas de La Bible de Jérusalem, edição de 1998, publicada sob a direção da "École biblique de Jérusalem". Edição em língua francesa. São Paulo: Paulus, 2002, 2206pp.

O NOVO COMENTÁRIO DA BÍBLIA. SHEDD, Russell P. (editor em português). São Paulo: Edições Vida Nova, V. II, 1963, 1487pp.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Estudos sobre Herodes (6) - "Dizei àquela raposa"

Herodes, o Grande, matou criancinhas de dois anos para baixo. Seu filho Arquelau, por ser tão ruim, deu ensejo a que a família de Jesus fugisse para o Egito. Herodes Antipas, irmão de Arquelau, ordenou a prisão e a execução de João, o Batista. Vimos tudo isso nos estudos precedentes. Agora, mais uma vez surge Herodes Antipas, mencionado por alguns fariseus diante de Jesus de Nazaré.
Leiamos o texto de Lc 13.31-35:

"31 Naquela mesma hora, alguns fariseus vieram para dizer-lhe: Retira-te e vai-te daqui, porque Herodes quer matar-te. 32 Ele, porém, lhes respondeu: Ide dizer a essa raposa que, hoje e amanhã, expulso demônios e curo enfermos e, no terceiro dia, terminarei. 33 Importa, contudo, caminhar hoje, amanhã e depois, porque não se espera que um profeta morra fora de Jerusalém. 34 Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir teus filhos como a galinha ajunta os do seu próprio ninho debaixo das asas, e vós não o quisestes! 35 Eis que a vossa casa vos ficará deserta. E em verdade vos digo que não mais me vereis até que venhais a dizer: Bendito o que vem em nome do Senhor!".

É bem possível que essa fala dos fariseus não fosse coisa boa. Podia ser um recado do próprio Herodes a fim de que Jesus deixasse aquelas terras da Galileia e não mais "atrapalhasse" os planos do tetrarca - vendo, quem sabe, em Jesus um agitador político.
Com efeito, "ao se completarem os dias em que devia ser assunto ao céu, [Jesus] manifestou no semblante a intrépida resolução de ir para Jerusalém" (Lc 9.51). Por isso saiu da Galileia, passando por aldeias e cidades (Lc 13.22), dentre as quais, ainda na Galileia, estavam Betsaida, Corazim, Cafarnaum e Nazaré (veja Lc 10.13-16 e Mt 11.20-24).
Jesus não Se intimidava. De imediato, retornou o recado a Herodes, num estilo formidável: "Dizei àquela raposa". Gosto desse versículo. Jesus não Se iludia com a figura de Herodes. Era ele uma raposa, metáfora para pessoa traiçoeira, cheia de artimanhas, que não se revela. O que Herodes pretendia era se livrar do Homem que falava com autoridade, Homem de quem se dizia que operava milagres extraordinários. É claro que uma pessoa com esse perfil causa tremor nos poderosos. Herodes imaginava quão poderosa poderia ser a influência de Jesus sobre os súditos da tetrarquia.
E o recado de Jesus consistiu em dizer a Herodes que estava controlando as etapas de Sua missão: hoje expulso demônios, amanhã curo enfermos e ao terceiro dia tudo terminarei (consumarei). Há aqui um jogo de palavras: ao mesmo tempo em que afirma Sua total capacidade de controlar a missão, Jesus dá uma pista para a Ressurreição, que ocorreria ao terceiro dia.
Ora, quem disse que Jesus foi assassinado num acidente de percurso? Quem disse que Jesus foi um coitado incompreendido que tinha medo da morte? Quem disse que Jesus não deveria ter morrido nas circunstâncias em que morreu? Quem pensa assim, quem acredita que Jesus não deveria ter morrido, não entendeu absolutamente nada da mensagem evangélica!
Se Herodes tinha em mente que Jesus estava em suas mãos, o recado que deveria ouvir era no sentido oposto: Jesus controlava não só o tempo de Sua missão, mas também o lugar - tinha que ser em Jerusalém, onde muitos profetas tinham sido executados. Importava morrer em Jerusalém para morrer como Profeta de Deus.
Tempo, espaço e acontecimentos estavam sob o controle de Jesus, já que Ele mesmo citou o que os judeus diriam em Sua chegada a Jerusalém: "Bendito o que vem em nome do SENHOR" (Mt 21.1-11; Mc 11.1-11; Lc 19.28-40; Jo 12.12-15).
É isso aí.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Estudos sobre Herodes (5) - A execução de João, o Batista

Estou apreciando estudar a Dinastia de Herodes e as passagens bíblicas em que ela está de alguma forma envolvida. Tem sido um bom exercício teológico palmilhar as páginas das Escrituras usando como "pretexto" algumas de suas personagens.
Curiosamente, comecei esses estudos porque desejava tratar do Herodes que morreu sem dar glórias a Deus, mas me senti inseguro para tratar desse personagem. Com os estudos historiográficos, isso se tornou mais fácil e proveitoso.
Chegamos agora ao texto de Mt 14.1-12, que tem paralelos em Mc 6.14-29 e Lc 9.7-9. Vejamos o texto de Mt 14.1-12:

"1 Naquele tempo ouviu Herodes, o tetrarca, a fama de Jesus, 2 E disse aos seus criados: Este é João o Batista; ressuscitou dos mortos, e por isso estas maravilhas operam nele. 3 Porque Herodes tinha prendido João, e tinha-o maniatado e encerrado no cárcere, por causa de Herodias, mulher de seu irmão Filipe; 4 Porque João lhe dissera: Não te é lícito possuí-la. 5 E, querendo matá-lo, temia o povo; porque o tinham como profeta. 6 Festejando-se, porém, o dia natalício de Herodes, dançou a filha de Herodias diante dele, e agradou a Herodes. 7 Por isso prometeu, com juramento, dar-lhe tudo o que pedisse; 8 E ela, instruída previamente por sua mãe, disse: Dá-me aqui, num prato, a cabeça de João o Batista. 9 E o rei afligiu-se, mas, por causa do juramento, e dos que estavam à mesa com ele, ordenou que se lhe desse. 10 E mandou degolar João no cárcere. 11 E a sua cabeça foi trazida num prato, e dada à jovem, e ela a levou a sua mãe. 12 E chegaram os seus discípulos, e levaram o corpo, e o sepultaram; e foram anunciá-lo a Jesus".

Herodes Antipas, filho de Herodes, o Grande, e tetrarca da Galileia (e da Pereia) herdou de seu pai o caráter mau. Ao ver que Jesus de Nazaré operava maravilhas, acreditou que se tratava de João Batista ressuscitado, atribuindo, então, as suas "forças miraculosas" ao fato de ter ressurgido de entre os mortos. Digna de nota é a superstição do governante, aliada à segurança com que ele parece ter explicado os milagres de Jesus aos seus servidores. Em vez de investigar a origem do poder de Jesus, Herodes tinha sua tese própria.
Marcos e Lucas anotam que "alguns diziam" que João ressuscitara e que nele operavam "forças miraculosas". Para outros ainda, tratava-se de Elias ou de um profeta como todos os demais, um ou outro ressurgido dentre os mortos.
Percebe-se o grau de espiritualismo daquelas pessoas que assessoravam Herodes. João Batista? Elias? De onde eles tiravam aquelas conclusões a respeito de Jesus?
Mateus faz uma espécie de flashback para esclarecer como João morrera: Herodes havia mandado prender João por causa de Herodias, mulher com quem se relacionava, mas que era esposa de Herodes Filipe, um de seus irmãos - que não se pode confundir com Filipe, o tetrarca (veja o primeiro estudo desta série). Sendo assim, João não estava preso por causa de seu discurso genérico de arrependimento de pecados, mas pela afirmação particular de que não era lícito a Herodes relacionar-se com a mulher de seu irmão.
O objetivo de Herodes era mesmo matar João Batista, o que não fazia com medo de uma revolta popular, já que o povo tinha João como profeta. Marcos também afirma que o próprio Herodes sabia ser João "justo e santo", e que o escutava "de boa mente". Mas, como Herodias pretendia ver o profeta morto de qualquer jeito, aproveitou-se da situação descrita no texto, e, dessa forma, obteve a cabeça do profeta numa bandeja.
Sim, isso mesmo: Herodias havia planejado tudo. Com a dança - seguramente provocante - da sua filha, exatamente no aniversário de Herodes, Herodias conseguiu arrancar do tetrarca a promessa de dar tudo o que a moça quisesse. Essa foi a oportunidade que a perversa mulher esperava, pois o tetrarca não revogaria um juramento feito diante dos altos dignitários, de oficiais militares e dos principais da Galileia - figuras presentes à festa, de acordo com Lucas.
Deparamo-nos, portanto, com as seguintes personagens: um governante orgulhoso e adúltero, uma mulher adúltera e cruel, uma moça de comportamento sensual, controlada pela mãe, e um profeta de Deus.
Ao deparar com Herodias, recordo de outras mulheres terríveis mencionadas na Bíblia: a) a mulher de Potifar, que acusou José injustamente de sedução, por ele não ter cedido à sua provocação sexual; b) Dalila, que envolveu Sansão em seus enlaces sexuais; e c) Jezabel, que controlava o fraco marido Acabe e que preparou a execução de Nabote, além de perseguir os profetas do SENHOR.
A mulher de Potifar, Dalila, Jezabel e Herodias - que quarteto infernal! Mas não menos pecadores foram os homens por elas influenciados!
Com a morte de João Batista, o que poderiam os seus discípulos fazer? Humildemente, foram sepultar o seu corpo, depois do que o anunciaram a Jesus. Era a morte de um santo homem de Deus (veja nosso estudo "João Batista, o precursor de Cristo", neste blog).
Uma das coisas que mais me chamam a atenção neste texto é que a morte de João Batista foi ensejada por uma questão particular, e não por causa das suas pregações de âmbito geral. Diferentemente de Jesus, que foi acusado (falsamente) de querer destruir o Templo ou de incitar uma sedição, João foi assassinado por ter acusado o governante de adultério - especialmente agravado por se tratar de sua cunhada.
João Batista enfrentou as estruturas de poder de sua época. Herodes Antipas e Herodias pensaram ter vencido a voz de João por tê-lo decapitado. Não sabiam que a vitória verdadeira não se dá neste plano material.

Nota: A ilustração é de GUSTAVE DORÉ. Veja sua apresentação a seguir: "O artista francês Gustave Doré (1832-1883) produziu centenas de ilustrações de qualidade sobre histórias bíblicas em sua vida. Essas ilustrações eram usadas nas Bíblias em muitos idiomas na Europa do século 19 e depois nas Américas. Muitos mestres produziram obras artísticas como essas para ilustrar temas bíblicos, e Doré estava entre os mais famosos deles.
O estilo realista de Doré deu nova vida a essas histórias reais. Séculos de mosaicos, frescos e relevos em pedra, com sua iconografia precisa, juntamente com impressões em blocos de madeira (lembrando das auréolas sempre presentes em alguns objetos em particular) caricaturaram muitas histórias da Bíblia nas mentes dos crentes. Entretanto, os locais e pessoas retratadas por ele parecem reais. O trabalho de Gustave Doré (e sua licenciosidade artística) foram criticados por alguns em seus dias, mas essas ilustrações resistem ao tempo como boas representações físicas de eventos bíblicos importantes".




terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Estudos sobre Herodes (4) - Rei morto, rei posto

Vimos até agora uma introdução histórica à Dinastia de Herodes, o encontro de Herodes Magno com os sábios do Oriente e o genocídio determinado contra criancinhas indefesas. Deparamo-nos com o texto de Mt 2.19-23, como segue:

"19 Tendo Herodes morrido, eis que um anjo do Senhor apareceu em sonho a José, no Egito, e disse-lhe: 20 Dispõe-te, toma o menino e sua mãe e vai para a terra de Israel; porque já morreram os que atentavam contra a vida do menino. 21 Dispôs-se ele, tomou o menino e sua mãe e regressou para a terra de Israel. 22 Tendo, porém, ouvido que Arquelau reinava na Judéia em lugar de seu pai Herodes, temeu ir para lá; e, por divina advertência prevenido em sonho, retirou-se para as regiões da Galiléia. 23 E foi habitar numa cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse o que fora dito por intermédio dos profetas: Ele será chamado Nazareno".

Morto Herodes, o Grande - o que ocorreu em 4 a.C., sucedeu-lhe no trono seu filho Arquelau, filho de Maltace, a samaritana. O testamento de seu pai lhe deixou os territórios da Judeia, Samaria e Idumeia. Herodes queria que ele fosse rei, mas o Imperador Augusto lhe deu apenas o título de etnarca. Arquelau governou de 4 a.C. até 6 d.C., totalizando 10 anos. Era um homem cruel. Chegou a reprimir uma revolta em Jerusalém justamente na Páscoa, no ano 4 d.C. Mandou crucificar duas mil pessoas (veja o primeiro estudo desta série).
Era natural que José não quisesse retornar à Judeia. Avisado pelo anjo, mais uma vez em sonho, de que Herodes Magno havia morrido, José, em vez de rumar para a Judeia, preferiu ir para Nazaré, cidade da Galileia. Mateus vê nisso o cumprimento de profecias, que diziam: "Ele será chamado Nazareno".
Vejamos que dado interessante: em Is 53.3, o profeta diz a respeito do Servo do SENHOR: "Era desprezado". No Sl 22.6, Davi, também escrevendo sobre o Messias, diz: "eu sou verme e não homem; opróbrio dos homens e desprezado do povo". A palavra "desprezado" era a que Mateus tinha em mente para dizer que o Messias seria Nazareno, pois a raiz é a mesma. E, na realidade, os nazarenos eram desprezados por sua origem pobre, sendo habitantes da desfavorecida região da Galileia, à época governada por Herodes Antipas, irmão de Arquelau.
Para se ter uma ideia de como os galileus e especialmente os nazarenos eram desprezados, observemos:
a) quando Filipe falou a Natanael acerca do Messias como sendo "Jesus, o Nazareno, filho de José", Natanael perguntou retoricamente: "De Nazaré pode sair alguma coisa boa"? (veja Jo 1.43-46);
b) em Mt 4.12-16, o escritor bíblico anota o cumprimento de profecia dada por meio de Isaías, segundo a qual o povo que estava em trevas, na região da sombra da morte, na "Galileia dos gentios", viu uma grande luz - essa luz era a pregação das Boas Novas por Jesus, o Nazareno (veja Is 9.1,2);
c) Na Festa dos Tabernáculos, quando o líder Nicodemos defendeu Jesus, fariseus lhe afirmaram: "Examina, e verás que da Galileia não se levanta profeta" (Jo 7.52). Além do preconceito, os fariseus revelaram ignorância histórica, pois esqueceram de que o profeta Jonas, filho de Amitai, era galileu.
Mateus está ocupado em demonstrar duas coisas principais: a) Jesus é o Rei dos judeus;
b) Jesus cumpre em Sua vida as profecias da Tanach, como era conhecida pelos judeus a parte das Escrituras que chamamos de Antigo Testamento.`
Por isso, vimos até aqui menções aos profetas Miqueias (5.2), Jeremias (31.15), Oseias (11.1), e, agora, Isaías (53.3) e Davi (Sl 22.6).
A família de Jesus não escolheu Nazaré por acaso. Embora fossem de ascendência belemita, e, portanto, judeus, da Casa de Davi, ele e Maria eram habitantes de Nazaré (Lc 2.4; veja 1.16,26,27; 3.23,31,32). Jesus era judeu de nascimento e de linhagem, mas habitante de Nazaré da Galileia. Era descendente de Davi, mas sofredor como os Seus conterrâneos.
Incrustada no bojo desses textos se encontra a afirmação da concepção virginal de Maria. Explico: de acordo com comentário da BÍBLIA ANOTADA a Mt 1.11, o rei judeu Jeconias, ou Conias (Jr 22.24, 28; 37.1), que aparece na genealogia de Jesus, não poderia ser ascendente do Messias porque sobre si havia sido colocada a maldição de que jamais um de seus descendentes se assentaria no trono de Davi. Todavia, Maria também era descendente de Davi, de maneira que Jesus, ligado biologicamente a Maria, e não a José, pôde se tornar o Rei dos judeus - isso no aspecto escatológico, e não, histórico ou temporal. Por isso, esse é mais um elemento para afirmarmos que Jesus Cristo nasceu de uma virgem, como creem os cristãos conservadores, muitas vezes chamados de "fundamentalistas" pelos liberais teológicos.
Que Deus nos abençoe. Até o próximo estudo.

Nota: A BÍBLIA ANOTADA. The Ryrie Study Bible/ Texto Bíblico: Versão Almeida, Revista e Atualizada, com introdução, esboço, referências laterais e notas por Charles Caldwell Ryrie. Sã o Paulo: Ed. Mundo Cristão, 1994, 1835pp.



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Estudos sobre Herodes (3) - O genocídio

Em nossa série de estudos a respeito dos Herodes, saímos do encontro de Herodes Magno com os sábios do Oriente que foram à Judeia visitar Jesus. Agora, prosseguimos na sequência do Texto Bíblico, donde extraímos o seguinte excerto, que se acha em Mt 2.13-18:

"13 Tendo eles partido, eis que apareceu um anjo do Senhor a José, em sonho, e disse: Dispõe-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egito e permanece lá até que eu te avise; porque Herodes há de procurar o menino para o matar. 14 Dispondo-se ele, tomou de noite o menino e sua mãe e partiu para o Egito; 15 e lá ficou até à morte de Herodes, para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor, por intermédio do profeta: Do Egito chamei o meu Filho. 16 Vendo-se iludido pelos magos, enfureceu-se Herodes grandemente e mandou matar todos os meninos de Belém e de todos os seus arredores, de dois anos para baixo, conforme o tempo do qual com precisão se informara dos magos. 17 Então, se cumpriu o que fora dito por intermédio do profeta Jeremias: 18 Ouviu-se um clamor em Ramá, pranto, [choro] e grande lamento; era Raquel chorando por seus filhos e inconsolável porque não mais existem".

Mais uma vez em Mateus, o SENHOR intervém de modo sobrenatural em favor de Seu Plano de Redenção. Se antes foram os sábios do Oriente, agora é José quem tem um sonho de advertência, aparecendo-lhe "um anjo do SENHOR". Era para que ele, sua esposa e Jesus não retornassem à sua terra, mas fossem ao Egito, fugindo do assassino Herodes.
Atendendo ao seu estilo, Mateus vê nisso o cumprimento do texto que se encontra em Os 11.1: "...do Egito chamei o meu filho". Vale observar, por oportuno, que este é um exemplo do que chamaríamos no Direito de "interpretação autêntica": quando o próprio autor (legislador) oferece a interpretação da lei. Nesse caso, se fosse interpretar Os 11, eu não iria conseguir enxergar, pelo contexto, nenhuma menção ao Filho de Deus, vendo apenas uma referência profética ao fato de que Israel, "filho de Deus", fora liberto do Egito pela mão de Moisés. Ocorre que essa interpretação dada por Mateus ressalta o valor histórico-escatológico de alguns textos bíblicos, que podem conter aplicações históricas e ao mesmo tempo aplicações para os Últimos Dias. Seria a dupla aplicabilidade de profecias. De toda maneira, não me abalaria a fazer interpretações que fossem além dos critérios rígidos da Hermenêutica. Mais do que isso: a interpretação realizada por Mateus é muito mais que interpretação - é inspiração divina!
Voltando a Herodes, esse era um homem sem nenhum coração. Ele não tinha piedade. Um homem capaz de mandar estrangular os próprios filhos e de mandar executar a esposa não pode ser piedoso. Muitos crimes ele cometeu, como vimos no primeiro estudo desta série. Por isso, o anjo avisou a José de que deveria deixar o país com a sua família até segunda ordem.
De fato, ao perceber que havia sido iludido pelos sábios do Oriente - que, avisados em sonho, não voltaram a encontrá-lo - o rei se enfureceu muito. Sua primeira medida havia sido a de buscar informações, ouvir os sábios, pedir dados mais precisos, inquirir sobre a época em que a estrela aparecera. Mas, depois da saída inesperada dos sábios, Herodes toma a medida extrema: ordena um genocídio, a morte de todas as crianças de dois anos para baixo, habitantes de Belém e arredores. Seguramente, pensava Herodes, o tal Rei dos judeus morreria, e seu reinado continuaria firme.
E assim foram assassinadas todas as crianças com aquela idade, para cumprir o que fora dito ao profeta Jeremias sobre a lamentação de Raquel, esposa de Jacó, e, portanto, ascendente dos israelitas (Jr 31.15).
Todavia, Herodes não conhecia o poder de Deus. Àquela altura, Jesus estava no Egito com a sua família. Curiosamente, esse mesmo Egito que um dia escravizara os hebreus também marcou a História da Redenção em três momentos, representando provisão e liberdade: quando Abrão, ancestral dos hebreus e nosso pai na fé, migrou para o Egito a fim de fugir da fome (Gn 12.10); quando José foi mandado como escravo, mas acabou se tornando governador, e, assim, concedendo sustento aos seus irmãos, dos quais procederiam as Tribos de Israel (Gn 45.7); e agora, com a fuga para escapar da espada de Herodes.
Deus opera de muitas maneiras insondáveis. O mesmo Egito da escravidão pode servir de livramento, saúde e vida. Sem saber, "todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus" (Rm 8.28). A bênção derramada por Deus sobre os hebreus serviu de bênção para nós, os salvos em Cristo (Gn 12.3). No seu livramento, nós temos livramento.
A um frio observador dos dias atuais, se deparasse com o genocídio daquelas criancinhas, poderia ser fácil a conclusão de que estariam pagando os pecados de seus pais, ou pecados de outras vidas, ou as duas coisas juntas. Mas não é assim. Todo assassínio sempre será um mal diante de Deus, e somente tem entrada neste mundo devido à Queda, ao pecado original (Gn 3). O que traz consequências ruins ao mundo é o pecado universal, não apenas os pecados pessoais, as atitudes, ações, sentimentos e omissões de cada um de nós. O problema crucial é a condição pecaminosa desse sistema de valores que impera desde a Queda. Por isso Jesus nasceu.
A História da Salvação é linda e profunda. Herodes é só um pretexto para refletirmos sobre essa maravilhosa História.

Nota: As ilustrações são de GUSTAVE DORÉ. Transcrevo sua apresentação a seguir:
"O artista francês Gustave Doré (1832-1883) produziu centenas de ilustrações de qualidade sobre histórias bíblicas em sua vida. Essas ilustrações eram usadas nas Bíblias em muitos idiomas na Europa do século 19 e depois nas Américas. Muitos mestres produziram obras artísticas como essas para ilustrar temas bíblicos, e Doré estava entre os mais famosos deles.

O estilo realista de Doré deu nova vida a essas histórias reais. Séculos de mosaicos, frescos e relevos em pedra, com sua iconografia precisa, juntamente com impressões em blocos de madeira (lembrando das auréolas sempre presentes em alguns objetos em particular) caricaturaram muitas histórias da Bíblia nas mentes dos crentes. Entretanto, os locais e pessoas retratadas por ele parecem reais. O trabalho de Gustave Doré (e sua licenciosidade artística) foram criticados por alguns em seus dias, mas essas ilustrações resistem ao tempo como boas representações físicas de eventos bíblicos importantes"
(http://www.creationism.org/images/DoreBibleIllus/dore_pt.htm).



Estudos sobre Herodes (2) - Herodes e os sábios do Oriente

Em Mt 2.1-12, lemos a respeito da procura de sábios do Oriente pelo menino que viria a ser o Rei dos judeus. Examinemos, primeiro, o texto:

"1 Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia, em dias do rei Herodes, eis que vieram uns magos do Oriente a Jerusalém. 2 E perguntavam: Onde está o recém-nascido Rei dos judeus? Porque vimos a sua estrela no Oriente e viemos para adorá-lo. 3 Tendo ouvido isso, alarmou-se o rei Herodes, e, com ele, toda a Jerusalém; 4 então, convocando todos os principais sacerdotes e escribas do povo, indagava deles onde o Cristo deveria nascer. 5 Em Belém da Judéia, responderam eles, porque assim está escrito por intermédio do profeta: 6 E tu, Belém, terra de Judá, não és de modo algum a menor entre as principais de Judá; porque de ti sairá o Guia que há de apascentar a meu povo, Israel. 7 Com isto, Herodes, tendo chamado secretamente os magos, inquiriu deles com precisão quanto ao tempo em que a estrela aparecera. 8 E, enviando-os a Belém, disse-lhes: Ide informar-vos cuidadosamente a respeito do menino; e, quando o tiverdes encontrado, avisai-me, para eu também ir adorá-lo. 9 ¶ Depois de ouvirem o rei, partiram; e eis que a estrela que viram no Oriente os precedia, até que, chegando, parou sobre onde estava o menino. 10 E, vendo eles a estrela, alegraram-se com grande e intenso júbilo. 11 Entrando na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, o adoraram; e, abrindo os seus tesouros, entregaram-lhe suas ofertas: ouro, incenso e mirra. 12 Sendo por divina advertência prevenidos em sonho para não voltarem à presença de Herodes, regressaram por outro caminho a sua terra".

Esse episódio se passou nos tempos do rei Herodes, o Grande (73 a 4 a.C.), que reinou de 37 até sua morte. Era um homem sanguinário e ambicioso, que mandava matar filhos, esposa, inimigos, tudo por causa de sua sede de poder. Idumeu, não tinha, portanto, ascendência judaica, nem cultivava a fé dos judeus. Era um político da pior espécie, capaz de construir coisas magníficas para obter o favor do povo, mas também de passar por cima de seus adversários.
Ocorreu, no entanto, que esse Herodes foi contemporâneo de um dos maiores e mais importantes eventos da História humana, a saber, o nascimento do Salvador, o Rei dos judeus, conforme predição das Escrituras. Naquela época, difundira-se o dogma teológico de que o Messias libertaria Israel do domínio político, que então era representado pelo Império Romano, e, na Palestina, pelo rei Herodes. Em sua interpretação das Escrituras, os judeus esperavam um Messias político, um libertador nacional. Essa era a ideia amplamente aceita e ensinada pelos líderes judeus. A esperança escatológica confundia-se com as aspirações temporais, num típico exemplo de eisegese, que difere da exegese*.
Diferentemente de Herodes, uns magos ou sábios do Oriente creram na predição a respeito do Messias. De alguma forma que não sabemos explicar, Deus falou com aqueles homens por meio dos conhecimentos astrológicos (ou astronômicos?) que eles possuíam. O fato de serem chamados de "magos" não significa que fossem adivinhos ou feiticeiros, pois na Antiguidade, por não haver clara distinção entre os ramos do conhecimento, as ciências eram confundidas com a Religião. Vemos o mesmo fenômeno em Êxodo e em Daniel.
O certo é que aqueles sábios não eram judeus, mas gentios. E que foram guiados por uma estrela para terem contato com o recém-nascido Rei dos judeus, isso por uma providência divina.
Embora a tradição católica afirme que eram três "reis-magos" (Belchior, Gaspar e Baltazar), a Bíblia não diz que eram reis nem que eram três. Apenas os presentes oferecidos ao menino eram três: ouro, incenso e mirra. Mas isso não induz necessariamente à dedução de que eram três pessoas. Nota-se, aliás, que sua chegada chamou não só a atenção de Herodes, mas de toda a cidade de Jerusalém. Certamente não foram escondidos nem buscando anonimato. Sua aparição foi facilmente percebida.
Observe-se que já nesse episódio Deus mostrava Seu interesse pelas nações, de um modo geral. Não só os judeus seriam salvos, mas todos quantos buscassem o Rei dos judeus.
Com efeito, o que procuravam aqueles homens vindos de fora? Buscavam adorar ao Rei dos judeus. Isso preocupou Herodes, que, mesmo sem fé, indagou aos escribas e principais sacerdotes onde deveria nascer "o Cristo".
É curioso que um incrédulo como Herodes ainda parasse para investigar nas Escrituras uma informação na qual pudesse acreditar. Se ele não tinha parte com a Palavra de Deus, por que, então, lhe dava crédito a fim de tomar providências? Isso é para mim um desafio, que a princípio somente pode ser explicado pela cegueira imposta ao rei pelo desejo de se manter no poder. Ou, em meio à sua incredulidade, Herodes poderia imaginar que, levados pela fé nas Escrituras, os judeus um dia fariam do menino o seu Rei, indepentemente do poder e dos desígnios de Deus.
Diante da informação de que o Cristo nasceria em Belém de Judá, conforme Mq 5.2, Herodes convocou os sábios e, cinicamente, lhes pediu que o mantivessem informado para que ele mesmo pudesse adorar o Cristo! Antes, os inquiriu sobre o tempo preciso em que lhes aparecera a estrela. De fato, Herodes não queria perder a oportunidade de impedir a ascensão do Rei dos judeus.
O próprio Herodes enviou os sábios a Belém, e foram eles guiados pela estrela até o lugar onde a família de Jesus se encontrava. Ali visitaram o menino e deixaram seus presentes. Houve grande alegria.
Advertidos por Deus, em sonho, os sábios não retornaram a Herodes, mas seguiram para sua terra por outro caminho.
Sendo assim, seja por meio de uma estrela, seja por meio de um sonho, Deus falou com aqueles homens de fora, gentios, estrangeiros para os quais o Messias nasceu. E, conquanto tivesse contato com a História e com o povo de Deus, Herodes, o Grande, se mantinha incrédulo, impassível, inerte, frio. Que mistério esse da fé!
Cremos num Deus que fala aos homens (Hb 1.1-3), que procura adoradores (Jo 4.23,24), que deseja que todos se salvem. Esse é o Deus que ainda hoje fala e procura adoradores, o Deus que deseja que todos se salvem, e que a todo instante manifesta a Sua Palavra e a Sua Providência em todo o mundo e de diversas formas.
Herodes não deu crédito às profecias? Não foi por defeito da Palavra. Os estrangeiros creram. Deus sabe de todas as coisas. Ninguém jamais poderá perscrutar o coração humano e saber como se processa a fé.

*Na exegese, o intérprete retira do texto aplicações possíveis. Na eisegese, ocorre o inverso: o intérprete tenta inserir no texto ideias pré-concebidas.

Nota: A ilustração é de GUSTAVE DORÉ. Segue a apresentação dele:
"O artista francês Gustave Doré (1832-1883) produziu centenas de ilustrações de qualidade sobre histórias bíblicas em sua vida. Essas ilustrações eram usadas nas Bíblias em muitos idiomas na Europa do século 19 e depois nas Américas. Muitos mestres produziram obras artísticas como essas para ilustrar temas bíblicos, e Doré estava entre os mais famosos deles.
O estilo realista de Doré deu nova vida a essas histórias reais. Séculos de mosaicos, frescos e relevos em pedra, com sua iconografia precisa, juntamente com impressões em blocos de madeira (lembrando das auréolas sempre presentes em alguns objetos em particular) caricaturaram muitas histórias da Bíblia nas mentes dos crentes. Entretanto, os locais e pessoas retratadas por ele parecem reais. O trabalho de Gustave Doré (e sua licenciosidade artística) foram criticados por alguns em seus dias, mas essas ilustrações resistem ao tempo como boas representações físicas de eventos bíblicos importantes" (http://www.creationism.org/images/DoreBibleIllus/dore_pt.htm).





Estudos sobre Herodes (1) - A Dinastia Herodiana

INTRODUÇÃO.
O Novo Testamento menciona alguns governantes que ostentavam o título de "Herodes". O senso comum talvez se recorde do Herodes que mandou matar as criancinhas e do Herodes que viu a cabeça de João Batista sobre uma bandeja. Todavia, há confusão quanto a essas figuras porque houve, não apenas um, mas uma série de homens com esse título ou sem o título mas pertencentes à mesma dinastia, e com diferentes jurisdições. Era a chamada "Casa de Herodes".
Assim como "fariseu" passou para a posteridade como sinônimo de gente hipócrita, "herodes" acabou assumindo um sentido negativo, por tudo o que veremos daqui por diante quanto a esses personagens.
Por meio de um conjunto de estudos, gostaria de tratar teologicamente dessas figuras, fornecendo informações históricas e costurando aplicações pessoais. Há muito o que aprendermos desse importante período de Israel.
Ao longo dos estudos, poderemos perceber como é rica a investigação bíblica e histórica, o que nos anima a continuar estudando.


FORMAÇÃO DA DINASTIA HERODIANA.
A antecedente Dinastia dos Hasmoneus e a projeção política de Herodes, o Grande.
Para entendermos o processo de formação da Dinastia Herodiana, é necessário reportarmo-nos à Dinastia antecedente dos Macabeus (Dinastia dos Hasmoneus ou Dinastia Asmoneia).
Para isso, vamos contar com a preciosa ajuda da BÍBLIA DE JERUSALÉM (1), da qual extraímos várias informações. Vejamos:
O sacerdote Matatias (166 a.C.), que se revoltou contra o domínio helênico sobre Israel (estendido de 333 a 63 a.C.) tinha três filhos: Judas Macabeu (166 a 160 a.C.), Jônatas (160 a 143 a.C.) e Simão (143 a 134 a.C.). 
João Hircano I, filho de Simão, sucedeu seu pai e governou de 134 a 104 a.C.
Os Livros apócrifos de I e II Macabeus - chamados pela Igreja Romana de "Deuterocanônicos" - narram a história dessa família que conquistou o governo da chamada "Palestina" por meio da luta armada. Têm real valor histórico, embora desprovidos de inspiração divina.
João Hircano I teve dois filhos, Aristóbulo I (104 a 103 a.C.), que usou o título de rei, e Alexandre Janeu (103 a 76 a.C.). Este casou-se com a rainha Alexandra (76 a 67 a.C.). Da união nasceram Hircano II (sumo-sacerdote entre 76 e 67 a.C. e 63 a 40) e Aristóbulo II.
Com a morte da mãe, Hircano II assumiu o governo, mas logo perdeu o poder para seu irmão mais novo, Aristóbulo II, que se tornou rei e sumo-sacerdote (67 a 63 a.C.).
Em 65 a.C., Hircano II e o rei Aretas III cercaram Jerusalém, recuando, porém, com a chegada do romano Pompeu. Depois, Hircano II e Aretas III foram vencidos por Aristóbulo II.
Em 63 a.C., Antípater, pai de Herodes, o Grande, era ministro de Hircano II, mas, com a conquista de Jerusalém por Pompeu, se tornou governante de fato da Judeia. Houve revolta dos últimos Hasmoneus.
Nessas circunstâncias, Aristóbulo II foi mandado para Roma junto com seu filho Antígono, enquanto Hircano II foi feito sumo-sacerdote.
Em 47 a.C., o Imperador César nomeou Hircano II etnarca (47 a 41 a.C.). Herodes, o Grande, foi nomeado "estratego da Galileia", e nessa função repeliu a revolta de certo Ezequias.
O pai de Herodes, Antípater, morreu envenenado em 43 a.C. Antônio, esposo da famosa Cleópatra, nomeou Herodes e seu irmão Fasael como tetrarcas em 41 a.C.
Com a nomeação, pelos partos, de Antígono como seu rei e sumo-sacerdote em 40 a.C., Herodes fugiu para Roma, e Hircano II foi mutilado. Entre 39 e 37 a.C., Herodes lutou contra Antígono.
No começo de 37 a.C., Herodes se casou com Mariana I, neta de Aristóbulo II e de Hircano II. Nesse mesmo ano conquistou Jerusalém, junto com Sósio. Com efeito, Aristóbulo II gerara a Antígono e Alexandre. Do casamento deste Alexandre com Alexandra, nasceu Mariana I. Dessa forma, essa esposa de Herodes, o Grande, era tataraneta de João Hircano I, e, assim, descendente dos Macabeus.
Herodes, o Grande tornou-se rei da Judeia de 37 a.C. até sua morte, em 4 d.C.. Como não era judeu, não tinha a aceitação do povo. Por isso, tentou se aproximar politicamente dos judeus casando-se com Mariana I.
Em 29, Herodes, o Grande, tornou-se "rei aliado" de Roma. Em 23, recebeu as regiões de Traconítide, Bataneia e Auranítide, e, em 20, a região de Paneias.
Assim teve início a Dinastia Herodiana.

Depois dessas considerações iniciais, passemos ao exame de cada Herodes em particular:




HERODES, O GRANDE.
Herodes, um idumeu.
Herodes, o Grande nasceu por volta de 73 a.C e morreu em 4 a.C. Era filho do idumeu Antípater e da princesa árabe Cypros, da bela cidade de Petra (capital dos Nabateus), ao sul de Judá (2).
Idumeu era a designação do natural da Idumeia, território dos descendentes de Edom (Esaú). Portanto, não eram eles judeus, mas edomitas, filhos do irmão gêmeo de Jacó, e que, à semelhança da hostilidade de seu ancestral, viveram em constante conflito com Israel.
O Livro de Obadias trata exatamente do juízo divino contra os edomitas por causa de sua rivalidade com o povo de Deus.
A menção de Obadias às "fendas das rochas" (v. 3) pode ser uma alusão à configuração geológica de Petra.

Crimes de Herodes, o Grande.
Em 30 a.C., Herodes mandou executar Hircano II, e em 29, sua própria esposa Mariana I.
Por volta de 7, mandou estrangular dois de seus filhos, Alexandre e Aristóbulo, que tivera com Mariana I.
Em 4, foi executado seu filho mais velho, Antípater.
Também exterminou quase todos os membros do Sinédrio (3).
A matança dos inocentes ocorreu sob o reinado de Herodes, o Grande, que, com isso, esperava exterminar Aquele de Quem se dizia ser o Rei de Israel.

Obras de Herodes, o Grande.
Em 29 a.C. Herodes construiu a Antônia, e, em 23, o Palácio da cidade alta. Também construiu ou reconstruiu Antipátrida, Fasélida, Samaria (Sebaste), o Herodion e Cesareia.
De 20 a 19, começou a reconstrução do Templo de Jerusalém. Foi nessa época que surgiram as escolas farisaicas rivais dos rabinos Hillel e Shammai.
Mandou reformar o Templo de Jerusalém, medida de natureza política, para angariar a adesão pacífica dos judeus a seu reinado.

Casamentos e filhos.
Herodes, o Grande, teve muitas esposas e filhos. Citam-se os seguintes:
(1) Uma esposa foi Dóris, de quem nasceu Antípater, mesmo nome do pai de Herodes, e seu filho mais velho (2).
(2) Outra esposa foi Cleópatra de Jerusalém, que deu à luz Filipe, o tetrarca.
(3) Com Maltace, a Samaritana, Herodes, o Grande, teve como filhos Herodes Antipas, Arquelau e Olímpias.
(4) Com a judia Mariana I, lhe nasceram: Aristóbulo, Alexandre, Herodes Filipe, Salimpsio, que se casou com Phaesal, e Cypros, que, como se vê, trazia o nome da mãe de Herodes, a princesa árabe de Petra. Esta se casou com Antípater, filho de José e Salomé.
(5) Houve ainda outro casamento de Herodes, o Grande, em 23 d.C., desta vez com Mariana II, filha do sumo-sacerdote Simão, filho de Boetos. De acordo com MORIN (4), este foi elevado a sumo-sacerdote por sua relação com Herodes. Era ele um herodiano: herodianos eram os israelitas que se beneficiavam da Dinastia de Herodes.


Morte de Herodes, o Grande.
Herodes, o Grande, morreu entre março e abril do ano 4 a.C. na cidade de Jericó. Seu filho Arquelau trasladou seu corpo para o Herodion.

Testamento de Herodes, o Grande.
Em sua disposição de última vontade, Herodes dividiu o território entre seus filhos tidos com Maltace, a samaritana (Arquelau e Herodes Antipas) e Cleópatra de Jerusalém (Filipe, o tetrarca). Deixou de lado Herodes Filipe, tido com Mariana II.
Arquelau ficou com a Judeia, incluindo Samaria e a Idumeia, regiões que governou de 4 a.C. até 6 d.C.
Herodes Antipas ficou com a Galileia, incluindo a Pereia, que governou de 4 a.C. até 39 d.C.
Filipe ficou com Traconítide, Auranítide, Gaulanítide, Bataneia e Itureia (distrito de Paneias), territórios sob seu governo de 4 a.C. até 34 d.C.
O Imperador Augusto concordou com o testamento, mas não concedeu a Arquelau o título de rei. Este ficou sendo etnarca da Judeia e Samaria (4 a.C. a 6 d.C.). Herodes Antipas e Filipe receberam o título de tetrarca.

Casamentos dos descendentes.
Aristóbulo IV teve os filhos Herodias (Herodíades), Herodes de Cálcis e Herodes Agripa I.
Herodes Agripa I foi pai de Herodes Agripa II. Também gerou as mulheres Berenice e Drusila. Esta Berenice é a mesma que se casou com o tio Herodes de Cálcis. Drusila foi mulher de Aziz, rei de Emesa, e do procurador romano Félix, que manteve o apóstolo Paulo detido por algum tempo sem julgar seu processo (At 24).
Herodias, neta de Herodes, o Grande, casou-se com o tio Filipe, o tetrarca, e sua filha chamou-se Salomé. Mas acabou se envolvendo num relacionamento adulterino com o tio e cunhado Herodes Antipas, que, por sua vez, se divorciou de Fasaelia, filha do rei árabe Aretas IV.

ARQUELAU.
Filho de Herodes, o Grande, com Maltace, a samaritana, Arquelau reprimiu uma revolta em Jerusalém na Páscoa do ano 4 d.C., precisamente em 11 de abril. Depois, foi a Roma receber a investidura, como etnarca, por parte do Imperador Augusto. Houve muitos distúrbios no período de seu governo. Pode ser que a revolta de Judas, o Galileu (At 5.37), tenha ocorrido nessa época. Duas mil pessoas foram crucificadas.

HERODES ANTIPAS.
Herodes Antipas era filho de Herodes, o Grande, com Maltace, a samaritana. Portanto, era irmão de Arquelau também por parte de mãe.
No testamento de seu pai, recebeu a Galileia e a Pereia.
Fundou Tiberíades entre 17 e 20 d.C. - o nome é uma homenagem ao Imperador Tibério César. Foi nesse período que Lisânias se tornou tetrarca de Abilene, como citado em Lc 3.1.
Antipas foi o Herodes do tempo do julgamento de Jesus. Embora não tivesse jurisdição sobre a Judeia, mas sobre a Galileia, recebeu Jesus em audiência por envio de Pôncio Pilatos, governador da Judeia, que buscava uma forma de não se envolver na questão de um inocente, e usou o pretexto de que Jesus era galileu para todos os efeitos - embora fosse, na verdade, judeu. Pilatos aproveitou-se do fato de que Herodes Antipas se encontrava ali em Jerusalém.
Antes disso, Herodes Antipas mandara prender João Batista, mas não queria matá-lo porque temia o povo. Porém, como João pregara contra o adultério por ele cometido com sua cunhada e sobrinha Herodias, esta armou uma cilada e conseguiu, enfim, a execução do Batista.
Jesus referiu-se a esse Herodes como sendo "aquela raposa".


FELIPE, O TETRARCA.
Embora não tenha ostentado o título de Herodes, Filipe era tetrarca e recebeu esse título conforme o testamento deixado por Herodes, o Grande.
Ele construiu Júlias (cidade de Betsaida). Embelezou Paneias (Panion), a que chamou "Cesareia", em homenagem a Augusto, o Imperador.
Filipe, o tetrarca, não deve ser confundido com seu meio-irmão Herodes Filipe.
Morreu sem herdeiro.

HERODES FILIPE.
Conquanto carregasse esse nome, não herdou nenhum território quando do testamento deixado por seu pai. Foi completamente esquecido. Foi traído por sua esposa Herodias, que dele se separou e se casou com Herodes Antipas.

HERODES AGRIPA I.
Herodes Agripa I, filho de Aristóbulo, reinou de 37 a 44 d.C. Recebeu as tetrarquias de Filipe e Lisânias. Também recebeu a tetrarquia de Herodes Antipas, desterrado por Calígula para os Pirineus em 40 d.C.
Contribuiu para a chegada de Cláudio ao poder (41 a 54). Deste recebeu Judeia e Samaria.
Seu irmão Herodes se tornou rei de Cálcis (41-48) e se casou com Berenice, filha de Agripa.
Sob seu governo, o reino de seu avô Herodes, o Grande, foi reconstituído.
Foi ele quem mandou decapitar Tiago, irmão de João (At 12.2), prendeu o apóstolo Pedro (At 12.3) e, assim, perseguiu a Igreja (At 12.1).
Morreu comido de vermes após ter se deixado glorificar por um público que ouviu seu discurso e disse que sua voz era de Deus e não de homem. Não deu glória a Deus (At 12.20-23). Segundo JOSEFO, foram cinco dias de sofrimento depois do discurso (5).

HERODES AGRIPA II.
Herodes Agripa II é o que surge em Atos dos Apóstolos com a designação de "rei Agripa". Era filho de Agripa I e reinou de 48 a 95 d.C. Foi rei de Cálcis de 48 a 53 d.C. Em 49, foi nomeado inspetor do Templo, com direito de nomear o sumo-sacerdote.
Agripa II surge em At 25.13-26.32, quando, por sugestão do procurador romano Festo, ouve o apóstolo Paulo em audiência. Tinha ele uma relação incestuosa com sua irmã Berenice, citada no referido texto.
Em troca de Cálcis, Cláudio dá a Agripa II as tetrarquias de Filipe e Lisânias (53-95) e uma região no norte do Líbano.

HERODES DE CÁLCIS.
Herodes de Cálcis não aparece nas Escrituras. Era filho de Aristóbulo. Casou-se com Berenice, mas foi por ela traído - ela cometeu incesto com seu irmão Herodes Agripa II.
Foi nomeado inspetor do Templo, com direito de designar o sumo-sacerdote. Foi ele quem nomeou Ananias, filho de Nebedeu, que aparece em At 23 e 24.

CONCLUSÃO.
A família de Herodes merece ser estudada porque teve participação especial no período em que Jesus nasceu e nos primeiros anos da História da Igreja.
De acordo com o que vimos dos dados biográficos desses governantes, poderíamos dizer, com acerto, que "nenhum deles se salva" de um julgamento histórico. Todos foram personagens maléficos, seja por seus assassinatos, seja por adultérios e incestos, seja, ainda, pela perseguição a Jesus ou à Igreja.
Digno de observação é que a Dinastia Herodiana praticava medidas do que chamaríamos hoje de "politicagem": casamentos políticos, construções com interesses políticos, bajulação a superiores.
Depois dessas informações históricas, teremos maiores condições de estudar as passagens bíblicas em que os Herodes aparecem.
Que Deus nos abençoe.


Notas:
(1) A BÍBLIA DE JERUSALÉM traz um excelente Quadro Cronológico entre as páginas 2170 e 2188, sendo que para este estudo me debrucei sobre parte do conteúdo das pp. 2179 a 2185, além da árvore genealógica das Dinastias Asmoneia e Herodiana à p. 2189.
(2) Utilizo algumas informações de http://pt.wikipedia.org/wiki/Herodes,_o_Grande, por citar expressamente FLÁVIO JOSEFO. Essas informações estão em vermelho.
(3) MORIN, p. 103.
(4 Idem, p. 109.
(5) BÍBLIA ANOTADA, p. 1379.

Referências bibliográficas:

A BÍBLIA ANOTADA. The Ryrie Study Bible/ Texto Bíblico: Versão Almeida, Revista e Atualizada, com introdução, esboço, referências laterais e notas por Charles Caldwell Ryrie. Sã o Paulo: Ed. Mundo Cristão, 1994, 1835pp.


BÍBLIA DE JERUSALÉM. Tradução do texto em língua portuguesa diretamente dos originais. Tradução das introduções e notas de La Bible de Jérusalem, edição de 1998, publicada sob a direção da "École biblique de Jérusalem". Edição em língua francesa. São Paulo: Paulus, 2002, 2206pp.

MORIN, E. Jesus e as estruturas de seu tempo. Tradução de Vicente Ferreira de Souza. Revisão de H. Dalbosco. São Paulo: Paulus, 1988, 56pp.


 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O Papa João Paulo II flagelava-se - mas, por quê?

Foi publicado um livro com o título "Why a saint?" ("Por que um santo?"), escrito por Slawomir Oder, monsenhor polonês que trabalha no processo de canonização de Karol Wojtyla, o falecido Papa João Paulo II. De acordo com esse religioso, o pontífice tinha o costume de praticar ascetismo e autoflagelação, para o que usava um cinto como açoite. Também chegava a dormir no chão como penitência, depois do que desarrumava a cama para que seus assessores não o percebessem.
A prática da autoflagelação teria o objetivo de mortificar o corpo para obtenção da santidade, e, conforme matéria no "site" de notícias da Globo (G1), alguns "santos" católicos faziam isso, dentre eles Francisco de Assis, Catarina de Siena e Inácio de Loyola.
Aparentemente, o Sr. Oder busca comprovar a santidade de João Paulo II com o fato de ele ter tentado se aproximar do sofrimento de Cristo.
Com todo o respeito à religião alheia - pois meu interesse é teológico -, não há fundamento bíblico para isso.
De fato, a Bíblia condena o ascetismo. É o que está escrito em Cl 2.20-3.10:

"Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais às ordenanças: não manuseies isto, não proves aquilo, não toques aquiloutro, segundo os preceitos e doutrinas dos homens? Pois que todas estas coisas, com o uso, se destroem. Tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e de falsa humildade, e de rigor ascético; todavia, não têm valor algum contra a sensualidade. Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus. Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então, vós também sereis manifestados com ele, em glória. Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza, que é idolatria; por estas coisas é que vem a ira de Deus [sobre os filhos da desobediência]. Ora, nessas mesmas coisas andastes vós também, noutro tempo, quando vivíeis nelas. Agora, porém, despojai-vos, igualmente, de tudo isto: ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena do vosso falar. Não mintais uns aos outros, uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos e vos revestistes do novo homem que se refaz para o pleno conhecimento, segundo a imagem daquele que o criou".

A mortificação da carne ou dos membros significa o processo de santificação, que só pode ser alcançado com a justificação, pela qual o Homem faz as pazes com Deus e é por Ele aceito, mediante a Obra de Cristo (Rm 5.1,2). É o afastamento do pecado deliberado, a busca processual de uma vida mais pura, sempre em decorrência da ação do Espírito (I Pe 1.2). Se for mero rigor ascético, não passa de religiosidade fria. Isso os fariseus e escribas faziam com muito zelo, mas Jesus não os aprovou (Mt 23 e Mc 7.1-23).
Está escrito em Rm 8.13: "Porque, se viverdes segundo a carne, caminhais para a morte; mas, se, pelo Espírito, mortificardes os feitos do corpo, certamente, vivereis". Sendo assim, a mortificação da carne se faz pela ação do Espírito, e não com a ajuda de instrumentos de tortura.
Há uma diferença entre carne e carne na Bíblia, indicada por duas palavras gregas: soma e sarx. A palavra "carne", quando traduzindo a palavra "soma", indica o corpo humano. Quando traduz a palavra "sarx", se refere à natureza humana decaída. Então, devemos mortificar a carne enquanto natureza decaída, não a carne enquanto corpo. Aliás, Paulo pressupõe o devido cuidado com o corpo (Ef 5.29), o qual foi criado por Deus e é muito bom (Gn 1.31).
Para ser santo basta ser separado do pecado mediante "o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo" (Tt 3.5). É a Palavra de Deus que nos santifica (Jo 17.17). Todos os eleitos de Deus são chamados para a santificação e são considerados santos (Rm 1.7; I Co 1.2; II Co 1.2; Ef 1.1; Fp 1.1; Cl 1.1; Ef 6.18; I Pe 1.2, 16; 3.5), não precisam ser canonizados nem praticar a autoflagelação, tampouco o ascetismo. Somente Deus é Santo em Si mesmo, tendo a Santidade como uma de Suas atribuições morais intrínsecas e imutáves (Is 6.3).
Quando, em I Co 9.27, Paulo diz que esmurra o seu corpo e o reduz à escravidão, ele não está aprovando o autoflagelo, o que seria contraditório, pelo que vimos em Colossenses. No contexto, Paulo está se referindo ao seu trabalho de evangelização, e que se pauta pela extrema seriedade em tudo o que faz, como os atletas, figura que ele utiliza porque os esportistas seguem regimes e regras muito rígidas, tendo em vista o prêmio a alcançar (I Co 9.24-27). É uma questão de figura de linguagem, metáfora!
Mas, por que um texto desse teor num blog dedicado a temas evangélicos? Estaria eu preocupado com a espiritualidade do Papa? Daria eu algum crédito a intenções de canonização? Não é isso. Nem reconheço a Igreja Católica como Igreja, com todo o respeito - bem, Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI) reconheceu que a Igreja Católica é a única Igreja Cristã, então estamos conversados...
O fato é que me preocupo principalmente com cristãos evangélicos que praticam atos de ascetismo para obter bênçãos ou a própria santificação - orações prolongadas, jejuns, vigílias. Há o perigo de mudarmos o real significado dessas práticas, que deveriam ser de comunhão com Deus, para um tipo de barganha espiritual, como se algum de nós pudesse "pagar um preço" - detesto essa expressão. Quem pagou todo o preço foi Jesus na Cruz do Calvário. Esquecer desse ponto fundamental da Fé é um erro crasso.

http://noticias.r7.com/internacional/noticias/papa-joao-paulo-2-se-flagelava-e-fez-carta-de-renuncia-20100126.html



Acredito numa teologia que faz perguntas

A religião traz respostas, enquanto a filosofia faz perguntas. Mas acredito numa teologia que sabe perguntar, em vez de ficar dando respostas prontas, sem reflexão.
Explico: na condição de conhecimento sistematizado, a teologia não pode se contentar com preconceitos, mitos e costumes. Ela precisa questionar, empregar linguagem técnica, utilizar métodos, firmar princípios e critérios, superar o dogmatismo e as paixões. Não coloco a teologia entre as ciências porque ela cuida de campo metafísico, nem a enxergo como filosofia porque esta não se baseia na Revelação - embora pergunte também sobre Deus, a filosofia não acredita necessariamente na Bíblia.
Teologia é teologia e pronto. Como tal, deve ser reconhecida em seus contornos específicos.
Podemos usar o método científico, sem, no entanto, enaltecê-lo acima da Revelação. Aliás, não foi à Razão que apelaram os Reformadores? O que é a Hermenêutica, senão uma técnica utilizada por outros ramos do saber, como, por exemplo, o Direito? E o que seria da doutrina dos textos-prova, tão caros à doutrina do Sola Scriptura, se não fosse o apreço à Razão dada por Deus?
De acordo com o método científico, de Descartes, é necessário partir das perguntas: o quê? como? por quê? quando? quem? É preciso "entrar em crise", ser curioso, observar. Jamais um teólogo pode deixar de ser curioso, como não existem cientistas conformados com o que já lhe disseram.
Veja Isaac Newton - que era cristão: ele descobriu a Lei da Gravitação Universal ao reparar que uma maçã caía da árvore ao chão, em vez de ir para o lado ou subir. Era uma coisa óbvia, pensariam muitos. Mas, se observarmos bem, veremos que as grandes descobertas sempre surgem a partir de coisas óbvias, que todo mundo sabia, mas não haviam sido alvo de investigação. E, assim, estabeleceu-se uma das famosas Leis de Newton, afirmando que a Terra atrai os corpos, e por isso eles tendem a cair quando soltos no ar.
Infelizmente, muito do que se diz ou pensa no evangelicalismo brasileiro remonta a um tipo de pensamento do período medieval, em que a Igreja Romana dizia, e assim tinha que ser. Bem por isso, era a Idade das Trevas, em que pouco se avançou em termos científicos, tecnológicos, econômicos, políticos e sociais. Em lugar do método indutivo, usa-se muito o método dedutivo: isto é, em lugar de fazermos exegese do texto para depois essa exegese nos induzir a uma conclusão lógica e consentânea com o bojo das Escrituras, fazemos o caminho inverso, ou seja, temos uma "conclusão" transmitida pelo tradicionalismo e depois tentamos, por meio da eisegese, ajustar textos bíblicos para comprovarem o que já pensávamos. Isso não é científico, mas também anda longe de ser teológico.
Citar os bereanos aqui pode ser lugar-comum, mas me perdoe, eles são citação necessária. Veja em At 17.11 que eles, não resignados em ouvir o apóstolo Paulo, iam consultar nas Escrituras (nosso Antigo Testamento) para ver se as coisas que ele dizia eram verdadeiras. Que nobres eram os bereanos! Na Antiguidade, muito antes do Iluminismo e da Reforma, já faziam livre exame da Palavra de Deus!
Examinando o Novo Testamento, veremos Paulo convencendo muitas pessoas de que Jesus é o Cristo, não só com discursos, mas também por meio de suas Epístolas. Apolo, de cujo nome vem o termo "apologia", defendia a tese de que Jesus é o Cristo. Lucas, "o médico amado" (Cl 4.14), escreveu de maneira coordenada, com base em pesquisa histórica, fatos que testemunhas oculares da Obra de Jesus lhe contaram detalhadamente (Lc 1.1-4). De um modo geral, a Bíblia é um Livro de convencimento. Paulo exorta a que façamos oração "com entendimento", e não apenas "com o espírito" (I Co 14.14,15). Hebreus é um tratado muito racional de aplicação do Levítico à Obra de Jesus Cristo. O próprio Paulo escreveu que conhecemos em parte, e vemos como que por espelho, em enigma (I Co 13.12), significando nosso conhecimento parcial das realidades espirituais.
Portanto, o valor racional da teologia requer uma postura mais humilde do teólogo, tornando-o uma pessoa que sabe fazer perguntas que nem sempre ele mesmo poderá responder. A resposta definitiva pertence exclusivamente a Deus.



quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Nenhuma biografia pode ser perfeita

Com o título "Nenhuma biografia pode ser perfeita", não me refiro à capacidade do biógrafo, mas à vida do biografado. Todos somos pecadores (Rm 3.23). A Bíblia relata pecados cometidos e limitações sofridas por homens como Abraão, Jacó, Moisés, Aarão, Sansão, Jefté, Gideão, Davi, Salomão, Elias, Ezequias, Paulo, Pedro e Barnabé. Até Daniel, cuja conduta parece ilibada e não tem registros desabonadores, com certeza pecou, porque não há quem não peque. Se repararmos, por exemplo, na vida de José, um rapaz tão justo, veremos que ele instilava sentimentos ruins em seus irmãos, contando ao seu pai os erros por eles praticados, quando o melhor seria dar conselhos, conversar com eles, e ser mais prudente para não se expor.
Pertenço a uma denominação centenária que, por isso mesmo, tem seus pioneiros a menos de um século de distância. São homens como Daniel Berg, Gunnar Vingren, Joel Carlson, Nils Katsberg, Otto Nelson, Eurico Bergsten, Paulo Leivas Macalão, José Pimentel de Carvalho, Anselmo Silvestre, Túlio Barros Ferreira, Cícero Canuto de Lima, Alcebíades Vasconcelos, Rodrigo Santana, Aristóteles Bispo, Euclides Arlindo e muitos outros. Esses nomes percorrem a história das Assembleias de Deus no Brasil e se misturam à origem e ao desenvolvimento do Movimento Pentecostal por aqui. São lembrados com muita honra por todos aqueles que apreciam o Pentecostalismo Histórico - e não essa gama de besteiras que se propalam como se fosse pentecostalismo, como se fosse coisa da Assembleia de Deus histórica.
Mas é bom atinarmos para o fato de que esses homens - alguns deles ainda vivos - não foram ou não são perfeitos. E, sabendo disso, qualquer biografia que os coloque num pedestal de heroísmo exagerado não pode ser tomada senão como fruto de grande admiração, quando não há outro sentimento a motivar a biografia.
Certa vez, em Campo Grande/MS, conversando num jantar com o Pastor Key Iuassa, da Igreja Holiness, ele me disse que, na década de 1960, ao fazer uma pesquisa na Escola de Sociologia e Política da USP, teve a oportunidade de entrevistar Daniel Berg. Perguntei, entusiasmado: "Como ele era"? Ao perceber minha euforia, o pastor respondeu: "Era um homem gordo e desajeitado. Nós não temos essa coisa com os nossos líderes".
Boa resposta. Entendi o recado.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Minha homenagem à memória do Pr. Aristóteles Bispo

Hoje, às 18h, recebi a notícia de que o Pr. Aristóteles Bispo passou para a eternidade, com 98 anos. Sergipano, foi um dos pioneiros das Assembleias de Deus no Estado da Bahia, tendo fundado 29 templos. Foi ele quem batizou nas águas o Pr. João Evangelista de Jesus, que tem 80 anos de idade, e que foi o pastor que me apresentou quando bebê.
O Pr. Aristóteles fez parte de minha infância. Fui visitá-lo umas duas vezes com a minha mãe quando criança, à época em que sua primeira esposa ainda era viva. Ele fora levado a Alagoinhas/BA pelo seu amigo Pr. João, meu pastor naquele tempo - e que ainda hoje considero muito, bem como ao seu genro e também pastor (agora em Feira de Santana/BA), Joeser Cruz Santana.
O Pr. Aristóteles Bispo sofreu uns problemas de saúde que o deixaram recolhido a uma cama e a uma cadeira de rodas por muitos anos. Mesmo assim, não deixou de ser uma referência para todos quantos o conheceram.
Meu pastor atual, Dionísio Barbosa, aqui na Ribeira, em Salvador/BA, também foi batizado pelo Pr. Aristóteles, e fora visitá-lo em setembro do ano passado. Eu mesmo fora à casa dele no final de 2008, junto com a minha esposa, minha mãe e minha filha. Conversamos somente com a irmã Maria Moreira, esposa do Pr. Aristóteles, pois ele mesmo já não mais interagia como antes. Todavia, ali estava ele.
Amanhã deverei participar, ali em minha cidade natal, do ofício fúnebre. Mas não será um momento de desespero: temos a palavra da consolação e da esperança, registrada em I Ts 4.13-18.
Além disso, devemos louvar a Deus pela vida de um homem que desenvolveu uma carreira evangelística pioneira e repleta de dificuldades, a ponto de, segundo a minha mãe, ter que redigir os próprios folhetos que iria distribuir.
Penso no texto de Hb 13.7, que diz:
"Lembrem-se dos seus líderes, que lhes falaram a palavra de Deus. Observem o resultado da vida que tiveram e imitem a sua fé" (NVI).
É isso.


Teologia de Panfletos (IV) - Até a Igreja Romana?

Depois de algum tempo, voltamos com a série "Teologia de Panfletos", que não pode manter uma periodicidade mais precisa porque depende dos panfletos "evangélicos" que chegam às minhas mãos. E desta vez nem se trata de um folheto evangélico, mas aparentemente católico. Isso mesmo!
Ontem, ao sair da escola dominical (na Igreja Batista dos Mares, que fomos visitar aqui em Salvador), vimos um panfleto colocado atrás do limpador de para-brisas. Trazia uma imagem que deve ser de santo católico, mas que, por razões de formação religiosa, não consigo discernir. Abaixo do santo, eis a propaganda:

"Santas Missas com a Prece Forte do Exorcismo.
Sexta-feira: 9:00 e 19:30hs
Domingo: 9:00 da manhã
Paróquia das Santas Missões.
[segue o endereço].
Os milagres do Senhor Jesus estão acontecendo na cidade baixa!!!
Você que está sofrendo com doenças, vícios, depressão, dívidas, brigas no lar, não consegue emprego, foi vítima de feitiçaria e sente que algum mal está lhe perturbando; participe das Santas Missas de cura e libertação celebradas pelo Padre (...), o Padre exorcista de Salvador".
[...]
Não sofra mais. Esteja na Paróquia das Santas Missões e o Senhor Jesus mudará a sua vida!!!"


Há uma série de coisas para comentar aqui:
(1) A propaganda parece sair de um panfleto da Igreja Universal do Reino de Deus, da Igreja Internacional da Graça de Deus ou de tantas outras igrejas pseudopentecostais e neopentecostais do nosso país.
(2) As promessas de cura e libertação e de interrupção do sofrimento não observam a soberania divina, transmitindo a suposição de que o homem pode marcar o dia e a hora de Deus operar milagres e transformação de vidas.
(3) Admira-me o fato de se tratar aparentemente de um padre, pois os padres estudam filosofia e teologia, e devem saber que os sofrimentos fazem parte da vida humana, não sendo possível estabelecermos um dia em que todas as aflições cessarão. Onde estava esse suposto padre quando em seu seminário foi estudada a matéria Teodiceia, em que se enfrenta o tema da origem do mal, contrastada com a justiça de Deus?
(4) O "padre exorcista de Salvador" arroga para si um poder especial, como se nele residisse uma unção diferente. Lembro do Mestre Camilo, representante de R.R.Soares em Minas Gerais, que na rádio propalava, ao som de músicas trash, ser ele a maior autoridade em libertação do Brasil (leia neste blog um texto sobre isso, colocando a palavra "bizarro" na ferramenta de busca). Mas todos devem saber que o poder pertence a Deus; que o exorcismo - a prática da expulsão de demônios - não carece de dom espiritual, mas da invocação do Nome do SENHOR Jesus; e que não se deve espiritualizar, muito menos demonizar a causa de todo sofrimento, pois, para surpresa de muita gente, há aflições enviadas por Deus para prova, e há aflições que consistem em consequência do pecado pessoal.
(5) Não sei se esse padre é dissidente da Igreja Católica. Nunca ouvi falar de algo parecido na Igreja Católica. A igreja romana tem imitado algumas coisas do evangelicalismo brasileiro, mas essa propaganda pseudopentecostal é qualquer coisa de inusitado. A Renovação Carismática diz que fala em línguas; padres surgem na TV com sermões bem explicados, parecendo palestrantes motivacionais ou mesmo pregadores evangélicos; músicas evangélicas são cantadas sem cerimônia por padres como Marcelo Rossi e tantos outros; muitas missas são menos solenes, com uma interação maior com o público - mas lá permanecem a adoração a Maria e aos santos; as imagens de escultura; a submissão ao Papa; as penitências; o sacerdócio exclusivo dos líderes ordenados; o batismo infantil; a noção de única igreja cristã; a paridade entre a autoridade escriturística e a autoridade da igreja - com prevalência desta última; o celibato sacerdotal; a infalibilidade papal; os sacramentos que vão além do batismo nas águas e da Ceia do SENHOR; e muito mais.
Não há nenhum problema em os evangélicos serem imitados. É isso mesmo o que queremos. Mas há que se imitar o que é bom. Como disse Paulo, devemos ser seus imitadores, como ele é de Cristo (I Co 11.1). E Cristo jamais prometeu o que não poderia cumprir; jamais colocou a bênção no lugar do Abençoador; jamais fez propaganda de coisas extraordinárias com o objetivo de angariar adeptos.
Pelo contrário: ao sinal de que Seus discípulos acharam muito dura a Sua palavra, Jesus não hesitou em perguntar se eles O queriam deixar, com a maioria dos seguidores o fizera (Jo 6.60-67).
Estamos numa época em que as pessoas estão com pressa, como o cliente na fila do self-service, do fast-food. É a pós-modernidade com sua religião de consumo: tudo é relativizado em nome de uma compra rápida de satisfações materiais, emocionais e espirituais. Essa é a intromissão do mundanismo nas igrejas. É com esse mundanismo que devemos nos preocupar - enquanto alguns se atrapalham com coisas pequenas e sem importância, muitas vezes deixamos de ver como os valores do mundo se intrometem em nossas igrejas. É preciso termos cuidado.

domingo, 24 de janeiro de 2010

Série vocacionados - VII (Febe)

"Recomendo-vos a nossa irmã Febe, que está servindo à igreja de Cencréia, para que a recebais no Senhor como convém aos santos e a ajudeis em tudo que de vós vier a precisar; porque tem sido protetora de muitos e de mim inclusive" (Rm 16.1,2).

Prosseguindo em nossa série Vocacionados, vamos tratar da vocação de uma mulher cujo nome era Febe.
Sim, depois de estudarmos a vocação de Davi, Moisés, Samuel, Amós, Timóteo e Jonas, chegamos à vocação de uma mulher. Uma mulher que Paulo citou em poucas palavras numa carta à igreja de Roma, mas que merece ter sua vocação estudada porque não há dúvida de que se trata de uma pessoa chamada por Deus para determinado serviço.De acordo com o apóstolo Paulo, que a recomendou à igreja romana, Febe a) servia à igreja de Cencréia; b) protegia a muitos; e) e protegia a ele próprio.
Quanto ao conteúdo desse serviço, há uma dúvida: como a palavra grega diakonos, do verbo diakoneo, significa serva, ministra ou diaconisa, é possível afirmar com certeza que Febe era diaconisa na acepção técnica da palavra? Se ela servia à igreja, havia sido constituída como diaconisa?
Não é possível afirmar tal coisa com base num único texto, pois a diaconia pode ser tanto um serviço no sentido geral, como também um serviço subordinado, no sentido técnico.
Bem por isso, não se pode concluir, somente a partir de Rm 16.1,2, que Deus instituiu mulheres como diaconisas, muito menos como episcopisas ou pastoras. Essa dedução, com fulcro nesse texto, é uma interpretação forçada, que pode servir a interesses ideológicos, mas não obedece aos princípios da hermenêutica.
Vale afirmar que a Bíblia traz outros exemplos de mulheres que serviam a Deus: as mulheres que serviam ao ministério de Jesus com seus bens; Dorcas, a costureira; Ninfa, que recebia a igreja em sua casa; Priscila, sempre ao lado de seu esposo Áquila. É muito mais apropriado, portanto, entender que Febe servia ao SENHOR como essas outras mulheres.
Há diversos vocábulos gregos para serviço: latreuo (cumprir um serviço remunerado); leitourgeo (prestar um serviço público); douleo (servir como escravo); therapeauo (servir espontaneamente). Já diakoneo é o mesmo que fazer um serviço pessoal.
Mulheres podem ser episcopisas ou pastoras? Bem, I Tm 3.2 afirma que os presbíteros devem ter uma só esposa. Não há recomendação de que as pastoras tenham um só marido.
Somente três vezes no Novo Testamento a palavra diakonos surge com o sentido técnico de ministro ordenado: Fp 1.1, referindo-se Paulo aos "bispos e diáconos" que vivem em Filipos"; e I Tm 3.8,12, quanto aos requisitos para o diaconato - entre eles, o de ser marido de uma só mulher.
Outras vinte e sete vezes, o vocábulo diakonos surge como sinônimo de servo, mas em sentido não-técnico, enquanto o verbo diakoneo aparece trinta e seis vezes para significar servir, ministrar, duas dessas ocasiões para indicar o ofício de diácono.
É esclarecedor o fato de que "presbítero" e "apóstolo" nem sempre trazem o sentido técnico, pois tanto Pedro como João, constituídos apóstolos, se apresentam como presbíteros, ao passo que há pessoas no Novo Testamento denominadas "apóstolos", sem que participassem do grupo dos Doze.
Outrossim, se quisermos considerar Febe como diaconisa a todo custo, teremos que aceitar irremediavelmente os seguintes personagens como diáconos: Paulo (Ef 3.7; Cl 1.23,25); Tíquico (Ef 6.21; Cl 4.7); Epafras (Cl 1.7); e Timóteo (I Ts 3.2; I Tm 4.6).
Quanto aos sete diáconos instituídos em At 6.1-6, embora a palavra diakonos não seja usada como nos casos em que se trata do ofício de diácono, tem-se a palavra diakonia, termo feminino que alude ao trabalho por eles desempenhado - servir às mesas. Não vejo como não reconhecer naqueles sete homens a função de diáconos, pois foram solenemente ordenados para esta função específica.
Há outra questão: a palavra prostatis, traduzida, por exemplo, como "protetora" (ARA), "patrocinadora" (NCB) e "de grande auxílio" (NVI), aparece na ARC como a seguinte expressão: "tem hospedado". A julgar pelo uso secular do termo, este teria que ser traduzido como "que governa" ou "que tem autoridade", mas as traduções da ARA e da NVI parecem optar pelo entendimento de que não se trata de supervisão administrativa, mas de serviço subordinado, semelhante a governança.
Caso entendêssemos que prostatis significa autoridade e governo, teríamos que concluir que Paulo estava sob a autoridade de Febe, algo inconcebível para quem conhece o Novo Testamento e um pouco da cultura judaica de então.
O fato de em I Tm 3.11 constar menção a mulheres (gunes) pode se referir às esposas dos diáconos ou presbíteros ou às mulheres diaconisas - mas isto não pode ser comprovado nem, se comprovado, habilitaria a dedução de que Febe foi diaconisa.
É oportuno citar essa passagem do Novo Comentário da Bíblia (p. 1183) a respeito de Rm 16.1-16):

"Dos nomes desta lista histórica [galeria de crentes em Rm 16], um terço é de mulheres, a revelar o lugar proeminente que elas ocupavam na igreja de Roma. Paulo foi pioneiro do reconhecimento da função das mulheres no serviço cristão, e sua atitude tem sido muito mal compreendida neste particular".

Em seguida, o NCB trata de Febe:

"O testemunho que dá de Febe (1,2) é honrosíssimo. É apresentada como irmã, isto é, da família espiritual do Senhor, sugerindo igualdade de privilégios na irmandade, como serva da igreja em Cencréia, isto é, diaconisa (Fil. 1.1), e como protetora (gr. prostatis, "patrocinadora"), a implicar que era uma senhora de recursos, que trabalhara no meio da população das docas, no porto de Corinto. Acredita-se que Febe estava de viagem para Roma e Paulo confiou aos seus cuidados esta preciosa epístola, para que a fizesse chegar com segurança ao seu destino".

Nessa esteira, a Bíblia de Jerusalém afirma em nota de rodapé que Febe era "certamente a portadora da carta", e a chama de diaconisa (p. 1990).
Com todo o respeito, e salvo melhor juízo, embora o termo diakonos possa ser traduzido como diaconisa, o problema semântico - serviço técnico ou serviço geral - exige que a tradução seja mais cautelosa, trazendo o sentido de "serva", à míngua de outros elementos. Além disso, a hipótese de ter sido Febe uma mulher de recursos, patrocinadora de atividades da igreja, pode até mesmo afastar a diaconia na acepção técnica. No mais, são especulações.
Sopesadas todas essas informações teológicas, cumpre observar que não temos a pretensão de defenestrar o trabalho feminino nem de desmerecer os feitos de mulheres que muitas vezes tomam a frente de atribuições para as quais faltam homens. A questão aqui é estudar a vocação de Febe, e isso passa pelo problema da ordenação de mulheres, ponto sempre suscitado quando se cuida de Rm 16.1,2.
Entendemos que a Bíblia interpreta a si mesma. Se a Bíblia se cala quanto a detalhes que gostaríamos de conhecer, não nos cabe tentar suprir essa suposta "omissão", pois a Palavra de Deus não deixa a desejar. Tampouco podemos praticar a tal eisegese (diferente da exegese), incutindo no Texto Bíblico aquilo que nos interessa, como fazem, neste caso, alguns que procuram sustentar o direito de ordenação das mulheres ao ministério episcopal.
Por outro lado, o que importa é reconhecer em Febe como que a precursora de tantas e tantas mulheres crentes neste e em outros países, que oram, jejuam, frequentam assiduamente os cultos, participam na Assembleia de Deus dos tradicionais Círculos de Oração, ou das Sociedades Femininas da Igreja Presbiteriana, ou de tantos outros organismos e atividades das igrejas espalhadas pelo mundo. No Brasil, as mulheres são maioria nas igrejas, fato empiricamente observado. São elas que sustentam as atividades de visitação, dirigem cultos de missões, preenchem a maioria das cadeiras dos corais, formam os grupos de senhoras, cumprem, enfim, o seu ministério.
Febe é vocacionada, sim. Ela cumpre a sua missão. Protege, cuida, administra, serve, hospeda. Se ela não fosse tão especial, não mereceria esse destaque dado pelo Espírito Santo, pelas mãos de Paulo.
Reconhecendo o trabalho de Febe, Deus reconhece o trabalho de todas as mulheres cristãs.

Nota: utilizei várias informações extraídas do endereço http://www.scribd.com/doc/3009693/Febe-era-Diaconisa.
Também: Novo Comentário da Bíblia (NCB), São Paulo: Edições Vida Nova, 1963, V. II, p. 1183.
Bíblia de Jerusalém, São Paulo: Paulus, 1998, p. 1990.


sábado, 23 de janeiro de 2010

"Jesus, a minha vida está em suas mãos"

Aquele rapaz debaixo dos escombros de um prédio derrubado pelo terremoto no Haiti não estava em condições de ser hipócrita. Ele não tinha motivos para dizer alguma coisa da boca para fora. Com o mundo todo sobre seu corpo, falou para todo o planeta por meio do microfone da CNN: "Jesus, a minha vida está em suas mãos".
A calamidade, a proximidade da morte e o enfrentamento da fragilidade humana são circunstâncias em que as pessoas provam sua fé ou sua falta de fé. É fácil rasgarmos a garganta cantando "Sou feliz com Jesus", "Mais perto quero estar", "Tu és fiel, Senhor" quando estamos sentados na igreja, bem alimentados, confortáveis. O duro é dizer "Jesus, a minha vida está em suas mãos" com o mundo todo nas costas.
Mas isso não é impossível: aquele pobre haitiano o demonstrou. Na verdade, ele não é pobre - é rico das misericórdias de Deus. Deliberadamente ou não, ele acabou dando um eloquente testemunho de sua fé.
A tragédia que se abateu sobre o Haiti dará a todos nós uma série de imagens assombrosas e, ao mesmo tempo, muitas imagens reconfortantes. Não esqueço da imagem do menino sendo resgatado, enquanto todos ao redor gritavam de alegria. Essa foi a derradeira imagem mostrada no resumo da semana do Bom Dia Brasil (TV Globo, dia 22/01), sendo também apresentada, no mesmo dia, pelo Jornal da Band, para encher de lágrimas os olhos do âncora Ricardo Boechat.
Sofrimento, cheiro de morte, fome, miséria, ausência de estrutura estatal, tudo isso é hoje uma realidade potencializada no Haiti por causa do terremoto. Mas nada disso impede que surjam cenas bonitas e emocionantes.
Podemos fazer aqui um paralelo com o Plano de Redenção: apesar da intromissão do pecado no mundo, o bem de Deus ainda persiste, a Sua Providência, o milagre  cotidiano da vida, o sorriso de uma criança, a solidariedade, as iniciativas humanitárias, a construção de hospitais, creches, escolas e instituições públicas. Tudo o que é bom procede de Deus (Tg 1.17).
Depois do pecado de Adão e Eva, Deus prometeu o Messias (Gn 3.15), ensino que foi transmitido ao longo dos séculos por meio de patriarcas, profetas e apóstolos, culminando na Pessoa e Obra de Jesus Cristo (Hb 1.1,2).
A Redenção é a mais linda história que alguém poderia contar. Após o pecado, a Queda, a morte, surge Aquele que salva, que cura, que liberta, que ressuscita, que livra do mal. É nesse Jesus que eu creio. O mesmo Jesus que surgiu dos lábios daquele homem haitiano. A esperança nunca morre.


quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

"Evangélicos=80"

Alguns esquemas de corrupção deixam provas documentais. Aparentemente foi o que aconteceu com a quadrilha que supostamente se instalou no DF, já que a Polícia Federal, por meio da Operação Caixa de Pandora, encontrou, no dia 27 de novembro de 2009, agendas, papéis e livros-caixa contendo informações importantes sobre o chamado "Mensalão do DEM".
A matéria é da Revista Época deste final de semana: entre os documentos apreendidos junto a Domingos Lamoglia, ex-Chefe de Gabinete de José Roberto Arruda e, vejam só, Conselheiro afastado do Tribunal de Contas do DF, foi achada uma agenda de 2009 onde há registros que indicam, em tese, a atribuição de determinadas quantias a dois grupos - "pessoal" e "política". No grupo "política", tem-se registros como “Pesquisas=100”, “Evangélicos=80” e “Fraterna=100".
É isso mesmo: "Evangélicos=80". Mas, oitenta o quê? Seriam 80 mil reais? Haveria relação com a denominada "oração da propina", com o presidente da Câmara Legislativa que colocou dinheiro nas meias, com a deputada Eurides Brito, que, após trancar a porta da sala de Durval Barbosa, recebe dinheiro e o coloca na bolsa? Na chamada "oração da propina", os evangélicos Rubens César Brunelli e Leonardo Prudente estavam agradecendo a Deus pelo dinheiro assim obtido?
Essas são perguntas a que a Polícia Federal está buscando responder, e para isso vai colhendo provas e juntando indícios. Mas já dá para ficar estarrecido com a possibilidade de esse "evangélicos=80" não ser uma coisa boa.
É por isso que muita gente não quer mais ser classificada como "evangélica". Com uma anotação dessas, numa agenda suspeita, é realmente constrangedor para os evangélicos que defendem seus líderes a todo custo. Mas eu sou evangélico porque aceitei o Evangelho de Cristo, porque defendo a Fé Evangélica.
Da mesma forma, sou protestante, cristão, pentecostal, e ousaria dizer que sou reformado na acepção ampla. "Evangélico" é só mais um rótulo entre muitos, e nem sempre os cristãos foram chamados de "evangélicos". Em Antioquia, começamos a ser chamados de "cristãos" (At 11.26). O "evangelicalismo" é coisa muito mais recente, um desenvolvimento das igrejas protestantes iniciado no Séc. XX. A rigor, evangélicas ou evangelicais seriam igrejas oriundas do Fundamentalismo, porém de matiz moderada - com uma mensagem conservadora, mas não separatista. Todavia, no Brasil o termo "evangélico" abraça todos os segmentos não católicos, incluindo pentecostais, neopentecostais e históricos. Num vídeo postado no Youtube, o Rev. Augustus Nicodemus Lopes define Evangelicalismo, e diz que entre nós brasileiros o termo se liga principalmente aos neopentecostais (palestra na Conferência Fiel de 2006).
De toda sorte, evangélico é muito mais que um grupo a ser estudado pela Sociologia da Religião: em todas as épocas da Era Cristã, evangélica é a Fé em Deus conforme descrito nos Evangelhos. Gosto do seguinte texto de Paulo:
"Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo, para que, ou indo ver-vos ou estando ausente, ouça, no tocante a vós outros, que estais firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica" (Fp 1.27).
Reformados, Batistas, Pentecostais, Neopentecostais: todos devemos defender a Fé Evangélica, independentemente do "que estão fazendo com a Igreja" - para usar o título de um excelente livro do Dr. Augustus Nicodemus (Mundo Cristão, 2008).
Entendendo o que significa a Fé Evangélica, fica mais feia a suspeita anotação "evangélicos=80". Uma palavra de significado tão profundo e bíblico não deveria cair em noticiários policiais. Mas, há que se aguardar a conclusão das investigações e do ulterior processo judicial. Aqui não prejulgamos.
Que Deus nos oriente.




quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Tenho medo de Julio Severo

Há uns poucos anos tive contato com um texto de Julio Severo. Não sabia quem era, como ainda não sei exatamente. Demonstra ser um blogueiro ultraconservador que se tornou conhecido de certo público por suas posturas em assuntos políticos, sociais e religiosos, tratando de temas como o aborto, a eutanásia, o homossexualismo, as esquerdas e a educação sexual. Seu blog é recheado de textos bem escritos, que, de algum modo, cumprem o importante papel de fornecer uma alternativa ao pensamento chamado "progressista", que, na verdade, alberga a defesa de coisas indefensáveis pela Igreja.
Todavia, mesmo sendo eu uma pessoa que pode ser caracterizada como conservadora, Julio Severo me assusta. Eu já considerava muito fortes os seus posicionamentos, para não dizer "radicais". Tudo bem: sou contra o aborto, contra o homossexualismo, contra a eutanásia, contra boa parte das bandeiras da esquerda, contra a educação sexual baseada em princípios mundanos. Mas o cúmulo do absurdo foi a afirmação de Julio Severo no sentido de que o terremoto no Haiti foi uma resposta de Deus à prática do vodu naquele país, com o acréscimo de que, com o apoio do governo às religiões afrobrasileiras, poderiam ocorrer terremotos também no Brasil.
O próprio Julio Severo cita o Cônsul-Geral do Haiti em São Paulo, George Samuel Antoine, com o qual concorda: para eles, africano é amaldiçoado porque mexe com macumba. Andam juntos a Pat Robertson, para quem os haitianos estão pagando por um pacto supostamente feito com o Diabo em prol da Independência, que aconteceria em 1804.
Foi estarrecedor deparar com um texto dessa natureza, que chegou ao meu conhecimento por meio do GENIZAH VIRTUAL - este, sim, um blog que tenho visitado. Julio Severo assusta quando diz que um povo inteiro pode ser alvo do juízo de Deus porque em seu território se pratica o vodu.
Pergunto a Julio Severo (e fiz algumas perguntas em comentário endereçado ao seu blog, mas ainda não sei se foram publicadas):
a) por que Deus não teria livrado os justos que moravam no Haiti, como livrou a família de Ló ao destruir Sodoma e Gomorra?
b) macumba, vodu e santeria são piores que hipocrisia, mentira, maledicência, engano, falso testemunho, práticas pecaminosas conhecidas em nosso meio?
c) quem autorizou o Sr. Julio Severo a fazer declarações tão pesadas? Vive ele os tempos do Antigo Testamento? É um profeta de Deus? Quem lhe deu essa autoridade? De onde lhe vem essa "revelação"?
d) esqueceu ele que a França católica abandonou o Haiti à própria sorte depois de tê-lo dominado por tanto tempo? Que os Estados Unidos protestantes ocuparam o Haiti nos primeiros anos do Séc. XX? Que a ONU aprovou o embargo econômico de 1991? Que, enfim, a comunidade internacional nunca olhou para o Haiti como deveria?
Antes de fazer afirmações como a que fez quanto ao Haiti, o Sr. Julio Severo deveria estudar minuciosamente as causas históricas, sociológicas, econômicas e políticas que levaram aquele país a se tornar um dos mais pobres do mundo - algo que potencializa os danos de uma catástrofe natural. Escrever algo tão sério demanda estudo mais sério, além de redobrada cautela, pois se trata da dor alheia, da miséria alheia, da tragédia alheia.
Não escrevo isso para impingir culpa em ninguém. Apenas apresento aqui minha extrema preocupação com um blogueiro que, embora cumpra um papel importante de fomentar o debate público de temas atuais como os acima citados, numa ótica conservadora, fora do consenso "progressista", acaba se mostrando um baluarte do que pode haver de pior na direita cristã - e olha que a direita cristã tem coisas bem melhores para apresentar.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Jesus investiu em pessoas

Construir templos, criar estruturas de poder, arrecadar dinheiro - isso as igrejas têm feito, principalmente aquelas que são geridas para crescer. Os pastores estabelecem projetos de crescimento, transmitem sua "visão" aos membros e ao "ministério", fixam metas, objetivos e estratégias. A diferença para uma empresa é que as igrejas não visam ao lucro. Bem, a maioria delas não visa ao lucro.
Sei que um grupo social organizado precisa de certas instituições, sendo ele mesmo uma instituição. A própria legislação exige que o uso do dinheiro seja controlado, que os trabalhadores e prestadores de serviço sejam remunerados, e isso demanda alguma organização financeira e administrativa. Todavia, a igreja não deve ser administrada tendo em vista objetivos corporativos ou meramente institucionais, pois o nosso SENHOR investiu em pessoas, não em estruturas.
De fato, lendo os Evangelhos, veremos que Jesus Cristo preferiu separar doze homens para o apostolado, estar com eles, discipulá-los, treinando-os para o prosseguimento de Sua Obra. Esses homens simples, e, em sua maioria, iletrados, foram treinados e enviados a pregar, ensinar, expulsar demônios, curar enfermos, estabelecer a doutrina cristã.
Jesus investiu em grupos de pessoas, e em pessoas em particular. Conversou com o corrupto Zaquel, com o intelectual Nicodemus, com a mulher samaritana, com a mulher siro-fenícia. Preparou e enviou 70 missionários a pregar o Evangelho do Reino em Israel. Operou milagres entre pessoas, não diante de auditórios suntuosos. Procurou as sinagogas e o Templo, mas para ensinar, não para "se mostrar". Jesus teve em torno de Si homens e mulheres que O auxiliavam até mesmo com seus bens, mas não há absolutamente nenhuma passagem que indique uma campanha apelativa de arrecadação de fundos para a aquisição ou construção de estruturas físicas. A prioridade de Jesus são as pessoas.
Não é errado construir templos! Mas há que se ter prioridades. Qual a nossa missão: "vestir a camisa" da instituição ou fazer discípulos? Construir carreiras ministeriais ou apascentar ovelhas? Seguir piamente o roteiro denominacional ou cumprir a Grande Comissão?
Lamento muito a pobreza alojada no pensamento de encher templos com chamarizes fantásticos, enquanto o número de pessoas serve apenas para denotar o sucesso da igreja e fazer uma boa fotografia. Vale mais o que se está ensinando no púlpito, o teor da pregação, o compromisso com a Palavra de Deus, a qualidade do culto ao SENHOR. Discipulado, infelizmente, tem sido mais um departamento burocrático de muitas igrejas, em que o pessoal recém-convertido vai aprender alguma coisa da Bíblia e da denominação, para depois seguir a classes outras da escola bíblica, não raro esperando o dia especial da ordenação ministerial, a partir do qual farão parte do clero.
Não nos esqueçamos: Jesus investiu em pessoas. A Salvação não se dirige a estruturas sociais, políticas, físicas ou econômicas, mas à estrutura humana, espírito, alma, corpo, o Ser Humano total. Jesus pretende estabelecer um diálogo aberto com a pessoa humana, sem a intermediação das construções físicas ou institucionais de que tanto gostamos.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Blog fará dois anos em 24 de janeiro - um pouco de história


Este blog está para completar dois anos em 24 de janeiro próximo. Eu o iniciei por sugestão de meu tio Gilberto Esteves da Rocha, numa conversa telefônica, quando ainda morava em Campo Grande/MS e estudava teologia (curso que não completei).
Em 2008, eu escrevia quase diariamente. Fui criando um estilo, percebendo minhas áreas de interesse, me acostumando a tratar de assuntos teológicos e não teológicos, escrevendo sobre coisas variadas que os jornais noticiavam. Passei a expor ideias antigas e outras que surgiam, e a desabafar sobre a problemática da Igreja brasileira.
Em 2009, escrevi bem menos, enquanto me adaptava à mudança para a Bahia, minha terra natal, e me via inicialmente dividido entre Alagoinhas, onde nasci, e Salvador, onde passei a trabalhar. Depois, mudamos para Salvador, e demorei um pouco a retomar o ritmo de postagens. Creio que ainda não estou como em 2008, mas poderemos chegar lá, se Deus quiser.
O blog foi bom para meu curso na faculdade, pois as horas que passava escrevendo e estudando me serviram no tempo de estágio. Também tenho exercitado o raciocínio e a crítica.
Sei que muitas pessoas passam pelo blog, mas não as contabilizo. A maioria delas não deixa comentários.
Por outro lado, há alguns poucos que comentam com alguma frequência ou se tornaram "seguidores", sendo que, a partir do blog, com a indicação feita pelo meu amigo Marcos de Jesus, Promotor de Justiça no Ceará, fiz amizade com João Armando, médico oncologista naquele mesmo Estado. O João Armando faz comentários frequentes, e já trocamos vários e-mails em decorrência dessa amizade.
Embora em 2009 eu tenha escrito menos, aproveitei para escrever um livro, que ainda precisa ser ampliado e aperfeiçoado. É como se eu tivesse usado o tempo do blog para escrever o opúsculo. Foi um bom exercício, e espero publicá-lo em breve, depois de estudos necessários.
Nessa jornada de quase dois anos, recebi comentários de incentivo e alguns comentários bastante ácidos, para dizer o mínimo. Mas é isso aí, estou aqui para ser criticado, não para ser elogiado. É para fomentar o debate saudável que eu estou aqui neste espaço, não para arrebanhar asseclas inconscientes.
Cheguei algumas vezes a pensar em desistir dessa atividade de editor de blog, mas minhas inquietações me impedem de ficar sem um espaço para publicar ideias. Este é meu púlpito, meu único púlpito, e os internautas são o meu público.
Pela misericórdia de Deus, uso as ferramentas que Ele me concedeu para colaborar com a edificação de algumas pessoas. Dentre as mais de 460 postagens, penso que alguém deve ter sido abençoado, porque essa obra pertence a Deus.
Filho de um artesão e uma professora aposentada pelo Estado da Bahia, ambos piauienses, irmão mais velho de duas baianas nascidas em Alagoinhas, fiz meu segundo grau (hoje ensino médio) na Fundação José Carvalho, escola filantrópica de uma rede criada por um homem rico, dono de uma siderúrgica sediada em Pojuca/BA, onde também fica a escola. Entrei lá por conta de um concurso realizado em 1991, quanto tinha 14 anos.
Depois, em 1995, fiz o vestibular para Psicologia na UFBA e não passei. Fiquei o ano de 1995 em Alagoinhas, junto com minha família, e esse foi um dos melhores anos de minha vida: após passar três anos morando em repúblicas em Pojuca, e viajando aos finais de semana para a minha cidade, passei o ano inteiro com meus pais e irmãs, e me firmei no Evangelho. Foi nessa época que eu dei minhas primeiras aulas de escola dominical e fiz minhas primeiras pregações, com 18 anos. De tão alegre com a minha fé mais sólida - embora "nascido no Evangelho" e batizado em 1992 -, cheguei a compor várias canções em 1995, retratando a verdade evangélica na qual passei a crer com maior vigor.
Em 1996, passei em dois dos três vestibulares que prestei: Direito na Universidade Federal de Viçosa e História na Universidade do Estado da Bahia, na qual fiquei em primeiro lugar entre os candidatos de História. Tudo isso pela misericórdia de Deus, e com dificuldades, pois paguei meu curso pré-vestibular com as aulas particulares que dava em casa.
De 1996 a 2001, fiz o curso de Direito em Viçosa, onde conheci muitos cristãos de igrejas diferentes, cresci como pessoa, abri minha mente, cometi muitos erros, amadureci, frequentei a Assembleia de Deus de Madureira e a Segunda Igreja Batista, conheci e passei a namorar a Miriam, que é minha esposa, participei ativamente da Aliança Bíblica Universitária (onde conheci a Miriam), do Grupo Pentecostal de Evangelização Universitária e frequentei as reuniões do Ministério Campus. Tive duas bolsas de pesquisa do CNPq, passei dificuldades financeiras, trabalhei na biblioteca setorial do Direito para ter um cartão que me desse direito a fazer refeições no Restaurante Universitário. Fiz o curso com pessoas que em geral tinham melhores condições financeiras do que eu. Mas chegamos juntos no dia 29 de março de 2001 para pegar o diploma, graças ao Eterno Deus.
Formado em Direito e desempregado, fui para Sete Lagoas/MG, onde a família de minha então namorada foi morar. Fiz concursos. Queria casar e não tinha dinheiro. Passei para escrevente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, e foi como escrevente que comecei a minha vida. Casei, tivemos uma filha, construímos uma casinha com financiamento da Caixa Econômica Federal. Foi o período de 2001 a 2006, com um intervalo de dezembro de 2002 a maio de 2003, quando estive em Alagoinhas tentando advogar enquanto o Tribunal não me chamava, o que só ocorreu em julho de 2003.
Em Sete Lagoas/MG eu cheguei querendo anonimato e sossego. Para isso, a congregação de poucas pessoas no bairro era ideal. Eu dava aulas de escola dominical, pregava e vivia aquela simplicidade ali com os irmãos, numa igreja desprovida de tudo, que ficava depois de uma descida feia e sem asfalto. Depois, estivemos por pouco tempo, em 2004, numa igreja fundada por um pastor dissidente da Assembleia de Deus, e retornamos em 2005, quando passamos a frequentar uma congregação do outro lado da cidade. Ainda em 2005 ou no começo de 2006, fomos para a sede, onde dei aulas aos jovens. De lá, fiquei sabendo em cima da hora que o Ministério Público da União me nomeara, e eu sequer lembrava que havia feito concurso para Analista Processual em 2004 - só lembrava que tinha feito concurso para o MPU, mas não lembrava que era cargo de nível superior.
Assim, rumei para Campo Grande/MS rapidamente em 30 de dezembro de 2006, de ônibus, pois não tinha dinheiro para a passagem de avião. Passei uns dias na casa da família Castilho, por indicação de meu cunhado, o pastor Ayumi Suzuki. Foram quase dois anos em Campo Grande/MS, de janeiro de 2007 a novembro de 2008, trabalhando no Ministério Público Militar, estudando na Faculdade Theológica (FATHEL) e participando da Assembleia de Deus como professor de escola dominical.
Tanto em Viçosa/MG, como em Sete Lagoas/MG e Campo Grande/MG nós fizemos muitas amizades, além de enfrentar problemas eclesiásticos e conflitos teológicos.
Confesso que, certo dia, estando eu na faculdade, minha esposa recebeu a ligação de um pastor perguntando se eu era "batizado com o Espírito Santo". Minha esposa disse que não. Resultado: logo depois, estando eu no trabalho, telefonou-me um pastor amigo, dizendo-me que a ideia do pastor-presidente era me separar para presbítero. Não o faria pela ausência do batismo com fogo - ou seja, por não ter falado em línguas.
Por providência de Deus, consegui remoção para Salvador, onde trabalho no Ministério Público Federal, outro ramo do MPU. Hoje faço pareceres jurídicos nas licitações da Procuradoria da República no Estado da Bahia. Ainda não nos enturmamos, não nos encontramos, não nos sintonizamos com a Assembleia de Deus local. Congregamos numa igreja da Ribeira, mas ainda não tomamos pé da Assembleia de Deus na cidade.
Temos enfrentado problemas de saúde na minha família: mãe com diabetes a ser controlada, sogro com sequelas de um AVC, além dos cuidados normais de quem é casado, tem dois filhos, abriga os sogros e ainda não se adaptou totalmente ao novo endereço.
Estou escrevendo essas coisas, e talvez alguém pense que isso tudo aumente minha vulnerabilidade. Mas quero dizer que por trás desse blog existe uma pessoa nordestina que saiu do interior da Bahia, sem dinheiro - e se fosse hoje, sem direito a cotas -, para cursar Direito numa das mais conceituadas universidades federais do país, e que por quase treze anos morou em duas regiões e três cidades bem diferentes, convivendo com crentes de variados matizes e seus problemas e qualidades. Aos 32 anos de idade, tenho essa experiência aqui relatada, e uma vocação que Deus me fez, um chamado que dos Céus desceu ao meu coração e que ainda queima no meu peito, embora admita que, por intempéries sofridas, a chama esteja amainando com o tempo.
Não sou presbítero, não sou pastor, não sou diácono, e, como certo pastor me disse ao telefone certa vez, há quem pense, como ele, que não tenho autoridade nem experiência com o Espírito Santo por não ter sido batizado com o Espírito Santo. Mas tenho, sim, fé no sacrifício de Cristo, que morreu por mim para perdão de pecados. E é o poder de Deus que me move a escrever certas coisas difíceis, é o poder de Deus que me faz escrever, juntar uma letra à outra e usar os conhecimentos jurídicos e teológicos para estabelecer uma ponte com algumas pessoas.
Lembro que em 2002 ou 2003 eu dava uma aula na congregação assembleiana onde congreguei de 1988 a 1996, quando ouvi um cidadão, namorado de uma moça da igreja, e que não me conhecia, dizer: "Só porque é advogado". Conquanto eu seja míope, ouço muito bem. Ele não sabe que antes de ser advogado eu era um menino pobre, filho de um artesão e de uma professora, que pregava desde 1995. Mas isso não importa. Deus é que importa!
Uso as ferramentas que Deus me deu. Foi Ele Quem me criou, foi Deus Quem me arrancou de onde eu estava para sair e depois voltar com a mente menos obtusa, menos tacanha que antes, quando era um assembleiano radical de 18 anos.
Perto de completar dois anos de blog, são estas as palavras que tenho a registrar. Relembrar minha história é uma forma de incentivar a mim mesmo na minha difícil e desprestigiada carreira de professor de escola dominical e crítico da situação da Igreja brasileira.

Agora foi a vez do Cônsul-Geral do Haiti

Depois de Pat Robertson, ontem foi a vez de o Cônsul-Geral do Haiti no Brasil, Sr. George Samuel Antoine, falar besteira sobre a tragédia em seu país. Em matéria veiculada pelo SBT, vê-se que, sem saber que estava sendo gravado, o Sr. Antoine diz que o que tem ocorrido no Haiti é bom para eles, porque os torna conhecidos. Diz, ainda, que africano é amaldiçoado, e que tudo é resultado da prática da macumba. Segundo a reportagem, ele mesmo tem mais de cem parentes naquele país, e mesmo assim abre a boca para demonstrar seu preconceito racial e religioso em meio a essa catástrofe.
Esse diplomata haitiano está sendo racista porque, ao falar que africano é amaldiçoado, está atacando a etnia negra, que forma a maioria dos habitantes do Haiti, descendentes de escravos. E está sendo preconceituoso com a religião de matriz africana, pois, por mais que discorde do vodu, do candomblé e de outras correntes, como eu discordo, não pode associar uma tragédia natural à prática de uma religião. Isso é no mínimo falta de misericórdia com o seu próprio povo.
Mas, apesar das bobagens faladas por um telepastor norte-americano e por um diplomata haitiano, vale destacar a solidariedade de países, artistas, empresários, militares, médicos, organizações não-governamentais, missionários, enfim, a solidariedade internacional em favor do Haiti. Um país pobre e em construção institucional e material ser vitimado por um terremoto de grandes proporções é coisa para comover qualquer pessoa. Outros países sofrem frequentes terremotos, como o Japão, que tem, em média, três tremores diários. Todavia, os japoneses têm conhecimento, dinheiro e organização para evitar danos pessoais e materiais, e o fazem com sucesso. Na realidade, a maior de todas as tragédias não é de ordem natural. Os mais graves problemas, os que mais chocam, são os que decorrem da ação ou da inação humana, como a miséria, a corrupção e a injustiça social.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Haiti, Pat Robertson, galileus e a Torre de Siloé*

Em 03 de janeiro deste ano escrevi e publiquei aqui neste espaço o texto intitulado "Um discurso que não pode 'passar batido'", a respeito da doutrina kardecista segundo a qual as pessoas sofrem em consequência de atos praticados em outras vidas. No caso em tela, eu tratava da fala do Sr. Divaldo Franco, famoso espírita baiano, que, numa entrevista à Rede Bahia, da Globo, no jornal Bahia Meio-Dia, disse que o menino perfurado com dezenas de agulhas não pode ser considerado vítima, devido à tal lei da reencarnação.
Agora, deparo com um texto do blog "O contorno da sombra", reproduzido no Genizah Virtual, e que traz como título "Pat Robertson diz que Haiti foi amaldiçoado". No Genizah, faz-se remissão ao site "O Galileu", do qual consta o trecho em que o telepastor faz a infeliz declaração.
Só para resumir a lamentável afirmação de Pat Robertson, ele disse que o povo haitiano sofre há tanto tempo por ter feito um pacto com o demônio para conseguir sua independência em 1804, contra o domínio francês. É isso o que esse senhor afirma.
Dessa forma, se para o Kardecismo as pessoas estão individualmente escravizadas debaixo da Lei do Carma, para o dono da Christian Broadcasting Network um povo inteiro padece catástrofes políticas e naturais por causa de um suposto pacto com o Diabo.
Ridícula, inoportuna, inadequada, repugnante e infundada a afirmação do Sr. Robertson. Do alto de sua ignorância histórica e teológica, esse suposto pastor abre a boca para falar do que não sabe, enquanto milhares de pessoas morrem devido a um terremoto de grandes proporções, num país paupérrimo, devastado por furacões, tempestades tropicais, golpes de Estado e injustiça social.
É isso mesmo: enquanto o mundo inteiro se une para socorrer o país assolado pelo pior terremoto de sua história em 200 anos, o Sr. Pat Robertson fala sem peias uma besteira dessa magnitude.
Todavia, é importante assegurar que a estranha teologia desse senhor não tem respaldo nas Escrituras, como não tinham fundamento as aberrações teológicas afirmadas por líderes evangélicos norte-americanos quando do atentado de 11 de setembro e da invasão do Iraque.
Essa teologia de nações amaldiçoadas pelo pecado é perigosa e preconceituosa.
Muitos, aliás, dizem que a África é um continente atrasado por causa do pecado de Cão, não sabendo que, em Gênesis, embora o pecado contra Noé tenha sido cometido por Cão, a maldição recaiu sobre o filho de Cão, chamado Canaã. Esses que dizem coisas dessa natureza ignoram fatores econômicos, políticos e sociais.
Recordo que, assistindo ao filme Mississippi em Chamas, há um trecho em que a esposa de um membro da Ku-Klux-Klan afirma ter sido criada com o ensino de que o racismo tem base em Gn 9.27, o qual afirma: "Engrandeça Deus a Jafé, e habite nas tendas de Sem, e Canaã lhe seja servo".
Para os racistas, Canaã seria o ascendente dos negros, e, por isso, todos os negros deveriam ser alvo de desprezo em nome de Deus. Essa, em sua concepção, seria a justiça de Deus.
Talvez haja um misto de preconceito racial e religioso nas palavras do Sr. Robertson. Não sei. O que ele diz é que tudo no Haiti não passa de efeito de um suposto pacto com o Diabo praticado há mais de 200 anos. Mas há pessoas que certamente associarão esse terremoto e toda a miséria daquele país ao Vodu, como se já não houvesse ali imensas placas tectônicas se chocando a todo instante e provocando falhas geológicas que um dia podem gerar catástrofes como essa que os jornais do mundo noticiam (algo que repercutiu em Cuba e na vizinha República Dominicana).
Lembro, por oportuno, de uma passagem dos Evangelhos contida em Lc 13.1-5. Certa vez, os discípulos comentaram com Jesus acerca da morte de uns galileus, cujo sangue Pilatos misturou aos sacrifícios que os mesmos realizavam. Mas, percebendo a dúvida teológica embutida no comentário, Jesus lhes indagou se por acaso pensavam que aqueles galileus eram mais pecadores por haverem padecido aquelas coisas. Não! Se não se arrependessem, disse Jesus, todos igualmente pereceriam. E emendou outra pergunta acerca dos dezoito homens sobre os quais desabou a Torre de Siloé. Da mesma forma, não eram eles mais culpados - todos precisam arrepender-se.
Pat Robertson deveria ler Lc 13.1-5. Ele precisa também saber a hora de ficar calado.
Por outro lado, discordo da teologia de Ricardo Gondim, que, espantado com cataclismas como tsunamis e outros tormentos variados, pensa que Deus teria abdicado, por um pouco, de Sua Onisciência e Onipotência. Do contrário, evitaria tragédias. Discordo do teólogo. Diante do incompreensível, penso em Dt 29.29.
Se a Torre de Siloé desabou, os dezoito que lá estavam não eram piores do que eu. Se Pilatos foi usado por Satanás para matar uns pobres galileus e cometer o sacrilégio de misturar seu sangue ao sangue de animais sacrificados, esses galileus não são piores do que eu. Todos somos pecadores (Rm 3.23; 6.23).
Diante de tragédias humanas, deveríamos nós pensar apenas no próximo. Como diria Caetano Veloso, "Pense no Haiti/Reze pelo Haiti/O Haiti é aqui. O Haiti não é aqui".
*Depois de escrever esse texto, descobri um excelente artigo no uol, intitulado "Pastor americano atribui terremoto a pacto com o Diabo e provoca protestos; país se libertou da França em 1804". O caminho é http://noticias.uol.com.br/especiais/terremoto-haiti/ultnot/2010/01/14/ult9967u9.jhtm


Mão Santa para Vice-Presidente?

Anteontem, deparei com um vídeo no "site" do uol em que o senador piauiense Mão Santa (PSC), entrevistado por uma TV do seu Estado, falava de sua mais nova pretensão: candidatar-se a Vice-Presidente na chapa de José Serra (PSDB-SP).
Mão Santa dizia que a ideia fora cogitada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso num jantar informal. Falando das possibilidades para vice de Serra, FHC teria comentado sobre um candidato a vice nordestino, região em que os tucanos têm pouca penetração. Esse candidato não deveria ser baiano para não incomodar os pernambucanos, nem pernambucano para não incomodar os baianos. Assim, teria citado o Mão Santa, por sua popularidade e capacidade de falar com o povo.
Mão Santa - cujo nome é Francisco de Assis Moraes Souza - foi prefeito, deputado e governador do Piauí de 1995 a 2001, tendo sido cassado pelo Tribunal Superior Eleitoral por abuso do poder econômico. Em 2002, foi eleito senador da República, e desde 2003 já fez mais de 1000 discursos da tribuna do Senado, muitos deles na segunda e na sexta, quando não há uma alma viva naquele lugar, senão ele, para ser gravado pela TV Senado e pela Rádio Senado.
Com suas múltiplas aparições, Mão Santa ficou conhecido de muitos espectadores pelo Brasil afora. Não tem peso político como um José Sarney ou um Renan Calheiros, nem oratória elegante como um Arthur Virgílio; tampouco desfruta do conhecimento de um Aloizio Mercadante ou de uma Marina Silva. Mas, com seus apartes e discursos extensos e engraçados, com sua verborragia pretensamente erudita, chama a atenção do populacho.
Não gosto do estilo de oratória do senador Mão Santa. Suas frequentes citações de Sêneca e Rui Barbosa não tornam o seu discurso bonito nem eficiente. Parecem palavras ao vento, que nem se dão ao trabalho de uma dicção adequada. Gosto apenas de sua coragem de falar contra o petismo, e de sua firmeza em criticar o "Luiz Inácio", como ele chama o presidente. Mas isso é pouco, muito pouco para um estadista.
O senador Mão Santa gaba-se de ser inteligente, cirurgião bem-sucedido por cujo serviço ganhou o apelido que hoje ostenta como político. Acha-se muito bom, o melhor, um grande político. Não vê concorrente para seu desejo de ser candidato a vice. Já se enxerga no Palácio do Jaburu.
Não vejo assim. Tudo bem que ele seja inteligente, mas esse negócio de ser inteligente não diz nada. Muitas pessoas fariam mais que ele se tivessem condições de estudar.
Nascido baiano, toda a minha família é piauiense de Alto Longá, meus pais são primos, têm o Esteves em comum. Desde pequeno, ouço coisas como "Fulano é inteligente", "Fulano não é inteligente, mas é esforçado". Ficou em minha mente a ideia de que os piauienses dão muito valor à inteligência. Não sei, mas me veio essa lembrança quando vi o Mão Santa se gabando dessa qualidade. Todavia, com inteligência ou sem ela, não dá para sustentar uma candidatura tamanha sem outros adjetivos.
Tenho receio de políticos que se arvoram qualificados como "o mais inteligente", "o mais culto", "o mais preparado". Seria como cultuar a personalidade do déspota esclarecido. Num debate eleitoral em 2002, Lula dissera ser a única solução para o país em determinado assunto. Serra, esperto, corrigiu o adversário: não se enxergava como a única solução, mas como "a melhor".
Vejam bem: não tenho nada contra o conterrâneo de meus pais, avós, bisavós etc. Mão Santa parece boa gente, mas para uma conversa à beira do rio Poti. Para ser candidato a Vice-Presidente da República, bem que com sua inteligência e cultura poderia antever os ataques que sofreria. E quanto prejudicaria o candidato Serra...
Ei! Espere aí...Talvez eu tenha subestimado a capacidade do Mão Santa! Quem sabe o que ele quer não é prejudicar o tucano? Eita homem sabido...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

"Pense no Haiti"*

Como editor de blog, me vejo frequentemente atraído a escrever e publicar textos sobre os mais importantes fatos noticiados pela imprensa. Nem sempre consumo a ideia, pois não tenho ferramentas suficientes para tratar de determinados assuntos, e procuro não ser tão amador. Todavia, desta vez eu quero deixar uma palavra sobre o terremoto de 7 graus na escala Richter que abateu o Haiti no dia de ontem.
O Haiti é o país mais pobre das Américas, com uma história marcada por golpes, rebeliões, repressão política e miséria. Não bastasse, teve recentes furacões em 2008, e agora esse terremoto absurdo, o maior em 200 anos naquele país.
Trata-se de um país que foi colônia da França até 1804. Creio que a França tem sua participação no que o Haiti se transformou. Retiraram muito açúcar daquele pedaço oeste da ilha que abriga, além do Haiti, a República Dominicana, com o esforço de um enorme contingente de escravos africanos, dos quais descende a maioria da população. E qual a recompensa, qual a semente plantada? 
O Haiti aparece na música de mesmo nome dos meus conterrâneos Caetano Veloso e Gilberto Gil - mas na letra se fala do Brasil, citando expressamente coisas aqui de Salvador, como a Fundação Casa de Jorge Amado e o Pelourinho. Pensando no Brasil pobre, eles pensam no Haiti. O Brasil tem muitos haitis.
Foi a partir da luta contra os haitis brasileiros que surgiu a médica pediatra Zilda Arns, fundadora e coordenadora da Pastoral da Criança, órgão da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, além de fundadora e coordenadora da Pastoral da Pessoa Idosa. Essa ilustre senhora foi indicada ao Prêmio Nobel da Paz por seus serviços à causa humanitária. Com o seu trabalho de coordenação das Pastorais católicas espalhadas pelo nosso país, mudou positivamente a vida de milhões de crianças. E continuará mudando, inspirando-nos no seu bom exemplo.
Dona Zilda Arns morreu no Haiti devido à sua missão. Ali estava para dar uma palestra e incentivar as pessoas que atuam na ajuda a crianças. Era, sem nenhuma dúvida, uma brasileira de grande valor.
Seja a Dona Zilda Arns motivo de orgulho para nós brasileiros. E que nós evangélicos possamos deixar coisas secundárias de lado, a fim de cumprir nossa missão, que é anunciar a Salvação, não apenas do Haiti ou do Brasi, mas de toda a Humanidade. A Salvação em Cristo, que é espiritual, sim, mas com efeitos totais na vida humana.
Sei que a ação social das igrejas evangélicas é muito, mas muito importante. Sei que ela existe. Por outro lado, politicagens e teologias de ganância insistem em dizer que a Igreja deve ter adjetivos diversos da pureza, bondade e amor. Que possamos entender, urgentemente, que o Evangelho é para o serviço, não para o poder.
Pensemos no Haiti.
*A letra da canção Haiti é de Caetano Veloso, e a música, dele e de Gilberto Gil. Vale a pena ler o texto "Pense no Haiti, reze pelo Haiti", do professor Pasquale Cipro Neto, publicado na Folha de São Paulo de 14 de janeiro de 2010. Nele, o conhecido professor de Português comenta o caráter como que profético da letra de Caetano, que compara a situação do Haiti com a do Brasil, além de explicar dois aspectos linguísticos do poema.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

O diabo não é burro

Pensar que o diabo é burro é uma das coisas que ele quer que façamos. Enquanto subestimamos sua capacidade intelectual, o inimigo de nossas almas prepara ciladas, na forma de tentações descaradas ou insinuações muito sutis.
Uma das armas insidiosas de Satanás é introduzir nas igrejas o elemento do falso sagrado: em lugar da profecia, a "profetada"; em lugar das línguas como dom espiritual, as línguas de origem duvidosa; em lugar do pastor de ovelhas, o lobo em pele de cordeiro; em lugar da música em louvor a Deus, a música para incitação da carne; em lugar da sabedoria espiritual, as palavras persuasivas de sabedoria humana; em lugar da igreja, a instituição burocrática, centralizadora e manipuladora de mentes; em lugar do serviço, o carreirismo em troca de cargos, poder, visibilidade.
A antiga serpente continua todos os dias a falar suavemente com mulheres e homens que andam pelo jardim. Ela oferece o fruto proibido da ética emancipada de Deus, que é relativista, individualista, subjetivista e antropocêntrica. Igrejas inteiras estão sendo contaminadas com a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Pregadores assembleianos e eu

Mudando de canal, vou percebendo a multiplicação de pregadores teatrais, sensacionalistas, triunfalistas e de autoajuda na televisão brasileira. São eles uma mistura bizarra de palestrantes motivacionais, advogados de júri e comediantes de stand up. Muitos deles são da minha igreja Assembleia de Deus. Muitos deles aparecem no periódico encontro dos tais Gideões Missionários, em Balneário Camboriú/SC.
Sei que a Convenção Geral das Assembleias de Deus não aprova as heresias defendidas por muitos pregadores que correm o país em festas e congressos. Sei que não aprova as besteiras faladas e realizadas em supostas "vigílias de oração" e no tal encontro de Gideões Missionários. Sei que também não avaliza a "unção dos R$ 900,00", de Silas Malafaia e Morris Cerullo - a sã doutrina vem ensinada em nossas revistas de Escola Dominical, publicadas pela Casa Publicadora das Assembleias de Deus (CPAD), uma das melhores editoras evangélicas do Brasil. Todavia, as besteiras dão ibope, e por isso não são rechaçadas como deveriam.
Silas Malafaia é hoje o vice-presidente da Convenção nacional assembleiana. Logo ele, uma pessoa que passou das doutrinas bíblicas para a defesa desenfreada da Teologia da Prosperidade. Fico pensando o que teria feito o Sr. Silas Malafaia mudar de ideia assim. Ele, que combatia veementemente o G12, a Teologia da Prosperidade, as heresias e modismos...
Se fôssemos uma igreja doutrinariamente séria como as igrejas batistas e presbiterianas históricas, haveria um controle maior do que se fala ao púlpito, e maior preocupação com a Escola Dominical - que na maioria das vezes parece uma feira livre, com todos os professores falando ao mesmo tempo, na mesma sala (se alguém achar que não, vá a uma Assembleia de Deus no domingo de manhã e verifique o que digo - algo que sinaliza a importância que damos ao estudo sistemático e congregacional da Palavra de Deus).
É ridículo e em tudo errado aceitar que pessoas descompromissadas com a Bíblia andem falando o que vier às suas mentes, só porque entrecortam seu discurso com frases em línguas estranhas, e porque têm boa performance no palco - seja essa "boa performance" o que for.
Tenho vergonha ao ver certos indivíduos se exibindo na TV como supostos pregadores do Evangelho, pois erram na forma e no conteúdo. Gritam, esbravejam, pulam, fazem promessas que não podem cumprir, usam o Nome de Deus em vão, brincam com coisas sérias. Nessas horas, penso em como poderia eu explicar a meus colegas de trabalho porque eu e esses cidadãos pertencemos à mesma denominação. Não que eu seja melhor nem pior - mas diferente. Penso diferente.
Ainda não deixei a Assembleia de Deus por alguma teimosia, talvez. Não tenho receio em dizer isso. É necessário perder certas restrições ao tratar de assuntos como o futuro da nossa denominação. Ficar dizendo que toda igreja tem problemas é uma saída débil e debilitante. Sim, problemas pontuais eu suporto. Agora, problemas estruturais e de fundo precisam ser enfrentados com coragem, de verdade.
Minhas forças vão se esmorecendo aos poucos. Clamo neste blog como que num deserto. E, como não sou um Jeremias, um João Batista nem um Elias, meu coração estremece, minhas pernas cambaleiam, meus braços se cruzam de tristeza ao ver a obra dos pioneiros suecos desfalecer em meio à turba irracional e carente, conduzida por líderes oportunistas, acovardados ou gananciosos.
Fingir que não existo, que não nasci e fui batizado numa Assembleia de Deus? Fingir que minha formação religiosa não é pentecostal? Fingir que fui eu que saí do caminho e que minha igreja continua no caminho certo? Fingir que minha biografia não é diferente da biografia da média dos jovens assembleianos? Fingir, então, que não sou um assembleiano "peixe fora d'água"?
Qual será a minha missão? Com certeza não é prometer vitória aos berros. Não contem comigo para isso.


Mais sobre o caso Boris Casoy

Voltando ao tema da "gafe" cometida pelo jornalista Boris Casoy no derradeiro dia do ano de 2009 (escrevi sobre isso em outra postagem), não comentei ainda o seu pedido de desculpas, além de ser necessário tecer algum comentário sobre alguns desdobramentos do fato.
No dia seguinte à triste afirmação, Boris Casoy pediu desculpas aos garis e aos telespectadores da Band, o que fez por meio de uma frase pequena e seca. O tamanho da "bobagem" que ele falou - para usar um adjetivo usado por ele mesmo - requeria uma emenda melhor. Pedido de desculpas não resolve a questão, pois o que fica é que o jornalista pensa mal dos varredores de rua. Seria preciso um texto maior, mais apurado, em que o jornalista iria se explicar e contradizer peremptoriamente a declaração precedente.
Entretanto, muito pior do que as palavras de Casoy foi o texto de Bárbara Gancia, sua colega de Band News FM, no texto intitulado "Sirvam a cabeça do Boris com batatas", publicado na Folha de São Paulo de 08 de janeiro. Essa senhora comete em seu artigo vários erros deliberados, refletidos, sem poder se ancorar no vazamento de áudio: a) diz que os garis são mesmo o posto mais baixo da escala do trabalho, sob o argumento de que médicos não fariam esse serviço; b) alega, com generalização descabida, que a reação à gafe de seu colega vem da esquerda contrária ao conservadorismo de Boris Casoy; c) acusa a todos de hipocrisia por supostamente terem idênticos pensamentos em relação aos garis, apoiando-se, mas sem relação direta, na pesquisa de Fernando Braga da Costa segundo a qual os lixeiros são como que invisíveis aos olhos da sociedade; d) declara que é motivo de riso garis darem felicitações de ano novo; e) usa a biografia do jornalista como escudo contra as críticas.
Sim, essas coisas estão escritas, não foi um problema técnico, uma falha do jornal, como no caso de Boris Casoy.
Dona Barbara Gancia cometeu erro mais grave que o de Boris Casoy, pois, enquanto este manifestou seu preconceito de forma impensada, mas natural, ela deliberadamente colocou no papel as coisas preconceituosas que pensa. Em suma, essa jornalista acredita que as pessoas sejam divididas em escalas hierarquizadas, e que assim deve ser por causa do mérito de uns, estes habilitados a desejar boas coisas aos outros por estarem bem posicionados socialmente. É como se a vida valesse pela posição nessa escala socioeconômica: se está na parte inferior, como desejar o melhor para quem está acima?
Todavia, repenso minha posição anterior quanto à necessidade de demissão do jornalista. Entendo, agora, com maior reflexão, que caberá aos telespectadores avaliar a credibilidade do âncora. Nesse caso, sua biografia de bons serviços jornalísticos não pode mesmo ser descartada - mas veja: não para diminuir sua responsabilidade no episódio, e, sim, para evitar uma punição tão severa.
Por outro lado, discordo totalmente de críticas que adentram a áreas outras como a sexualidade ou a etnia do jornalista. Se Boris Casoy é judeu, deve ser respeitado como judeu, e, mais do que isso, como pessoa humana. E se ele tem essa ou aquela orientação sexual, isso nada tem que ver com a "bobagem" que ele proferiu quanto aos garis. Misturar essas coisas é duplamente errado, e torna mais preconceituosos os que o acusam.




sábado, 9 de janeiro de 2010

Atribuições não-privativas do pastor

O atilado comentário do amigo João Armando ao meu texto "Um exemplo de misticismo em nosso meio" me fez pensar em algumas passagens de minha vida, que aproveitarei para tecer considerações sobre o trabalho de pessoas não ordenadas.
Antes, porém, preciso ressaltar que o amigo João Armando menciona em seu comentário o fato de haver hoje igrejas que, embora reconheçam o sacerdócio universal dos crentes, separam alguns ofícios exclusivamente a pessoas especialmente ordenadas, quando estas deveriam se ater às funções básicas de supervisão e ensino.
De fato, de modo geral, ressalvadas as distinções entre as organizações eclesiásticas, ordenam-se pastores (e às vezes presbíteros, "evangelistas", bispos) para os ofícios de celebrar Ceia, batizar, fazer casamentos e dirigir cultos fúnebres. A rigor, só os "ministros da Palavra" podem realizar esses atos.
Confesso que essa questão não tem tomado meus pensamentos, conquanto eu seja bastante preocupado com certos problemas de teologia pastoral (poimênica) e hiperetologia (teologia do serviço, do ministério eclesiástico). Todavia, as palavras de João Armando me fizeram pensar no quanto esse tema é profundo.
Com efeito, não há nas Sagradas Escrituras nenhuma determinação de atribuições pastorais ou episcopais que vão além do ensino e da supervisão. O bispo ou pastor precisa estar apto para o ensino, precisa cuidar das ovelhas. Não há nada ali que determine aos pastores e assemelhados a exclusividade do ofício da Ceia e do batismo nas águas - as únicas ordenanças bíblicas. A Ceia do SENHOR era uma festa (ágape), com um sentido de fraternidade, memória da morte de Cristo e anúncio de Sua Vinda (esses quesitos são recordados por Paulo em I Co 11.23-34).
Além disso, não há determinação para que pastores celebrem casamentos. Isso é talvez resquício do romanismo, em que há sete sacramentos, sendo um deles o matrimônio, oficiado pelo padre - sem o qual o casamento não serve. Nem por isso deixaremos de casar na igreja, mas é importante distinguirmos os mandamentos bíblicos das tradições humanas.
Semelhantemente, os ofícios fúnebres sequer são mencionados na Bíblia.
Em que pese ao meu entendimento de que cerimônias de casamento e funerais sejam tradições humanas, penso que no caso do batismo e da Ceia a questão deva ser aprofundada, já que se trata, aí sim, de ordenanças. Bem por isso, em última análise, deveriam ser abertos a pessoas não ordenadas, já que Filipe, um diácono com dom de evangelista, batizou um eunuco (At 8.26-40; ver também Ef 4.11), e  as Ceias, enquanto celebrações festivas, eram realizadas coletivamente, sem essa formalidade clerical que temos. Na realidade, a ordem para que esperemos uns pelos outros reflete essa espontaneidade do ato.
Se por um lado é necessária alguma organização, alguma institucionalização, isso não deve burocratizar a igreja, criando coisas como "para evangelizar no domingo à tarde, fale com o setor de evangelismo". Impessoalidade não combina com o Evangelho, algo essencialmente pessoal.
Nessa esteira, discordo, com todo o respeito, daquele costume de dividir crentes em leigos e minitros do Evangelho. A palavra "leigos" denota um sentido de "não-qualificado para as coisas sagradas", e me parece também um fruto do romanismo. Se tudo em Deus é santo, por que laicato e sacerdócio? Todos os crentes em Cristo são sacerdotes d'Ele (I Pe 2.9).
Mas o nosso ritualismo e formalismo institucional não é imbatível. Sei de pelo menos um caso em que uma igreja muito preocupada com essas coisas permitiu que sua missionária inserida em campo distante celebrasse um ato exclusivo a homens - porque ali somente homens podiam ser pastores (esse é outro tema, sobre o qual me reservo o direito de tratar em ocasião diversa).
Eu mesmo passei por situações curiosas. Em 2002, meu pastor, em Sete Lagoas-MG, me pediu, por telefone, para dar posse a um cooperador que iria ser o suplente do dirigente numa pequena congregação na cidade. O detalhe é que eu não era, como ainda não sou, ordenado a nenhum ofício eclesiástico. Portanto, estava como que transferindo um poder que não tinha.
Mais à frente, ainda em Sete Lagoas-MG, no ano de 2006, numa congregação em que eu dava estudos frequentes, o presbítero dirigente me pediu, de improviso, para celebrar a Ceia (!). Não só ele poderia realizar o ato como tenho certeza de que atrás de mim havia pelo menos mais um presbítero como o dirigente. E a Ceia foi celebrada por mim.



quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Teologias políticas brasileiras

Do ano passado para cá, alguns políticos brasileiros lançaram mão de "teologias" heterodoxas ou que, ao menos, chamaram a atenção da opinião pública.
O presidente Lula, mais familiarizado às metáforas futebolísticas, justificou sua aliança com o PMDB afirmando que se Jesus Cristo estivesse aqui, certamente faria aliança com Judas. Assim, para o presidente petista, o PMDB é como Judas Iscariotes - um traidor, uma persona non grata.
O Mensalão do DEM do Distrito Federal revelou "teólogos" esquisitos. Os deputados distritais "evangélicos" Rubens César Brunelli e Leonando Prudente, este Presidente da Câmara Distrital, fizeram, junto com o ex-Secretário de Relações Institucionais Durval Barbosa, a oração que ficou conhecida como "oração da propina", comentada aqui neste blog, e que vale a pena transcrever mais uma vez:
“Pai, eu quero te agradecer por estarmos aqui. Sabemos que nós somos falhos, somos imperfeitos” (...) “Precisamos dessa tua cobertura, dessa tua graça, da tua sabedoria, de pessoas que tenham, senhor, armas para nos ajudar nessa guerra e, acima de tudo, todas as armas podem ser falhas, todos os planejamentos podem falhar, mas o senhor nunca falha”.
Já comentei o absurdo dessa suposta conversa com Deus. Comentei também a fala da deputada peemedebista, flagrada colocando dinheiro na bolsa, no mesmo escândalo mensaleiro de Brasília. Em sua defesa, citou o Salmo 37.5.
Agora, vem o governador do DF, José Roberto Arruda (sem partido, ex-DEM), pedir perdão pelos seus pecados e dizer que perdoa os que o insultam para que possa ser perdoado da mesma forma. Parece até conhecer a oração-modelo, em que Jesus ensina que o perdão do Pai está condicionado ao perdão ao próximo.
Temos, aqui, citações e reflexões de uma teologia forjada entre políticos brasileiros: a teologia pragmática de Lula, para quem é possível unir Jesus a Judas, se a relação custo-benefício for positiva; a teologia da oração segundo a qual uma conversa com Deus cobre, com Sua graça, todos os nossos planos; a teologia do saque da Palavra de Deus em defesa própria; e, finalmente, a teologia de que o perdão pode ser conseguido sem confissão de pecados.
Judas, oração, citação bíblica, perdão. Como nossos políticos estão ligados à religiosidade! Como a religião é procurada, paradoxalmente, para incrementar discursos estranhos! E, meu Deus! Como certos líderes religiosos se parecem com os políticos brasileiros!


Quem nunca passou por uma crise não é apto para o Reino de Deus

Muita gente pensa que Jesus é aquele rapaz bonzinho que passa a mão pela cabeça de pecadores não arrependidos em nome de uma graça qualquer, que os teólogos chamam de "graça barata". Mas Jesus proferiu algumas palavras muito duras, como a seguinte: "quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus (Lc 9.62)" e "quem não receber o reino de Deus como uma criança de maneira nenhuma entrará nele" (Mc 10.15).
Isso mesmo: há condições para tomar posse da Vida Eterna, e todas essas condições só podem ser implementadas com a intercessão de Cristo, Único Mediador entre Deus e os homens (I Tm 2.5; cf. Jo 14.6).
Gostaria, pois, de pedir permissão ao (à) leitor (a) para fazer uma paráfrase das palavras de Jesus e dizer que aquele que não passar por uma crise não é apto para o Reino de Deus.
Digo isso porque a regeneração (justificação, redenção) é uma crise, na medida em que conduz a uma transformação radical do ser. Entendo o nascer de novo como nada menos do que o que a própria expressão indica: a pessoa morre para dar lugar a uma nova criatura, uma nova pessoa (II Co 5.17). É uma ação espiritual, não apenas uma mudança de comportamento que se dá na esfera moral. Espírito e alma se transformam pela ação do Espírito Santo. Menos que isso é pura religiosidade sem vida, audiência da Palavra sem vivência da Palavra.
Morrer e ressuscitar, ser sepultado (no batismo) e nascer de novo, passar por uma metanoia (mudança da mente, em grego) - essas figuras ilustrativas da Salvação individual deveriam estar bem marcadas em nossos corações, porque constituem o fundamento da Fé Cristã. E todas elas implicam numa crise, uma mudança de rumo e de prumo. Nada há mais radical que isso.
Penso nos cristãos que eventualmente não viveram essa crise e questiono qual terá sido a sua experiência de conversão a Deus. Não julgo as motivações do coração humano, porque isso não me é dado fazer. Mas penso em tese, pois sei que há milhares, talvez milhões de cristãos nominais, que professam as bases de Fé mas não passaram pela experiência do nascer de novo, nunca tiveram uma crise.
Ou será que despojar-se do "velho homem" e se revestir do "novo homem" (Cl 3.9,10) não configura uma crise e tanto? Dir-me-á, porventura, alguém que ser regenerado é a coisa mais simples do mundo? Deixar as trevas espirituais e passar a enxergar com a luz de Deus (Sl 119.105; Cl 1.13) é, por acaso, algo banal e sem marcas?
É certo que alguns sofrerão maiores crises que outros. Os mais simples sofrerão menos. Aqueles que tiverem maior conhecimento e experiências terão, quem sabe, sucessivas crises, com algum intervalo de alento, porque ninguém pode sofrer tantas tempestades ininterruptas. Mas todos os nascidos de novo terão ao menos uma crise em todo o curso de sua existência. É necessário que a crise apareça.
Ó, cristãos sem crise, cristãos "certinhos", cristãos amadurecidos antes do tempo! Como ousam disparar contra os "fracos" em crise o seu ódio hipócrita? Deixemos que cada um, em seu timing, passe pelo que tiver que passar. Apenas os ajudemos em suas fraquezas, como nós temos as nossas. Afinal, Igreja é para socorrer os cansados ou receber em sua membresia somente os homens de boa índole, qualificados, como fazem certos grupos de ritual secreto?





Série vocacionados (VI) - Jonas

Em nossa série sobre vocacionados na Bíblia, já vimos um resumo das histórias de Davi, Moisés, Samuel, Amós e Timóteo - esta é a ordem de inserção dos textos. Agora, vamos tratar de um personagem bastante curioso, que atravessou os séculos como um missionário desobediente. Seu nome é Jonas.
Proveniente da Galileia, da cidade de Gate-Hefer, Jonas, filho de Amitai, era um reconhecido profeta de Deus, que profetizou a ampliação territorial de Israel no reinado de Jeroboão II, o que efetivamente veio a ocorrer (II Rs 14.25). Isso contraria o preconceito dos sacerdotes e fariseus contemporâneos de Jesus, para quem "da Galileia não se levanta profeta" (Jo 7.52). O nome de Jonas significa "pombo".
Esse profeta, certa vez, foi comissionado diretamente por Deus para levar à grande cidade de Nínive uma palavra de juízo. Sabedor de que o Deus de Israel é misericordioso e bonsodo, Jonas não quis ir, pois sabia que, em havendo arrependimento, Deus perdoaria toda a cidade. Ora, mas que profeta curioso! Não querer anunciar uma palavra de condenação com medo de que pecadores se arrependam...Foi isso mesmo.
Ocorre que Nínive era a capital da Assíria, cujo povo era terrível para com os seus inimigos. Tinham eles a fama de ir além do que se espera de um invasor. Veja bem: até a guerra tem seus costumes, suas leis. Enquanto outros povos dominavam e escravizavam seus adversários, os assírios dominavam, escravizavam, torturavam e matavam de forma cruel. Li no Novo Comentário da Bíblia, tratando do Livro de Jonas, que eles tinham o costume de colocar muitos homens amontoados, com as extremidades cortadas (nariz, mãos e pés), para que morressem aos poucos, uns cheirando a podridão das carnes dos outros. Isso, sem dúvida, era um exagero, um ato desnecessário mesmo em tempos de guerra. Por isso, os assírios eram odiados. Por isso, Jonas não queria sequer lhes dar uma palavra de juízo, já que o bondoso Deus os poderia perdoar.
Desobedecendo à ordem divina, Jonas tomou uma embarcação para a cidade de Társis, mas Deus o queria em Nínive. Uma tempestade mandada por Deus assanhou as águas do mar e fez com que o barco quase naufragasse. Quando, porém, foi consultado pelos homens sobre o que poderia ter causado aquela crise, Jonas não hesitou: ordenou que o lançassem ao mar, pois a culpa era toda sua. Depois de algum esforço dos homens para controlar a embarcação, Jonas foi lançado ao mar, e este se aquietou.
Além da tempestade enviada por Deus, eis que surge um grande peixe, que, pelas minhas pesquisas mais antigas, pode ter sido um cachalote (no Séc. XIX um homem foi encontrado vivo no ventre de um peixe desses). O fato é que, tendo permanecido por três dias e três noites no seio do grande peixe, Jonas se conscientizou de que pecara contra Deus. E foi despejado na praia...de Nínive.
Com a proclamação de Jonas, o povo se arrependeu, houve um verdadeiro avivamento em toda a cidade, que chegou ao próprio rei.
Mas, qual a reação do profeta? Paradoxalmente, ficou triste, deprimido, a ponto de pedir a morte. É o único caso registrado de pregador que lamenta a eficácia de sua pregação. Só que Deus tem uma lição para o Seu profeta: fez nascer uma planta que lhe serviu de sombra, mas que depois foi destruída pela ação de um verme. Ao amanhecer, o sol bateu na cabeça de Jonas, agora desprovido daquela plantinha providencial. Irado, Jonas pediu a morte mais uma vez, num exagero que assusta. Que figura esse Jonas! Mas Deus encerra com uma palavra esclarecedora: se Jonas tem compaixão de uma simples plantinha que nasce e logo perece, não teria Ele compaixão da grande cidade de Nínive, com mais de 120 mil habitantes "que não sabem discernir entre a mão direita e a mão esquerda" (4.11)?
Aqui cabem algumas considerações: a) estamos tratando de um galileu do Séc. IX a.C., que, no entanto, já sabia que a Salvação não se limita a Israel; b) a atitude de Jonas pode ser caracterizada como um gesto de desobediência, mas ele não pode ser rotulado só por conta desse momento, que continha circunstâncias extremas; c) Jonas não pode ser acusado de covardia, falta de fé ou desconhecimento da Lei do SENHOR. Ele tinha, sim, tanto conhecimento da misericórdia de Deus que, sendo ele não tão compassivo quanto o próprio Deus, não queria que os assírios tivessem contato com a palavra que os poderia salvar; d) é certo, porém, que ele não tinha um conhecimento adequado de Deus, pois julgou possível fugir de Sua presença e afastar a execução de Seus desígnios, como se não fossem os melhores.
Assim acontece com muitos dos vocacionados. Conhecem a Deus, são seus mensageiros, manejam as Escrituras, mas, em dado momento, usam suas próprias razões, caminham por veredas independentes, acham que podem ser mais justos que o SENHOR. Da maneira como está escrito o Livro de Jonas, com todas as coisas no lugar, fica fácil descrever o que houve e até ridicularizar e criticar o controvertido profeta. Todavia, muito mais coerente e proveitoso é fazermos um autoexame a partir do que aconteceu com esse homem, tão distante de nós no tempo, mas tão próximo nas fraquezas e limitações pessoais.
Não raro, escolhemos deliberadamente o caminho errado, tomamos o barco da fuga, e sabemos exatamente o que estamos fazendo. Mas o misericordioso Deus manda uma tempestade, quem sabe um grande peixe, nos coloca de novo no caminho bom, e nos ensina a cumprir Sua vontade. Sem nenhuma dúvida, atender ao chamado de Deus é um aprendizado. Para uns, haverá mesmo na carreira peixes enormes e mares conturbados. Mas, nos capítulos seguintes, ver-se-á que monstros e confusões às vezes servem de meio de transporte para um porto seguro.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Os herois morreram de overdose e continuam morrendo

Músicas populares podem servir de material para aferirmos o que se passa com nossos jovens.
Uma das canções do Legião Urbana (Há tempos) diz: "E há tempos são os jovens que adoecem".
Outra canção, do Cazuza, intitulada Ideologia, diz "Meus heróis morreram de overdose/Meus inimigos estão no poder". E mais: "O meu prazer, agora é risco de vida/Meu sex and drugs, não tem nenhum rock'n'roll/Eu vou pagar a conta do analista/Pra nunca mais ter que saber quem sou eu/Ah, saber quem eu sou".
Tanto Renato Russo como Cazuza, compositores dessas canções de rock, morreram prematuramente em decorrência da AIDS, enfermidade que nos anos 80 surgiu associada, mas não de forma exclusiva, ao homossexualismo. E também usaram drogas ilícitas, o que Renato Russo expressou numa de suas letras: "Minha papoula da Índia, minha flor da Tailândia/És o que tenho de suave/E me fazes tão mal" (A montanha mágica).
Muitos e muitos astros do rock sucumbiram à AIDS ou às drogas. O genial e irreverente Freddie Mercury definhou aos poucos, por causa da AIDS. Mortes prematuras também são comuns entre atores e atrizes nacionais e internacionais.
Temos acompanhado notícias sobre a morte de jovens celebridades: o ator Heath Ledger, que, morto aos 28 anos devido ao uso de certos remédios, não viu o sucesso de sua performance numa das sequências do Batman. A atriz Brittany Murphy, morta aos 32 anos em sua casa, aparentemente de causas naturais, mas que levava vida difícil em Hollywood, segundo seu irmão, que não se encontrava com ela havia oito anos. Agora, a "socialite" Casey Johnson, herdeira da Johnson & Johnson, morta não se sabe ainda por quê, mas que fazia uso de medicamentos e drogas.
Há, ainda, o caso do não tão jovem, mas não tão velho, Michael Jackson, que era dependente de remédios e morreu aos 50 anos de idade, enquanto se preparava para uma nova empreitada em sua fantástica e tumultuada carreira.
Parafraseando a letra de Cazuza, os herois dos jovens têm morrido de overdose. São eles os formadores de opinião, as referências morais, os "profetas" de seu tempo. Adolescentes colocam pôsters em seus aposentos para mirar, à noite, os rostos de seus "ídolos", como de fato são. E tomam suas vidas como modelo de comportamento.
Nossos jovens precisam de novos modelos, novas ideias. Não vou dizer que eles tenham que colocar um terno e uma Bíblia debaixo do braço e sair pelas ruas cantando o hino nº 15 da Harpa Cristã. Não é isso! Eles precisam se identificar com modelos realmente bíblicos, que sejam profundos e que transmitam uma mensagem cristalina de transformação da mente e das relações sociais. Enfim, é dever dos seguidores de Cristo levar adiante uma palavra transformadora, recriadora, revolucionária, porque, cá para nós, os "ídolos" que o mundo oferece não se mostraram aptos. Ainda creio piamente no velho bordão: "Só Jesus salva".

domingo, 3 de janeiro de 2010

Um exemplo de misticismo em nosso meio

O apóstolo Paulo recomenda o levantar mãos santas no culto público (I Tm 2.8). Trata-se de um gesto de adoração, nada mais que isso. É como um símbolo, que não guarda em si nenhum valor se não estiver ligado ao significado da adoração. Mas nem todos entendem assim...
Digo isso porque tenho visto que, no momento da chamada "bênção apostólica", ao final dos cultos, os irmãos estendem suas mãos como que para receber alguma coisa, pondo-as com as palmas para cima e os dedos levemente encurvados, formando uma concha. Parece que, em sua concepção, a bênção proferida pelo líder (pastor etc.) irá recair ali em suas mãos, porque dispostas receptivamente.
Pode parecer radicalismo meu, mas não é. E se o (a) leitor (a) achar que sou radical, peço vênia, então, para continuar com esse ponto de vista. Entendo que toda espécie de misticismo deve ser afastada de nossa seara.
Afinal, por que relaciono o gesto acima referido com o misticismo? Faço isto porque o misticismo, grosso modo, pode ser definido como todo tipo de crença segundo a qual o Ser Humano se coloca em contato direto com a Divindade por meio de rituais, contemplação ou gestos, sem a necessidade de um mediador. Com isso, no caso em tela, seria místico o gesto de colocar as mãos em forma de concha para "receber a bênção".
A bênção, na verdade, é dada por Deus em Cristo. Toda forma de bênção, como as espirituais, vêm de Deus em Cristo (Ef 1.3; Tg 1.17). Nada há que eu possa fazer com o meu corpo para ser abençoado, nem com a minha alma ou o meu espírito. É Deus quem abençoa, e pronto. Ele é Soberano, Providente e Previdente, Doador da Vida, Gracioso, Misericordioso e Benigno. Justo, Verdadeiro e Galardoador dos que O buscam. Toda bondade e toda benignidade pertencem a Deus e nada poderemos fazer para sustentar nossas reivindicações ou amparar nossas queixas contra Deus, ou, ainda, para recompensar Suas dádivas.
Bem por isso, é vão e simplório o gesto de levantar as mãos em forma de concha para receber bênçãos colocadas supostamente por anjos ou, quiçá, pelo próprio SENHOR. Por mais que isso seja aparentemente pequeno dentre tantas coisas que se infiltram no código de fé das igrejas, é bom separarmos a Fé Comum, dada a todos os santos, da fé popular disseminada não raro por líderes sem preparo ou sem cuidado.
Deus nos ajude.

Um discurso que não pode "passar batido"

Outro dia, na esteira das notícias sobre o menino baiano que teve cerca de 30 agulhas introduzidas em seu corpo por seu padrasto, vi trechos de uma entrevista com o famoso espírita Divaldo Franco, no programa Bahia Meio-Dia, da Rede Bahia (Globo). Logo imaginei o que aconteceria...
Ao ser perguntado sobre o que poderia ter causado aquele episódio sinistro, o suposto médium disparou: "Ninguém é vítima", e afirmou sem peias que, seguramente, em outra vida, aquele menino devia ter feito algo muito ruim - isso foi dito por ele em outras palavras, mas foi isso mesmo.
Ora, sei que deve haver um expressivo número de espíritas e simpatizantes do Espiritismo aqui no meu Estado. Todavia, com todo o respeito às crenças de quem quer que seja, tenho convicção de que aquele menino nada tem que ver com o crime bárbaro que seu padrasto confessou ter cometido. A medida da responsabilidade penal eu não posso aferir: se o agente ou o grupo de agentes pode ser responsabilizado ou se padece de alguma enfermidade mental que o impede de ter o necessário discernimento. Mas o que sei é que a frase do Sr. Divaldo Franco, pondo a culpa no espírito que habita o corpo perfurado da criança, me causou ojeriza.
De fato, se os kardecistas alegam acreditar na Bíblia, como efetivamente afirmam, deveriam saber que depois da morte segue-se o juízo, e que ao homem está ordenado morrer uma única vez (Hb 9.27). Bem por isso, não existe a reencarnação dos kardecistas nem o renascimento dos hindus.
Além disso, na história verídica do cego de nascença curado por Jesus, os discípulos, talvez sob a força de antigas crendices espiritualistas, perguntaram quem teria pecado, o próprio cego ou seus pais, para que nascesse com aquela deficiência. Jesus sabiamente respondeu: "Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus" (Jo 9.3 - veja todo o capítulo 9).
É muito conveniente usar a Bíblia ao bel-talante do intérprete. Ficam os espíritas com as partes "agradáveis" das Escrituras, com aquelas palavras que lhes parecem mais adequadas à sua doutrina, criada por um homem do Séc. XIX. Mas, quanto àquelas passagens contrárias aos seus ensinos, dizem, espertamente, que não passam de adulteração feita pela Igreja Católica.
Seria mais coerente os espíritas rejeitarem a Bíblia "in totum", para não caírem nas contradições em que sempre tropeçam. Só que, sem a Palavra, que expressa a perfeição em Cristo, não há evolução - digo, Salvação.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A terrível declaração de Boris Casoy

Às vezes acontece na vida de um microfone estar ligado e a pessoa não perceber. É nessas horas que muitos dos pensamentos injustos e preconceitusos vêm ao conhecimento público. Foi o que ocorreu na edição de ontem, 31 de dezembro de 2009, com o jornalista Boris Casoy, da Band.
Ao fazer a escalada, o âncora do Jornal da Noite, que substituía Ricardo Boechat na apresentação do Jornal da Band, anunciava a notícia sobre o sorteio da mega-sena, sendo seguido por um vídeo em que dois garis desejavam felicidades no ano de 2010. Sem notar que sua voz era ouvida, o jornalista disse:
"Que m..., dois lixeiros desejando felicidades do alto de suas vassouras. O mais baixo da escala do trabalho".
Não sei que palavras poderia escolher para classificar a atitude desse senhor. Desprezo para com o Ser Humano? Injúria? Discriminação social? Tudo isso, com certeza, não é suficiente para caracterizar a infeliz declaração que saiu de sua boca.
Ora, o senhor Boris Casoy é conhecido por suas frases fortes, como a já tradicional "Isso é uma vergonha". Lembro que, desde que contratado pelo SBT, passando depois por emissoras como Record e Band, ele vem aparecendo com o seu estilo pessoal de fazer jornalismo, sempre dando suas opiniões, o que o fez ser admirado por muita gente. É como se suas críticas no campo ético fossem o desabafo de milhões de telespectadores.
Todavia, com essa frase preconceituosa contra homens trabalhadores que, atendendo a convite da emissora, desejaram felicidades a todos no derradeiro dia do ano, o Sr. Boris Casoy deveria ser demitido. Não há credibilidade numa pessoa como essa. Como agora suas opiniões e notícias serão cridas? Como não suspeitar de suas intenções ao criticar políticos? Nossos políticos merecem, sim, todas as críticas do mundo, mas desde que a pessoa que os critica revele comportamento condizente com o que afirma.
Não adianta pedir desculpas. Pode ser que os dois senhores ofendidos o perdoem. Pode ser que a categoria dos funcionários da limpeza pública o perdoem. Pode ser que eu e todos os espectadores o perdoemos... Entretanto, a demissão seria um ato importante a ser tomado pela rede de televisão, para mostrar que não admite manifestações de preconceito, notadamente vindas de um de seus  formadores de opinião.
Fica agora uma dúvida constante sobre a legitimidade do Sr. Boris Casoy para dar notícias e manifestar seus pontos de vista. Eu mesmo não sei se posso assistir aos seus telejornais.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Carta de repúdio

Abomino a "lei da semeadura financeira".
Abomino os apelos financeiros de telepastores.
Abomino a "consagração" de apóstolos.
Abomino os ministérios centrados em personalidades.
Abomino a Teologia da Prosperidade.
Abomino o Triunfalismo.
Abomino o engano travestido de orações para curas e milagres, que na verdade são artifícios de homens e mulheres sem escrúpulos.
Abomino a invasão do pseudopentecostalismo em igrejas históricas.
Abomino o ufanismo evangélico e a bajulação de governantes.
Abomino a conflagração de líderes pseudo-evangélicos contra os que pensam diferente e os criticam.
Abomino a infiltração de heresias da falsa prosperidade em minha denominação.
Abomino o sensacionalismo e o emocionalismo que marca infelizmente, na prática das igrejas, a minha denominação.
Abomino o misticismo de um pentecostalismo atravessado e do pseudopentecostalismo.
Abomino o fetichismo.
Abomino as pregações vazias, baseadas em textos retirados de contexto.
Abomino a politicagem, o nepotismo e as monarquias hereditárias eclesiásticas.
Abomino as candidaturas de evangélicos com a missão de representarem os interesses de suas igrejas.
Abomino a importação irrefletida de lixo "teológico" ou de autoajuda dos Estados Unidos.
Abomino a insinuação do marxismo e da teologia gay dentro da Igreja como se fosse Missão Integral.
Abomino o ecumenismo que não passa de tolerância demasiada com o que não é Evangelho.
Abomino as campanhas para construção de templos e outros projetos quando acabam oprimindo o povo pobre.
Abomino as construções de catedrais como se o Espírito Santo habitasse em templos feitos por mãos humanas.
Abomino o cinismo, a falta de senso crítico e a cultura da ignorância.
Abomino a repressão e a retaliação a quem pensa de forma divergente daqueles que lideram igrejas de maneira centralizadora.
Abomino o apoio de igrejas a políticos, evangélicos ou não.
Abomino o movimento da mordaça gay.
Abomino o liberalismo moral e teológico.
Abomino o relativismo, o secularismo, o individualismo e o hedonismo.
Abomino a alienação política evangélica.
Abomino ideias como "unção financeira", "unção do leão", "unção diferente", "nova unção".
Abomino a distinção entre crentes conforme o falar ou o não falar em línguas estranhas.
Abomino a violência moral ou neurótica contra as pessoas que padecem de problemas de saúde física ou mental.
Abomino os shows mentirosos de cura e milagres quando os verdadeiros doentes não são procurados quando precisam e onde se encontram.
Abomino o comportamento pueril de confundir julgamento sóbrio com julgamento das intenções do coração.
Por fim, encerrando essa lista não taxativa de uma necessária Carta de Repúdio, afirmo que não vou calar minha boca nem secar minha pena enquanto Deus me der saúde e condições de dizer o que penso.
Muitos profetas foram calados, presos, açoitados, torturados, mortos, alguns cerrados ao meio. Outros, embora não assassinados nem fisicamente agredidos, foram alvo de preconceito e desconfiança, caindo no completo descrédito.
O grande profeta Jeremias não teve um público que o quisesse ouvir. Noé conseguiu levar para a Arca apenas sua família, de oito pessoas contando consigo. João Batista acabou com a cabeça numa bandeja. Todos os apóstolos, exceto João, foram assassinados, e João foi exilado e preso numa ilha. Enfim, Jesus Cristo, nosso SENHOR, morreu como Cordeiro imaculado, pelos pecados humanos.
A missão profética da Igreja requer sacrifício, ainda que não seja da própria vida - para alguns poderá ser. Se não pudermos sacrificar ao menos um pouco, nada poderemos fazer quando nos for exigido algo mais.
Agora, não sendo vindicada a própria vida, ao menos pode ser criticada a nossa postura, aviltada nossa condição de crentes em Cristo, amaldiçoada pela boca de "cristãos" a nossa profissão de fé. Se isso ocorrer, nada passará de nossa participação nas aflições de Cristo, nosso comungar do sofrimento do Mestre, nossa empatia com as dores dos santos.
Que será do Evangelho se não for seguido o Sermão do Monte como modelo ético?
Que o ano de 2010 seja um período de reflexão e arrependimento, mudança de vida e trabalho duro pela implantação do Reino de Deus!
Eu estou aqui porque tenho esperanças em meu coração.

Não revoguemos a Lei da Anistia

Instalou-se uma pequena crise entre os comandantes militares e o Ministro da Defesa, de um lado, e o Ministro Paulo Vannuchi (Direitos Humanos), o que também interessa diretamente aos ex-guerrilheiros Dilma Rousseff (Casa Civil), e Franklin Martins (Comunicação Social). Além de interessar ao Ministro Tarso Genro por razões ideológicas. Tudo porque o terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos, assinado por Lula, tem as seguintes propostas:
a) criar a Comissão Nacional da Verdade, para investigar crimes de tortura e assassinato praticados por militares e civis em nome da Ditadura Militar de 1964 a 1985;
b) revisar leis como a da Anistia, de 1979;
c) retirar de obras públicas os nomes de militares que contribuíram para a repressão.
Segundo os comandantes do Exército e da Aeronáutica - respectivamente, o General Enzo Martins Peri e o Brigadeiro Juniti Saito - isso não passa de revanchismo, pois: a) os crimes praticados por guerrilheiros não seriam investigados; b) importaria em revogação da Lei de Anistia; c) os militares não foram consultados; d) a modificação dos nomes de obras públicas poderia levar à depredação ou até à invasão de instalações militares.
Ressalta desse imbróglio o fato de que o presidente Lula disse expressamente que não sabia que o texto por ele assinado continha essas coisas, e que assinou em meio às discussões de Copenhague. Ou seja: assinou sem ler, como, aliás, deve acontecer com inúmeros decretos que ele assina todos os dias, e que mudarão nossas vidas de maneira muito prática. Mais: empurra o problema para abril, quando o texto deveria ser transformado em projeto de lei, e parece partir para uma posição intermediária (em cima do muro mesmo): deixa o texto como está e não implementa, como quem diz: não vamos retirar do texto para não chatear meus ministros guerrilheiros, mas não vamos por em prática para não chatear os militares.
Ocorre que medidas de Estado, como essa, não podem ficar ao bel-talante de um presidente, pois o próximo Chefe de Estado, ao ver o texto diante de si, pode, sim, mandar implementar o que ali estiver contido. Esse negócio do presidente Lula deixar para depois e fingir que o problema não é com ele é um desrespeito ao povo brasileiro e às partes envolvidas com o impasse: em letras precisas, as Forças Armadas e os que lutaram contra o Regime Militar.
Agora, é preciso verificar que os militares não foram os únicos criminosos anistiados: os companheiros esquerdistas que sequestraram e roubaram também foram anistiados, recebendo, assim, o benefício da figura penal chamada "anistia" - que ocorre quando uma lei perdoa crimes e faz de conta que nada aconteceu. A anistia é mesmo uma medida política de conciliação e pacificação.
Revogar a Lei da Anistia seria um passo atrás, depois de mais de 30 anos de sua edição, o que contribuiu para a transição "lenta, gradual e segura" para o Regime Democrático. Aliás, engana-se quem pensa que reconquistamos as liberdades democráticas à base da luta armada. O Dr. Tancredo Neves fez acordos com os militares, e desde Ernesto Geisel a abertura vinha sendo costurada, sendo depois consumada pelo João Baptista Figueiredo e entregue a José Sarney.
Os guerrilheiros Dilma Rousseff e Franklin Martins não conquistaram a democracia. Tampouco o exilado Leonel Brizola, beneficiado em 1979 com a Lei que hoje o Governo discute. Também não foram as músicas dos exilados Caetano Veloso e Gilberto Gil. A democracia brasileira foi reconquistada por meio de acordos demoradamente costurados entre o pessoal da Ditadura Militar e os sábios políticos Ulysses Guimarães e Tancredo Neves, com uma eleição indireta para presidente operando a transição entre a linha-dura e a redemocratização.
Quanto a investigar crimes de torturadores, não há problema se o mesmo for feito sem parcialidade quanto aos crimes de terroristas políticos, e se a investigação for apenas de natureza histórica, jamais penal. Do contrário, estaríamos recuando ao período anterior à Lei de Anistia.
Entendo também como muito complicada a extinção de nomes de generais e marechais de praças, avenidas e pontes espalhadas pelo Brasil. Isso, se fosse levado a ferro e fogo, deveria mexer diametralmente com muita gente que hoje se instala no Planalto Central, gente que explodiu, sequestrou, se pôs à luta armada pondo em risco a vida de civis inocentes em nome de uma ideologia.
Não nos enganemos: ali não há anjos, nem entre os militares nem entre os guerrilheiros. E por isso mesmo o tratamento deve ser igualitário.
Como disse meu tio Altevir Esteves, que foi politicamente atuante na época do Regime Militar e era de esquerda (tem até um filho chamado Carlos Lamarca), alguém que luta por uma causa nobre não deveria pedir ou aceitar indenização. Interessante. Segundo ele, se a causa realmente era nobre, se valia mesmo a pena, não poderia ser jamais compensada com...dinheiro, pensões, porque era uma luta maior. Deixo isso para pensarmos (sei que o tema é polêmico).
Penso, apenas, que não se pode demonizar os comandantes militares como se a reação deles hoje fosse uma volta ao espírito ditatorial. Em favor da democracia e do Estado de Direito, consagrada a Lei da Anistia, deveríamos legar aos nossos herdeiros um conhecimento mais profundo dos "anos de chumbo", mostrando, porém, o que de fato aconteceu, pois, na realidade, poderemos ver que houve chumbo trocado, e não uma pura e simples repressão contra jornalistas e pessoas indefesas.
Veremos, sim, que, não fosse a Lei da Anistia, talvez nossos ressentimentos impedissem a eleição direta para presidente em 1989, e as sucessivas eleições com a participação de um metalúrgico chamado Lula, que hoje é constitucionalmente nosso Presidente da República, eleito pela maioria dos votos populares.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Marco Feliciano para deputado federal?

Li na internet uma entrevista coletiva* do Sr. Marco Feliciano, concedida em outubro de 2009, sobre sua filiação ao PSC (Partido Social Cristão) e sua possível candidatura a deputado federal em 2010. Com linguagem de político, o pastor pentecostal (?) fala principalmente de beneficiar sua pequena cidade (Orlândia/SP) e até usa o provérbio popular "uma mão lava a outra e as duas lavam o rosto" para sustentar a promessa de que os que o apoiarem receberão benefícios.
Mas o que me chama a atenção é o trecho seguinte:
"eu sou um cara que nesses orkuts da vida tem 200 comunidades feitas para mim. Uma tem 90 mil pessoas, então, só em orkut deve ter umas 400 mil pessoas que passam falando de mim. Orlândia não tem noção do que é isso, porque só em orkut é 10 vezes a po-pulação da nossa cidade. Os meus dvd’s esparramados pelo país inteiro, um dos meus dvd’s agora chegou a 1 milhão de cópias, que é o Sonho de José, então esse poder de persuasão, sendo um homem de família, sendo uma pessoa que veio do nada e chegar onde cheguei, acredito que possa fazer muito mais pela cidade, que a cidade jamais sonhou em fazer por mim".
Leu com atenção?
O Sr. Marco Feliciano promete se aproveitar de sua popularidade no meio evangélico para ser guindado à categoria de deputado federal, com o sonho de um dia ser senador. Não sei o que a função de senador tem de tão romântico, pois também o pagodeiro e apresentador de TV Netinho de Paula quer ser senador, e já o queria antes mesmo de ser vereador...
O Sr. Marco Feliciano diz que dos 11 milhões e 200 mil evangélicos contados pelo censo de 2005, ao menos 9 milhões o conhecem. Desses 9 milhões, ele quer o voto de apenas 1%, ou seja, 90 mil eleitores. Isso mesmo. O pastor pentecostal (?) fez suas contas. Ele precisa de 1% dos votos dos evangélicos que o conhecem.
O conhecido e festejado pastor Marco Feliciano demonstra não saber quantos são os deputados, pois afirma serem 550, quando são 513. Mas isso não é o que mais importa. Ele cita o número de deputados federais para lembrar que antes do Escândalo das Sanguessugas havia, segundo ele, mais de 10% de deputados evangélicos, defendendo princípios morais e familiares... Com o escândalo, esse número teria caído à metade. Todavia, se aqueles crimes envolvendo o superfaturamento no preço de ambulâncias teve relação com a bancada evangélica, como teve, ela tinha mesmo que perder votos. Isso mostra que a bancada não era tão "evangélica" como parecia.
Quem analisa os fatos políticos e tem a mínima consciência social não pode se iludir com essa plataforma antiga do Sr. Marco Feliciano. Ser deputado federal para ajudar a cidadezinha natal? Essa é velha. Beneficiar eleitores e apoiadores? Essa também não é novidade. Aproveitar-se da fama de pregador e cantor gospel para ganhar votos? Pronto. Sua campanha está toda planejada, e seu caminho na política, bem delineado. Não haverá decepções. Não pode haver. Pelo menos o pastor-candidato é bem sincero nesse ponto.



*O trecho citado é da seguinte fonte: http://www.gospelprime.com.br/pastor-marco-feliciano-sera-candidato-a-deputado-federal-diz-jornal/

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O Natal que comemoro, o Ano-Novo que espero

Quando eu morava em Minas Gerais, descobri alguns cristãos que não comemoram o Natal. Para eles, a festa é de origem pagã, em celebração ao deus Sol, cultuado em 25 de dezembro. Com o Cristianismo, a festa teria migrado em algum momento para a ideia do Nascimento de Jesus Cristo, acompanhado de tradições como a árvore, os enfeites, o Papai Noel, os presentes. Tudo não passaria de uma cópia do Paganismo, uma cópia travestida de evangélica, celebrada pelas igrejas cristãs.
Confesso que essa refutação cristã ao Natal me assustou. Não consigo admitir que o Natal saia de minhas celebrações de final de ano, embora reconheça a possível origem pagã. É como uma outra função, agora bíblica, para uma tradição iniciada por causas diversas. A Sociologia da Religião deve explicar isso melhor.
Não me importa se a festa - que não está prescrita na Bíblia - seja uma transformação de qualquer coisa estranha. O fato é que nem a data é o mais importante, nem Papai Noel entra em minha casa - quem dá os presentes a nossos filhos somos eu e minha esposa mesmo. Temos o costume de enfeitar a árvore de Natal, nossa filha de quatro anos tem isso como uma coisa boa, da qual participa. Gostamos das luzes que enfeitam a cidade, as árvores, as casas. Gostamos de participar de cultos natalinos, gostamos das peças natalinas, apreciamos a reflexão sobre o Nascimento de Cristo. Para nós, essa deve ser uma excelente oportunidade de evangelização.
Minha esposa criou-se numa igreja dirigida por dois missionários estrangeiros, igreja em que o Natal era especialmente comemorado. Eu também tive o Natal como uma festa cristã. Com o juízo crítico apurado, aprendi desde cedo que Papai Noel não existe, que o consumismo nada tem que ver com o Nascimento de Cristo. É preciso, sim, separar as coisas.
E é necessário afirmar, com todas as letras, que Jesus nasceu (encarnou) para morrer pelos pecadores e ressuscitar ao Terceiro Dia. Ele veio para morrer. Sua morte não foi um acidente de percurso, uma fatalidade nem um insucesso dos perdedores. Jesus Cristo veio para morrer e ressuscitar. Sem essa doutrina de fé, o Natal fica mesmo pobre e vazio.
Quem não comemora o Natal sob o argumento de que se trata de mera imitação da festa ao deus Sol não deveria, a rigor, comemorar o Ano-Novo, pois, se refletirmos bem, pode ele ser interpretado com o mesmo princípio daquelas festas antigas devotadas à fertilidade, ao ciclo da vida. O ano, ao começar, traria, para essas pessoas, novas esperanças, ante a renovação das estações. Todavia, ainda que exista todo esse misticismo - hoje visto em costumes como "entrar de branco" - a verdade é que o ano que começa deve efetivamente nos inspirar a um recomeço, não no sentido místico, esotérico, mas na exata medida em que o ano novo inicia um calendário cheio de compromissos: para o estudante, mais um ano letivo. Para o trabalhador, mais um período de trabalho; para todos, enfim, mais uma sucessão de dias e meses. O que não foi realizado no ano velho poderá, quem sabe, ser feito neste que se abre. E daí se eu tenho esperanças? Será isso ruim? É certo que não.
É bom recordar que as únicas "festas" neotestamentárias são o Batismo nas Águas e a Ceia do SENHOR. Elas, sim, são ordenanças, e não devem ser esquecidas. Quanto às festas do Antigo Testamento, essas não são para nós, nem para ninguém mais, porque pertenceram a um período em que símbolos antecipavam, por figura, a vinda de Cristo. E sei que hoje existe um movimento judaizante em igrejas evangélicas, que repete o toque do shofar, que usa menorá, que gosta da Estrela de Davi - que, por sua vez, que eu saiba, é mais moderna que a Bíblia.
Mas, voltando ao Natal, digo que esse pessoal que diz não ser ele uma festa digna de cristãos está, na verdade, confundindo tudo. Não se trata mesmo de uma festa bíblica, porque não está prescrita nas Escrituras. Entretanto, não é antibíblica. Pode ser, isso sim, extrabíblica. Jamais antibíblica, se celebrada da maneira certa: lembrando de textos bíblicos lindos, que retratam o Nascimento, a Encarnação de Jesus, o Salvador, na cidadezinha de Belém, e que, ao nascer, foi colocado num cocho, que chamamos, quase que num eufemismo, de "manjedoura".
Sendo assim, que mais posso dizer?
Feliz Natal e próspero Ano Novo!

Será que os neopentecostais seguirão o mesmo curso dos pentecostais?

Num texto que publiquei no site www.ultimato.com.br, no espaço Palavra do leitor, questionei a existência do Pentecostalismo histórico no Brasil, em face da imitação que pregadores pentecostais têm feito de ensinos neopentecostais, dando a impressão de que a mensagem pentecostal se identifica com essas doutrinas.
Um leitor, chamado Daniel Clark, publicou um artigo no mesmo espaço, e, sob o título Neopentecostais: os conservadores de amanhã, pretendeu me alertar sobre o risco de incorrer no mesmo erro de batistas, presbiterianos e outros que, há cerca de cem anos, disseram que o Movimento Pentecostal era coisa do diabo. Disse que, assim como o Pentecostalismo mudou, o Neopentecostalismo mudará.
Trocamos e-mails. Gostei de receber essa contra-proposta da forma como foi suscitada. No entanto, mantenho minha posição, a qual preciso explicar a seguir:
1) Não considero acertado afirmar que neopentecostais e pentecostais sejam tão parecidos assim. Enquanto os pentecostais surgiram pregando que o batismo com o Espírito Santo é uma experiência de dotação de poder, evidenciada pelo falar em línguas, com vistas à evangelização, os neopentecostais pregam uma série de heresias que deixam a centralidade da Cruz e colocam o Ser Humano no centro das atenções. Mesmo sabendo que a doutrina pentecostal, em suas diferentes matizes, ainda provoca muita discussão e polêmica, não há como negar que se trata de uma corrente teológica comprovadamente séria e compromissada com Jesus Cristo.
2) Não é adequado comparar o erro dos batistas ou de quem quer que seja, no passado, com minha atitude ao me posicionar contra os erros doutrinários do Neopentecostalismo. Crentes históricos do início do Séc. XX chocaram-se com as experiências pentecostais e falaram de coisas que não conheciam. Alguns líderes de hoje dizem que as línguas faladas nas igrejas pentecostais não podem ser de Deus. Alguns deles têm verdadeiro pavor de que suas igrejas se "pentecostizem". Muitos falam do ser pentecostal sem saber o que isso quer dizer, reduzindo o movimento ao barulho, à desorganização dos cultos e à irracionalidade no manejo da Bíblia. Não buscam o diálogo, e assim nutrem o preconceito. Eu procuro, com honestidade, escrever sobre o que eles realmente ensinam. Se os históricos erraram no passado, o mea culpa é deles, não é meu.
3) Minha postura frente aos neopentecostais é diferente: afirmo coisas a respeito do que seus próprios líderes propalam, ensinos que estão em suas palestras e livros, em seus vídeos e programas de rádio e TV. Por isso, essas doutrinas e práticas que critico são oficiais, diferentemente de idéias simplórias que a massa pentecostal tinha ou ainda tem quando se trata do povo comum.
Essas poucas linhas talvez ajudem a esclarecer que não acredito que acontecerá com os neopentecostais o que aconteceu com os pentecostais. Na verdade, o caminho foi inverso: os históricos mudaram, e não nós. Com os neopentecostais, se eles mudarem, muda a própria mensagem, porque a base de sua proposta precisa ser revista.
Tudo isso eu escrevo com temor e tremor. Não quero o mal dos irmãos, e é por isso mesmo que procuro dizer aquilo que penso estar errado. Agora, quanto à sensibilidade para com o outro, para com as relações interpessoais, não precisamos mudar a doutrina para chegar a esse patamar. Precisamos apenas seguir o Evangelho.

E se não houvesse o Intercessor?

Dentre os conselheiros do patriarca Jó, surge Eliú com um discurso não censurado por Deus (Jó 42.7-9). E se Deus não o reprovou, quem sou eu para fazê-lo? Mesmo entendendo que Eliú se mostrou um tanto vaidoso, sabichão e severo demais com Jó, não posso me furtar às suas palavras, porque ele não foi repreendido por Deus. Parece-me que ele pelo menos acertou o ponto da questão, qual seja, a pecaminosidade de todos os homens e a perfeição exclusiva de Deus. Se ele "errou a mão", como penso, Deus não parece ter levado em conta.


Partindo dessas considerações, gostaria de observar algumas coisas no texto de Jó 33.13-33, onde há palavras proferidas por esse personagem mais moço que os três "amigos" de Jó, seus antecessores no diálogo.


No trecho referido, Eliú diz:


"13 Por que contendes com ele, afirmando que não te dá contas de nenhum dos seus atos? 14 Pelo contrário, Deus fala de um modo, sim, de dois modos, mas o homem não atenta para isso. 15 Em sonho ou em visão de noite, quando cai sono profundo sobre os homens, quando adormecem na cama, 16 então, lhes abre os ouvidos e lhes sela a sua instrução, 17 para apartar o homem do seu desígnio e livrá-lo da soberba; 18 para guardar a sua alma da cova e a sua vida de passar pela espada. 19 ¶ Também no seu leito é castigado com dores, com incessante contenda nos seus ossos; 20 de modo que a sua vida abomina o pão, e a sua alma, a comida apetecível. 21 A sua carne, que se via, agora desaparece, e os seus ossos, que não se viam, agora se descobrem. 22
A sua alma se vai chegando à cova, e a sua vida, aos portadores da morte. 23 Se com ele houver um anjo intercessor, um dos milhares, para declarar ao homem o que lhe convém, 24 então, Deus terá misericórdia dele e dirá ao anjo: Redime-o, para que não desça à cova; achei resgate. 25 Sua carne se robustecerá com o vigor da sua infância, e ele tornará aos dias da sua juventude. 26 Deveras orará a Deus, que lhe será propício; ele, com júbilo, verá a face de Deus, e este lhe restituirá a sua justiça. 27 Cantará diante dos homens e dirá: Pequei, perverti o direito e não fui punido segundo merecia. 28 Deus redimiu a minha alma de ir para a cova; e a minha vida verá a luz. 29 Eis que tudo isto é obra de Deus, duas e três vezes para com o homem, 30 para reconduzir da cova a sua alma e o alumiar com a luz dos viventes. 31 Escuta, pois, ó Jó, ouve-me; cala-te, e eu falarei. 32 Se tens alguma coisa que dizer, responde-me; fala, porque desejo justificar-te. 33 Se não, escuta-me; cala-te, e ensinar-te-ei a sabedoria".



Na Antigüidade, em tempos patriarcais, Eliú percebeu quão pecador é o Ser Humano e cogitou a hipótese de um "intercessor" em seu favor. Note-se que nessa época não havia sequer o sistema sacrificial levítico, e, segundo os estudiosos, as pessoas faziam seus sacrifícios pelos seus familiares, como Jó. Não havia sacerdotes oficiais.


Repreendendo a Jó por considerar que este propaga uma auto-justiça, Eliú declara que a) Deus orienta o Ser Humano quanto ao caminho que deve tomar (vv.14-18); b) o Ser Humano passa por sofrimentos decorrentes de sua condição limitada (vv.19-22) - o texto não deixa claro que o sofrimento seja conseqüência do pecado pessoal, e parece apontar para a limitação a que todos estamos sujeitos, a saber, a sentença universal da morte.


O orador Eliú passa então a imaginar a existência de um "anjo intercessor" (ARA), um "mensageiro ou intérprete" (ARC), alguém que se postasse como espécie de advogado para falar ao homem como ele deve proceder.


Qual o resultado disso? Deus iria ter misericórdia do homem, e diria ao intercessor: "Redime-o, para que não desça à cova; achei resgate" (v.24).


Que texto interessante! O jovem Eliú pensa em redenção e resgate, dois conceitos que séculos mais tarde seriam aplicados a Jesus Cristo. Para ele, a morte era efeito do pecado, enquanto o fruto do resgate seria a doação de vida, o que se manifesta na declaração de que o homem redimido voltaria à sua juventude e ao vigor da infância (v.25). Além disso, o homem redimido falaria diretamente com Deus (v.26), veria a face de Deus (v.26), teria sua justiça restituída por Deus (v.26), cantaria publicamente o fato de não ter sido punido por seu pecado (v.27); cantaria o fato de Deus ter redimido a sua alma de ir à cova, e por isso sua alma veria a luz (v.28).


Nessas palavras antiqüíssimas eu vejo o anseio do homem por um intercessor, um mediador, um advogado. Já pensou se estivéssemos hoje na mesma situação que Eliú, ou seja, com a consciência do pecado e a idéia de que não existe um intercessor? O que seria de mim e de você? Nem quero pensar nisso...








Fracos, doentes e mortos

A cada Ceia do SENHOR, lemos o texto de I Co 11.23-32, em que o apóstolo Paulo ensina como deve ser essa celebração - um momento de comunhão fraternal em Cristo, memória do que Ele fez por nós, anunciação de Sua morte até que Ele venha. Mas, diferentemente disso, os crentes estavam fazendo da Ceia um banquete de glutonaria, bebedice e injustiça social, pois nem todos podiam se alimentar com suficiência.


Vale recordar que a Ceia era feita com muito mais comida e bebida do que o pequenino pedaço de pão e o cálice de suco de uva que costumamos consumir atualmente, simbolizando o Corpo e o Sangue de Cristo. As chamadas festas Ágape deveriam ser a Ceia do SENHOR, em vez de uma ceia para cada membro, como os coríntios estavam fazendo. Foi a esse tipo de reunião que Judas se referiu em sua pequenina mas gloriosa Epístola, no v. 12, quando disse que alguns falsos líderes se comportavam como "escolhos" ou "manchas" em suas "festas de caridade" ou "ágapes", apascentando a si mesmos.


Voltando a Paulo, tem-se que, depois de explicar, no Cap. 11, como deve ser a conduta de homens e mulheres nas reuniões cristãs, dentro daquele contexto especial (vv.2-16), o apóstolo passa a enfrentar o problema das "divisões" ou "cisões" havidas na igreja de Corinto, e que se expressavam na Ceia do SENHOR, pois alguns comiam e bebiam demais, enquanto outros ficavam sem nada. Não havia, pois, o sentimento de coletividade, compartilhamento, mas um individualismo que adoecia.


Agora chego ao ponto central deste texto. Na tradução da Bíblia de Jerusalém, o trecho do v. 30 está assim: "Eis porque há entre vós mutios débeis e enfermos e muitos morreram". A nota dessa mesma edição bíblica afirma que "Paulo interpreta uma epidemia como punição divina para a falta de amor que tornou impossível a eucaristia".


Não sei se podemos afirmar isso categoricamente. Será que Paulo estava dizendo que os irmãos estavam doentes, fracos, ou que tinham morrido, por causa de uma epidemia enviada por Deus? Bom, nesse caso o autor da nota da Bíblia de Jerusalém deve ter especulado, mas não vejo absolutamente nada que corrobore esse pensamento. Ao menos não vemos o apóstolo Paulo defendendo esse tipo de coisa em outro texto.


Veja bem, não digo que essa "epidemia como punição divina" seja impossível, mas não posso afirmar com absoluta certeza. No entanto, acredito ser bem possível que pessoas fiquem doentes e fragilizadas por problemas morais e espirituais, como se dá com as doenças famosas em nossos dias, como a Depressão, a Síndrome do Pânico, a Ansiedade, as Fobias e o Stress, além de outros transtornos originados na mente, mas com efeitos no corpo, tais como taquicardia, dificuldade de respiração, úlceras, enfim: um profissional da área de saúde mental poderia dizer muito melhor do que eu.

O fato é que há fracos, doentes e mortos nas igrejas. Pecados ocultos adoecem o rebanho, mas também pecados socialmente aceitos. Somente a humildade em Cristo pode nos socorrer, pois ninguém é perfeito. Sejamos, pois, humildes, tomando a Ceia com auto-exame e confissão de pecados. Adoecer nem sempre é inevitável.





domingo, 20 de dezembro de 2009

Eu compreendo os sem-igreja!

Você que está sem igreja e não consegue se adaptar a nenhuma delas, saiba que talvez sua situação seja perfeitamente compreensível. É claro que não estou aqui para advogar causas sem "conhecer os autos", pois deve haver um sem-número de motivos para uma pessoa não querer frequentar igrejas, e nem todos os motivos são legítimos. Todavia, eu me refiro neste texto à grande quantidade de irmãos que não querem ficar sem igreja, mas são "obrigados" à solidão.
Numa sociedade em que surgem igrejas ditas evangélicas a todo instante, para todos os gostos do consumidor religioso, pode parecer estranho alguém se sensibilizar com a situação de quem não se adapta. Poder-se-ia objetar: ou essa pessoa não achou ainda a igreja de seu gosto ou não deveria pensar em achar uma igreja de seu gosto...
Mas a questão não é tão simples. Eu discordo do crescimento numérico artificial e divisionista, que se baseia em igrejas personalistas, em "ministérios" criados antes do surgimento do rebanho, e no pernicioso mercado "gospel". O que não posso esquecer, porém, é que no meio de toda essa desordem existem crentes verdadeiros, sinceros, maduros, que se veem entristecidos por não se encaixarem em nenhum lugar.
É difícil conviver, por exemplo, com a intromissão da Teologia da Prosperidade em nossas igrejas históricas e pentecostais históricas. É difícil engolir aquelas canções pseudo-evangélicas, que são, na verdade, antropocêntricas, subjetivistas e emocionalistas. É difícil conviver com instituições eclesiásticas politiqueiras, o que envolve coisas como o nepotismo, a aliança espúria com políticos, os candidatos "naturais", as monarquias hereditárias. É difícil conviver com a imposição de doutrinas secundárias como se fossem primordiais. É difícil conviver com a centralização do poder em poucas pessoas. Tudo isso nós percebemos na Igreja que se diz evangélica no Brasil de hoje.
O politicamente correto é dizer a esses irmãos sem-igreja frases como "olhe somente para Jesus, não para o homem"; "toda igreja tem problemas"; "você não vai encontrar perfeição aqui neste mundo"; "isso são provas"; "sua hora vai chegar"; "ore mais, tenha mais fé, que vai dar tudo certo".
Não consigo me contentar com frases prontas e raciocínios simplistas como esses. É necessário enfrentarmos o problema em toda a sua feiúra, em vez de fingirmos que tudo está bem. Não! A enfermidade da Igreja brasileira é terrível!
Coloco-me como um dos que, se não têm a solução, ao menos se irmanam com o que se sentem agora desalojados e desiludidos com as igrejas. E, em lugar de não poder olhar para homem nenhum - porque essa é a desculpa que muitos dão - gostaria imensamente de poder olhar, sim, para boas referências humanas, que ousassem repetir o que Paulo disse: "Sejam meus imitadores, como eu sou de Cristo".

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Meu amigo inconveniente

Tenho um amigo muito inconveniente. O pior de tudo é que ele é o que mais me envia mensagens eletrônicas. Seu nome é estrangeiro: Spam. Todos os dias ele aparece com uma novidade, mas não me interesso por nenhuma delas.
Quando minha caixinha de correio era mais precária, as mensagens de Spam vinham misturadas com as mensagens que eu aguardava. Às vezes, ao ver que na caixa havia várias mensagens, eu ficava alegre, para imediatamente perceber que todas não passavam de pilhérias do velho amigo: anúncios comerciais acerca de produtos pelos quais eu nunca me interessei, de lojas em que eu jamais comprei.
Agora que minha caixa de correio é bem mais rigorosa, as coisas de Spam ficam separadas. Mas, talvez pelo hábito de receber mensagens de Spam, lá vou eu olhar o que ele me reservou - e inexoravelmente vejo que se trata das mesmas besteiras.
Ó incorrigível Spam. Deixe que meus amigos mais esperados escrevam para mim, e só. Deixe que eles entupam minha humilde caixa de correio. Deixe que as mensagens recebidas sejam exclusivamente de meu interesse e proveito!
Mas, que insensato eu sou! Quem mais escreveria para mim? Quem mais se importaria tanto comigo, senão a indústria, o comércio, o consumo, a sociedade capitalista, vil e burguesa, a era da informação, e todos os seus aparatos de última geração?
Talvez eu esteja sendo rude demais com o velho Spam. Talvez...Para muitas pessoas, os anúncios de publicidade, ainda que indesejados e impessoais, são a única recordação de que existem. Afinal, quando ninguém mais se lembrar de mim, seja o poeta, seja o doutor, ainda assim Spam me enviará os seus recados. O dinheiro sabe onde as pessoas estão.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Crentes de segunda categoria

Imagine uma igreja em que os crentes são divididos em categorias. Eles não se dividem por questões de cor, classe social ou conhecimento intelectual, o que já seria um apartheid. Mas eles se dividem por uma questão carismática: quem fala em línguas estranhas e quem não fala em línguas estranhas - o que também é um apartheid.
Nessa igreja imaginária, o dom de línguas tem especial importância, sendo elevado acima do dom de profecia, que edifica a todos. A seu turno, o dom de línguas praticado sem interpretação edifica somente o que fala. É uma edificação individual. Por isso, aí está a contradição: o menor de todos os dons é enaltecido como se fora o maior.
Imagine que nessa igreja os irmãos tenham todos os dons do Espírito, mas se ocupem principalmente em buscar o dom de línguas. Nos cultos, esses irmãos falam em línguas desconhecidas, todos a um só tempo, sem que ninguém entenda absolutamente nada. Mas, quem se importa? Desde que todos sejam usados pelo Espírito Santo, está tudo bem.
Nada de interpretação de línguas, nada de profecia, nada de curas, nada de palavra do conhecimento, nada de palavra da sabedoria, nada de fé, nada de maravilhas, nada de discernimento de espíritos. Ah, o discernimento de espíritos é tão importante, e tão raro! Seria ele o termômetro da igreja no exercício dos dons. Mas, à sua falta, a febre das línguas estranhas campeia e adoece a igreja, pois, ausente a profecia, "o povo se corrompe" (Pv 29.18).
Não, as línguas não são ruins em si mesmas, elas são um dom de Deus. Só que, concedidos a nós, os dons precisam ser exercitados com sabedoria. O que deveria ser fervor passa a ser febre. Crentes febris são crentes adoecidos.
Consegue imaginar essa igreja? Tamanho é o emocionalismo que se distorcem pontos doutrinários: em vez de dom, as línguas passam a ser sinal maior de plenitude do Espírito, em detrimento de outros dons e do fruto do Espírito. Falou em línguas, é porque ficou cheio do Espírito. Falou em 1982, e nunca mais, já se considera que foi cheio, e com isso tem o requisito principal para o episcopado e o diaconato, ainda que nunca mais fale em línguas e - pior do que isso - ainda que lhe faltem outros requisitos, como a aptidão mínima para o ensino. Tem outros dons, ensina com maestria, profetiza, cura enfermos, evangeliza, pastoreia, mas nunca falou em línguas - esse, então, é um crente espiritual, mas não tem a conditio sine qua non, e, por isso, não pode ser diácono, não pode ser presbítero, não pode ser pastor - é, em suma, membro de uma subcategoria de crentes.
Alguém dirá: "como falar em línguas?" Os doutos dessa igreja responderão: "Peça a Deus, busque com fé, ore, faça jejuns, nunca desanime". Esquecem que os dons são distribuídos pelo Espírito Santo como Ele quer. E que Paulo nos exorta a buscar os melhores dons, não os menores. A plenitude do Espírito não pode ser medida, e, se o fosse, não seria medida pelo menor de todos os dons.
Mais do que isso: a se estabelecer coisas que o crente deve fazer para falar em línguas, o que se estabelece é um critério de divisão antibíblico dentro da igreja, pois está comprovado pela experiência que nem todos os que buscam falam em línguas. Sendo assim, lhes faltaria alguma coisa: talvez fé, talvez oração, talvez perseverança, talvez emoção suficiente para ir além de uma razão doutrinária.
E agora, consegue imaginar uma igreja assim? Ela existiu, ou pelo menos existiu com a essência do que foi descrito acima: a Igreja de Corinto. Se quiser conhecer esse tema com um pouco de imparcialidade, leia I Co 12-14.

Série vocacionados (V) - Timóteo

Timóteo foi um pastor do primeiro século da Era Cristã. Teve o privilégio de ser criado nas "Sagradas Letras" (II Tm 3.15), sob a supervisão de sua mãe, Eunice, e de sua avó, Lóide. Era um judeu mestiço, filho de uma judia e de pai grego (At 16.1).
Ao chegar à região de Derbe e Listra, Paulo encontrou o irmão Timóteo, de quem davam testemunho os irmãos de Listra e Icônio. Na ocasião, o apóstolo o tomou como companheiro no trabalho missionário e optou por circuncidá-lo, já que os judeus das cidades visitadas sabiam que se tratava de um meio-judeu (At 16.1-5). A partir de então, Timóteo passou a ser um cooperador de Paulo, na época em que o líder Barnabé já não viajava com o apóstolo (At 15.36-41).
O pastor Timóteo foi discipulado pelo apóstolo Paulo e se tornou um de seus mais destacados colaboradores. Foi chamado por Paulo de "verdadeiro filho na fé", "filho",  "amado filho" e "filho meu" (I Tm 1.2, 18; II Tm 1.2; 2.1). Não é sem razão que Paulo o coloca como coautor da Segunda Epístola aos Coríntios, talvez para lhe dispensar maior honra diante da igreja (II Co 2.1). Timóteo era mesmo um rapaz abençoado.
Parece-me que Timóteo conheceu o medo em algum momento de seu ministério, a ponto de Paulo exortar os coríntios a providenciarem que Timóteo não tivesse receio no meio deles, e que não o desprezassem (em meio àqueles irmãos de Corinto, creio que eu mesmo me sentiria em apuros). Paulo também lhe disse que Deus não dá "espírito de covardia" (II Tm 1.7), e o exortou a não se envergonhar "do testemunho de nosso Senhor nem do seu encarcerado", que era o próprio apóstolo (II Tm 1.8).
Como penso que todo conselho traz em si um juízo de valor, é de se supor que Timóteo não fosse desembaraçado.
Mais um argumento em favor dessa tese: Paulo precisou exortar o jovem pastor Timóteo a se manter firme ante a sua mocidade. Disse Paulo: "[Que] Ninguém despreze a tua mocidade" (I Tm 4.12). Acho engraçado alguns irmãos interpretarem esse versículo como se Paulo exortasse a cada um de nós a não desprezarmos a nossa própria mocidade...e só. Não é só isso. De modo ainda mais interessante, Paulo, a um só tempo, exorta Timóteo a valorizar a sua mocidade, mas principalmente diz que os demais não podem desprezar a sua mocidade (a mocidade dele, Timóteo). Ora, se Paulo, com sua conhecida teologia responsiva, precisou escrever isso, foi porque encontrou algum problema no relacionamento do jovem pastor com suas ovelhas - um problema de autoridade fraca.
Todavia, a eventual fragilidade na liderança não retiraria a veracidade de sua vocação, que lhe foi reconhecida por imposição de mãos do presbitério e do próprio Paulo, tendo sido anunciada mediante profecia (II Tm 1.6; I Tm 1.18). E por isso Paulo o exortava a despertar o dom que Deus lhe concedera e cumprir o seu "ministério" (II Tm 4.5).
Dentre as três Cartas Pastorais de Paulo, duas foram escritas a Timóteo. Dessas Epístolas extraímos o pensamento paulino quanto aos requisitos para o episcopado e o diaconato, a relação do pastor com a igreja local, o combate às heresias, a disciplina de falsos mestres e irmãos complicados, a maneira de conduzir a vida ministerial, o procedimento no culto público, a prática da oração coletiva, o apego à sã doutrina, os fundamentos da Fé.
Foi a Timóteo que Paulo escreveu várias vezes a expressão "Tu, porém", por meio da qual introduzia as exortações pessoais ao jovem pastor, mostrando-lhe como deveria ser diferente dos falsos irmãos.
Dentre as palavras de Paulo a Timóteo, estão algumas qualidades que o vocacionado a pastor deve ter:
a) "bom ministro de Cristo Jesus, alimentado com as palavras da fé e da doutrina" (II Tm 4.6);
b) "padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza" (II Tm 4.12);
c) "aprovado, como obreiro que não tem do que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade (II Tm 2.15);
d) "homem de Deus" (II Tm 6.11).
Timóteo tinha uma enfermidade estomacal e outras doenças que Paulo não menciona claramente (I Tm 5.23). Nisso, pelo menos, eu me pareço com ele, pois descobri uma gastrite há pouco tempo. E como chateia essa gastrite!
Minha esposa havia falado há um tempo sobre chamarmos um de nossos filhos de Timóteo. Por enquanto, o menino que nasceu eu dei a ideia de chamarmos de Inácio. Talvez, no futuro próximo, nasça um Timóteo em nosso meio...Mas o fato é que o nome desse eterno jovem pastor é mais belo pela força de seu testemunho do que por qualquer outro motivo. Nas igrejas, quando se fala de Timóteo, pensa-se em companheirismo, fidelidade, cooperação, amizade. É desse Timóteo que todos nós gostamos.
Mas, como todo vocacionado, Timóteo tinha seus problemas. A vocação com imposição de mãos e profecia não o dispensou do medo. A vocação preparada desde a infância, num lar cristão, não o dispensou de percalços na área da autoridade. Enfim, sua vida com Deus não o livrou da doença no estômago. E, para ser bem sincero, há que se ter estômago para cuidar de pessoas, notadamente quando elas se veem como senhoras da verdade! E quantos há dentre os cristãos que se acham senhores da verdade!

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Que ironia: a Igreja brasileira parece com o Lula!

Na campanha presidencial de 1989, dizia-se que se Lula ganhasse fecharia as igrejas. Diziam também que ele era comunista, usando o termo no pior sentido possível. Muitos crentes acharam que essas coisas fossem verdade. Aquele "sapo barbudo", como alguns o chamavam, assustava os eleitores. Eu tinha 12 anos de idade e lembro bem de algumas passagens daquela campanha - creio que sempre gostei de acompanhar a política.
Todavia, o tempo passou, e aquele ex-sindicalista e ex-metalúrgico se tornou presidente da República, o mais popular da história do Brasil, talvez o mais carismático, alguém que se enxerga como o mais legítimo representante dos brasileiros em todos os tempos, que acha que fez muitas coisas inéditas, o que sintetiza com a frase "nunca antes na história deste País". Um homem emblemático, bonachão, de liderança fácil. Um homem de pensamento conservador que se lançou na vida pública por meio de lutas próprias da esquerda. Um homem simples que usa metáforas futebolísticas para assuntos sérios, que pega no cotovelo do Papa, que diz com a maior facilidade que vai telefonar para o Sarkozy ou para o Bush a fim de resolver, numa conversa, um problema internacional grave, ou que poderia ajudar no conflito entre palestinos e israelenses - o qual é mais complexo do que ele poderia imaginar.
Esse homem é hoje aclamado por gente de todo tipo, evangélicos entre eles. Sua candidata, Dilma Rousseff, participou do culto de aniversário de José Wellington Bezerra da Costa, presidente da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB). Recorde-se o leitor de que em 1997 (ou perto disso) o mesmo José Wellington afirmou no Campo de Marte, em São Paulo (por ocasião de um importante Congresso Pentecostal), na presença de um "fervoroso" FHC, que um crente da Assembleia de Deus é um sem-terra a menos, e deu a entender que os assembleianos ajudariam o então presidente na eleição. Diga-se de passagem que FHC disse "aleluia" naquele dia. Agora, porém, todo mundo acha que o Lula não é tão feio. Como disse o "filósofo" Kléber Bamban, ele agrada a "gregos e coreanos".
E agrada mesmo. Outro dia o casal Hernandes, da Renascer, orou por Dilma Rousseff, por sua cura de um câncer linfático, logo depois de voltarem de uma prisão domiciliar nos Estados Unidos. Aquela oração teve ares de apoio político. Sim, teve. Pode ser uma coisa bem normal para o Lula, considerando como ele tem defendido explicitamente homens como Collor, Sarney, Renan Calheiros, mensaleiros do PT, e outros tantos corruptos, sob a bandeira fácil do "devido processo legal".
Muitos hoje na Igreja brasileira, e fora dela, gostam de Lula. Uso o termo "Igreja brasileira" em termos bem genéricos, pois, como disse um ex-professor meu de teologia, Pr. Fernando Glória Caminada Sabra, "a Igreja brasileira não é um monobloco". Sei disso, e por isso faço a ressalva. Refiro-me à "Onda Gospel", a tudo o que prepondera na Igreja brasileira, a essa profusão de besteiras e desvios comportamentais que há em nosso meio.
Afirmo, em suma, que há muitas semelhanças entre a Igreja brasileira e Lula: o populismo, o afã messiânico ("nunca antes na história deste País"), a escatologia triunfalista, as alianças espúrias, a distância entre discurso e prática, o simplismo, o desprezo ao estudo sistemático, o sensacionalismo, a ignorância como virtude, a santidade seletiva.
Ouvir Marco Feliciano e Cassiane, com todo o respeito, e deles retirar uma teologia para a vida, é como usar as falas soltas do Lula enquanto regra de fé e conduta: muita emoção e conteúdo superficial. E ai de quem for contra! Coitado do herege que não gostar de Lula, de Marco Feliciano ou de Cassiane! Deve ser frio ou conservador, atrasado ou elitista.
A ética da Igreja brasileira é seletiva mesmo: homossexualismo e adultério são os piores pecados do mundo, como os pecados mortais da Idade das Trevas. Mas improbidade administrativa, popularmente chamada de "corrupção", pode passar sem uma disciplina eclesiástica. Conheci - de longe, registre-se - um deputado federal envolvido no Escândalo das Sanguessugas em 2006, deputado federal de primeiro e único mandato e filho do presidente de uma importante igreja e convenção estadual do Brasil há décadas. Homem que hospedava Daniel Berg! O deputado de primeira viagem se viu grampeado com autorização da Justiça, dizendo ao Vedoim que estava "no sufoco". O que aquele senhor fez? Sequer voltou à nossa igreja para pedir desculpas. Meses antes, pedira votos, e depois do escândalo pediu de novo, mas felizmente perdeu. Pelo menos isso. Mas não houve disciplina...
Se for para a obra de Deus vale tudo? Esse pragmatismo é perigoso: o caixa dois do PT surgiu assim, culminando no mensalão que os petistas hoje dizem ter sido uma invenção do Roberto Jefferson. Foram apenas "recursos não-contabilizados" de campanha, como se isso não fosse crime eleitoral. Segundo o Lula, "isso é o que se faz sistematicamente no Brasil". Ora, em sua ética, se for um pecado sistemático, dá para passar.
Está mais do que na hora de crentes se insurgirem contra essa situação nefasta em que se encontra a Igreja brasileira. Não podemos ser a Igreja do Lula. Somos a Igreja de Cristo. Nossos oficiais eclesiásticos não podem ser ordenados simplesmente para formação da "base aliada" do pastor. Lembro de um pastorzinho que me disse: "Aqui na igreja nós temos uma oposição". E emendou: "Precisamos sair para tomar sorvete". Engraçado: será que ele pensou que eu comporia a "base aliada"?

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Mais leveza, mais leveza...

Olhar os problemas da igreja com um coração mais sereno é um desafio para mim. Tenho por natureza uma percepção bastante racional, ou, talvez, racionalista das coisas - se eu tiver algum crítico, ele preferirá a palavra "racionalista". Analiso ou tenho a tendência de analisar os fatos com implacável senso de laboratório: é preto no branco, sim ou não, bom ou ruim, correto ou incorreto, valioso ou medíocre. Sou, de fato, um tanto cartesiano.
Todavia, o Ser Humano não é feito somente de razão. Há também a emoção e a espiritualidade. Alguém que prezo muito, e que tem opinião qualificada, me disse um dia desses que "a razão é depressiva, niilista". Se enxergarmos a vida apenas com a razão, as coisas ficarão muito, muito feias, porque "o mundo inteiro jaz no maligno" (I Jo 5.19). Mas há que se observar que, ao criar o mundo, Deus disse que todas as coisas criadas eram boas ou muito boas (Gn 1.1-31), no que vejo uma apreciação também estética, não simplesmente funcional. O próprio Deus ama o mundo-humanidade (Jo 3.16), é o SENHOR do mundo-cosmos (Sl 24.1), embora não aprove o amor das pessoas ao mundo-sistema de valores (I Jo 2.15-17).
É preciso entendermos que tudo o que existe deve ser analisado sob essa ótica de Deus: o mundo que jaz no maligno é o sistema de valores pecaminosos, mas há um traço do mundo que não é ruim em si mesmo: o mundo em seus aspectos humano e cosmológico.
É por isso que a razão deve estar acompanhada de sentimento e espiritualidade, pois, se deixarmos a razão por si só, não veremos nada de bom nas pessoas nem na Criação. Tudo será um grande sistema corrompido em que tudo deve ser apreciado friamente, sem emoção e sem sensibilidade à esfera espiritual.
Ao examinar a eclesiologia (notadamente a forma de governo) de determinada igreja, se centralizadora ou anarquista; a (de)formação moral e/ou intelectual de pastores e outros líderes; a liturgia muitas vezes tacanha ou formalista...é preciso verificar a existência das coisas boas: a vivência em comunidade, o abraço sincero, o telefonema de solidariedade em momentos difíceis (como recebi deles dois hoje), a palavra dita a seu tempo, a doação do Espírito Santo, o registro da Vontade de Deus em Sua Palavra, que nos enche de esperança.
Bem por isso, eis aqui este discípulo de Cristo disposto a avaliar a Igreja e as igrejas com a mente, mas também com o coração e com o espírito, que formam a habitação do Espírito de Deus em mim.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

"A propina de cada dia nos dai hoje"

O escândalo da quadrilha instalada no Governo do Distrito Federal, sacudido pela Operação "Caixa de Pandora", da Polícia Federal, traz a cada dia novas revelações e vídeos de pagamento de propina a políticos e empresários, uns mais estarrecedores que os outros: dinheiro no bolso, na bolsa, na meia, na cueca, e, novidade das novidades, oração de agradecimento a Deus pela propina recebida...!
Aparecem num dos vídeos o presidente da Câmara Legislativa do DF, LEONARDO PRUDENTE, o então Secretário de Relações Institucionais DURVAL BARBOSA - delator do esquema - e o Corregedor (!) da Câmara, RUBENS CÉSAR BRUNELLI, fazendo uma oração a Deus, nos seguintes termos:

“Pai, eu quero te agradecer por estarmos aqui. Sabemos que nós somos falhos, somos imperfeitos” (...) “Precisamos dessa tua cobertura, dessa tua graça, da tua sabedoria, de pessoas que tenham, senhor, armas para nos ajudar nessa guerra e, acima de tudo, todas as armas podem ser falhas, todos os planejamentos podem falhar, mas o senhor nunca falha”.

Os três oram depois de repartirem a propina. A oração foi conduzida pelo deputado BRUNELLI, que, como vimos acima, pede a "cobertura" de Deus...
Que negócio é esse? Cobertura? Para esse tipo de coisa Deus não oferece nenhum tipo de cobertura.
Por sua vez, a deputada distrital EURIDES BRITTO, que aparece em outro vídeo colocando dinheiro na bolsa, defende-se agora dizendo que o vídeo foi deturpado, e cita até um versículo, contido no Sl 37.5 ("Entrega o teu caminho ao SENHOR, confia n'Ele e Ele tudo fará"). Não, minha senhora! Deus não fará nada em benefício do erro.
Como disse minha esposa, esses senhores esqueceram de que o bom é imitar Zaqueu depois de seu encontro com Jesus, e não antes (quando era um corrupto cobrador de impostos que defraudava seus compatrícios para enriquecer seu patrimônio pessoal - Lc 19.1-10).
Já foi um absurdo ver aquele ladrão, creio que nos EE.UU., agachando-se para orar com a funcionária que ficara nervosa com o assalto. Isso ocorreu há não muito tempo.
Havia também aquele personagem de DIAS GOMES, o ZECA DIABO, que, curiosamente, rezava ao "MEU PADIM PADE CIÇO" depois de cometer assassinatos - pois era matador de aluguel. Não é que "a vida imita a arte"?
Lembro, ainda, do britânico que foi condenado com a ajuda de uma prova definitiva: sua oração de confissão a Deus, desacompanhada de entrega espontânea à Justiça, foi gravada pelos policiais. Escrevi sobre isso aqui no blog.
Se a CNBB surge para se indignar, não o faz sem razão. É motivo para indignação de todos os que são religiosos e de todos os que não o são. Orar para agradecer pela propina nossa de cada dia é o fim do mundo.
Mas não posso, e não vou, ficar apenas na resenha jornalística. Meu ofício é outro: relacionar isso tudo com o triste posicionamento da Igreja que se diz evangélica hoje no Brasil (sim, aquela oração dos nobres políticos tinha jeito de "evangélica", o que se evidencia por coisas como o pedido de "cobertura", invenção mais moderna que se infiltrou nos meandros evangélicos, ainda que sem base bíblica).
É natural que pessoas se aproveitem de um evangelho descaracterizado, de um evangelho sem ética, de um evangelho distorcido, de um evangelho em que o conceito de Graça não é correto. Graça é a disposição divina de perdoar pecados confessados, não o passar a mão pela cabeça de corruptos inveterados. Deus é tão Justo quanto Amoroso. O amor e a justiça se encontraram em pé de igualdade na Cruz, e foi por isso que Jesus morreu. Toda vez que alguém peca deliberadamente, é porque está mais uma vez lançando Jesus na Cruz. E, como diz o autor da Epístola aos Hebreus, já não há sacrifício pelos pecados.
É uma vergonha que alguém tenha a coragem de orar a Deus agradecendo pelo pecado cometido. Mas, veja só eventual leitor (a), é chegado o fim de todas as coisas.













domingo, 29 de novembro de 2009

Liberdade religiosa e benefícios legais

Na edição de hoje da Folha de São Paulo, há uma reportagem de Hélio Schwartsman intitulada "Criar igreja e se livrar de impostos custa R$418". O autor, que é articulista do jornal, narra como conseguiu registrar a "Igreja Heliocêntrica do Sagrado EvangÉlio" (escrito assim mesmo) em dois dias, e, com mais três dias, fazer aplicações financeiras com isenção de Imposto de Renda e IOF. Informa que sua igreja tem um estatuto que prevê sucessão hereditária, sumo-sacerdote e a doação regular da terça parte da renda para o trabalho religioso. Mostra que outros países têm políticas diferentes que privilegiam as religiões, e que isso teria em vista a liberdade religiosa - aqui, vale observar que na maioria dos casos citados no texto a legislação brasileira se mostra superior, mais equilibrada.
Entre as críticas e ironias do autor, encontram-se menções à permissão para que grupos como o Santo Daime, A Barquinha e a União do Vegetal cultivem, transportem e consumam a planta alucinógena ayahuasca, que só podem consumir os membros de seitas dessa natureza; a permissão legal para que alguém, em nome da fé, se negue a doar sangue (referência clara às Testemunhas de Jeová); o privilégio da prisão especial para ministros religiosos, assim como a não-obrigação de prestarem o serviço militar; as imunidades fiscais (para IPTU, ITR, IPVA, ISS, e, em alguns Estados, ICMS, quanto a atividades essenciais à religião); a desnecessidade de requisitos teológicos ou doutrinários para a formação de uma igreja.
O jornalista não aponta uma solução, limitando-se a usar o último parágrafo de um dos textos da reportagem para afirmar que estamos diante de duas possibilidades: acabar com o tratamento diferenciado ou mantê-lo como efeito da democracia...soou, para mim, como espécie de mal necessário.
As informações da reportagem refletem, em geral, os fatos, mas há excessiva dose de ironia, o que ganha especial relevo em se tratando de um ateu confesso, como é o Sr. Hélio Schwartsman.
Já enviei uns dois e-mails para Hélio Schwartsman, creio que em 2008, quando ele escreveu textos na Folha On Line sobre religião e ciência. Ele me respondeu mui educadamente. É um pensador ateu, mas que gosta de tratar de religião. Talvez isso seja alguma questão subjetiva, não nos cabe perscrutar seara tão densa - o fato é que ele incorre em alguns erros importantes:
Primeiro, é muito perigoso abordar um tema inserto (inserido) nas liberdades fundamentais com mais ironias do que sugestões claras de solução. Do jeito que está, fica parecendo que a liberdade religiosa é um perigo, quando perigosa é a tentativa de restringir a liberdade alheia, ainda que ela não me importe em nada.
Segundo, não há que se falar em requisitos doutrinários ou teológicos para criar uma igreja, ao menos do ponto de vista legal. Esse aspecto é espiritual, de fé, e jamais um aspecto jurídico. Os crentes é que precisam ter maturidade e não enveredar por caminhos tortuosos, em igrejas de fachada, com pastores falsos. Não há que se falar em restrição jurídica à formação de igrejas só porque alguém pode ser mentiroso.
Terceiro, nada há de errado com o art. 44, §1º, do Código Civil: ele é perfeito ao estabelecer a não-ingerência do Estado na constituição, estruturação e funcionamento de organizações religiosas.
Quarto, se há a necessidade de desonerar outras entidades de impostos, para estender, por exemplo, a organizações assistenciais os benefícios dados a organizações religiosas, essa deveria ser a proposta do jornalista, e não o contrário: questionar uma garantia da liberdade religiosa para ser mais justo. Isso é um flagrante paradoxo!

sábado, 28 de novembro de 2009

Unanimidade, consenso e comunhão: uma reflexão política

Dizia o escritor Nelson Rodrigues que "toda unanimidade é burra". Devo admitir: entendo a frase dele, e concordo, porque toda vez que deparo com a unanimidade ela me assusta - como essa unanimidade em torno do presidente da República, Sr. Luiz Inácio Lula da Silva. E isso me faz pensar na diferença entre unanimidade, consenso e comunhão...
Alguém me dirá: "mas o presidente não tem unanimidade, só 80% de aprovação..." E eu pergunto: para um governante, isso não é unanimidade? Quando amplos setores sociais aprovam um líder político, isso não é de preocupar? Quando expressiva parte da imprensa, movimentos sociais, sindicatos, intelectuais e funcionários públicos passam a defender o presidente apesar de tudo, não é para causar estranheza? Que o mundo se irmane em torno de Lula - não me importo - e ainda mais me espantarei!
Nenhum presidente teve paz com movimentos como o MST, mas Lula tem. Nenhum presidente teve paz com as centrais sindicais, mas Lula tem. Por quê? Porque Lula é o melhor de todos, o grande estadista, o maior político que o Brasil já teve? Não! É tão-somente porque ele fez um pacto com grupos de esquerda: "vocês me deixam tranquilo e eu dou dinheiro a vocês". Esse foi o "slogan" dele em 2006: "Deixa o homem trabalhar". E é essa a sua preocupação com o TCU: o Tribunal de Contas da União fiscaliza as obras do PAC, e Lula não gosta, assim como Marina Silva fiscalizava duramente as obras em nosso País, na área ambiental, e Lula não gosta muito de fiscalização. Marina Silva teve que sair, assim como o TCU pode sofrer restrições a partir de projeto de lei de iniciativa do Governo.
Ora, consenso é diferente: consenso é refletido, fruto de negociações, lutas, debates. A democracia se constrói com o consenso. As demandas sociais são dirigidas ao Governo, que as discute e decide, de acordo com o orçamento, as prioridades, o programa político, as alianças. Mas acordo direto com movimentos sociais, sindicatos e organizações não-governamentais menosprezando o Parlamento não me parece nada republicano. Parece-me muito mais uma cooptação.
Acredito no consenso. Gostaria que os políticos brasileiros buscassem o consenso, e não o "acordão", a maracutaia, o mensalão, o caixa-dois. Consenso é a alma da boa política, e só estadistas sabem o que é isso.
Agora, comunhão é diferente, é coisa espiritual. Somente a Igreja de Cristo pode conhecer a verdadeira comunhão. Ouvi certa vez um católico dizer algo muito interessante. Foi o Cardeal Cláudio Humes, à época do Conclave que elegeria o estranho Joseph Ratzinger. Guardadas as devidas reservas que tenho à Igreja Romana, essa frase dele tem muito sentido: "A Igreja não vive de consenso, mas de comunhão". Em se tratando de política, o bom é o consenso. Em se tratando de igreja, o bom é a comunhão.
O problema é que tanto os governos como muitas igrejas preferem buscar a tal unanimidade, a troco de "panis et circensis". Para onde iremos, pois?

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Fetichismo e mercantilismo na "Terra Santa"

Vejo na primeira página da edição do New York Times para a Folha de São Paulo, de hoje, um batismo coletivo de evangélicos brasileiros no rio Jordão. Mostro para a minha esposa, e ela emenda de imediato: "Esses batismos no Jordão só servem para vender pacote turístico". É verdade!
Viagens a Israel promovidas por igrejas; batismos no rio Jordão; bibelôs da "Terra Santa": espere aí...qual o limite entre a simples visita turística e a prática do mercantilismo religioso associado ao fetichismo "evangélico"?
Ninguém precisa ser batizado no rio Jordão. Não precisamos desse aspecto místico em nossa Fé. Nossa espiritualidade não se faz de objetos sagrados (fetichismo).
Jesus foi batizado no rio Jordão porque esse era o território de João, o Batista. Essa era a sua área, o seu campo ministerial, usemos a palavra que acharmos mais adequada. Mas não havia um poder místico no rio em si. O poder estava (e está) N'Aquele a respeito de Quem João exclamou: "Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo".
Nada há de especial no rio Jordão, e tanto isso é verdade que Naamã, general sírio, achou estranho ter que mergulhar (sete vezes) num rio tão sem expressão, havendo rios melhores em sua terra (Farfar, atual Awaj, e Abana, atual Barada). Enquanto esses dois rios de Damasco eram límpidos, o Jordão tinha água barrenta*.
De fato, Eliseu mandou o general mergulhar no Jordão para que fosse curado de sua lepra (II Rs 5.1-19), mas não há nada de normativo nisso, nada de cabalístico, e eu não tenho que viajar a Israel para mergulhar no Jordão, seja uma vez para o batismo, seja sete vezes para simbolizar qualquer coisa.
Agências de viagem ganham dinheiro com a fé incauta de muitos. Já vi um pastor dizendo que a viagem a Israel seria a mais importante de sua vida, e a igreja que promovia a viagem vendia o produto como "a viagem dos seus sonhos". Tudo bem, não sejamos radicais. Mas, por que somente Israel teria esse valor, se outras nações antigas, como Egito e Grécia, guardam semelhante valor histórico, e até fazem parte dessas excursões?
É claro, eu sei, trata-se de algo muito mais profundo: uma doutrina dispensacionalista e escatológica que enxerga Israel como equiparado à Igreja, e que, por isso, vê nos limites territoriais de Israel e na etnia dos judeus algo de sagrado, parte do Plano de Salvação. Não recuso totalmente a ideia de um plano especial para Israel, mas discordo dessa doutrina segundo a qual Deus coloca Israel e a Igreja como dois povos estanques, pois, de acordo com o apóstolo Paulo, foi derrubada a parede de separação, e quem não era de Israel passou a ser na medida em que se tornou "filho de Abraão" pela fé (Eféfios). E nem todos os que nascem em Israel são israelitas (Rm 9 a 11 é leitura necessária a esse tema). Ser filho de Abraão é ter a fé exercitada por Abraão no sentido de por ela ser justificado.
Ora, estou caminhando para outra seara, mas deixe-me dizer que essa doutrina (dispensacionalista e de natureza escatológica) não é tão ruim como o fetichismo e o mercantilismo, porque esses são pecaminosos, e a doutrina secundária equivocada é apenas uma doutrina secundária equivocada, principalmente em se tratando de coisas futuras. Mas há sempre o perigo de que Israel, lugar tangível, físico, existente, seja tomado como lugar sagrado, diferente, especial, soberano - quando não é.
A Nova Jerusalém não é dessa Terra, não está em Israel nem em Pernambuco. Na verdade, a Nova Jerusalém é a Igreja de Cristo.

*Quanto aos nomes atuais dos rios e suas características em relação ao Jordão, ver Bíblia Anotada, 1994, p. 492.

O Criador e Sua obra-prima

Viu Deus que era muito bom - essa afirmação, registrada em Gn 1.31, é precedida de várias declarações de que Deus considerou "bom" o que criou (a luz, os céus, a Terra, os mares, o sol e a lua, os vegetais, as aves, os répteis e os grandes animais aquáticos). Somente no sexto dia Ele considerou "muito bom" o que emanou de Seu Supremo Poder Criativo: nesse rol estava a Humanidade.
Já ouvi dizer que essa frase de Deus - quanto ao ser "bom" ou "muito bom" o que criara - tem um aspecto de apreciação estética. Seria como o artista que, ao ver sua obra acabada, exclama com prazer: "Que maravilha".
A estética pertence a Deus. Aliás, Cosmos e cosmético não têm a mesma origem etimológica? Tanto o Cosmos quanto o cosmético têm a ver com beleza, estética. O Universo é belo e a Humanidade, quando criada, era algo muito bom.
Há entre os ambientalistas uma falsa ideia que se denomina "biocentrismo": a defesa do meio ambiente por seu valor em si mesmo. A isso contrapõe-se o antropocentrismo: a elevação do Homem como senhor do Universo - do qual também discordo. Mas não estou aqui tratando de Gn 1.26-28, onde temos o mandato cultural (o Homem é senhor enquanto cuidador, e não enquanto dominador). Refiro-me ao aspecto da beleza, da estética, do prazeroso, do lúdico, enfim, da Humanidade como obra-prima da Criação.
Falar em homens e mulheres como a obra-prima de Deus é, para os biocentristas, uma heresia, pois eles acreditam que a Humanidade é somente mais um elemento no Universo, igual a todos os demais seres. A par disso existe uma tal espiritualidade em que as pessoas andam descalças, abraçam árvores e pensam que até nossos pensamentos são guiados por energias cósmicas. Onde estará a superioridade responsável do Homem nessa teoria?
De outro lado, estão os antropocentristas, os humanistas, para os quais "o homem é a medida de todas as coisas - das que são enquanto são, e das que não são enquanto não são". O que é isso? Quer dizer que a Humanidade é o critério de avaliação de tudo? Então estamos perdidos mesmo!
Mas há como equilibrarmos isso. Podemos ver a Humanidade como obra maior de Deus sem enaltecê-la demais. Como? Enxergando-a como Humanidade, e não como divindade. A Humanidade come de novo da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal quando se esquece disso e pensa que pode ser como Deus. Basta conhecer-se e reconhecer-se como criatura abençoada e próspera do SENHOR, criação criativa, objeto do amor incondicional e sacrificial de Deus, parceira de uma relação interpessoal e eterna.
É bonito ser humano. Apesar de tudo, é bonito o Ser Humano.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A sublimidade da ordenação episcopal

Percebo certo descaso para com a ordenação episcopal em determinadas igrejas, como que uma banalização. Isso se revela na ordenação "pelo conjunto da obra", como se fosse premiação por serviços prestados; ou na consagração em massa, sem critério; ou, ainda, na ordenação para formar um grupo de apoio, como fazem os políticos; e na tendência de querer ser pastor entre jovens sem perspectiva na vida.
Talvez a responsabilidade por essa distorção deva ser compartilhada por sistemas eclesiásticos em que o pastor é maioral, principal, chefe, e não um servo de todos, como recomendam as Escrituras. Como já devo ter escrito antes neste blog, alguns homens sem preparo, experiência nem vocação acorrem aos líderes porque desejam ser “lembrados”, numa corrida que se assemelha a de empregados nas empresas em busca de promoções. Isso favorece a bajulação, a centralização de decisões, a formação de cúpulas, a incapacidade de renovação de líderes e o desestímulo à criatividade. Assim, o sistema tem sua culpa.
Dá para imaginar o quanto uma igreja valoriza seus pastores (e presbíteros) pela forma dos cultos de ordenação. Nas igrejas reformadas e batistas, as ordenações são feitas particularmente: o pastor é ordenado na presença de familiares e amigos, além, é claro, da igreja, que publicamente o acolhe como um novo ministro da Palavra. Já em igrejas pentecostais, como a minha Assembleia de Deus, ordenam-se numerosos pastores, tudo de uma vez, e não é raro que isso ocorra quase de surpresa, com poucos dias de antecedência até mesmo para o pastor a ser ordenado. Não dá sequer para se dirigir ao aspirante a pastor uma palavra especial, que leve em consideração a biografia do sujeito, seu chamado, seus talentos...A ordenação por atacado não valoriza a vocação.
Vejo, ainda, que a atribuição da pregação a quem não é pastor precisa ser condicionada - não digo "limitada" nem "proibida", mas condicionada. Não estou dizendo que somente pastores podem pregar – eu mesmo não sou pastor (nem diácono), mas aceito a missão de pregar. Sei que todos os crentes em Cristo são sacerdotes, que a pregação deve ser realizada por todos. Entretanto, deve-se registrar que a pregação é uma das atribuições do pastor, e não pode ser conferida a qualquer pessoa que fale bem ou ache que pode assumir o púlpito por qualquer motivo – porque fala em línguas, porque grita, porque decora versículos bíblicos, porque imita pregadores famosos, porque conhece as doutrinas, porque tem conhecimento, porque se emociona.
Admiro as igrejas que veem o pastor como um homem vocacionado. Vejo uma distinção entre igrejas pentecostais e igrejas históricas nesse aspecto: enquanto os pastores pentecostais são "separados para o ministério" e "pelo ministério", os pastores de igrejas históricas são ordenados pela igreja por sua vocação. Nas igrejas históricas parece haver uma ênfase no chamado individual, não apenas na necessidade que a igreja tem de pastores.
Os bispos e pastores anglicanos usam aquelas roupas especiais. Alguns pastores metodistas e outros mais gostam de utilizar um tipo de roupa diferente com aquela gola de padre. Até mesmo os pastores assembleianos têm uma espécie de "uniforme", o terno, embora esse seja o uniforme de todo assembleiano tradicional...Conquanto eu não seja adepto do uso de vestes especiais pelos líderes de igreja, há um sentido no seu emprego: além da questão tradicional, há uma ideia de reconhecimento de que o pastor é um homem chamado por Deus. Veja: não estou defendendo o uso dessas roupas, mas elas têm um sentido que vai além do mero tradicionalismo.
Pastor é aquele que poderia ser muitas outras coisas, mas foi escolhido para apascentar o rebanho de Deus. Não pode ser de outra forma.

sábado, 14 de novembro de 2009

A Globo, mais uma vez a Globo...

Eu nunca assisto ao programa de Ana Maria Braga, graças a Deus. E também não assisto ao Ó Paí Ó, que tem meu conterrâneo Lázaro Ramos como protagonista. Mas ontem, por coincidência, no início e no final do dia, deparei com os dois programas, e fiquei triste.
Primeiro, ao mudar de canais pela manhã para ver o que poderia assistir, vejo que Ana Maria Braga estava começando mais uma parte de uma série chamada O Sagrado, e nesse dia o tema era justamente o Protestantismo. O entrevistado? Ninguém menos que o conhecido pastor batista Israel Belo de Azevedo. O problema, porém, aconteceu depois, já com o entrevistado diante de Ana Maria Braga, que iniciou sua fala demonstrando o quanto ela se preparou para a série de reportagens: "Eu sempre achei o Protestantismo muito igual ao Cristianismo". Preciso comentar? Vindo de Ana Maria Braga, com todo o respeito do mundo, não dá para ficar surpreso. Desliguei a TV, com a máxima aprovação de minha esposa.
À noite, depois de assistir ao excelente filme A Vida dos Outros (altamente recomendável), vi que na Globo o Ó Paí Ó mostrava o Lázaro Ramos tentando alertar uma pequena igreja de que o seu pastor era, na verdade, mentiroso e ladrão. O apelido da figura? Queixão. Aqui na Bahia queixão é o sujeito cheio de conversa mole, pelo que sei. E o tal pastor Queixão superfaturava a obra do templo (parecido com congregações pentecostais) para se apropriar indevidamente dos dízimos. O personagem de Lázaro Ramos tenta explicar isso a uma irmã, que, credulamente, o expulsa da igreja como quem escurraça um demônio.
Existem pastores corruptos? Sim. Existem pessoas simplórias que acreditam em tudo o que o pastor diz? Claro. Mas tenho aqui umas considerações a fazer:
a) os personagens evangélicos da Globo são geralmente hipócritas, mentirosos, corruptos, fanáticos ou promíscuos. Graças a Deus eu não assisto a novelas há um bom tempo, mas acompanho as notícias jornalísticas sobre esses personagens. A Globo cria um estereótipo, uma generalização, de modo que as pessoas, ao final da cena, dizem: "É assim mesmo, todo pastor é ladrão", quando, na realidade, o mundo evangélico é muito maior que isso.
b) personagens espíritas na Globo são sempre bons conselheiros, capazes de ajudar a todos com suas palavras boas. "Casais" homossexuais vivem melhor que os casais heterossexuais, que não duram a novela inteira sem brigas e/ou traições. Será isso casual?
c) A série de reportagens do Jornal Nacional sobre as obras sociais dos evangélicos foi apenas um extrato do que a Globo pensa em fazer para não perder esse grande filão que é o público evangélico - afinal, a Record está aí (embora a Rede Record seja igual ou pior que a Globo em exposição da imoralidade em amplos sentidos). Para uma série de reportagens sobre os benfazejos evangélicos existe um turbilhão de personagens mal-fabricados, enredos induzidos por preconceito e dezenas de eventos de grande porte pouco noticiados.
d) Essa singela análise nada tem que ver com as denúncias contra os líderes da Renascer em Cristo ou da Universal do Reino de Deus. Repercutir investigações da Polícia e do Ministério Público não é anti-jornalismo nem perseguição aos evangélicos. Pelo contrário, deve-se falar a verdade a todo custo. Não é a isso que me refiro. Refiro-me ao retrato demasiadamente generalizado e distorcido que a Globo, como nenhuma outra emissora brasileira de televisão, faz do povo evangélico.
A ignorância de Ana Maria Braga, que até hoje parece não saber que Protestantismo é Cristianismo, deve doer menos que a contumácia da Globo em dar à sociedade uma visão errada das igrejas evangélicas. Mas, pensando bem, não somos deste mundo, como Jesus mesmo não é deste mundo (Jo 17.16). Somos estrangeiros e peregrinos (I Pe 1.17), certo?
Não somos daqui. Se o mundo nos considerar como mais um grupo religioso nessa sociedade pluralista, precisaremos rever nosso comportamento e nossa pregação. E, mais do que isso, se o mundo começar a nos achar iguais, estaremos perdidos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Conversando com adolescentes

A irmã que cuida de adolescentes em minha igreja me convidou para dar um estudo sobre o chamado (vocação). Dei o estudo, eles gostaram, e eu também. Depois, dei mais um estudo em que o tema deveria ser "evangelização", e optei por falar sobre a Queda, partindo do princípio de que para anunciar o Evangelho nós precisamos conhecê-lo de verdade. A Queda é um conceito fundamental para quem se aproxima da Bíblia. Talvez devesse começar pela Criação, mas comecei pela Queda. Na quarta-feira seguinte (04/11), fui lá de novo, e falei sobre o pecado. Tenho procurado falar sobre os fundamentos da Fé Cristã.
Os adolescentes são muito vivos, perspicazes. Eles têm o raciocínio rápido, memorizam muito do que a gente fala, e conseguem fazer interpretação de texto melhor do que a média dos irmãos de gerações precedentes - pelo menos essa é a impressão que fica, sem caráter científico...
Não é a primeira vez que me dirijo a adolescentes. Parece que eles gostam de mim, embora eu seja uma pessoa considerada formal. Bem, na Assembleia de Deus a gente usa a gravata até para falar a adolescentes, mas minha formalidade está mais nas palavras do que no figurino.
De toda sorte, tem sido muito bom esse aprendizado com meus amigos adolescentes. Quero continuar falando sobre o tema do pecado, mas abordando outros textos bíblicos, avançando na conscientização do conceito de pecado para que eles vão se distanciando daqueles conceitos limitados que muitos ainda mantém e dos conceitos preconceituosos que o senso comum espalha. Refletir sobre a Queda e o pecado é uma coisa necessária para quem vai evangelizar. Como iremos anunciar o remédio se não conhecemos direito os males da doença? Na verdade, conhecemos na prática os males do pecado - nós que somos pecadores - mas é necessário formular sistematicamente o nosso entendimento a respeito da necessidade moral e espiritual da Humanidade.
Ore por nós, prezado (a) leitor (a). Esse tem sido o meu primeiro trabalho aqui em Salvador, e o primeiro também depois de sete meses*.
*Corrigi o texto porque antes colocara um ano, mas havia esquecido de que quando chegamos à Bahia e moramos um período em Alagoinhas (de novembro de 2008 a abril de 2009), eu fui professor de adolescentes e segundo superintendente da Escola Dominical da igreja-sede naquela cidade.

Série Vocacionados - IV (Amós)

Amós foi um fazendeiro judeu do Séc. VIII a.C. Dizem os estudiosos que seu livro é um dos mais bem escritos do Antigo Testamento. Seu ministério teria durado 40 anos. Com uma veia exortativa muito forte, esse fazendeiro judeu com talentos literários sai de sua terra e parte para Israel, o Reino do Norte, a fim de pregar a mensagem que Deus lhe havia transmitido, numa época que precedeu a invasão de Samaria pelos assírios.
O que me chama a atenção na vida de Amós, em termos de vocação, é que ele menciona o fato de não ser “profeta nem discípulo de profeta, mas boeieiro e colhedor de sicômoros” (Am 7.14). Tratava-se de um homem simples, que não passara pelas escolas de profetas, instituições criadas por Samuel cerca de três séculos antes. Amós tinha consciência de seu chamado e de que Deus lhe entregara uma missão, que ele cumpriu cabalmente.
A vocação de Amós não o livrou de ser alvo de uma conspiração conduzida por um sacerdote (Am 7.10-17). Mas ali estava um homem de fibra, sem medo das consequências de sua missão, porque Deus era com ele.

A oração e o crime *

Vejam só que notícia curiosa: o britânico GEORGE MABEN, de 45 anos de idade, era investigado pelo assassinato de sua sogra, MAUREEN COSGROVE, 65, mediante estrangulamento. As suspeitas pairavam sobre MABEN porque no dia do crime ele havia sido filmado, por câmeras de circuito interno, tomando um ônibus da casa de sua mãe para a casa de COSGROVE, e colocando luvas durante o trajeto. No mesmo dia, MABEN foi com a namorada à casa da mãe dela, onde encontraram o corpo. Além da gravação, foram encontradas fibras das roupas da sogra nas roupas que MABEN havia usado. Mas a prova cabal foi a seguinte: um grampo colocado pela polícia no carro de MABEN captou sua oração de confissão a Deus: "Por favor, Deus, me ajude... para que eu e a Lucy sejamos retirados das investigações policiais e que tudo fique bem". Eu simplesmente não podia mais aguentar. Todo dia, ela estava me destruindo. Por favor, Deus, você me perdoa? Por favor, Deus, me desculpe".
Talvez aqui no Brasil essa prova não fosse aceita em nome do direito à privacidade, à intimidade, quiçá por algum argumento de cunho religioso. Mas na Inglaterra a prova foi aceita com a natureza de confissão. De fato, o homem confessou a Deus o seu crime, e essa declaração não foi usada com exclusividade, mas em conjunto com o vídeo e a prova pericial. O aspecto marcante nessa história é justamente a polícia aproveitar como prova uma oração, algo de que nunca ouvi falar. De algum modo, o indivíduo foi capturado por sua religiosidade.
De toda sorte, sem querer julgar à distância, e com poucos elementos, as reais intenções do rapaz, vê-se que sua oração não era para que tudo fosse esclarecido nem para que Deus o protegesse quando de sua entrega à Justiça. Ele simplesmente pediu para ser livrado do inquérito, junto com sua namorada. É verdade que ele pediu perdão, confessou o fato, mas não demonstrou arrependimento.
Ainda que assim não fosse, ainda que GEORGE MABEN houvesse demonstrado completo arrependimento diante de Deus e obtido a maravilhosa Graça do SENHOR para a sua Salvação, ele cometeu um crime, pelo qual já foi até condenado, e isso não muda só porque ele orou a Deus. As coisas precisam ser discernidas. Deus livra o homem da condenação do inferno, mas não necessariamente o livra da condenação social nem da condenação judicial.
Sabemos que o brilhante e admirável rei Davi mandou matar Urias para encobrir o adultério com Bate-Seba, mulher de Urias. A maneira como Davi arquitetou e arranjou a morte de Urias foi muito perversa: o próprio Urias levou consigo a carta com as orientações de como ele deveria ser colocado, sozinho, no lugar mais agitado da batalha. E o homem morreu mesmo. Davi casou-se com a mulher dele, mas o primeiro filho morreu. O segundo filho veio a ser Salomão; Bate-Seba, a adúltera, entrou para a genealogia de Jesus Cristo, mas as consequências do crime e do adultério de Davi foram terríveis para a sua família, como declarado pela boca do profeta Natã. A espada não se apartaria da Casa de Davi. Foi assim que Davi foi duramente perseguido por seu filho Absalão; sofreu um golpe de Estado pelas mãos de Adonias; e suportou o incesto cometido por Amnon contra Tamar. Tudo isso Davi testemunhou em sua própria família.
Alguns dizem que Davi foi um péssimo pai. Eu não sei se isso pode ser afirmado com categoria, pois não se vê na Bíblia o registro de como Davi teria errado quanto à educação de seus filhos. Mas há o registro claro de que Davi sofria as consequências do assassinato e do adultério. Não sei se podemos afirmar que Davi foi um pai ruim, mas tenho certeza de que ele teve uma família problemática por culpa sua.
Davi foi, sem nenhuma dúvida, o rei mais devotado a Deus em toda a História de Israel. Ele tinha verdadeira paixão pelo Sagrado. Davi compunha salmos porque tinha prazer em Deus. Aquele episódio da condução da Arca da Aliança para Jerusalém, em que Davi dançou alegremente, demonstra o quanto ele se entregava à sua religiosidade. Davi era espontâneo e entendia o sentido da adoração e da comunhão com o SENHOR. Seu culto era genuíno. Todavia, eis que o homem devotado, religioso, pleno de espiritualidade javista, não foi poupado por Deus – Davi sofreu não só os efeitos (morais, intelectuais e físicos) da Queda, mas também os efeitos morais de sua própria queda.
Agora, como é que eu começo a pensar em Davi ao escrever sobre um britânico que foi condenado com base numa oração de confissão a Deus? A relação entre os dois personagens consiste no fato de que nenhum dos dois foi livre das consequências de seu pecado só porque estabeleceu contato com Deus. E essa reflexão serve para uma série de situações em que pessoas religiosas passam por sérios problemas mesmo cultivando a espiritualidade cristã, justamente porque enredadas pelos malefícios de seus pecados. E não se trata de uma espécie de maldição, mas de frutos das atitudes, ações, omissões e pensamentos pecaminosos, segundo a lei moral da semeadura: “Aquilo que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6.7).

*Veja um pouco da história de Davi em II Sm 6;11;12.1-25;13-15.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Marcha para Jesus – mas, que Jesus?

A imprensa tem dado notícias sobra a Marcha para Jesus, ocorrida ontem, dia 02 de novembro de 2009, em São Paulo-SP. Fala-se, por exemplo, do cálculo de participação, feito pela Polícia Militar, dando conta de que um milhão de pessoas teriam ido ao evento; do tema, que era a derrubada de “gigantes”; dos coordenadores ESTEVAM e SONIA HERNANDES, recentemente de volta ao Brasil depois de condenação e prisão domiciliar por entrada ilegal de dólares nos Estados Unidos (havia dólares não declarados dentro da Bíblia, de um porta-CD e de uma mala); do uso da Marcha para limpar a imagem do “apóstolo” e da “bispa”, contra os gigantes da “discriminação” e do “estereótipo”.
Ouvi também uma reportagem na CBN sobre a sujeira que ficou depois, e como estava dando trabalho para limpar. Refiro-me à sujeira enquanto lixo mesmo (nada de figura de linguagem).
Li na Folha de São Paulo de hoje um texto de FERNANDO DE BARROS E SIIVA intitulado A Marcha de Jesus e o Diabo. Ele cita a proximidade entre o casal HERNANDES e a política do presidente LULA, que abona corruptos e se irmana com a Rede Record ao dizer que ambos – ele e a Record – são alvos de preconceito. O próprio senador e bispo licenciado MARCELO CRIVELLA esteve na Marcha e, de acordo com o colunista da Folha, disse expressamente que era preciso revogar a “injúria” e a “calúnia” perpetrados contra os líderes da Renascer em Cristo. O colunista conclui dizendo que, num país em que Judas e Jesus são aliados políticos, falar em legalidade “parece até coisa do diabo”.
Eu teria até motivos para ter vergonha da Marcha para Jesus se ela tivesse algo a ver comigo. Mas não tem. Afirmo que não tem. Como a imprensa tem dito, trata-se de evento coordenado por igrejas neopentecostais, e não sou neopentecostal. Na verdade, esse negócio de “neopentecostal”, como já escrevi aqui mesmo, é um conceito demasiado amplo, que abrange igrejas de todo tipo, muitas delas pseudopentecostais, como num texto de Dom ROBINSON CAVALCANTI, que li na Ultimato há um tempo atrás. Se eles nem são neopentecostais de fato, se nada têm de pentecostais no sentido exato do termo, por que eu vou me preocupar demais com isso?
Até duvido de que o evangelho que eles pregam seja o Evangelho da Cruz. Na realidade, não é. E o Jesus deles não é o SENHOR Jesus Cristo, o Filho de Deus, que renunciou por um pouco à glória celestial para morrer em substituição penal aos pecadores e ressuscitar para garantir a vitória sobre o pecado, a morte e o mal. Esse é o Evangelho, esse é Jesus, em Quem eu creio: o Jesus humilde, manso, justo, amoroso, paciente, sincero, abnegado, e não um Jesus arrogante, corrupto, tolerante com o pecado.
O Jesus da Marcha para Jesus é um cara legal que acredita em maldição hereditária, que sorri para políticos corruptos, que atropela textos bíblicos com interpretações absurdas para dar base a palestras “evangélicas” de auto-ajuda; um Jesus que não se importa com dólares não declarados; um Jesus sem ética ou com uma ética ampla demais ou seletiva.
Ora, prezado (a) leitor (a), você me dirá que a Marcha para Jesus ocorre em todo o Brasil, e que nem todo mundo que dela participa é da Renascer, e que nem todo mundo da Renascer concorda com práticas erradas, e que não se pode generalizar. Veja bem: a partir do momento em que a Marcha para Jesus se torna um slogan, é inevitável a vinculação à imagem do casal HERNANDES, porque o nome do evento funciona como uma espécie de franquia, aconteça onde acontecer.
A sociedade passa a entender que todo mundo que vai à tal Marcha para Jesus concorda com eles, o que ficou ainda mais forte quando o senador MARCELO CRIVELLA apelou para a revogação das denúncias contra o casal como se eles não houvessem sido condenados por ingresso ilegal de dinheiro num país estrangeiro. E, como a imprensa já trabalha naturalmente com generalizações, fica fácil supor que a Marcha para Jesus é um episódio de desagravo de dois praticantes de um crime que foram condenados pela Justiça americana e acusados de vários crimes noticiados pela imprensa brasileira.
O que deveriam fazer, então, o “apóstolo” e a “bispa”? Deveriam pedir perdão em público, e ontem seria um dia estratégico para isso. Todo mundo repercutiria essa notícia. Era preciso aproveitar a oportunidade e pedir perdão pelo pecado cometido. Pedir perdão é uma coisa evangélica. O perdão interrompe o fluxo que vai do pecado ao inferno. Mas, como eles pregam outro evangelho, corro o risco de estar perdendo o meu tempo. Mas tenho para mim que declarar a vontade de Deus nunca é perda de tempo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Série vocacionados – III (Samuel)*

Chegamos a Samuel. Eis um personagem cuja vocação muitos gostariam de imitar: concebido miraculosamente por uma mulher estéril, é consagrado por Deus desde a infância, vai morar com o sacerdote, um dia ouve a voz de Deus lhe fazendo um chamado explícito, quando ainda menino, e, depois de alguns anos, se torna juiz, sacerdote e profeta, alguém muitíssimo respeitado em sua pátria...Esse é um currículo e tanto!
É verdade que Samuel foi uma referência em Israel. Ele sucedeu o fraco sacerdote Eli, que permitiu que seus filhos fizessem coisas muito feias. Ele guiou o povo numa guerra vitoriosa contra os eternos inimigos filisteus. Ele deu estabilidade política a Israel num tempo em que não havia rei. Ele ungiu dois monarcas, Saul e Davi. Ninguém conhece a história de Israel se não conhece a história de Samuel.
Mas a história dos vocacionados nunca é linear como nós pensamos. Por mais que a carreira de um vocacionado pareça muito “certinha”, não é esse o caso. Certamente não foi o caso de Samuel.
Precisamos recordar que Samuel repetiu a experiência de Eli, pois seus filhos, que também eram juízes, não andavam em seus caminhos, a ponto de o povo pedir um rei. De fato, um dos motivos para o povo querer um rei, em vez da teocracia, foi a corrupção dos filhos de Samuel. Em que teria ele errado? Até que ponto vai a responsabilidade dos pais pelos pecados dos filhos? Não estou tratando disso, pois sei que a responsabilidade é pessoal, e o texto bíblico não deixa entrever que Samuel tenha dado a seus filhos uma educação ruim. O fato é que ele teve esse percalço em sua carreira, e, por mais que se considerasse o bom procedimento de Samuel, sempre estaria ali a lembrança de que seus filhos eram juízes corruptos, que aceitavam suborno.
Além disso, quando o povo pediu um rei, Samuel tomou as dores para si. Isso não demonstra um erro seu, mas uma suscetibilidade. Samuel, meus caros, era homem como nós. Ele sentiu-se rejeitado, quando o rejeitado ali era Deus – Israel não queria a teocracia, mas a monarquia. É comum assumirmos a responsabilidade por situações que não estão a nosso alcance ou que não foram criadas por nós. Isso mostra um pouco de nossa insegurança. A diferença na vida de Samuel foi que ele, sentindo-se rejeitado, resolveu orar. Essa é a atitude correta diante de todas as suscetibilidades.
Olhando para a vida de Samuel, não posso deixar de me sentir tranquilo: não nasci miraculosamente de uma mulher estéril. Não fui viver aos cuidados de um pastor importante para depois sucedê-lo. Não ouvi a voz de Deus quando menino. Não venci os filisteus nem me tornei juiz, profeta e sacerdote. Mas, à semelhança de Samuel, minha carreira não é linear, e tenho minhas suscetibilidades. A resultante disso tudo é a necessidade de conversar com Deus.
*Fundamentado nos 10 primeiros capítulos de I Sm.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Série vocacionados – II (Moisés)*

Prosseguindo com a série vocacionados, chegamos a Moisés, o legislador, profeta e líder de Israel na caminhada de 40 anos pelo deserto, saindo do Egito rumo a Canaã, a Terra da Promissão.
Como fizemos com Davi, quero selecionar algumas passagens da vida de Moisés especialmente quando à sua chamada à missão que Deus lhe entregaria. Vejamos:
(1)Moisés teve seu nascimento e sobrevivência assegurados por Deus. As parteiras hebreias deveriam, segundo a ordem de Faraó, matar as crianças do sexo masculino. Como as parteiras não o fizeram, sob o argumento de que as mulheres hebreias davam à luz antes que elas chegassem para fazer o parto, Faraó ordenou que os meninos fossem lançados no rio. Mas o menino Moisés, por ser bonito, foi escondido por três meses e depois colocado num cesto no rio, com sua irmã Miriã observando o que lhe aconteceria. Por providência divina, a criança foi adotada pela filha de Faraó e ainda teve o privilégio de ser amamentado e educado pela sua própria mãe, Joquebede, que recebia um salário para isso. Não poderia ser melhor. Uma série de providências de Deus marca o nascimento e a infância de Moisés, cujo nome (egípcio) significa “tirando”, numa alusão ao fato de ter sido retirado das águas;
(2)Estêvão nos informa que Moisés foi “instruído em toda a ciência dos egípcios e era poderoso em suas palavras e obras” (At 7.22). Considerando que o Egito era o Império dominante do mundo de então, podemos imaginar qual o nível de formação a que Moisés foi submetido, incluindo artes militares. Embora haja a ideia de que Moisés era gago, porque mais tarde ele diz ser “pesado de língua”, não consigo imaginar uma pessoa gaga e ao mesmo tempo poderosa em palavras. Uma coisa não combina com a outra. O que entendemos do discurso de Estêvão é que Moisés foi educado conforme a instrução normal que os egípcios concediam a seus nobres, pois, afinal, ele era filho adotivo da filha de Faraó;
(3)Moisés recebeu dois tipos de formação: como egípcio e como hebreu. Sua formação egípcia lhe deu conhecimento, domínio de artes bélicas, habilidade para legislar – vale dizer que as regras da Lei de Moisés não são em tudo originais. Apesar de ter sido inspirado pelo Espírito Santo (II Pe 1.20,21) – e eu creio nisso – Moisés usou seus conhecimentos de direito, e isso é bastante claro quando vemos a adoção de costumes de outros povos e normas de direito civil, penal, agrário, ambiental, processual, humanitário, ainda que elementares em sua técnica, conceitos e principiologia, se comparadas com as normas contemporâneas. O outro tipo de formação se deu na tenra infância, quando Moisés foi formado em seu caráter. Não sou dado a especulações, não gosto de dar azo à minha pobre imaginação, mas posso sugerir com alguma probabilidade que sua mãe lhe dizia: “Filho, você não é egípcio. Você é descendente de Abraão, Isaque e Jacó. Não cremos nos deuses do Egito. Cremos no Deus de Abraão, Isaque e Jacó. Nossa terra não é aqui”;
(4)Certo dia, querendo visitar seus irmãos hebreus, Moisés, homem maduro, com 40 anos de idade, deparou com a tortura infligida por um egípcio contra um escravo hebreu. Irado, Moisés matou o egípcio e o enterrou. Havia nele um sentimento de justiça, uma indignação, mas o exercício arbitrário das próprias razões, como dizem os advogados, foi uma atitude indevida;
(5)Estêvão diz ainda em seu discurso aos judeus que Moisés imaginou que seus irmãos hebreus entenderiam que ele foi chamado a libertá-los. Sendo assim, com 40 anos de idade Moisés já sabia que tinha sido chamado para libertar o povo hebreu. Não havia muita clareza na vocação, mas ele sabia que fora chamado;
(6)Ao tentar apartar uma briga entre hebreus, Moisés ouviu a dolorosa pergunta: “Quem te tem posto a ti por maioral e juiz sobre nós?” (Ex 2.14). Sim, Moisés era vocacionado, mas seu chamado não era reconhecido pelos irmãos hebreus. Havia um descompasso entre o que ele pensava de si mesmo e o que efetivamente era. Com a revelação de que o assassinato do egípcio era conhecido, Moisés teve que fugir e com isso se distanciar do centro de poder mundial e de todos os privilégios de filho adotivo da filha do rei;
(7)É preciso esclarecer que, segundo o autor da Epístola aos Hebreus, a fuga de Moisés para o deserto tinha um outro ingrediente: ele não fez caso do Egito, preferindo assumir um outro padrão de vida. A fuga não foi tão-somente por medo da condenação, mas também porque ele tinha certeza de que sua terra não era o Egito. Ele “ficou firme, como vendo o invisível” e não temeu “a ira do rei” (11.27).
(8)A fuga de Moisés para o deserto de Midiã o transforma num pastor do rebanho de um sacerdote que vem a ser o seu sogro. São 40 anos naquela vida simples de pastor, habitando o deserto. Nada de privilégios de nobreza. Nada de proximidade com o centro de poder político. Nada de liderança sobre os hebreus. São 40 anos de simplicidade e anonimato;
(9)Certo dia, sem esperar, Moisés contemplou uma teofania, ou seja, uma manifestação divina, que se consubstanciava numa planta (sarça) imersa em fogo sem se consumir. Mais do que isso: Moisés ouviu uma voz, que lhe deu uma missão: falar com Faraó e avisar que o povo hebreu iria cultuar a Deus no deserto. O homem simples que tinha fugido do Egito havia 40 anos agora estava li enxergando algo sobrenatural, que jamais se repetiu na história;
(10)Moisés relutou muito a acatar o seu chamado. Aliás, isso também fizeram outros personagens bíblicos, como veremos em outras ocasiões. Apelou para uma suposta dificuldade de oratória (“sou pesado de língua”). Por isso dizem que ele era gago, mas não creio. Ele havia sido “poderoso em palavras”, como vimos anteriormente. O que posso sugerir, em meio às evidências, é que as quatro décadas de solidão e anonimato tenham provocado em Moisés algum tipo de depressão, de rebaixamento em sua auto-estima. Um dos sintomas da depressão ou de qualquer transtorno que compromete a auto-imagem é fazer com que a pessoa não se sinta habilitada a falar bem. Aqueles anos de deserto trouxeram medo a Moisés. Mas um homem vocacionado é um homem vocacionado e pronto. De algum modo, ele cumpriria sua missão, mesmo que usando seu irmão Aarão como porta-voz, como acabou acontecendo;
(11)Pode-se afirmar que os 40 anos de Egito e os 40 anos de deserto foram fundamentais para forjar o caráter de Moisés para os derradeiros 40 anos de sua vida, justamente o período crucial;
(12)Desde o enfrentamento de Faraó até os 40 anos no deserto, Moisés cometeu erros e se chateou bastante. Aquele povo não era nada fácil – e tenho receio de quem pensa que a Igreja seja um povo de cerviz menos dura! Apesar de todos os seus erros, ele foi um servo obediente. É claro, eu sei que ele bateu duas vezes na rocha quando deveria apenas falar, e isso o impediu de adentrar à Terra Prometida. Mas foi contado como herói da fé (Hb 11) e tido como grande exemplo de homem de Deus, um profeta que serve como figura para o Profeta Jesus Cristo, alguém que compareceu ao episódio da Transfiguração de Cristo.
Algumas lições podem ser extraídas da história de Moisés:
A vocação divina é algo concebido por Deus e não depende das circunstâncias. Antes, Deus muda as circunstâncias, Ele cria situações favoráveis ao cumprimento de Seus santos e perfeitos desígnios. Livramento da morte, educação conforme os preceitos do Deus dos hebreus, excelente instrução formal, conhecimento íntimo das dificuldades da vida no deserto. Deus não escolhe o homem de acordo com as características deste. Ele cria as características porque já fez a escolha. É Deus Quem chama.
Os sinais da vocação podem ocorrer antes do reconhecimento humano, mesmo que sob uma espessa nuvem de incertezas e crises. O sentimento de indignação com a injustiça pode ser um sinal de liderança, mas precisa ser moldado por Deus (matar o egípcio pode ser um péssimo negócio, embora movido por um precioso sentido de justiça). As provas servem para forjar o caráter.
Ninguém deixa de pecar porque foi vocacionado. Vocação não é glorificação.
Habilidades formais e convicções firmes são importantes, mas um um tempo de solidão e anonimato podem ser necessários. O vocacionado pode ficar deprimido, pode ficar em crise, pode duvidar de si mesmo, pode se sentir “por baixo”. Mas isso faz parte do pacote completo da vocação. Sem determinados conflitos não há preparação genuína. Como diz CHARLES SWINDOLL em sua Série Heróis da Fé, Moisés passou de homem de pele macia e coração duro para um homem de pele dura e coração macio. Não vejo como alguém pode se tornar sensível e maduro sem passar por conflitos e crises. Até para sofrer com o sofrimento dos outros e fornecer alguma ajuda é necessário passar por momentos de deserto!
Creio que podemos aproveitar muito mais da experiência de Moisés. Eu agradeço a Deus por ele ter existido. Um dia nos veremos.

*Fundamentado nos seguintes textos bíblicos, citados em seu contexto imediato: Ex 1-6; At 7.14-44; Hb 11.23-29. Usei a Almeida, Revista e Corrigida.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Série vocacionados – Davi

A história de Davi está repleta de lições a respeito da vocação divina. Devo dizer que em minha concepção todo rei de Israel ou de Judá é um modelo de pastor, positivo ou negativo, pois Israel foi escolhido para ser povo de Deus, assim como a Igreja. Davi foi literalmente pastor de ovelhas, e depois passou a apascentar o povo de Deus.
Para nossa edificação quanto à teologia do chamado divino (hiperetologia), creio que podemos extrair as seguintes passagens do registro bíblico acerca de Davi:
(1)Davi foi escolhido por Deus antes que Samuel se dirigisse à sua casa, em Belém de Judá. A unção com azeite, realizada pelo sacerdote-profeta Samuel, foi um ato de declaração da vontade divina já concebida;
(2)Deus não escolhe segundo a aparência, mas segundo o coração. Isso não significa que Deus sempre escolha os sem-aparência, mas que não escolhe conforme o critério da aparência. É preciso dizer que Davi tinha boa aparência, mas, diferentemente dos seus sete irmãos, tinha mais do que isso;
(3)O azeite da unção simboliza claramente o Espírito Santo. Ao ser ungido, Davi foi tomado pelo Espírito de Deus. Ele precisava de poder para o bom desempenho de sua vocação;
(4)Mesmo depois de ungido rei, Davi permaneceu um bom tempo sem o reconhecimento como rei de Israel. Mas circunstâncias que ele não criou o levaram para perto do rei Saul, já rejeitado por Deus. Como o rei estava sendo perturbado por um espírito maligno, ordenou que alguém tocasse para ele, a fim de o tranquilizar. Foi então que um jovem deu referências de Davi, com as seguintes características: “sabe tocar”; é “valente”; é “animoso”; é “homem de guerra”; é “sisudo em palavras”; e “o SENHOR é com ele”;
(5)Ao ver que o gigante Golias insultava o povo de Israel, Davi questionou quem era aquele “incircunciso filisteu, para afrontar os exércitos do Deus vivo”. Com isso Saul o mandou chamar. Foi uma primeira demonstração de coragem;
(6)Eliabe, irmão mais velho de Davi, achou que ele era presunçoso e maldoso, e que fora ali apenas para ver a guerra. Com menosprezo, perguntou a quem Davi deixara suas “poucas ovelhas”. Deve ter sido inveja, medo de que Davi sobressaísse. Davi tinha o seu potencial, e isso causava receio em seu irmão;
(7)Ao conversar com Saul, Davi recordou suas experiências enfrentando um urso e um leão. Tomou esses episódios como prova de que poderia vencer o gigante;
(8)Davi tinha fé em Deus – que não é ausência de dúvidas, mas domínio do medo. Suas palavras em I Sm 17.45-47 são sublimes;
(9)Apesar de trabalhar para Saul, Davi não era conhecido, a ponto de o rei sequer saber a que família ele pertencia;
(10)O crescimento de Davi aborreceu Saul. Ele achou que Davi queria o reino para si, o que não era verdade. Num momento de influência demoníaca, arremessou uma lança contra Davi por duas vezes!
(11)Davi conduzia-se com prudência e era carismático, amado pelo povo. Com inveja, Saul o colocou numa posição em que ficaria mais distante, agora como chefe de mil soldados. Mas o reconhecimento de Davi entre o povo só aumentava, e sem que ele se esforçasse para isso. A facilidade com que Davi “entrava e saía” no meio do povo preocupou Saul imensamente. O homem foi sendo tomado de um sentimento macabro;
(12)Saul ofereceu sua segunda filha a Davi, mas como cilada para o matar – a fim de se casar com a filha do rei, o rapaz teria que matar nada menos que 100 filisteus. Davi matou 200. Quanto mais Saul criava estratagemas, pior ficava a sua situação, pois Davi crescia entre os súditos de Israel;
(13)Por muito tempo, Davi sofreu intensa perseguição pelas mãos de Saul – desse período, em meio às perseguições, são os Salmos 59, 56, 57, 52, 142. Foi salvo da morte por seu amigo Jônatas e por sua esposa Mical; foi ajudado pelo sacerdote Aimeleque, que lhe deu pão e a espada de Golias, e pagou com a vida por causa disso, assim como todos os sacerdotes da cidade de Nobe. Davi até teve que fingir demência diante do rei Aquis, de Gate (cidade dos filisteus), quando percebeu que os criados do rei conheciam sua fama. Em seguida, refugiou-se na Caverna de Adulão, onde também se recolheu “todo homem que se achava em aperto, e todo homem endividado, e todo homem de espírito desgostoso” (líder que era, Davi acabou chefiando esses cerca de 400 homens cheios de problemas);
(14)Embora fosse ajudado por Jônatas, por sua esposa e por alguns sacerdotes, e estimado pelo povo, Davi sofreu com a ajuda que algumas pessoas prestaram a Saul Foi o caso de Doegue, criado de Saul, que denunciou o lugar de seu esconderijo entre os sacerdotes de Nobe. Foi o caso também dos moradores de Zife, que se dirigiram a Saul para falar onde Davi se escondia. Antes disso, Davi só fugiu da cidade de Queila porque Deus o avisou que o povo da cidade o entregaria nas mãos de Saul, mesmo tendo ele acabado de livrar a cidade das mãos dos filisteus;
(15)A unção de Deus não livrou Davi de sérios problemas e circunstâncias inesperadas: não bastasse a renhida perseguição promovida por Saul, aliou-se ao rei Aquis, de Gate, e venceu batalhas em nome dos filisteus. Vale lembrar que Golias era filisteu, justamente da cidade de Gate. Davi agora guerreava em nome dos filisteus! Certamente esse não era o seu sonho, e jamais poderia imaginar que a unção de Deus permitiria uma situação daquelas. Mas aconteceu. E mais: depois de voltar de uma preparação para a batalha (contra seu próprio povo de Israel), Davi contempla a cidade de Ziclague saqueada e queimada, obra dos amalequitas. Todas as mulheres e crianças haviam sido levadas como prisioneiras, incluindo suas duas esposas (Deus tolerava a bigamia, mas essa é outra história). Agora o povo queria apedrejá-lo. Ziclague era uma cidade dos filisteus, mas o rei Aqui a concedeu a Davi. O que ele fez? Foi aos amalequitas, matou quase todos e recuperou tanto os prisioneiros como os bens saqueados, além dos despojos da batalha;
(16)Davi era um homem especial. Por duas vezes teve oportunidade de matar Saul e não o fez, por se tratar do “ungido do SENHOR”. Mais tarde, morto Saul, Davi ordenou a morte do homem que alegou ter tirado a vida de Saul a pedido deste – o que não era verdade. Davi ainda chorou a morte de Saul, que tanto o perseguira, e fez uma lamentação nesse sentido. Era um homem de coração bom.
(17)Davi foi aclamado rei de Judá, onde reinou por 7 anos, e depois, rei de todo o Israel, onde reinou por 33 anos. Foram 40 anos de reinado precedidos de um bom tempo de perseguição, sofrimento, ansiedade e risco de vida.
O que podemos dizer aos vocacionados de hoje ou a quaisquer pessoas que pretendem olhar para a história de Davi e aprender sobre a teologia da vocação?
É Deus quem escolhe os Seus. Antes de haver o reconhecimento pelas pessoas, há o reconhecimento da parte de Deus. É Deus quem escolhe, não o povo (mesmo que o sistema de escolha seja democrático ou congregacional).
Pode demorar, pode haver perseguição, pode haver problemas e circunstâncias adversas, surpreendentes, mas a unção de Deus não pode errar. O homem erra. Deus, não. Um dia, o reconhecimento virá para a glória de Deus e para o cumprimento de Seus santos e perfeitos desígnios.
A unção divina não livra o vocacionado de ser alvo de intrigas, estratagemas ou violência. Na verdade, quem é carismático, talentoso e íntegro pode esperar para ter problemas com os invejosos, principalmente com os invejosos que têm poder. Eles farão de tudo para derrubar os vocacionados que reúnem essas qualidades. A inveja é um sentimento feio e perverso. Homens poderosos cheios de inveja podem cometer coisas horríveis. Mas a inveja também pode ocorrer dentro de casa: não foi Eliabe quem chamou Davi de presunçoso e maldoso, e menosprezou o seu trabalho com as “poucas ovelhas” de que ele cuidava?
Fingir loucura, morar numa caverna, fugir pelos desertos, guerrear por uma nação estrangeira, ser acompanhado por centenas de homens angustiados e endividados, ver sua família levada cativa – foi essa a vida que Davi sonhou ao ser ungido? Mas Deus lhe deu o pacote completo. Um dia, vencer o gigante de três metros; outro dia, lutar pelo povo do gigante de três metros...
É assim a vida. Davi teve altos e baixos até ser constituído como rei, mas nunca esmoreceu, nunca duvidou do seu chamado, nunca questionou a unção recebida, nunca buscou antecipar os fatos. Entendeu que as coisas tinham o seu tempo.
Como vimos, são muitas as lições da história de Davi para os vocacionados. Fique com a sua que eu fico com a minha. Amém.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A injustiça social na Casa de Deus - apenas um exemplo

Ninguém me faz acreditar que seja correto uma congregação ter que enviar para a sua sede 80% (oitenta por cento) do que arrecada com suas ofertas e dízimos. Entendo que, se se trata de uma comunidade eclesiástica, o dinheiro deve ser empregado na satisfação de suas necessidades e na execução de seus projetos. Uma parte da arrecadação seria repassada à sede e eventualmente as congregações maiores ou mais abastadas ajudariam as congregações menores, tudo sob a administração da sede, segundo as carências verificadas.
Por isso, sou contrário às campanhas que inventam ofertas extraordinárias, a não ser quando se trata de despesas extraordinárias. E há que se ponderar sobre o que sejam essas despesas extraordinárias! Por exemplo, não concordo com a construção de templos enormes, suntuosos, quando sua construção demanda um esforço financeiro que está muito além do poder econômico da igreja e suas congregações.
Alguém dirá: “Irmão, mas a igreja é grande”. Sim, se a igreja é grande e precisa de um templo grande, ela poderá construir um templo grande com sua arrecadação normal. Se a igreja depende excessivamente de dinheiro arrecadado em campanhas, alguma coisa está errada. Se o povo é pobre, assalariado, não se pode exigir, com maior razão, uma contribuição extraordinária. Ninguém pode dar o que não tem.
É para mim motivo de tristeza e indignação ver que a injustiça começa na Casa de Deus. Ora, Salomão explorou seu próprio povo para construir o Templo em Jerusalém. Se o (a) leitor (a) estiver bem atento (a), verá que Deus jamais poderia concordar com a exploração dos pobres israelitas pelas mãos de Salomão.
Ainda que assim não fosse, é bom lembrar que o templo do Espírito Santo, no Novo Testamento, são os cristãos, os nascidos de novo. Já escrevi sobre isso aqui neste espaço. Não há a necessidade nem fundamento bíblico para construirmos templos como sagrados em si mesmos, porque sagrado é o corpo do regenerado, e não o prédio em que a igreja se reúne. É claro que tudo o que pertence ao culto cristão é consagrado a Deus, mas o verdadeiro santuário é o corpo do crente em Jesus Cristo. Essa teologia é fundamental para verificarmos se nossa relação com o prédio da igreja está correta ou não.
Será que desejamos imitar os romanos? Será que desejamos imitar a parcela neopentecostal com suas catedrais, com seus templos-maiores, com seus complexos prediais que mais parecem uma ostentação pagã? A que custo são colocadas as pedras dos grandes templos? Será que Jesus Cristo realmente se alegra com nossos templos gigantes? Será que o Nome do SENHOR é glorificado quando pobres viúvas e senhores desempregados se sentem culpados por não ajudarem com um saco de cimento ou com os carnês mensais de contribuição?

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Ainda sobre o Congresso Transformando a Missão – o que falta dizer

Preciso dar continuidade ao texto anterior, para não ser injusto comigo mesmo: depois daquele artigo – A Assembleia de Deus e a Missão Integral, em que me refiro a alguns dos preletores –, houve muitas outras coisas que devo comentar. Vejamos:
Tivemos uma conferência com o Pr. RICARDO GONDIM. Com todo o respeito e admiração que tenho por ele, não posso deixar de registrar algumas coisas. Ele disse expressamente que Deus não está no controle dos fatos, e usou as tsunamis como “prova” disso. Declarou que o pecado é necessário para a formação de cada um de nós. Afirmou que Deus não abre porta de emprego, deixando a entender que não adianta orar sobre isso, porque depende da conjuntura socioeconômica. Citou KARL BARTH para sustentar a ideia de que a volta de Jesus já ocorreu cinco vezes – o que sugere que não volte mais.
Isso tudo causou tanta estupefação que, na mesa de diálogo entre ARIOVALDO RAMOS e ED RENÉ KIVITZ, no dia seguinte, a cada declaração mais ortodoxa havia palmas e até uns gritos de “aleluia”. E alguém, aflito com certas afirmações, perguntou a ARIOVALDO RAMOS se ele cria que Deus é soberano, que existe pecado, que Jesus vai voltar...e ele disse “sim” para todas as perguntas. Ao mesmo tempo, ED RENÉ KIVITZ teve a admirável ousadia de dizer que, para quem visitou as salas de sua casa à época de sua infância, em são Paulo, há certas coisas que não devem ser atribuídas à cultura, mas aos demônios. Resultado: umas palmas ali e uns resmungos acolá.
Fiquei chateado também com um pastor que não considerou o trabalho de JAIME KEMP na área de sexualidade e fez piada de ROBINSON CAVALCANTI, por ter ele supostamente mudado. Chamou AUGUSTUS NICODEMUS LOPES de “conservador”, o que não chega a ser uma censura, a não ser em um círculo tão esquerdista como aquele.
De fato, o Congresso Transformando a Missão pareceu-me bastante esquerdista. Tudo bem, não é pecado ser de esquerda! Mas eu fui ali discutir Teologia da Missão Integral, e acabo ouvindo elogios a HUGO CHÁVEZ e LULA, assim como a frase de JOSÉ CONBLIM: “Todo pecado decorre do pecado da dominação dos ricos sobre os pobres”. Perdoe-me padre CONBLIM, mas onde está escrito isso na Bíblia? O pecado social é a base de tudo? Não posso crer nisso.
Outra coisa que ouvi ao vivo que me deixou triste: quando perguntei (oralmente, já que o mediador da mesa redonda achou minha letra ruim) se não era perigoso eleger a igualdade social em detrimento das liberdades fundamentais, o Pr. RENÉ PADILLA respondeu, olhando para o papel com a minha pergunta: “Liberdades fundamentais? Liberdade de imprensa, por exemplo, é a garantia de dominação dos meios de comunicação pelos poderosos. Por isso, o importante é a satisfação de necessidades básicas, isso é que importa”. Sendo assim, para RENÉ PADILLA liberdade de imprensa não é importante. Ele disse isso expressamente. Eu estava lá, ninguém me contou.
Em meu comentário ao fazer a pergunta, disse a todos que ali estavam: não podemos eleger este ou aquele nome, mas falar como profetas sobre o que está certo ou errado. Não podemos escolher igualdade social em detrimento da ética e das liberdades fundamentais. Mas para alguns teólogos de esquerda a igualdade social está acima de tudo, mesmo que passando por cima da liberdade individual. Esse evangelho socializante eu não quero!
Eu sei que ali havia pessoas fazendo propaganda de evento sobre sexualidade, com ênfase na teologia gay. Eu sei que ali havia pessoas defendendo um entendimento ecumênico com religiões não-cristãs. Eu sei que ali havia pessoas muito preocupadas com doutrinas políticas socialistas, quiçá marxistas. Eu sei de tudo isso, esse não é o maior problema...
Meu medo é que isso se torne a regra na Igreja. Tenho medo que se fortaleça uma geração de pastores com doutrinas da teologia liberal, que nega o Deus Soberano, que nega a existência do pecado, do Diabo e dos demônios. O que a teologia liberal fez com a Europa? Ao menos o Dr. DELSON, que falou de Fé e Ciência numa das oficinas, falou o que o Racionalismo fez na Europa: como gideão internacional, teve dificuldade de dar 25 edições do Novo Testamento quando passou por países da Escandinávia; templos protestantes são transformados em museus; livros satanistas são vendidos para crianças – ele mostrou um desses livros, comprado na França; uma igreja europeia com 40 membros é grande. Foi isso o que o Liberalismo fez com a Europa.
Apesar disso, o saldo do Congresso foi positivo. Voltei animado para minha casa, conversando com meu cunhado, que me acompanhava nesses dias. Renovamos nossas forças. Dei testemunho disso no culto de domingo – justamente culto de missões. E a igreja se alegrou com o testemunho.
Precisamos nos fortalecer teológica e espiritualmente para essa batalha. Eu quero estar do lado daqueles que não precisam de mecanismos de racionalização/justificação diante de uma sociedade pervertida. Diálogos sempre são bem-vindos. Mas, com todo o respeito, nossa identidade deve estar bem esclarecida e assentada. Do contrário, que diálogo haverá? E como ouvirão se não há quem pregue o que deve ser pregado, mesmo que doa, mesmo que a mensagem pareça dura demais, conservadora demais, obscurantista demais?

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A Assembleia de Deus e a Missão Integral*

Participo nestes dias do Congresso Transformando a Missão, na Igreja Batista da Graça, aqui em Salvador/BA, cujo tema fundamental é a Missão Integral. Foram convidados nomes como RENÉ PADILLA, JOSÉ CONBLIM, RICARDO GONDIM, ARIOVALDO RAMOS, CARLOS QUEIROZ e RAIMUNDO CÉZAR BARRETO JÚNIOR. Logo na primeira noite consegui um abraço carinhoso e troca de duas palavras com RICARDO GONDIM, cujos textos na Ultimato conheço há uns treze anos. Hoje tirei fotos com ele e com JOSÉ CONBLIM, nome que conheci na Faculdade de Teologia, quando estudei Teologia da Cidade e fiz um trabalho a partir de um texto de sua autoria. Imagine a minha alegria ao ver esses homens de perto!
Tenho compartilhado com o meu cunhado, RENATO – que me acompanha nesse Congresso – tudo o que vimos ouvindo. Como assembleianos, procuramos refletir sobre as coisas e aplicá-las ao nosso contexto pentecostal. Conversando sobre isso, temos entendido que, de fato, teoria e prática devem andar juntas, que as pessoas pobres precisam ouvir uma Palavra libertadora, e que, de certo modo, já praticamos um pouco dessa Missão Integral, embora a imensa maioria de meus pastores nunca tenha ouvido falar do Pacto de Lausanne (1974), nem de JOHN STOTT, RENÉ PADILLA, ou de quaisquer desses homens que citei acima.
É certo: meus pastores, os líderes assembleianos, são de outra categoria de igreja, as igrejas pentecostais. Mas isso não nos impede de fazer Missão Integral, mesmo que não saibamos o que seja isso por nome, mesmo que tenhamos inúmeras limitações teológicas e práticas.
A Missão Integral – permitam-me dizer só até onde sei – entende o Homem como espírito, alma e corpo, e, portanto, como necessitado de uma Salvação total. Entende que evangelização deve estar associada a responsabilidade social; que a política é instrumento de transformação e implantação do Reino de Deus; que não existe essa dualidade (gnóstica, platônica, medieval) entre mundo secular e mundo espiritual; que a pregação do Evangelho deve respeitar a cultura. Nesses termos, eu creio em Missão Integral.
Quando das perguntas, o mediador citou um jargão, que eu confesso nunca ter ouvido: “A Teologia da Libertação optou pelos pobres, e os pobres optaram pelas igrejas pentecostais, ou neopentecostais, ou pela Teologia da Prosperidade”. Deixando o Neopentecostalismo e a Teologia da Prosperidade de lado – já esquentei muito a cabeça com essas besteiras –, quero pensar na parte que toca ao Pentecostalismo.
Com efeito, há muito de Missão Integral entre nós. Muitos dos assembleianos aprenderam a ler e a gostar de ler lendo a Bíblia. Nossos analfabetos são menos analfabetos que os do mundo. Fomos às favelas e plantamos igrejas em cada esquina deste País – a ponto de alguém dizer que “em todo buraco se encontra Banco do Brasil, Coca-Cola e Assembleia de Deus”. É verdade. Fomos aonde muitos históricos (liberais ou fundamentalistas) chegaram depois. Consagramos negros e mulatos a diáconos, presbíteros, evangelistas e pastores. Os círculos de oração passaram a ser núcleos femininos. Jovens sem nenhuma perspectiva saíram das drogas e da delinquência e encontraram um sentido para suas vidas. Construíram-se os famosos centros de recuperação para ajudar pessoas envolvidas com dependências química. Evangelizamos grotões, vielas, afogados, baixadas, descampados. Onde quer que se imagine um brasil, ali estaria uma luz amarelada acima de uma placa da Assembleia de Deus.
Será que sou ufanista, denominacionalista? Quem me conhece sabe que não. Tenho minhas críticas e questionamentos. Vivo crises e conflitos terríveis. Deus o sabe. Mas devo respeitar e reverenciar o que é bom. E – observe bem – esse é um movimento do Espírito, não dos cartolas que brigam pelo poder, que disputam no “tapetão” suas eleições macabras, e que, aninhados nas cúpulas assembleianas, fariam corar de vergonha e tristeza os pioneiros suecos, finlandeses e brasileiros da Missão da Fé Apostólica.
É verdade que falta a nós pentecostais aquela conscientização política, aquela teologia menos dogmática, aquela percepção de que nossa escatologia milenarista e pré-tribulacionista precisa, para dizer o mínimo, ser reestudada. Falta-nos renúncia ao dualismo entre sagrado e secular, o apego à Teologia da Criação, e a distinção segura entre Igreja e Reino de Deus. Falta-nos, ainda, entender que a Igreja é o Israel de agora; que os americanos não são a Assíria de nossos di