domingo, 21 de agosto de 2016

O PERFIL DO PROFESSOR DE ESCOLA BÍBLICA DOMINICAL

Ev. Alex Esteves da Rocha Sousa


serão todos ensinados por Deus” (Jo 6.45).


Quais as características e competências que se deve esperar de um professor de escola bíblica dominical? Segue o esboço de uma apresentação que fiz na Assembleia de Deus em Bela Vista do Lobato (Salvador/BA), com a presença de irmãos de diversas congregações do Setor. Aqueles que ouviram a palestra certamente recordarão do que foi dito assim que lerem os tópicos, mas imagino que o esboço pode ser útil a qualquer interessado.

O professor de escola dominical:

1. Deve ser crente em Jesus Cristo (Jo 3.7).

2. Deve ser vocacionado e capacitado por Deus (Rm 12.7).

3. Não precisa ser um mestre/doutor (Ef 4.11,12), mas deve estar disposto a aprender com os mestres/doutores.

4. Deve ser mais que professor – deve ser um educador/ensinador cristão (Mt 28.19,20).

5. Deve ser ortodoxo – bem doutrinado (II Tm 2.2).

6. Deve ser um “facilitador da aprendizagem” (Carl Rogers).

7. Deve fixar objetivos.

8. Não deve gastar tempo contando testemunhos pessoais ou ilustrações.

9. Deve ler a lição.

10. Deve preparar a aula, com um plano de aula redigido se isto o auxiliar.

11. Deve reconhecer que o elemento que mais atrai a atenção dos alunos (principalmente jovens e adultos) é a percepção de que estão aprendendo de fato.

12. Deve empregar o método mais adequado para a classe e o conteúdo.

13. Deve seguir o exemplo pedagógico do Mestre Jesus.

14. Deve estar disposto a aprender sempre.

15. Deve ser humilde para reconhecer o que ainda não sabe.

16. Deve exercer liderança positiva.

17. Não deve ensejar polêmicas ou revoltas.



Os alunos tendem a deixar classes em que as aulas são “improdutivas, monótonas ou desinteressantes” (as palavras entre aspas são de Marcos Tuler no livro Abordagens e Práticas da Pedagogia Cristã - CPAD).






sábado, 13 de agosto de 2016

ESBOÇO PARA MESA-REDONDA SOBRE CIÊNCIA E RELIGIÃO*

CIÊNCIA X RELIGIÃO

Ev. Alex Esteves da Rocha Sousa

Correlações:
Dicotomia Razão x Fé.
Dicotomia Estado x Igreja.


I Tm 6.20.

Ó, Timóteo, guarda o depósito que te foi confiado, tendo horror aos clamores vão e profanos e às oposições da falsamente chamada ciência”.

Depósito.
A tradição cristã recebida. O repertório cristão. As Escrituras Sagradas. Os princípios e valores cristãos. A cosmovisão cristã.

Clamores vãos e profanos. Oposições.
Inutilidades retóricas. Argumentos alienados de Deus. Disputas meramente ideológicas.

Falsamente chamada ciência.
  • Se existe a falsa ciência, existe a verdadeira.
  • Paulo não anula o valor da ciência. Antes, exalta a ciência verdadeira.
  • Embora não tivesse em mente a ciência moderna, a declaração de Paulo estende-se a todo conhecimento humano organizado, o que inclui a ciência e a filosofia.

Considerações gerais.
  • A falsamente chamada ciência é abundante nas Ciências Humanas, mas também se verifica nas Ciências Exatas e nas Ciências Naturais. Ex: houve fraude comprovada no Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU.
  • Um experimento científico pode ser manipulado para que os resultados confirmem a hipótese científica. A interpretação pode ser orientada ideologicamente ou por má-fé.
  • Certas teorias científicas não plenamente comprovadas são erigidas à categoria de teorias comprovadas por razões ideológicas. Ex.: Darwinismo, Evolucionismo darwinista. Afastar as noções de Deus e de eternidade é importante para o Homem materialista, secularista e descrente.
  • A imprensa não especializada promove hipóteses científicas não confirmadas como se fossem teorias comprovadas.
  • A ciência pode ser neutra, mas o cientista, não.
  • Projetos científicos são financiados em detrimento de outros.

Nas Ciências Humanas.
  • Nas Ciências Humanas a promoção da falsa ciência é acentuada.
  • Ideologias. Utopias.
  • Racionalismo. Materialismo. Naturalismo. Comunismo. Socialismo. Feminismo. Abortismo. Agenda gay. Ideologia de Gênero. Ecologismo (biocentrismo). Racialismo. Vitimização (coitadismo).
  • Marxismo cultural. Gramcismo.
  • No Direito. Direito Alternativo. Direito Achado na Rua. Abolicionismo penal. Visão marxista do direito como “superestrutura”.
  • Existe muita política na falsamente chamada ciência.
  • As cátedras universitárias também são contaminadas por vaidades e corporações em torno de interesses não acadêmicos.
  • Setores da sociedade são tomados como “aparelhos” (apparatchik) a serviço de um projeto político-ideológico e estratégico. Universidades. Centros acadêmicos. Movimento estudantil. Colegiados.
  • Conhecimento x poder.

Na teologia.
  • Liberalismo Teológico. Teologia da Libertação. Teologia da Missão Integral. Teologia Negra. Teologia Feminina.
  • Teologias “de esquerda”.
  • Perigos em seminários e faculdade de teologia.
Cosmovisão.
  • Weltanschauung.
  • Cosmovisão (crenças, valores, princípios, medos, preconceitos, superstições, tradições, costumes, senso comum, educação familiar, cultura, religião, leituras, educação formal).

Modernismo e Pós-modernidade.
Racionalismo x relativismo.
Antropocentrismo (humanismo) x subjetivismo.
Busca de certezas x exaltação da dúvida.
Ideal de um futuro promissor x hedonismo.
Aversão à religião x religiosidade sem religião.
Individualismo x pluralismo.
Cientificismo x pragmatismo.
Valores civilizacionais x multiculturalismo.




Qual deve ser o perfil do cristão no debate público?
  • Saber que existe verdade absoluta.
  • Ter a Bíblia como parâmetro.
  • Ter convicções sólidas.
  • Não tentar conciliar a Bíblia com “achados” científicos.
  • Saber que tolerância não é anuência.
  • Conhecer as diferentes cosmovisões.
  • Demonstrar dedicação e seriedade em tudo o que faz.
  • Saber que entusiasmo não é suficiente.
  • Pesquisar uma bibliografia teologicamente ortodoxa, politicamente conservadora e moralmente saudável.

Mais:
  • II Co 10.4,5.
  • Até os animais podem ter dúvidas intelectuais primitivas. Mas somente o Homem possui entendimento (cf. John Stott).
  • A ideologia do “não julgueis”.
  • A Queda e a árvore ética.
*Preparei este esboço para me orientar no evento Ciência x Religião, organizado pelo Departamento de Adolescentes da Assembleia de Deus de Salvador (DEPAD/ADESAL), ocorrido na Assembleia de Deus na Paralela, no dia 12 de agosto de 2016, à noite. Não falei tudo isso, mas uma boa parte.




sábado, 28 de maio de 2016

AS FINANÇAS E O RELACIONAMENTO CONJUGAL*


Ev. Alex Esteves da Rocha Sousa

O QUE DIZEM AS PESQUISAS:
Problemas financeiros constituem a principal causa de divórcio (Kansas State University, 2014).
Entre 2009 e 2015, 56% dos divórcios no Reino Unido foram causados por problemas financeiros (pesquisa com 3 mil pessoas).
29% das pessoas descobriram que seu parceiro tinha contraído, em segredo, uma dívida de cartão de crédito.
É nas épocas de crise que as chances de divórcio aumentam (pesquisa da Universidade de Warwick, Inglaterra, com 6 mil casais).
Professor Andrew Oswald, responsável pela pesquisa: não é a redução da renda que provoca o divórcio, mas a frustração das expectativas.
Ainda segundo esse estudo britânico, quanto maior a renda do homem, maior a chance de o casal ficar junto: homens que ganham 20% a mais que suas companheiras são 46% menos propensos a se divorciarem do que aqueles que ganham 20% a menos.

ATITUDES PREJUDICIAIS:
1. Não revelar o salário real;
2. Esconder investimentos financeiros;
3. Inventar uma doença para evitar gastos extras;
4. Omitir dívidas contraídas;
5. Inventar preços de produtos comprados;
6. Criar desculpas para usar o cartão de crédito do outro.

Mt 6.19-34.
Prioridade (19-21);
Motivação (22,23);
Exclusividade (24);
Confiança (25-32);
Espiritualidade e ética (33, 34).

VALORES CRISTÃOS:
Honestidade.
Transparência.
Diálogo.
Simplicidade.
Contentamento.

A RESPONSABILIDADE DA IGREJA:
Ocupar-se de missões;
Entregar dízimos e ofertas;
Cuidar dos necessitados.

SUGESTÕES PRÁTICAS:
1. Saiba o que seu cônjuge pensa sobre o dinheiro;
2. Converse com o seu cônjuge sobre dinheiro;
3. Não guarde segredos financeiros do seu cônjuge;
4. Tenha planos financeiros para o curto, médio e longo prazos. Eleja prioridades e estabeleça metas;
5. Coloque as contas na ponta do lápis;
6. Fale sobre seu passado financeiro com o seu cônjuge;
7. Não deixe que as diferenças em relação ao uso do dinheiro desgastem o relacionamento;
8. Discuta seus medos em relação ao dinheiro;
9. Divida as responsabilidades financeiras com o seu cônjuge;
10. Discuta suas atitudes em relação às finanças;
11. Jamais gaste sem o acordo de seu parceiro;
12. Estabeleça um limite financeiro para algumas extravagâncias;
13. Cuidado com gastos ou compras imprudentes;
14. Cuidado com o cartão de créditos e os empréstimos;
15. Crie um bom histórico financeiro.
16. Tenha sempre uma reserva para as vacas magras (consultores financeiros da Experian sugerem que se forme uma reserva de 3 a 6 meses de salário para eventos inesperados).


Fontes:
http://g1.globo.com/mato-grosso-do-sul/noticia/2015/06/falta-de-dialogo-sobre-financas-pode-causar-divorcio-diz-pesquisa.html

*Palestra ministrada no Seminário da Família, na Assembleia de Deus na Pituba (Salvador/BA), no dia 28 de maio de 2016.




sábado, 23 de abril de 2016

Todo "direitista" é militarista?



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A pergunta-título pode parecer tola para quem conhece um pouco de teoria política, mas me parece necessária nestes tempos de confusão. Num contexto de aumento dos críticos e fortalecimento das críticas ao governo petista, surge uma onda de simpatia à direita, mas que às vezes se aproxima perigosamente de apreço pela ditadura militar ou até mesmo pela tortura como forma de combate ao socialismo/comunismo. De outro lado, os socialistas e esquerdistas em geral são levados a confundir direita com militarismo. Ambas as posições, porém, estão erradas!
O militarismo pode ser uma tendência tida por "de direita" por sua adesão às ideias de ordem, estabilidade, força e emprego das Forças Armadas e Forças Policiais como agentes políticos, mas anda muito distante do liberalismo, do conservadorismo e do liberal-conservadorismo. Mais do que isso, o militarismo, por ser uma ideologia, não apetece em nada aos conservadores, avessos que são a qualquer tipo de ideologia, à esquerda e à direita.
Se eu não estiver enganado, o militarismo se parece com o positivismo, já que este entende a (boa) sociedade como sendo necessariamente estruturada de modo rígido e funcional, em busca da ordem para o progresso.
Para ser contra a esquerda não é preciso ser militarista nem positivista - assim como não é preciso ser monarquista, "olavista" nem "bolsonarista". Para ser contra a esquerda existem boas opções, que estão entre o liberalismo e o conservadorismo.
Vale dizer que conservadorismo nada tem que ver com reacionarismo: o conservador olha para o passado buscando preservar tradições, crenças, valores e instituições aprovados pelo tempo; o reacionário, por sua vez, olha para o passado buscando preservar... o passado.
Creio que muita genta boa, no desejo de não ser esquerdista, acaba caindo no conto militarista, por suposta falta de opção. Mas é possível conhecer o mundo de uma perspectiva que não se paute pela força como instrumento de legitimidade política.

quinta-feira, 24 de março de 2016

A missão do "Bessias"

As gravações reveladas pelo juiz Sergio Moro no dia 16/3/2016 mostraram a atuação subterrânea de Lula, Dilma e sua turma. Num das conversas, Dilma avisa a Lula que lhe enviaria imediatamente o "Bessias" (na verdade, Jorge Messias, subchefe de assuntos jurídicos da Casa Civil) com o "termo de posse", para ser usado "em caso de necessidade". A divulgação do áudio provocou manifestações em cidades como São Paulo, Brasília e Salvador.
Por que se suspeita de alguma coisa errada no envio do termo de posse?
(a) Porque Lula seria empossado somente no dia 22/3, conforme divulgação, via Twitter, do próprio Rui Falcão, presidente do PT;
(b) Porque Lula já estava se dirigindo ao aeroporto de Brasília;
(c) Porque termo de posse é, em regra, assinado na solenidade de posse;
(d) Porque houve pressa na nomeação de Lula, publicada em edição extraordinária do D.O.U.;
(e) Porque, sendo investigado na Lava Jato e sem foro privilegiado, Lula poderia cair nas mãos do juiz Sergio Moro, o qual tinha em sua mesa pedido de prisão feito pelo Ministério Público paulista, já que o processo relacionado ao apartamento do Guarujá tinha sido encaminhado àquele juiz federal;
(f) Porque a nomeação de Jaques Wagner como chefe de gabinete da presidência com status de ministro - o que é absurdo - corrobora a tese de obstrução da Justiça (fuga de foro), já que Wagner, também investigado, perderia o foro privilegiado ao deixar a Casa Civil para ser sucedido por Lula;
(g) Porque, em conversas gravadas com autorização judicial, Lula é aconselhado a se tornar ministro para ganhar foro privilegiado (orientação do cientista político Alberto Carlos de Almeida); há menção à ideia de Lula se entregar como "preso político" (sugestão do senador petista Jorge Viana); e o ministro Jaques Wagner é acionado pelo presidente do PT, Rui Falcão, para ver como aquele ministro poderia ajudar quanto à iminente prisão de Lula.
Por outro lado, o fato de o termo de posse não ter timbre com o brasão da República parece não dizer muito, pois vídeo da posse de ministros para este mandato, ocorrida em 1 de janeiro de 2016, mostra termos de posse semelhantes ao enviado pelo "Bessias", sem timbre. Além disso, é estranho o termo ter sido encaminhado sem a assinatura da presidente (pode ser, é claro, que esse tenha sido apenas o documento apresentado para reforço de argumento defensivo, mas não temos como descobrir o que de fato aconteceu).
Estamos diante, não há dúvida, de um escândalo absurdamente elevado, o que poderia levar, sozinho, ao impeachment de Dilma Rousseff.


quinta-feira, 17 de março de 2016

A REPÚBLICA PETISTA DESMASCARADA

Depois da divulgação dos tenebrosos áudios do petismo, começou uma operação para desacreditar o juiz Sergio Moro e a Lava Jato, o que se dá na imprensa, nas redes sociais, nos blogs sujos, na intelectualidade militante, nos ditos "movimentos sociais" e na classe política.
Agora que Lula e Dilma foram DESMASCARADOS, você não tem razões para achar que eles dizem a verdade. Confira:
(1) Sabemos que os militantes petistas que foram para a casa de Lula estavam ali para bater em "coxinhas". Lula disse isso expressamente.
(2) Sabemos que a CUT trabalha como força auxiliar do PT. Vagner Freitas, presidente cutista, conversou com Lula nesse sentido.
(3) Sabemos que o discurso feminista de Jandira Feghali, Maria do Rosário e Fátima Bezerra serve aos desejos e interesses de Lula. Ele disse isso.
(4) Sabemos que Lula despreza o STF, o STJ, a Câmara, o Senado, o MPF e os juízes de primeira instância.
(5) Sabemos que Eduardo Paes é um "soldado" de Lula (ele também acha que Maricá é uma 'm*').
(6) Sabemos que o cientista político Alberto Carlos de Almeida cria suas teorias e análises políticas a partir dos desejos e interesses do petismo, e que dele partiram ideias sobre Lula se tornar ministro para fugir de Moro - um detalhe interessante e muito rico é quando ele põe a antropologia do direito a serviço da iniquidade.
(7) Sabemos que Jaques Wagner (agora Ex-Ministro-Chefe da Casa Covil), Aloizio Mercadante (Sinistro da Educação) e Rui Falcão (Presidente do PT) trabalham para atrapalhar a Lava Jato.
(8) Sabemos que certos intelectuais da Faculdade de Direito do Largo do São Francisco emprestam seu suposto brilho para proteger um projeto macabro, com suas manifestações que se dizem em favor da democracia, mas só ajudam a confundir a opinião pública.
(9) Sabemos que Eugênio Aragão, Subprocurador-Geral da República, foi instalado no Ministério da Justiça por ser considerado "nosso amigo" [amigo deles].
(10) Sabemos que Lula esperava gratidão de Rodrigo Janot, Procurador-Geral da República, assim como ansiava por providências amistosas da parte de Rosa Weber e Ricardo Lewandowki.
(11) Sabemos que os blogs sujos se alimentam de informações falsas, determinadas pela cabeça de Lula e de seus asseclas.
(12) Sabemos que o senador Lindbergh Farias (ex-cara pintada e atual cara lisa) obedece servilmente a Lula para atacar quem o critica.
(13) Sabemos que as redes sociais estão cheias de pessoas iludidas por essa trama petista, que saem por aí divulgando e compartilhando todo esse arsenal de mentiras, às vezes de boa-fé, sinceramente enganadas.
(14) Sabemos que Eduardo Cunha, celeremente denunciado por Janot, foi erigido à categoria de inimigo público nº 1 da esquerda, embora não tivesse nem de longe semelhante poder de Lula sobre a República, sendo este o chefe da turma. Registre-se: Cunha deve ser investigado e processado, quiçá condenado, mas foi tomado por vilão, pelo petismo, numa tentativa de desacreditar a luta pelo impeachment, numa batalha diversionista.
(15) Sabemos que alguns jornalistas da grande imprensa transmitem essas mentiras como se verdades fossem, enganando imensa parcela da sociedade.
(16) Sabemos, por fim, como surgem essas teses petistas sobre grampo ilegal, incompetência do juiz, vazamento de decisões judiciais.

PORTANTO, NÃO HÁ MAIS DESCULPA. O GOVERNO ACABOU. QUEM TEM DIGNIDADE ABANDONA ESSE BARCO O QUANTO ANTES. AS ÁGUAS DO DILÚVIO ESTÃO CAINDO, E A PORTA DA HISTÓRIA VAI SE FECHAR.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

"Deus é amor" x "O amor é Deus"

Espiritualistas e religiosos sem religião (!) gostam de valorizar o amor de um deus impessoal, um Ser Superior magnânimo que preenche a Natureza, que a todos perdoa, e que estimula a caridade e a paz mundial. Esses deus impessoal é atraente por não exigir compromissos institucionais nem sacrifícios radicais, mas atitudes de benevolência e cuidado, muitas vezes traduzidas em esmola. Esse mesmo pessoal baseia suas ideias em seus próprios sentimentos e desejos, mas com o pretexto de adotar o Evangelho e outras passagens bíblicas, como I Jo 4.8, em que está escrito "Deus é amor".
O versículo inteiro de I Jo 4.8 diz: "Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor". Em seu manifesto contra os hereges gnósticos, o apóstolo João estava a ensinar a integridade da vida cristã, que não sobreleva as necessidades de um espírito superior em detrimento das demandas do mundo físico, afetivo e relacional. Espírito e carne (corpo) foram criados por Deus e são bons, diferentemente do que ensinavam os gnósticos, para os quais o espírito era intrinsecamente bom, celestial, superior, e a carne, inerentemente má, terrena, inferior. Tudo provém de Deus, exceto o pecado. Ora, se Deus é amor, sendo o amor um de Seus atributos, aquele que O confessa não pode odiar o próximo.
Muito distante disso é endeusar os próprios sentimentos, criando, pois, um deus à sua imagem e semelhança. "Deus é amor" difere de "o amor é Deus". Deus, um Ser pessoal, tem como um de Seus atributos o amor, mas a esta virtude se associam a justiça, a santidade, a retidão, a paciência, a misericórdia, a graça, a benignidade, a bondade, a perfeição, a infinitude, o poder, a sabedoria, a ciência.
Corremos o risco - e estou a incluir, sem dúvida, os cristãos - de divinizar sentimentos e desejos, chamando-os de "o Deus da Bíblia", quando o Deus que Se relevou nas Sagradas Escrituras é infinitamente superior a essas idiossincrasias do pobre ser humano. Deus quer ser conhecido, sim, e pode ser conhecido, mas de acordo com aquilo que Ele mesmo nos concedeu - a Sua Palavra.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

A graça da bandalheira

Todo escândalo político no Brasil tem sua graça. Em 2005 o Mensalão nos presenteou com o espetáculo de figuras como o "carequinha de Minas", um sujeito que se chamava Dilúvio, um José que não era Genuíno, um Dirceu que não era de Marília, um Cunha que não era Eduardo (mas João Paulo), um Silvinho que não era cantor, mas professor de sociologia e componente da turma. E vimos que Lula, o líder de massas e profeta de um novo tempo, não sabia de nada.
Houve até aquele episódio em que um CD do Lupicínio Rodrigues deu um soco no olho de Roberto Jefferson, que depois disso virou cantor e gravou um disco.
Agora, com o Petrolão, conhecemos alguns importantes diretores e gerentes da PTBrás: tem o Paulo Roberto, primeiro a dar a Costa para os companheiros em sua delação premiada; tem aquele outro cujo filho, ator profissional, armou uma arapuca para a Vovó Mafalda travestida de Antonio Fagundes depois da catapora; tem o Pedro, que, barusco que só ele, foi logo contando tudo; tem o Renato, que de Duque só tem o nome. Ah! E se sabe que boa parte da encrenca se deu sob as barbas da Graça, aquela moça bonita da PTBrás. 
Novos personagens se juntam à festa: tem o André, que Esteves (Ô piada batida!) contaminando o belo patronímico que carrego com satisfação; tem o Amigo Primaz do Lula, o José Carlos Burlai, pecuarista nominal e com passe livre no palácio das tenebrosas transações; tem o neto do Brasil, aquele rapaz esperto que copiou a Wikipédia para vender consultoria de alto nível, por milhões, a uma microempresa de um sujeito que é amigo de Lula desde os tempos em que um era sindicalista radical e o outro era representante de empresa com a qual o sindicalista radical "brigava".
O Lula, coitado, continua sabendo de tudo aquilo que deu certo, e por fora de tudo aquilo que deu errado.
Mas Cunha, desta vez Eduardo, maneja o pedido de impeachment ora como arma, ora como escudo; Renan, metido em toda confusão que se preze, ainda se mantém de pé (mas cuide para que não caia!); e Michel vive a dizer que não tem nada a Temer.

domingo, 29 de novembro de 2015

As igrejas estão imunes ao crime organizado?

A pergunta que surge no título pode ser bastante forte, mas cada palavra ali tem seu lugar. Realmente não é simpático nem agradável dispor na mesma frase as palavras "igreja" e "crime". Contudo, proponho uma reflexão nestes dias irrefletidos e estranhos.
Em virtude da liberdade religiosa, um direito constitucionalmente assegurado, próprio das democracias e do Estado de Direito, as igrejas, como toda organização religiosa, devem gozar de uma série de prerrogativas que visam ao desembaraço da atividade confessional. É daí que decorre, por exemplo, a imunidade tributária dos templos religiosos. Quero deixar claro que eu concordo com todo direito que contribua para a liberdade de crença, de culto e de religião. Certamente em razão das igrejas-corporação, que funcionam como empresas, buscam o lucro e manejam muito dinheiro, alguns começam a discutir a imunidade dos templos.
Quero destacar, porém, algo que considero um problema a merecer ponderação: não corremos, no Brasil, o risco de ver igrejas infiltradas por quadrilhas, ávidas pela prática facilitada de lavagem de dinheiro? Será que traficantes de drogas e armas, empresários do crime e políticos corruptos não se sentiriam atraídos pela conformação jurídica diferente das igrejas?
Recordo aqui o caso do deputado e presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que mudou recentemente de igreja como quem muda de partido, indo da Sara Nossa Terra para a Assembleia de Deus do Ministério de Madureira, uma dessas igrejas cujos líderes têm ligações políticas (a Sara Nossa Terra também tem ligações políticas). O Ministério Público Federal denunciou Eduardo Cunha por suposto recebimento de propina, parte da qual teria migrado para a conta da Assembleia de Deus Madureira em Campinas.
Mas, antes disso, e de modo ainda mais dramático, penso na proximidade entre pastores evangélicos e líderes do tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Em razão das missões urbanas, e, principalmente, em razão de muitos crentes residirem em territórios tomados pelo tráfico, criou-se uma "política de boa vizinhança" que me deixa preocupado. Mais do que isso, traficantes passaram a se considerar evangélicos, a cantar alegremente músicas gospel e a tratar pastores como seus guias. Pastores começaram a se considerar tutores de chefes do tráfico, numa tenebrosa simbiose em que o traficante continua traficante, confessa sua fé evangélica e entrega seu regalado dízimo ao pastor de sua "comunidade". O dinheiro que sai das mãos do criminoso é agora lavado?
Lembremos do caso daquele pastor Marcos Pereira, da Assembleia de Deus dos Últimos Dias, no Rio de Janeiro. Em que situação aquele homem foi se envolver! Confesso não ter compreendido até hoje que trama foi aquela, mas o contexto e os personagens não parecem conduzir a uma história feliz.
Proteger as igrejas do crime organizado, da lavagem de dinheiro e da corrupção significa ter critérios para admissão de membros; distinguir bem a condição de membro das condições de congregado e visitante; eleger adequadamente os pastores e demais líderes; evitar compromissos políticos não republicanos (lembrem do Escândalo das Sanguessugas, que estourou em 2006 e no qual se destacaram tristemente políticos evangélicos).
Igrejas "neopentecostais" e essas miríades de igrejas que surgem todos os dias estão mais ou menos protegidas do crime organizado?
Francamente não tenho muito entusiasmo com a situação da Igreja brasileira em nossos dias, e o só pensar nas possibilidades aqui aventadas me traz uma indignação verdadeira. Mas é necessário pensar nessas coisas.
Escrevo a partir do que leio e do que percebo no mundo, como observador que deseja não ser surpreendido pelas "astutas ciladas do diabo". É preciso orar, mas também é preciso vigiar.








segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Resposta ao comentário de um leitor esquerdista

Um leitor de esquerda concedeu-me a honra de comentar o artigo "O esquerdismo entranhado na sociedade brasileira". Farei comentários, em azul, ao que ele escreveu:

"Discordo de certos aspectos. Generalização nunca é uma boa coisa a se fazer, visto que nem todos que possuem pensamentos socialistas possuem todos os adjetivos utilizado por vossa mercê".
Li novamente o meu texto e não encontrei generalização indevida. Reconhecer aspectos predominantes numa corrente político-ideológica não é generalização, mas sistematização e interpretação. É disso que vivem os jornalistas e os cientistas. Caso contrário, bastaria o interlocutor dizer que se generalizou, e a conversa estaria encerrada. Esse é um dos recursos da esquerda: dizer que generalizamos. Outro é dizer que fomos "simplistas", que não consideramos todos os fatores. Eles sempre têm um modo mais complicado de ver as coisas.

"O capitalismo, principalmente o norte americano, tem contribuído para o aumento das desigualdades em todos os cantos onde está instalado, porém no Brasil diminuiu nos últimos anos - não atribuo isso única e exclusivamente aos governos de esquerda, mas os considero como parte fundamental nesse aspecto".
Esse discurso é carregado de esquerdismo. Desigualdades sociais sempre existiram e sempre existirão. As pessoas são iguais em direitos naturais e dignidade, mas desiguais em termos de mérito, talento, biografia, virtudes, coragem, vocação. As pessoas são diferentes. O capitalismo não é um sistema econômico criador de desigualdades sociais. As desigualdades existem por si. Talvez o leitor seja simpático à economia planificada da União Soviética. Talvez aprecie a ditadura cubana. Talvez goste muito do regime econômico da Coreia do Norte. Em todos os sistemas citados o que se produziu foi um conjunto macabro de escassez, miséria, destruição de carreiras promissoras e uma elite burocrático-militar. É possível perceber que se trata de um leitor petista ou filopetista, porque faz questão de ressaltar a suposta benemerência dos "governos de esquerda" dos anos recentes. Em que mundo o amigo vive? Os governos de Lula e Dilma semearam a crise que ora vivemos, com estagnação econômica, aumento exponencial da inflação, alta do dólar, aumento do desemprego. Os petistas estão acabando com o Brasil. Será que a ideologia o cegou?

"Quando se avalia o Brasil do ponto de vista cultural, percebe-se um complexo de inferioridade. Tudo é parâmetro para comparação com outros países e, acima de tudo, até a China torna-se melhor sob os pontos de vista de alguns. Qualquer lugar é melhor, não importa onde".
Só concordo com um ponto: a China não deve ser parâmetro para ninguém, pois não conhece a liberdade política. Aliás, seus amigos, leitor, da esquerda, relembram com saudade a Revolução Cultural de Mao Tsé-tung. Devemos fazer comparações, sim, mas com países desenvolvidos, e buscar os bons exemplos dos Estados Unidos e da Inglaterra, em vez de emular os péssimos exemplos de Cuba, Venezuela, Argentina e Bolívia.

"Fundamentalmente o que quero dizer é que o Brasileiro precisa vestir a camisa do Brasil (não da CBF), arregaçar as mangas, chamar o problema pra si e resolver a parte que lhe compete. Sejamos mais brasileiros, mais honestos, mais humanos, mais tolerantes e menos arrogantes, preconceituosos, etc."
Esse apelo ao patriotismo bocó recordou-me o que aprendi sobre o "Brasil, ame-o ou deixe-o", da Ditadura Militar. Àquela época, quem ousava se opor aos ditadores era reputado contra o Brasil. Assim também foi com outro nacionalista, Getúlio Vargas. Essa atitude não é democrática, rapazinho. E, mais do que isso, soa como provocação: se quem sustenta, com seu suor, a quadrilha do PT e asseclas, já é o homem médio, o trabalhador honesto, como ousa jogar na cara dos cidadãos de bem que a culpa é deles?

"Nosso país precisa disso e não de discussões infrutíferas que às vezes não leva a lugar algum, pois o que vejo é uma histeria coletiva onde não discussões das idéias e sim dos méritos dos interlocutores e ninguém, absolutamente ninguém aponta uma direção plausível, nem muito menos disponibiliza a cara pra bater".
"Discussões infrutíferas", "histeria coletiva"... Estas expressões dão o tom de como o leitor enxerga a democracia. Para ele, discordar do esquerdismo é discutir sem frutos e ser histérico. Democrático, não? 

terça-feira, 20 de outubro de 2015

A BATALHA PELA FÉ

ESTUDO DA EPÍSTOLA DE JUDAS1



Pb. Alex Esteves da Rocha Sousa
I. INTRODUÇÃO.
Este breve estudo dedica-se à Epístola de Judas, cuja mensagem é atual, necessária e profunda.
Depara-se o leitor de Judas com um texto da maior importância em termos de apologética (defesa da fé, combate a seitas e heresias), e por isso podemos nos referir ao seu objetivo como sendo a batalha pela fé, como o próprio autor deixa consignado em suas considerações preliminares.

Semelhança com II Pe.
Há uma proximidade acentuada entre Jd 3-18 e II Pe 2.1-18. A opinião majoritária é no sentido de que II Pedro tomou de empréstimo o texto de Judas, epístola escrita anteriormente2.

Tríades e metáforas.
A Epístola de Judas contém várias tríades: chamados – amados – guardados; misericórdia – paz – amor; Caim – Balaão – Corá; povo no Egito – anjos caídos – Sodoma e Gomorra.
Há também muitas metáforas: “rochas submersas”; “pastores que a si mesmos se apascentam”; “nuvens sem água, impelidas pelos ventos”; “árvores em plena estação dos frutos, destes desprovidas, duplamente mortas, desarraigadas”; “ondas bravias do mar”; “estrelas errantes”.

Remissão a Livros do Antigo Testamento.
De algum modo, é possível perceber em Judas o recurso a material constante dos seguintes Livros do Antigo Testamento: Gênesis, Números, Ezequiel, Daniel, Amós, Zacarias. Tem-se a impressão de que o autor conhecia bem as Escrituras Antigas.

Remissão a livros não canônicos.
Judas provavelmente recorre a escritos como a Assunção de Moisés e o Livro de Enoque, não porque os considere inspirados, mas para reforço do argumento. Assim, além do conhecimento das Escrituras Sagradas, parece que o autor tinha um bom conhecimento da cultura judaica.

Linguagem forte.
O texto da Epístola de Judas pode parecer demasiado rígido para muitos leitores, especialmente nestes dias pós-modernos, carregados de relativismo, pluralismo, subjetivismo, hedonismo e antropocentrismo. Os absolutos de Judas não combinam com a intensa relatividade das ideias pós-modernas.

II. DESENVOLVIMENTO.
1 Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago, aos chamados, amados em Deus Pai e guardados em Jesus Cristo,”

O autor identifica-se como Judas, servo de Jesus Cristo e irmão de Tiago.
Judas era a forma grega do hebraico Judá, nome do quarto filho de Jacó (Gn 29.35) e também da tribo dele decorrente (Ex 1.1,2,7; Nm 1.1-4,26,27; I Cr 2.3-55).
A tribo de Judá, juntamente com a pequena tribo de Benjamim, veio a formar o Reino do Sul, com capital em Jerusalém (I Rs 12.16-24).
Com o tempo, todos habitantes de Israel, e seus descendentes, passaram a ser conhecidos como judeus, e não somente como israelitas ou hebreus.
Nos dias de Jesus, o território do antigo Reino de Judá constituía apenas uma província romana, a província da Judeia (Mt 2.1).
Judas era um nome comum em Israel na época de Jesus.
Os seguintes personagens neotestamentários chamavam-se Judas: um dos irmãos de Jesus (Mt 13.55; Mc 6.3); o apóstolo Judas Iscariotes (Mt 10.4; Mc 3.19; Lc 6.16); o apóstolo Judas, filho de Tiago – ARA – ou irmão de Tiago – ARC (Lc 6.16; At 1.13), também chamado de Tadeu (Mt 10.3; Mc 3.18); Judas Galileu, que liderou uma revolta popular em torno de 6 d.C. (At 5.37); Judas morador da rua Direita em Damasco, que hospedou Saulo de Tarso (At 9.11); Judas Barsabás, profeta da igreja em Jerusalém, enviado com Paulo e Barnabé a Antioquia da Síria pelo concílio realizado naquela cidade (At 15.22, 32).
Por exclusão, as possibilidades recaem, a princípio, sobre o Judas irmão de Jesus, o apóstolo Judas Tadeu e Judas Barsabás.
De Judas Barsabás pouco se sabe.
Quanto a Judas Tadeu, como já referido ele é designado como Judas filho de Tiago ou Judas irmão de Tiago, a depender da tradução (ARA ou ARC), o que poderia aproximá-lo do autor da epístola ora examinada. No entanto, quem seria o Tiago a que ele se refere? Tiago também era um nome muito comum à época (Mt 10.2,3; Mc 3.17,18.3), forma grega do hebraico Jacó.
Mais do que isso: de acordo com o NCB3, a melhor tradução para Lc 6.16 e At 1.13 seria “Judas, filho de Tiago”, de maneira que haveria o apóstolo seria filho de certo Tiago, enquanto o autor da epístola ora examinada seria irmão de certo Tiago. Duas pessoas, portanto, distintas.
O Tiago referido pelo autor da epístola devia ser importante e conhecido, pois sua menção parece ter sido suficiente para a identificação de quem escrevia a carta. Um Tiago muito destacado na Igreja foi justamente o Tiago irmão de Jesus, que se tornou líder da igreja em Jerusalém (At 12.17; 15.12-21; 21.18) e era contado como apóstolo no sentido amplo do termo (Gl 1.19; 2.9,10-12).
Desse modo, parece que o autor da epístola era o irmão de Jesus. Essa é a opinião comumente aceita entre os teólogos (por exemplo, GREEN4).
Os parentes de Jesus não creram n'Ele durante o exercício do Seu ministério terrestre (Mt 12.46-50; Mc 3.21,31-35; Lc 8.18-21; Jo 7.3-9), mas seus irmaõs já aparecem como discípulos antes do derramamento do Pentecostes (At 1.14).
É interessante que em I Co 9.5 Paulo se refere aos apóstolos e aos “irmãos do SENHOR”.
Merece registro que Judas, embora irmão de Jesus, não se baseou nesse vínculo biológico para estabelecer status ou poder eclesiástico. Ele mencionou Tiago para se identificar aos leitores, mas se posicionou como “servo de Jesus Cristo”. Assim também procedeu o próprio Tiago na epístola que leva seu nome (Tg 1.1).
Convém anotar apenas que, na opinião de J. SIDLOW BAXTER5, Judas e Tiago seriam filhos de Alfeu e Maria, e primos de Jesus.
A palavra traduzida como “servo” poderia ser traduzida como “escravo” (NVI6; NCB7; GREEN8). A mesma palavra é empregada em Rm 1.1, Fp 1.1, Tg 1.1 e II Pe 1.1, respectivamente, por Paulo, Tiago e Pedro.
Jesus ensinou que entre os Seus seguidores “aquele que dirige” deve ser “como o que serve” (Lc 22.26).
A Epístola de Judas, como o nome indica, tem a forma literária de uma carta. Trata-se de uma carta católica, ou seja, uma carta geral ou universal, sem endereçamento explícito a igrejas ou a pessoas.
Os destinatários são todos os “chamados, amados em Deus Pai e guardados em Jesus Cristo” - aqui surge a primeira de várias tríades no texto. Entretanto, o NCB afirma a possibilidade de a epístola ter sido dirigida a uma “comunidade desconhecida de cristãos, membros de uma igreja gentílica”9.
Chamados são os vocacionados. A Igreja foi vocacionada para a santidade (Rm 1.7; I Co 1.2; I Pe 1.15); para um testemunho concreto, no caráter, da salvação concedida pelo SENHOR (Fp 2.12,13; II Pe 1.10; Ap 17.14). Essa vocação proveio da iniciativa de Deus, em Seus eternos propósitos (Rm 8.28). Os crentes foram chamados “numa só esperança” (Ef 4.4), a partir de uma “vocação celestial” (Hb 3.1). A vocação, embora celestial, deve traduzir-se em bom procedimento nas questões humanas, como o casamento (I Co 7.20).
A expressão “amados em Deus Pai” ocorre somente em Judas.
A Igreja é guardada (conservada) em Jesus Cristo (I Jo 5.18; I Pe 1.5; II Tm 1.12) para a glorificação na Sua vinda (II Ts 1.10).
A preposição traduzida como “em” poderia ser traduzida como “por” (NVI10) ou “para” (NVI; GREEN11): chamados por Jesus Cristo ou chamados para Jesus Cristo (Ver Rm 1.7). No caso da preposição “para”, pode significar que os crentes foram guardados para o Dia da vinda de Cristo (I Ts 5.23) ou que os crentes gentios foram guardados como um povo eleito, no lugar de Israel (Tg 1.1; I Pe 2.9,10).
A salvação é espiritual, gratuita, amorosa, de iniciativa divina e assegurada pela obra do SENHOR Jesus, porque Ele morreu e ressuscitou para remir os pecadores.

2 a misericórdia, a paz e o amor vos sejam multiplicados.”

Surge mais uma tríade, desta vez numa saudação.
Misericórdia é a dimensão do amor de Deus que consiste em não punir os homens de acordo com a sua responsabilidade, dando-lhes chances de arrependimento, além de afastar do crente todo o mal que seus adversários gostariam de lhes infligir.
Os crentes foram regenerados segundo a misericórdia de Deus (I Pe 1.3), e serão livrados da condenação pela mesma misericórdia do SENHOR (II Tm 1.16-18).
O termo “misericórdia”, segundo GREEN12 é raro em saudações (II Jo 3; I Tm 1.2; II Tm 1.2), e em todas as ocasiões aparece num contexto em que a igreja destinatária da epístola era afrontada por falsos ensinos.
Paz é a estabilidade e segurança as relações com Deus e com os homens. A palavra hebraica shalom (paz) compunha as saudações dos judeus, mas com Jesus Cristo ganhou um significado especial e muito mais profundo.
Amor, essência do caráter de Deus, é a disposição divina em abençoar os homens de maneira graciosa e sacrificial. O amor de Deus foi derramado nos corações dos crentes (Rm 5.5).
Como afirma, de maneira quase poética, MICHAEL GREEN, aqui se reúnem “a misericórdia da parte de Deus, a paz por dentro, e o amor ao próximo – todos na mais plena medida”13.
O desejo de que essas virtudes sejam multiplicadas sobre os crentes visa a que eles sejam “cheios até a capacidade” (I Pe 1.2 e II Pe 1.2).

3 Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos.”

Judas chama os irmãos afetuosamente de “amados” (3,17,20), como ocorre em II Pe 3.1,8,14,17 e I Jo 2.7; 3.2,21; 4.1,7,11.
O amor de Judas pelos irmãos é demonstrado tanto pelo carinho como pelas firmes advertências contra a infiltração de heresias.
Aqui Judas adentra ao tema da epístola. Ele desejava escrever sobre a “nossa comum salvação”, algo que poderia ser próximo, em Teologia Sistemática, da “soteriologia” (doutrina da salvação). Seria a salvação comum a ele e aos leitores da epístola ou a salvação comum a judeus e gentios14.
Para isso Judas “empregava toda a diligência” (II Pe 1.5), talvez com orações, estudos, pesquisas. Mas, enquanto se esforçava nesse sentido, Judas se sentiu obrigado (impelido) a escrever, com pressa, sobre a necessidade de batalhar pela “fé que uma vez por todas foi entregue aos santos”.
Então, em vez de soteriologia, temos algo próximo à apologética (defesa da fé).
O ofício de pastor inclui a atividade de vigilância constante (Ez 3.17-19; At 20.28-30), como lembra MICHAEL GREEN15.
A frase “a fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” indica, na epístola ora examinada, o corpo doutrinário estabelecido pelo SENHOR Jesus Cristo e conferido à Igreja pelos apóstolos, de um modo completo e imutável, para ser transmitido com fidelidade. Assim também ensinou o apóstolo Paulo (Gl 1.8,9,11,12; II Tm 1.13; 2.2).
Não se trata aqui da fé como confiança, mas como crença doutrinária, ortodoxia, com aptidão para produzir um testemunho de alto valor moral. Cuida-se da “doutrina dos apóstolos” (At 2.42).
Como ensina MICHAEL GREEN16, o termo grego traduzido por “entregue” (paradidomai) era usado em Israel para transmissão de tradição autorizada (I Co 15.1-3; II Ts 3.6). O ensino dos apóstolos é, portanto, normativo.
Ultrapassar a doutrina de Cristo é causa de rejeição (II Jo 9,10). A fé é um “depósito” que foi “confiado” à Igreja, e que precisa ser preservado (I Tm 6.20; II Tm 1.13,14).
Trata-se de uma fé comum, coletiva, congregacional, eclesiástica, e não de uma fé individual, isolada, segregacionista, sectária, misteriosa, mística. A fé cristã evangélica é a fé de todos os crentes, porque concedida a todos os crentes.
A batalha pela fé consiste numa luta renhida, difícil, custosa, processual.

4 Pois certos indivíduos se introduziram com dissimulação, os quais, desde muito, foram antecipadamente pronunciados para esta condenação, homens ímpios, que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo.”

A motivação de Judas para escrever em defesa da fé é que havia na Igreja “certos indivíduos” com as seguintes características: introduzidos (infiltrados) na Igreja “com dissimulação” (fingimento, hipocrisia, disfarce); “desde muito (…) antecipadamente pronunciados para esta condenação” (predestinados ou com juízo garantido?); “homens ímpios” (descrentes, injustos, sem piedade); libertinos quanto ao entendimento da graça de Deus; contrários, na prática, ao Senhor Jesus Cristo, cuja soberania não reconhecem, assim como não reconhecem nenhuma autoridade.
Sobre essa introdução dissimulada ou secreta, há ocorrências em II Pe 2.1, Gl 2.4 e II Tm 3.6. Esses são como ladrões que entram clandestinamente no aprisco para arrebatar as ovelhas (Jo 10.1).
Os personagens mencionados por Judas são “homens ímpios” (v. 4), têm “obras ímpias” (v. 15) e se metem habitualmente em “paixões ímpias” (v. 18).
Segundo a NVI17, uma tradução possível seria “homens que estavam marcados para esta condenação”. A mesma palavra traduzida como “antecipadamente” é empregada por Paulo em Rm 15.4, significando, em Judas, que as antigas advertências das Escrituras já determinavam o pressuposto da condenação dos falsos líderes.
Havia entre aqueles falsos líderes a pregação de que Deus aceitava a licensiosidade em nome da graça.
Havia libertinagem em muitas igrejas (Rm 13.13; II Co 12.21; Gl 5.19; Ef 4.19; I Pe 4.3; II Pe 2.2,7,18; Ap 2.20-24).
Paulo trata dessa falsa interpretação da doutrina da graça em Rm 6 (entendimento chamado comumente de “graça barata” ou “barateamento da graça”).
Jesus, que é “Soberano” (despotes) e Senhor (kyrios), estava sendo negado por aqueles falsos cristãos, como em Tt 1.16. Negar a Cristo, o Filho de Deus, é uma atitude própria de anticristo (I Jo 2.22).
Essa parece uma descrição de muitos líderes evangélicos da atualidade.
Ao longo da história da Igreja o ingresso de falsos líderes é uma constante. Os mais perigosos adversários do Evangelho são aqueles que se infiltram com dissimulação, identificando-se como cristãos e confundindo tanto os crentes como os de fora.
Uma caractetística marcante daqueles falsos líderes era a libertinagem: eles interpretavam a graça de Deus como licença para pecar. Tal conduta é chamada de “antinomista” ou “antinomianista”.
Determinada corrente gnóstica era antinomianista porque, entendendo que o espírito é bom e a matéria, ruim, ensinava a necessidade de viver de maneira livre, a fim de corromper e destruir a carne (outra corrente gnóstica, partindo do mesmo pressuposto, ensinava a necessidade de uma vida ascética, visando à purificação do espírito contra os desejos da carne).
O movimento combatido por Judas era possivelmente o Gnosticismo, que perturbou a Igreja por cerca de 150 anos18.
Nestes dias pós-modernos há certos grupos supostamente evangélicos entregues a práticas libertinas. O pastor e teólogo presbiteriano AUGUSTUS NICODEMUS LOPES trata dos libertinos em seu excelente livro O que estão fazendo com a Igreja?
A batalha pela fé é uma atitude bíblica, conservadora e urgente: bíblica porque recomendada em diversas passagens das Escrituras; conservadora porque busca manter firmes os fundamentos doutrinários antigos; e urgente porque heresias variadas têm se infiltrado nas igrejas.
Diferentes movimentos, ideias e circunstâncias culturais têm desafiado a Igreja quanto à batalha pela fé:
a) o Liberalismo Teológico;
b) a pós-modernidade;
c) o chamado “neopentecostalismo”;
d) o misticismo que desvirtua o pentecostalismo.

5 Quero, pois, lembrar-vos, embora já estejais cientes de tudo uma vez por todas, que o Senhor, tendo libertado um povo, tirando-o da terra do Egito, destruiu, depois, os que não creram;”

Assim como a fé foi entregue “uma vez por todas”, os crentes a que Judas escreveu já estavam “cientes de tudo uma vez por todas”. Tinham, portanto, fé e conhecimento.
Aqui cabe recordar de I Jo 2.27, onde o apóstolo João afirma não precisarmos de que ninguém nos ensine, por termos recebido a unção de Deus, a qual fornece o conhecimento acerca de todas as coisas. Não se trata de desnecessidade do ministério de ensino, mas de advertência contra os líderes gnósticos – e, em geral, contra os falsos mestres – porque os líderes gnósticos diziam possuir um conhecimento misterioso e necessário para o aperfeiçoamento espiritual.
Iniciando a tríade relativa a julgamentos divinos, Judas emprega o exemplo de Israel liberto do Egito, para depois usar os exemplos dos anjos caídos e de Sodoma e Gomorra.
Aqueles que foram destruídos, dentre os que saíram do Egito, foram os que não creram. Nenhum israelita jamais foi salvo pelas obras da Lei, pois Deus os escolheu pela graça. A incredulidade dos israelitas egressos do Egito é tomada como precedente da incredulidade dos falsos líderes a que Judas se refere. A incredulidade conduziu ao desvio, à apostasia.

6 e a anjos, os que não guardaram o seu estado original, mas abandonaram o seu próprio domicílio, ele tem guardado sob trevas, em algemas eternas, para o juízo do grande Dia;”

Discute-se quem seriam esses anjos: seriam aqueles “filhos de Deus” que se relacionaram sexualmente com as filhas dos homens em Gn 6.1,2? Seriam anjos mais poderosos, que Deus teria reservado a uma espécie de prisão preventiva? Seriam todos os anjos que seguiram após Lúcifer? Creio ser esta a posição correta.
A rebelião dos anjos caídos é tomada como precedente da rebelião dos falsos líderes a que Judas se refere.

7 como Sodoma, e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregado à prostituição como aqueles, seguindo após outra carne, são postas para exemplo do fogo eterno, sofrendo punição.”

Sodoma, Gomorra e as cidades circunvizinhas foram destruídas por seu grande pecado, ressaltando-se o pecado sexual (Gn 18, 19). Daí decorre o termo “sodomia”.
A promiscuidade dos habitantes de Sodoma e Gomorra, assim como das cidades circunvizinhas, é tomada como precedente da promiscuidade dos falsos líderes a que Judas se refere.

8 Ora, estes, da mesma sorte, quais sonhadores alucinados, não só contaminam a carne, como também rejeitam governo e difamam autoridades superiores.”

Chama a atenção que os falsos líderes presentes na igreja comportavam-se da mesma forma que os israelitas que se perderam, os anjos que caíram e os habitantes de Sodoma e Gomorra – daí a expressão “da mesma sorte”. Ao contrário, os crentes devem ter “o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Fp 2.5).
De acordo com o NCB19, a palavra “alucinados” não encontra equivalente no grego, tendo sido acrescida pelos tradutores. Certamente a ideia dos tradutores foi tornar mais claro o sentido de “sonhadores”: aqueles homens não eram sonhadores porque cultivavam bons projetos, mas porque viviam num mundo de fantasia.
Os sonhos daqueles homens fazem recordar das “palavras fictícias” a que o apóstolo Pedro se refere (II Pe 2.3).
O “contaminar a carne” indica imoralidade sexual. É importante tecer uma diferença entre “carne” como corpo e “carne” como natureza pecaminosa, pois a mesma palavra aparece na Bíblia com esses dois sentidos. No versículo em apreço, “carne” é o corpo humano, infelizmente manchado (contaminado) pelo pecado.
Os falsos líderes que atormentavam a Igreja nos dias de Judas eram, ainda, promotores de rebelião contra Deus e contra todo tipo de autoridade. Eram como anarquistas, antinomistas (avessos a normas), e por isso Judas afirmou que eles rejeitavam o governo e difamavam autoridades superiores. O vocábulo “governo” (kyriotes), que significa “senhorio”, aparece quatro vezes no Novo Testamento (Ef 1.21; Cl 1.16; II Pe 2.10 e no versículo ora examinado)20. O governo e as autoridades superiores podem aludir ao senhorio divino, ao senhorio angélico ou ao senhorio de modo geral.

9 Contudo, o arcanjo Miguel, quando contendia com o diabo e disputava a respeito do corpo de Moisés, não se atreveu a proferir juízo infamatório contra ele; pelo contrário, disse: O Senhor te repreenda!”

Miguel, o arcanjo, é lembrado como referência de entendimento do sentido de autoridade e hierarquia, pois, embora estando em posto elevado, não repreendeu Satanás, preferindo que Deus o fizesse.
O arcanjo Miguel é retratado na Bíblia como o Guardião de Israel (Dn 10.13; 12.1; Ap 12.7).
Sabemos que Moisés foi sepultado por Deus (Dt 34.6) em Pisga, Moabe, mas sem localização conhecida21.
Alguns comentaristas, afirmam que esse relato da disputa entre Miguel e Satanás pode ter sido extraído de um livro judaico não canônico denominado “A Assunção de Moisés”.

10 Estes, porém, quanto a tudo o que não entendem, difamam; e, quanto a tudo o que compreendem por instinto natural, como brutos sem razão, até nessas coisas se corrompem.”

Falta de entendimento espiritual, difamação, irracionalidade e corrupção caracterizavam esses falsos líderes.
Aqueles falsos irmãos não compreendiam as coisas espirituais, porque, como ensina Paulo, as coisas espirituais se discernem espiritualmente, enquanto o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, as quais lhe parecem loucura (I Co 2.14).
Havia neles conhecimento instintivo das coisas materiais, mas nem isso lhes aproveitava.

11 Ai deles! Porque prosseguiram pelo caminho de Caim, e, movidos de ganância, se precipitaram no erro de Balaão, e pereceram na revolta de Corá.”

O emprego da palavra “Ai” é muito eloquente e expressa juízo, condenação, castigo (Jr 23.1; Sf 3.1; Mt 23.13-16; 23, 25, 27, 29, 30; Lc 11.43,44; Ap 8.13).
Como é frequente em seu Livro, Judas apela a exemplos das Antigas Escrituras, que conhecemos como “Antigo Testamento”, e que os judeus conheciam, entre outras expressões, como “a Lei, os Profetas e os Escritos”.
De fato, as Escrituras Antigas trazem “exemplo”, “advertência” e “ensino” para nós (Rm 15.4; I Co 10.6-13).
Utiliza-se mais uma tríade, representando o mal: Caim (Gn 4), Balaão (Nm 22-24) e Corá (Gn 16), recordando a inveja e malignidade do primeiro, a ganância do segundo e a rebelião do terceiro.
Caim, modelo de homem corrupto, teve falsa devoção e inveja (I Jo 3.11, 12; Hb 11.4).
Balaão foi mercenário, profetizou mediante remuneração, tentou amaldiçoar o povo de Deus e incutiu idolatria e imoralidade sexual entre os israelitas. Em II Pe 2.15 se afirma que Balaão “amou o prêmio da injustiça”. Em Ap 2.14 está escrito que a “doutrina de Balaão” vinha sendo ensinada na igreja de Pérgamo. Tal doutrina envolvia certamente a libertinagem.
Corá opôs resistência à autoridade, praticou murmuração e rebelião.

12 Estes homens são como rochas submersas, em vossas festas de fraternidade, banqueteando-se juntos sem qualquer recato, pastores que a si mesmos se apascentam; nuvens sem água impelidas pelos ventos; árvores em plena estação dos frutos, destes desprovidas, duplamente mortas, desarraigadas;”

Como afirmado alhures, Judas é rico em metáforas, o que torna o Livro mais denso do que sua extensão pode supor, já que o leitor é convidado a refletir e pesquisar.
A expressão “rochas submersas” (recifes, rochas do mar)22, simboliza o perigo desconhecido (como icebergs) – na ARC a tradução é “manchas”, a indicar uma “desfiguração física”23.
As “festas de fraternidade”, “festas de caridade” ou “festas de amor” (ágape) eram refeições diárias, realizadas à noite, nas quais ou após as quais tinha lugar a Ceia do SENHOR24. Nelas os crentes exercitavam a comunhão, mas os falsos irmãos se misturavam com os crentes e se comportavam “sem qualquer recato”.
Em I Co 11.17-34, ao tratar da celebração da Ceia do SENHOR, o apóstolo Paulo afirma que os irmãos da igreja de Corinto se ajuntavam para pior, e não para melhor (v. 17); que havia “divisões” e “partidos” (vv. 18, 19); que verdadeiramente não era a Ceia do SENHOR que eles estavam a tomar [em razão de sua atitude] (v. 20); que uns comiam antecipadamente, uns passavam fome, e outros se embriagavam (v. 21; cf. 33). Parece que os frequentadores da Ceia em Corinto eram semelhantes aos de algumam Ceias que Judas presenciara ou de que tivera notícia.
Pastores que se autoapascentam (Ez 34.8) são aqueles que não têm compromisso com as necessidades das ovelhas, mas com seus próprios interesses.
A imagem de “nuvens sem água impelidas pelos ventos” denota pessoas sem conteúdo, instáveis, levadas facilmente de um lugar para o outro (Ef 4.14).
Árvores sem frutos, sem raízes e duplamente mortas são pessoas sem capacidade de produzir coisas boas. De acordo com o NCB, o “duplamente mortas” sugere que eram mortas antes da profissão de fé e permaneceram mortas depois dela, como crentes nominais25. E seriam “desarraigadas” porque pronunciadas para juízo.26

13 ondas bravias do mar, que espumam as suas próprias sujidades; estrelas errantes, para as quais tem sido guardada a negridão das trevas, para sempre.”

Ondas bravias do mar” é uma expressão que indica impetuosidade e sujeira (Is 57.20).
Estrelas errantes” (Is 14.12) sugere desvio, erro, pecado. O destino desses são as trevas, o inferno.

14 Quanto a estes foi que também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que veio o Senhor entre suas santas miríades,”

Ao ler este versículo somos transportados ao texto de Gn 5.19-24, onde lemos sobre um Enoque que “andou com Deus” e “não se viu mais, porque Deus o tomou para si”. A fé de Enoque o inseriu na galeria de Hb 11, precisamente no v. 5.
Nos dias de Judas havia um Livro não canônico chamado “Livro de Enoque”, exemplar da literatura apocalíptica escrita entre os Sécs. II e I a.C. Por entender que vivia o “último tempo” (v. 18), Judas reconheceu a validade de tomar de empréstimo as palavras daquele Livro, relativas a um juízo final.
O Livro de Enoque não é inspirado, mas o registro feito por Judas, sim. O apóstolo Paulo citou poetas não cristãos (At 17.28; I Co 15.33; Tt 1.12), e nem por isso os escritos daqueles homens seriam inspirados.
O SENHOR virá a estabelecer seu tribunal acompanhado de sua corte, formada por “suas santas miríades”, provavelmente os anjos, ou, quem sabe, os anjos e os redimidos.

15 para exercer juízo contra todos e para fazer convictos todos os ímpios, acerca de todas as obras ímpias que impiamente praticaram e acerca de todas as palavras insolentes que ímpios pecadores proferiram contra ele.”

O SENHOR Deus fará justiça, como um juiz ao proferir sua sentença no tribunal.
O “exercer juízo” indica a aplicação da justiça em relação a todos os homens. Em seguida, há quatro referências aos ímpios, o que não é casual.
Serão condenadas as pessoas de caráter ímpio, com obras de natureza ímpia, praticadas de maneira ímpia. Também serão julgadas as palavras insolentes contra o SENHOR Jesus Cristo.

16 Os tais são murmuradores, são descontentes, andando segundo as suas paixões. A sua boca vive propalando grandes arrogâncias; são aduladores dos outros, por motivos interesseiros.”

Por que aqueles homens eram ímpios? Eram eles murmuradores, descontentes, andando conforme suas paixões. Eram contrariados, queixosos, insatisfeitos, amargurados. Ostentavam um procedimento autônomo, independente, rebelde, dedicado a seus instintos e interesses. Eram arrogantes, aduladores, controlados por motivos interesseiros.

17 Vós, porém, amados, lembrai-vos das palavras anteriormente proferidas pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo,”

Diante dos falsos líderes, qual deve ser o comportamento, qual deve ser a reação dos crentes? Devem eles recordar do ensino apostólico (vv. 17, 18); guardar-se na fé santíssima e no amor de Deus (vv. 20, 21); buscar, quanto possível, socorrer os que estão com dúvida ou em pecado (vv. 22, 23).
São dignas de nota as expressões “Vós, porém” e “lembrai-vos”.
Na Bíblia a expressão “Vós, porém”, assim como expressões equivalentes, principia uma exortação ao pensamento e comportamento diferentes (v. 20; I Tm 6.11; II Tm 3.10, 14,15; 4.5; Tt 2.1; II Pe 3.13). Já “Lembrai-vos” traz consigo advertências, orientações (I Co 15.1-4; Tt 3.1,2; II Pe 1.12; 3.15,16).
Os irmãos da igreja em Jerusalém, nos primeiros dias da Igreja, “perseveravam na doutrina dos apóstolos” (At 2.42), e a Igreja dos dias atuais não deve proceder de modo diverso.

18 os quais vos diziam: No último tempo, haverá escarnecedores, andando segundo as suas ímpias paixões.”

O “último tempo” (últimos tempos, últimos dias, última hora) é o período que se inicia com a ascensão de Cristo e que prossegue até o fim da História (I Tm 4.1; II Tm 3.1; I Jo 2.18). O chamado “bloco histórico-redentivo” (conjunto de fatos propiciadores da salvação – encarnação, vida, morte, ressurreição e ascensão de Cristo) desencadeou a cronologia dos últimos tempos, de maneira que desde os tempos apostólicos a humanidade vive a era derradeira. Por isso, a energia com que Judas escreve não é retórica – ele realmente tem o sentido de urgência.
Os falsos irmãos referidos por Judas eram também escarnecedores são zombadores. E, mais uma vez, registra-se seu procedimento ímpio, pois “andavam segundo suas ímpias paixões”. O andar denota o proceder diário, e não um problema episódico.

19 São estes os que promovem divisões, sensuais, que não têm o Espírito.”

De acordo com o NCB, tais “divisões” não eram “cismas eclesiásticos”, mas “esnobismo social”27.
Os líderes impostores eram, ainda, “sensuais”, porque conduzidos por sentimentos, e não pelo Espírito de Deus. Neste passo é oportuno lembrar de Rm 8.9, em que Paulo distingue os que estão na carne, os quais não têm o Espírito, e os que estão no Espírito, que neles habita.

20 Vós, porém, amados, edificando-vos na vossa fé santíssima, orando no Espírito Santo,”

Enquanto os falsos irmãos eram instáveis e corrompidos, os destinatários da Epístola deviam ser estabelecidos como um edifício sólido, sobre o alicerce da fé, da oração e da espiritualidade.
Paulo afirma que somos “edifício de Deus” (I Co 3.9), e Pedro, que somos “casa espiritual” (I Pe 2.5).

21 guardai-vos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna.”

Guardar-se no amor de Deus é procurar refúgio n'Aquele que pode nos salvar. O imperativo “guardai-vos” denota o aspecto da responsabilidade humana.
Devemos aguardar a misericórdia de nosso SENHOR Jesus Cristo, tendo por alvo a vida eterna – a misericórdia mais uma vez é citada, como fora no v. 2.

22 E compadecei-vos de alguns que estão na dúvida;”

De acordo com o NCB, este versículo admite algumas interpretações, mas parece mais correta essa tradução da ARA, que ordena a compaixão para com os que estão na dúvida28.

23 salvai-os, arrebatando-os do fogo; quanto a outros, sede também compassivos em temor, detestando até a roupa contaminada pela carne”.

A primeira imagem é a de salvamento durante um incêndio. O desafio é urgente e grave, como ocorre em sinistros dessa natureza. Em Am 4.11 está escrito que Israel foi como “um tição arrebatado da fogueira”. Já o texto de Zc 3.1-5 traz situação em queo sumo sacerdote Josué é retratado pelo SENHOR como “um tição tirado do fogo”, que logo em seguida tem retiradas de si as “vestes sujas”, símbolo da iniquidade, e recebe “finos trajes”.
Os crentes devem usar de compaixão “em temor”, cuidando para não serem contaminados pelos pecados daqueles que almejam ajudar.

24 Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeços e para vos apresentar com exultação, imaculados diante da sua glória,”

Os vv. 24 e 25 exprimem uma doxologia, isto é, uma declaração de glorificação a Deus.
Se anteriormente foi dito por Judas que os irmãos deveriam se guardar, agora é afirmado que Deus é poderoso para os guardar. Assim, indicam-se tanto a responsabilidade humana como a soberania divina no que toca à salvação.
O SENHOR nos guarda de tropeços e nos coloca de pé para A reunião daquele Grande Dia, quando estaremos alegres e imaculados, santos, diante do nosso Deus.

25 ao único Deus, nosso Salvador, mediante Jesus Cristo, Senhor nosso, glória, majestade, império e soberania, antes de todas as eras, e agora, e por todos os séculos. Amém!”

A glória, a majestade, o império e a soberania pertencem ao SENHOR Todo-poderoso! Os justos alegram-se em glorificar ao Seu Deus, na Pessoa (e pela Obra) do SENHOR Jesus Cristo!
Ao mesmo tempo, essa doxologia traz uma confissão de fé: cremos num único Deus, que é Salvador e eterno. Ao nosso Deus rendemos glórias e louvores para sempre.

III – CONCLUSÃO.
É urgente a necessidade de a Igreja evangélica brasileira atentar para a Epístola de Judas, pois todas as características ali retratadas se repetem em nossos dias.
Acentua-se entre os evangélicos a influência de falsos líderes, falsos mestres e falsos profetas, notadamente nos arraiais “neopentecostais” e nas igrejas que se sentem atraídas por ideias e práticas do Movimento Neopentecostal.
Remanesce uma espécie de dualismo, herdeiro do Platonismo e do Gnosticismo, a enxergar o mundo espiritual como sendo bom e o mundo material como sendo mau, quando, na realidade, tudo o que foi criado por Deus é bom (ruim é o pecado).
Em que pese não prevalecer na atualidade um Movimento Gnóstico com esse rótulo, há, de um lado, crentes de vida praticamente ascética, voltados a uma espiritualidade individualista, enquanto outros, pouco preocupados com a espiritualidade, cultivam uma devoção materialista e sensual.
A libertinagem avança como prática e até mesmo com roupagem “teológica”, o que é muito mais grave. Perdura um baixo padrão moral e espiritual.
O Movimento da Igreja Emergente, intenso no Brasil, tem sido um caldo de cultura para o surgimento de ensinos, práticas e modismos alienados do Evangelho e potencialmente criadores de cristãos nominais e carnais, mais preocupados com a aparência gospel do que com a mensagem da Cruz, tampouco com a vida cristã.
As pessoas nas igrejas têm sentido dificuldade de ouvir a pregação da Palavra, ao passo que pregadores têm deixado de anunciar o verdadeiro Evangelho. A mensagem da Cruz tem sido alijada a um lugar de pouco apreço.
ABREVIAÇÕES:

ARA – Almeida, Revista e Atualizada.
ARC – Almeida, Revista e Corrigida.
NCB – O Novo Comentário da Bíblia.
NVI – Nova Versão Internacional.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BAXTER, J.S. Examinai as escrituras: Atos a Apocalipse. 2.ed. São Paulo: Vida Nova, 1995. v.6, 376p.

BÍBLIA SAGRADA: Nova Versão Internacional. 4.ed. São Paulo: Geográfica, 2000. 970p.

CHAMPLIN, R.N. O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. São Paulo: Candeia, 1995. v.6, 666p.

GREEN, M. II Pedro e Judas: Introdução e Comentário. 1.ed. (2ª Reimpressão) São Paulo: Vida Nova, 1993. 184p.

1 Esta apostila foi preparada em função de estudos ministrados na Assembleia de Deus na Pituba, e ainda será acrescida de informações derivadas da pesquisa em curso.
2 CHAMPLIN, p. 324.
3 p. 1.441.
4 p. 148.
5 p. 338.
6 p. 956.
7 p. 1.441.
8 p. 148.
9 p. 1.441.
10p. 956.
11 p. 150.
12 p. 150.
13 p. 151.
14 GREEN, p. 151.
15 p. 151.
16p. 152.
17 p. 956.
18 CHAMPLIN, p. 324.
19 p. 1.444.
20 NCB, p. 1.444.
21 NCB, p. 1.444.
22 NCB, p. 1.445.
23 NCB, p. 1.445.
24 NCB, p. 1.445.
25 NCB, p. 1.445.
26 NCB, p. 1.445.
27 NCB, p. 1.446.

28 NCB, p. 1.447.

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Para pensar:

Um dos terríveis problemas da Igreja evangélica brasileira é a falta de conhecimento da Bíblia como um sistema coerente de princípios, promessas e relatos que apontam para Cristo como Criador, Sustentador e Salvador. Em vez disso, prega-se um "jesus" diminuído, porque criado à imagem de seus idealizadores, e que faz uso de textos bíblicos isolados, como se fossem amuletos, peças mágicas a serem usadas ao bel-talante do indivíduo.

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Creio:
Em um só Deus e na Trindade.
Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristão.
Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal e sua ascensão aos céus.
Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor.
No batismo bíblico em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo.
Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus, através do poder do Espírito Santo.
No batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a intercessão de Cristo.
Na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja para sua edificação, conforme a sua soberana vontade.
Na Segunda Vinda de Cristo.
Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo.
No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis.
E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.