sábado, 24 de janeiro de 2009

A religião cristã não é um toque mágico em Jesus Cristo

Na cidade galiléia de Cafarnaum, enquanto seguia para a casa de Jairo a fim de curar sua filha, Jesus, comprimido pela multidão, foi tocado por uma mulher que sofria de hemorragia já há doze anos. Ela entendeu que seria curada se ao menos tocasse na orla de Suas vestes. É o que narram Mateus, Marcos e Lucas.
Tratava-se de uma pessoa atribulada, primeiro por ser mulher numa sociedade patriarcal, segundo por ser doente, e terceiro porque essa doença lhe dava a pecha de cerimonialmente imunda (Lv 15.25). Vencendo todas essas barreiras, a mulher se aproximou de Jesus e tocou em Sua roupa.
Ao perceber que fora tocado de modo especial, Jesus perguntou: “Quem me tocou”? Como Seus discípulos acharam estranha a pergunta, dada a multidão ao redor, Jesus disse que dele saíra poder.
Pensemos um pouco sobre esse ponto: de onde aquela mulher tirou a idéia de que tocar na roupa de Jesus poderia lhe dar a cura? Naquela época, pensava-se que tocar na roupa ou passar pela sombra de uma pessoa poderosa faria com que dela saísse poder. Foi assim que multidões levavam seus enfermos a Jesus a fim de que fossem curados ao menos pelo toque na orla de suas vestes. Vê-se, então, que a iniciativa não partiu de uma criação mental daquela senhora, mas de um pensamento comum na superstição popular.
Jesus costumava tocar nas pessoas, mas isso não significa que reconhecesse a validade da superstição. O toque de Jesus frequentemente comunicava compaixão, solidariedade, amor, afeição, além de empregar também o simbolismo da imposição de mãos, que decorre dos tempos do Antigo Testamento, significando agora, em síntese, uma transmissão de poder, seja para a plenitude do Espírito, seja para bênção em geral, seja, ainda, para consagração de oficiais da Igreja. Mas não existe poder nas mãos daquele que as impõe: o poder pertence a Deus, e somente a Ele. Como Deus, Jesus tem poder em Si mesmo, e como Homem, recebeu poder quando de Seu batismo, ao ser ungido pelo Espírito Santo na forma de pomba.
É certo que Jesus curou um leproso com um toque, e chegou a colocar lodo nos olhos de um cego para que passasse a enxergar. Mas quanto à cura no contexto da Igreja, a promessa de Jesus foi “Imporão as mãos sobre os enfermos e os curarão”. Essa é a forma simples e clara de curar enfermos em nome de Jesus. Não há técnicas especiais nem fórmulas verbais que devam ser empregadas, mas um gesto simbólico de transmissão de poder.
Entretanto, a religiosidade do populacho perpassou o período de Jesus com essa noção um tanto fetichista. Em At 5.15, vemos que em Jerusalém muitas pessoas buscavam passar pela sombra de Pedro para serem curadas. Semelhantemente, muitas outras, em Éfeso, afluíam a Paulo, para que ao menos pudessem tocar em seus lenços de uso pessoal e nos aventais que ele usava para fazer tendas (At 19.11,12). No entanto, em sua narrativa, Lucas em nenhum momento afirma que essa fosse uma regra a ser seguida pela Igreja. Além disso, não se pode doutrinar exclusivamente com base em narrativas, o que é demasiado perigoso e pode fomentar heresias.
Devemos fugir de tudo o que possa parecer com o fetichismo, que consiste no emprego de objetos com efeitos espirituais. Em setores chamados “neopentecostais” – que prefiro chamar de “pseudopentecostais” – ocorre o uso de galhos de arruda, sal grosso, rosas, e tantos outros objetos com significação esdrúxula, inventada por figuras cada vez mais criativas e de imaginação incrivelmente fértil para toda sorte de “campanhas”. Tudo isso fazem os pajés, das tribos indígenas, e os pais-de-santo, das religiões afro-brasileiras. Tudo isso se parece muito com feitiçaria e artes mágicas, e não encontra fundamento na Palavra de Deus.
A espiritualidade cristã não pode ser confundida com um simples toque no sobrenatural. A espiritualidade cristã define-se com um relacionamento pessoal com Deus em Cristo Jesus, pela habitação do Espírito Santo na vida dos regenerados. Em vez de apenas curar, Jesus quis saber quem Lhe tocou, o que denota o sentido de comunhão.
Embora a mulher que tocou em Jesus estivesse com uma expectativa limitada e um conhecimento equivocado, Jesus não a desprezou. Pelo contrário, a recebeu em Sua comunhão, dando-lhe a paz e a saúde física. Como vimos, multidões buscavam a Jesus com esse mesmo propósito de cura por meio do toque, mas Jesus, como resta claro nessa passagem, sempre deseja o relacionamento espiritual, que é mais profundo do que um simples toque.
Ademais, outro episódio lança luz ao tema: justamente aquele em que um centurião afirma que somente uma palavra de Jesus já seria suficiente para curar seu criado, mesmo à distância. E qual foi a reação do Mestre? Disse que nem mesmo em Israel encontrou tamanha fé. Qual o diferencial da fé do centurião romano? Ele tinha uma fé que ia além das distâncias, que não dependia de objetos nem sombras.
Em outra linha de idéias, como devemos interpretar a frase de Jesus quanto a ter saído poder de Si? Ora, não nos é dada nenhuma informação sobre a qual possamos especular. Sabemos simplesmente que algum processo sobrenatural ocorreu ali. Em seguida, ao obter o esclarecimento da mulher, que estava trêmula e com medo, Jesus disse “A tua fé te curou” ou “salvou”. Isso não quer dizer que sua fé foi vista por Jesus como um ente autônomo, independente do próprio Jesus. Significa, isto sim, que a fé foi o instrumento da cura, e não a sua causa. Quem cura e salva é sempre Jesus Cristo. Vemos isso claramente em Ef 2.4-10.
No meio pentecostal e pseudopentecostal, causam sensação as pregações e discursos em torno do sobrenatural como solucionador de problemas os mais diversos. Essa é uma tentação antiga, voltada à satisfação de curiosidades quanto ao misterioso e extraordinário. Mas, será que a nossa espiritualidade se resume a isso? Será que nossa religião é assim parecida com tantas religiões fetichistas que há no mundo? Seremos nós também animistas? Que tipo de espiritualidade temos proposto ao mundo? É bom pensarmos nisso para não corrermos o risco de chamarmos de Cristianismo uma religião experiencial fundamentada em bases pagãs.
Querer de Jesus apenas um toque é uma coisa quase mágica – para fazer referência a Helmut Thielicke. Mais uma vez, cumpre lembrar que não se trata de menosprezar a fé daquela senhora, mas é necessário avançarmos em nossa concepção a respeito de Cristo. De uma perspectiva aproximada da magia, podemos e devemos partir para uma perspectiva cristã, que não pode ser menos que relacional.

2 comentários:

João Armando disse...

É interessante comparar três curas - a da mulher com fluxo de sangue (citada por você no texto), a do centurião romano que dispensou a presença física de Jesus, e disse que bastava uma palavra para que o servo dele fosse curado, e a de Jairo, cuja filha acabou por morrer e foi ressuscitada. Jairo acreditava que Jesus precisava ir, pessoalmente, curar sua filha - se não fosse, ela morreria. Chegou ao ponto de pedir que Jesus andasse mais depressa! A mulher com fluxo de sangue acreditava que precisava tocar-lhe nas vestes - e o centurião, muito elogiado por Jesus por sua fé, cria que bastava uma palavra. Três paradigmas - o do centurião foi elogiado, mas nos três casos o milagre aconteceu.

Concordo com você que temos de amadurecer na fé. Há crentes neófitos, que precisam de toques, de meios e métodos diversos para obterem as bênçãos - mas Deus deseja que deixemos a meninice e nos tornemos varonis na fé. Seja como for, é tocante e reconfortante perceber que mesmo na nossa fraqueza e imaturidade, ele nos ama, atende, abençoa, sem exigir que estejamos totalmente certos, do ponto de vista teológico, para que aja.

Atalaia disse...

Os evangélicos,sobretudo os pentecostais e neo pentecas são muito místicos, se eles querem um bom emprego,que pague um bom salário,eles vão orar no monte,fazer corrente de oração,campanhas da prosperidade de "ouro" etc,etc.Infelizmente sua liderança os explora desta forma, lhes oferecendo campanhas e mais campanhas onde quem verdadeiramente prospera é a liderança.Os cristãos não são ensinados de púlpito a estudar,se qualificar,fazer curso técnico,curso superior,informática,para poderem conseguir um emprego melhor.Este ensino de que Jesus está as portas e pode voltar a qualquer momento para arrebatar a igreja,já prejudicou muita gente boa,que deixou de estudar, trabalhar,conquistar,por conta de um ensinamento dado com falta de sabedoria pela liderança.
As igrejas deveriam comprar uns quatro jornais de domingo e colocar o caderno de empregos à disposição dos membros depois da escola dominical e incentivar a quem está desempregado a acordar cedo segunda feira e correr atrás do seu emprego, e quem não tem dinheiro para a passagem,a igreja deve dar.O exemplo é o da nação de Israel que recebeu Canaã por promessa de Deus,porém tinha que conquistá-la,tinha que expulsar os moradores da terra,para poder desfrutar da terra que mana leite e mel.Todavia infelizmente é mais cômodo colocar RS 5o,oo em um envelope de voto da prosperidade de "ouro" do que se empenhar para conquistar os melhores cargos e salários.

Crescimento numérico, dinheiro e espaço na mídia demonstram a aprovação divina à pregação de uma igreja?

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Para você que lê o que escrevo neste espaço, precisamos comunicar alguns princípios:
1) Os estudos, artigos e reflexões teológicas não seguem uma linha de teologia denominacional, mas de estudos pessoais. Eu não fico aqui defendendo a minha denominação, que é outro tipo de abordagem, o qual respeito, mas não pratico neste blog.
2) Não pretendo agradar nem machucar ninguém.
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5) Sou aberto a críticas e respeito opiniões divergentes.
6) Minha intenção não é polemizar, ainda que meus pensamentos possam ser objeto de eventual polêmica.
7) O que escrevo aqui concerne ao trabalho independente de um aprendiz da Teologia, e por isso não estou representando minha denominação - é bom frisar.
8) Se quisermos um rótulo, sou um “pentecostal histórico moderado”: estou começando a entender que a plenitude do Espírito tem dois aspectos - moral (At 6.3; 11.24; Gl 5.22,23; Ef 5.18-21) e carismático (At 2.1-4; 4.31; 6.8) - e que o batismo com o Espírito Santo pode ser evidenciado por outros sinais que não a glossolalia, como o profetizar (At 2.1-4; 8.17; 10.44-47; 19.6). Creio que, de algum modo, os dons espirituais estão relacionados à plenitude do Espírito, mas não consigo compreender que as línguas estranhas sejam sinal sine qua non do batismo com o Espírito Santo. Entendo que o batismo com o Espírito Santo tem o propósito de capacitar a igreja para a evangelização (At 1.8), com o incremento de dons, e não para que se exalte o dom de línguas em detrimento dos demais. Quero destacar, acima de tudo, que nessa questão eu tenho ainda mais perguntas do que respostas, mas sou honesto em admitir isso.
9) Tenho um juízo crítico muito aguçado, e uma pena algo contundente. Se o leitor se assustar com isso, me perdoe.
10) Quanto à escatologia e interpretação do Apocalipse, não adoto a priori nenhuma corrente teológica, mas tão-somente a análise textual, naquela perspectiva da Teologia Bíblica.
11) Por fim, tenho convicção de que o SENHOR me chamou para pregar e para ensinar oralmente ou por escrito. Tenho convicção de que devo militar na área da educação cristã e da teologia. Se isso servir de ajuda, estou apenas tentando cumprir o meu chamado.


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Para pensar:

Um dos terríveis problemas da Igreja evangélica brasileira é a falta de conhecimento da Bíblia como um sistema coerente de princípios, promessas e relatos que apontam para Cristo como Criador, Sustentador e Salvador. Em vez disso, prega-se um "jesus" diminuído, porque criado à imagem de seus idealizadores, e que faz uso de textos bíblicos isolados, como se fossem amuletos, peças mágicas a serem usadas ao bel-talante do indivíduo.

Você entende que o batismo no Espírito Santo deve ser necessariamente evidenciado por línguas?

Abreviaturas eventualmente utilizadas

ARA - Almeida Revista e Atualizada
ARC - Almeida Revista e Corrigida
BEP - Bíblia de Estudo Pentecostal
BLH - Bíblia na Linguagem de Hoje
EP - Edição Pastoral
NCB - Novo Comentário da Bíblia, O
NVI - Nova Versão Internacional

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Quem sou eu

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Alex Esteves da Rocha Sousa
Baiano, filho de piauienses, esposo de uma paulista e pai de uma mineirinha e de um baianinho. Saí da Bahia em 1996 para estudar Direito na Universidade Federal de Viçosa, em Minas Gerais, onde concluí o curso em 2001. Depois, passei cerca de cinco anos em Sete Lagoas-MG, onde fiz algumas das coisas mais importantes da vida: consegui o primeiro emprego (escrevente do Fórum local), casei, me tornei pai, construí uma casa. Mas, como o Ministério Público da União me chamou a fim de assumir o cargo para o qual fiz concurso em 2004, acabei indo morar em Campo Grande-MS em 31 de dezembro de 2006. Temos sido grandemente abençoados por Deus. Sou assembleiano, fui batizado nas águas em abril de 1992. Professor de Escola Dominical e pregador quando me convidam, aprecio o estudo e a exposição da Bíblia. Um dos sonhos que estava realizando há pouco era cursar Teologia, o que fiz por um tempo na FATHEL - Faculdade Theológica, lugar em que aprendi muito, e que valorizo pela humildade de seus gestores, professores e alunos, bem como pelo caráter não denominacional, mas cristão evangélico acima de tudo. Agora estou de volta à Bahia, e que Deus nos ajude.
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Bases de Fé

Creio:
Em um só Deus e na Trindade.
Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristão.
Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal e sua ascensão aos céus.
Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor.
No batismo bíblico em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo.
Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus, através do poder do Espírito Santo.
No batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a intercessão de Cristo.
Na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja para sua edificação, conforme a sua soberana vontade.
Na Segunda Vinda de Cristo.
Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo.
No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis.
E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.