quarta-feira, 15 de março de 2017

POR UMA SÓLIDA COSMOVISÃO PENTECOSTAL

POR UMA SÓLIDA COSMOVISÃO PENTECOSTAL


Alex Esteves da Rocha Sousa


Deus sabe a grande admiração e respeito que tenho pelo brilhante Rev. Augustus Nicodemus Lopes, pastor e teólogo presbiteriano. Outros nomes reformados de peso, tanto do Brasil como do exterior, têm chamado a atenção de crentes pentecostais, e minha hipótese é que seu interesse se dá mais pela exposição bíblica ortodoxa do que pela Soteriologia calvinista, pois em púlpitos e escolas bíblicas pentecostais é histórica a escassez de Bíblia, o que se tem agravado nas últimas duas décadas, talvez pela intromissão de tendências “neopentecostais”, entre outras razões.
É o que acontece comigo: não sou calvinista, e, portanto, não sou adepto dos Cinco Pontos do Calvinismo - TULIP, na sigla em inglês (Depravação Total, Eleição Incondicional, Expiação Limitada, Graça Irresistível e Perseverança dos Santos), nem dos símbolos de fé reformados, a exemplo da Confissão de Fé de Westminster. Aceito os Cinco Solas (Sola Gratia, Sola Fide, Sola Scriptura, Solus Christus, Soli Deo Gloria), e por isso sou protestante, mas não sou calvinista nem reformado, no sentido técnico.
De toda forma, tirante o que os calvinistas chamam de “Doutrinas da Graça”, como a predestinação, aprecio muito a forma calvinista de enxergar a relação entre Graça e Natureza, ou seja, como eles enxergam a espiritualidade e sua interação com o mundo criado e com a cultura lato sensu (ciência, estudo, trabalho, política, direito, artes, música, técnica, tecnologia, cultura stricto sensu). Eles escaparam daquele dualismo católico que divide tudo entre o sacro e o profano, e que tem raízes gnósticas - aquele Gnosticismo que Paulo e João combateram tenazmente, ainda em fase embrionária àquela altura.
Gosto também da ênfase que os reformados dão ao método histórico-gramatical de interpretação; à exposição integral de textos e Livros bíblicos; à hermenêutica e exegese; e tenho interesse em aprender mais sobre sua Teologia dos Pactos. Meu desconforto com o Dispensacionalismo Pré-Milenista é algo que me aproxima dos reformados, geralmente amilenistas.
Não ignoro que alguns dos pentecostais atraídos por pregações reformadas têm assentido com as doutrinas de Calvino sobre a dinâmica da Salvação, mas isso não contraria a hipótese de que, em substância, o problema fundamental dos pentecostais é como a exposição bíblica tem sido rarefeita em nosso meio. Sensacionalismo, emocionalismo e triunfalismo não respondem às grandes questões teológicas, doutrinárias e éticas que povoam tantos corações.
Não se trata de ausência de boa teologia pentecostal. Temos, sim, grandes teólogos pentecostais no Brasil e fora dele. Há uma sólida teologia pentecostal. No Brasil posso citar nomes como Antonio Gilberto, Elienai Cabral, Esequias Soares, Claudionor Correa de Andrade, Esdras Soares Bentho, Silas Daniel, todos da Assembleia de Deus, igreja pentecostal histórica que, por meio da CPAD (Casa Publicadora das Assembleias de Deus), edita material de excelência em diversas áreas de interesse cristão. Fora do nosso país, posso citar Stanley Horton, Anthony D. Palma, Orlando Boyer, Myer Perlman, Donald Gee, também publicados pela editora assembleiana.
Estudando sobre a História da Igreja, deparei com a influência que o Pentecostalismo Histórico recebeu do Metodismo, que, por sua vez, foi iniciado pelos anglicanos John e Charles Wesley. No Primeiro e no Segundo Grande Avivamento, ocorridos nos períodos de 1725 a 1775 e de 1800 a 1861 - portanto, antes do Movimento Pentecostal - houve a atuação de figuras como Jonathan Edwards, Charles Finney, Dwight L. Moody, George Whitefield, Francis Asbury, além dos já citados irmãos Wesley.
O Wesleyanismo, que é arminiano, abrange tanto o Metodismo como tendências por ele influenciadas, a exemplo do Pentecostalismo Histórico e do Movimento Holiness. Desse modo, talvez seja útil nos aproximarmos de literatura que nos dê uma apresentação lúcida sobre esses movimentos.
A ênfase que nós, pentecostais, damos à espiritualidade não pode ser tida como algo exclusivo, porque antes vieram inúmeros grupos ocupados com esse tema, a exemplo dos pietistas e puritanos. Entre os brasileiros de igrejas históricas - mas também de igrejas pentecostais - tem surgido um interesse genuíno pelos puritanos, por seu zelo na Palavra, na oração e na piedade pessoal. No entanto, quero destacar o fato de que esse zelo pode ser encontrado em grupos não calvinistas, mais próximos do Pentecostalismo.
Neste ponto eu tenho condições de explicar o título desta dissertação: não se trata da defesa de uma teologia pentecostal, porque esta já existe. Defendo aqui a necessidade de uma cosmovisão pentecostal sólida, ou seja, sedimentada na Palavra de Deus. Com o termo “cosmovisão” pretendo me referir a um repertório de princípios, tradições, conhecimentos, crenças e valores do universo pentecostal, que abrange doutrinas, correntes teológicas, personagens históricos, despertamentos ao longo da História da Igreja, conexão com a Reforma Protestante, contribuições teológicas de alto calibre provenientes de autores pentecostais.

Não gostaria de que o Pentecostalismo Clássico fosse assaltado por comportamentos e ideias bizarras, como o reteté, o triunfalismo, a Teologia da Prosperidade, a maldição hereditária, a cobertura espiritual. Não somos isso. Não é assim que se caracteriza a Teologia Pentecostal.

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Um dos terríveis problemas da Igreja evangélica brasileira é a falta de conhecimento da Bíblia como um sistema coerente de princípios, promessas e relatos que apontam para Cristo como Criador, Sustentador e Salvador. Em vez disso, prega-se um "jesus" diminuído, porque criado à imagem de seus idealizadores, e que faz uso de textos bíblicos isolados, como se fossem amuletos, peças mágicas a serem usadas ao bel-talante do indivíduo.

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Em um só Deus e na Trindade.
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Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal e sua ascensão aos céus.
Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor.
No batismo bíblico em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo.
Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus, através do poder do Espírito Santo.
No batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a intercessão de Cristo.
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Na Segunda Vinda de Cristo.
Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo.
No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis.
E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.