sábado, 27 de dezembro de 2008

EVANGELHO E AMIZADE - o que uma coisa tem que ver com a outra?*

Definição de amizade.
Segundo o Mini Dicionário Aurélio, amizade é o “sentimento fiel de afeição, estima ou ternura entre pessoas que em geral não são parentes nem amantes...; ternura”. Para o mesmo dicionário, amigo é aquele que “é ligado a outrem por laços de amizade” (idem).
A amizade é uma afeição, digamos, gratuita. As pessoas ficam amigas “de graça”. Enquanto os parentes têm o amor familiar, e os cônjuges, o amor conjugal, a amizade é um amor diferente, que não se explica pelos laços sanguíneos nem pela parceria afetivo-sexual.
Dito de outro modo: todo mundo espera que os parentes e cônjuges se amem; mas a amizade entre as pessoas é um sentimento que se explica por si.
Agora, o que a amizade tem que ver com o Evangelho? Façamos um estudo acerca disso.

Exemplos de amizade na Bíblia.
Deus e Abraão – Abraão foi chamado de “amigo de Deus” (II Cr 20.7; Tg 2.23). Por quê? Porque Abraão conversava com Deus, confiava n’Ele inteiramente e se mostrava fiel. Enquanto todos os outros deuses são tidos como inacessíveis, o Deus de Abraão é Aquele que deseja um relacionamento de amizade com o ser humano.
Deus e Moisés – Deus falava a Moisés “face a face, como qualquer fala a seu amigo” (Ex 33.11).
Rute e sua ex-sogra Noemi – Sem nenhuma obrigação legal, e numa situação de calamidade, Rute declarou fervorosa amizade à mãe de seu marido morto (Rt 1.16).
Davi e Jônatas – Davi e Jônatas eram muito amigos. O Texto Sagrado diz que “a alma de Jônatas se ligou com a de Davi” (I Sm 18.1). Sua amizade era tão verdadeira que mereceu registro nas Escrituras Sagradas. Havia companheirismo e lealdade, a ponto de Jônatas salvar a vida do amigo por mais de uma vez, contra a vontade de seu pai, o rei Saul (ver I Sm 18.1-4; 19.1-10; 20.1-43).
Paulo e Tito – em certa passagem da vida, o apóstolo Paulo só ficou confortado depois que recebeu a visita de seu amigo Tito (II Co 7.5-7).
Os amigos de Jesus de Nazaré – Além de uma relação de Senhor e servos, Mestre e discípulos, Jesus estabeleceu com os Doze Apóstolos uma relação de amizade, algo mais profundo do que a relação de senhorio (Jo 15.13-15).
Num dia em que multidões se aglomeravam em torno de Jesus, a ponto de se atropelarem, Ele se dirigiu especialmente aos Seus discípulos, chamando-os de “amigos” (Lc 12.4).
Havia, porém, amigos mais próximos, como Pedro, Tiago e João, que Jesus levava consigo em ocasiões especiais (ver em Mt 17.1-8; Mc 9.2-8 e Lc 9.28-36 o episódio da Transfiguração; e Mt 26.36-46; Mc 14.32-42; Lc 22.40-46, na oração no Getsêmane, quando, ao se afastar para orar, Jesus levou somente Pedro, Tiago e João, embora os demais discípulos também estivessem ali).
Dentre os três amigos mais chegados, João era o discípulo a quem Jesus amava, e os textos demonstram claramente que ele tinha maior intimidade com Jesus do que qualquer outro discípulo (Jo 13.23-25 e 21.20).
Havia também os irmãos Lázaro, Marta e Maria, todos amigos de Jesus (Jo 11.5). O próprio Lázaro foi chamado por Jesus de “nosso amigo Lázaro” (Jo 11.11).
Jesus foi reconhecido como “amigo de publicanos e pecadores” porque comia e bebia com eles, sem preconceito (Mt 11.19; Lc 7.34).
E, mesmo sabendo que Judas Iscariotes estava ali para o entregar aos soldados, Jesus o chamou de “amigo” no Jardim do Getsêmane (Mt 26.50).
Aprendemos, assim, que o Homem Jesus tinha amigos, uns mais chegados que outros. Isso ocorreu porque é natural ao Ser Humano construir relações mais profundas que outras, amizades mais íntimas que outras.
No entanto, quando se trata da amizade de Cristo com Sua Igreja, precisamos compreender que Jesus é Amigo de todos os que nasceram de novo. Veremos isso em outro tópico.

O que a Bíblia diz da verdadeira amizade.
A verdadeira amizade é contemplada na Bíblia como uma coisa muito boa, uma relação saudável e valiosa. Senão, vejamos:
• O amigo mostra compaixão ao aflito (Jó 6.14).
• O amigo ora pelos seus amigos, ainda que eles se revelem falsos (Jó 42.10; c/c 6.27 e 16.20). No Sl 35, Davi afirma que tratou como amigos uns homens que depois se revelaram seus inimigos (ver vv. 13-16).
• O amigo ama “em todo o tempo”, e na angústia “nasce o irmão” (Pv 17.17).
• O “conselho cordial” do amigo é comparado ao “óleo e o perfume”, pois alegra o coração (Pv 27.9). Na profecia de Isaías, Jesus Cristo é chamado de “Maravilhoso Conselheiro” (Is 9.6) porque Seus conselhos são perfeitos e produzem milagres na vida de quem os recebe.
• Não se deve abandonar o amigo (Pv 27.10).
• A amizade é importante na formação do caráter, assim como o ferro que se afia com o ferro (Pv 27.17).

As limitações da amizade humana.
No Sl 41.9, texto messiânico, o salmista Davi prevê o momento em que até o “amigo íntimo” de Cristo levantaria o calcanhar contra Ele. Algo semelhante está no Sl 55.12,13, quando o salmista, também se referindo profeticamente a Cristo, diz que suportaria a afronta de um inimigo, mas não de um amigo íntimo, companheiro e homem igual a ele. Essa dor é maior.
A profecia do Sl 41 cumpriu-se em Jo 13.18, quando Jesus disse que um que comia do mesmo pão que Ele lhe levantaria o calcanhar. Esse homem foi Judas Iscariotes, o traidor. Judas traiu não apenas uma religião – ele traiu uma amizade.
Num contexto de crise nacional, o profeta Jeremias foi perseguido por amigos íntimos (Jr 20.10).
Por causa de uma doença e da pobreza repentina, Jó foi abandonado por todos os seus amigos íntimos (Jó 19.19). Seus parentes e conhecidos fizeram o mesmo (Jó 19.14). Mas certamente a dor maior não veio da distância de parentes e conhecidos – o pior é ser deixado pelos amigos íntimos.
Parece que Davi também foi desprezado por amigos devido a uma doença (Sl 38.11). Isso ele podia esperar de adversários, talvez até de vizinhos e conhecidos (Sl 31.11), mas não de amigos íntimos. Só que isso às vezes acontece, como o Salmo sugere.
O salmista Hemã, de igual modo, expressou em poesia a dor de ser abandonado pelos próprios amigos (Sl 88.8,18).
O difamador separa os maiores amigos (Pv 16.28).
Curiosamente, o mesmo autor de Provérbios diz que “o homem que tem muitos amigos sai perdendo; mas há amigo mais chegado do que um irmão” (Pv 18.24). O que isso quer dizer? A Bíblia Anotada traz uma tradução alternativa: “Um homem com amigos demais será quebrado em pedaços”. E dá a seguinte explicação: “Amigos indiscriminadamente escolhidos podem trazer problemas, mas um verdadeiro amigo permanece fiel na alegria e na tristeza” (p. 812).
Há “amigos” que aparecem aos montes quando alguém fica rico, mas, ao mesmo tempo, fica o pobre desamparado de seus amigos (Pv 19.4). Essa é a amizade interesseira, que, na verdade, não é amizade coisa nenhuma. São os amigos que surgem quando o indivíduo ganha na loteria, tão-somente para gastar sua fortuna; e que desaparecem assim que a riqueza se esvai.
Há “amigos” que são bajuladores dos que dão presentes (Pv 19.6). Dependendo da situação, comportam-se como capachos.
Numa sociedade afastada de Deus, o profeta Miquéias precisou dizer para não se confiar no amigo, e para não se falar nada àquele que reclina a cabeça sobre o seu peito (Mq 7.5-7). Esse é um cenário de problemas familiares e sociais, bem parecido com o que temos hoje no mundo.
Devido às muitas limitações da amizade humana, há quem perca a esperança. Mas a amizade é um bem precioso, que deve ser construído como num processo. De toda maneira, há uma amizade que transcende todo sentimento humano, e que só Jesus Cristo pode ofertar.

Jesus, o Amigo Incomparável.
Jesus apresenta-se como SENHOR, Mestre, Rei, Pastor, Noivo, Juiz, Primogênito, mas também como Amigo. Ele é o maior Amigo, o verdadeiro Amigo.
Por que Jesus é o maior Amigo?
Jesus sempre está disposto a nos ajudar;
Jesus sempre tem tempo para Seus amigos;
Jesus tem conselhos maravilhosos (Is 9.6).
Jesus é fiel;
Jesus é leal;
Jesus não muda;
Jesus não mente.
E, o que é mais importante, Jesus deu a Sua vida por nós, quando ainda éramos Seus inimigos.
É até possível que alguém dê sua vida por um amigo. Mas só Jesus Cristo ofereceu sua vida por Seus inimigos.
A amizade de Cristo implica em intimidade, conhecimento mútuo, diálogo aberto e lealdade.
Vejamos a seguir, com base bíblica, em que consiste a amizade de Cristo.

O Evangelho é a oportunidade de fazer as pazes com Deus.
Em Rm 5.7-11, Paulo explica o Evangelho de uma forma muito clara: mesmo que dificilmente, pode ser que alguém se anime a morrer por um justo, por uma pessoa boa; mas Deus prova o Seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós sendo nós ainda pecadores. De fato, quando ainda éramos inimigos de Deus, Ele enviou Seu Filho para morrer pelos nossos pecados, para nos reconciliar. Agora, tendo recebido a reconciliaçao, e sendo, portanto, amigos de Deus, “seremos por ele salvos da ira” (v.9), “seremos salvos pela sua vida” (v.10). Isto porque agora somos amigos de Deus, fizemos as pazes com Deus.
Paulo escreveu que “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (II Co 5.18-20), e nos deu a palavra ou o ministério da reconciliação. Isto significa que o mundo estava em conflito com Deus, e que Jesus Cristo veio fazer as pazes entre Deus e os homens. Como um mediador, advogado ou conselheiro, Jesus Cristo veio restaurar a amizade do Homem com Deus, perdida na Queda (Gn 3.1-7).
Com Sua morte na Cruz, Jesus Cristo derrubou “a parede da separação”, que era a “inimizade” (Ef 2.11-22). Quem era estrangeiro, passou a ser da “família de Deus”; quem era peregrino passou a ser “concidadão dos santos”; quem era gentio (pagão) passou a ser parte da “comunidade de Israel”; quem estava longe foi aproximado pelo sangue de Jesus.

Conclusão.
Há muitas formas de explicar o Plano de Salvação, mas percebo que a mensagem cristã evangélica não tem sido compreendida pela sociedade, talvez por nossa incompreensão pessoal da essência do Evangelho.
Espero que esta palavra sobre a amizade e o Evangelho tenha contribuído para um entendimento do que Jesus Cristo fez pela Humanidade.
*Material preparado para pregação no Culto do Amigo, na Congregação da Assembléia de Deus do Riacho do Mel, em Alagoinhas-BA, a ser realizada no dia 28 de dezembro de 2008.

Um comentário:

João Armando disse...

Uma das coisas ditas, no artigo, com respeito aos amigos, é que •A amizade é importante na formação do caráter, assim como o ferro que se afia com o ferro (Pv 27.17)." Como é verdadeira a Palavra de Deus! Posso testemunhar que Deus tem usado irmãos na fé - verdadeiros AMIGOS - para me "afiar", para me moldar mais à imagem de Cristo, nosso alvo. Temos nos reunido regularmente para compartilhar dificuldades (no casamento, no testemunho cristão, no trabalho etc.), para confessar nossas faltas e para orarmos uns pelos outros. Se eu soubesse antes os frutos que colheria, já há muito teria começado a praticar isso. Deus, contudo, tem seu tempo perfeito.

É interessante reparar como a Bíblia fala até dos amigos inconvenientes, que se demoram muito. Em Provérbios 25.17 lemos: "Não sejas freqüente na casa do teu próximo, para que não se enfade de ti e te aborreça" - não se nos diz, explicitamente, que a referência é a amigos, mas creio que é, pois só amigos (ou quem assim se considera) teria essa liberdade.

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Um dos terríveis problemas da Igreja evangélica brasileira é a falta de conhecimento da Bíblia como um sistema coerente de princípios, promessas e relatos que apontam para Cristo como Criador, Sustentador e Salvador. Em vez disso, prega-se um "jesus" diminuído, porque criado à imagem de seus idealizadores, e que faz uso de textos bíblicos isolados, como se fossem amuletos, peças mágicas a serem usadas ao bel-talante do indivíduo.

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Creio:
Em um só Deus e na Trindade.
Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristão.
Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal e sua ascensão aos céus.
Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor.
No batismo bíblico em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo.
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Na Segunda Vinda de Cristo.
Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo.
No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis.
E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.