sexta-feira, 16 de outubro de 2015

ANOTAÇÕES DE UM CRENTE - O princípio

"No princípio* criou Deus os céus e a terra" (Gn 1.1).
Não por acaso, o Livro de Gênesis tem início com a formidável declaração de que "No princípio criou Deus os céus e a terra". Esse é o Livro dos começos: começo do mundo, começo da humanidade, começo da família, começo do trabalho, começo do chamado "mandato cultural", começo da sociedade, começo do pecado, começo das nações, começo dos idiomas, começo da anunciação do evangelho. 
Gênesis, palavra de procedência grega, significa "gênese, origem, começo, princípio". É muito bom que a Bíblia se inicie com um Livro dedicado a revelar ao Homem como tudo começou.
Por outro lado, não se deve esperar que o Gênesis ou qualquer outro Livro da Bíblia explique cientificamente a origem do mundo e das espécies, porque não se trata de livro científico. A Bíblia encerra a revelação divina para a salvação da humanidade. Escrita há milênios, imagine se a Bíblia explicasse ao homem antigo, por meio de teoremas, postulados e equações, como Deus criou todas as coisas. Teríamos um imenso e incompreensível tratado de física, química e biologia, e não o Livro da salvação.
Deus criou o mundo no princípio, estado, portanto, pré-material e pré-temporal. Não havia existência, não havia matéria, não havia espaço, não havia tempo, e Deus criou todas as coisas. O princípio é, pois, um não-período, um "estágio" na eternidade.
Para criar todas as coisas Deus não precisou de absolutamente nada, senão Sua própria sabedoria e poder.
Em Pv 8.22-31 há um belo texto sobre a presença da sabedoria divina no princípio. Vejamos:

"22 O SENHOR me possuía no início de sua obra, antes de suas obras mais antigas.
23 Desde a eternidade fui estabelecida, desde o princípio, antes do começo da terra.
24 Antes de haver abismos, eu nasci, e antes ainda de haver fontes carregadas de águas.
25 Antes que os montes fossem firmados, antes de haver outeiros, eu nasci.
26 Ainda ele não tinha feito a terra, nem as amplidões, nem sequer o princípio do pó do mundo.
27 Quando ele preparava os céus, aí estava eu; quando traçava o horizonte sobre a face do abismo;
28 quando firmava as nuvens de cima; quando estabelecia as fontes do abismo;
29 quando fixava ao mar o seu limite, para que as águas não traspassassem os seus limites; quando compunha os fundamentos da terra;
30 então, eu estava com ele e era seu arquiteto, dia após dia, eu era as suas delícias, folgando perante ele em todo o tempo;
31 regozijando-me no seu mundo habitável e achando as minhas delícias com os filhos dos homens".

Note a repetição da palavra "antes" e a noção de precedência da sabedoria divina em relação a todas as coisas: a terra, os abismos, as fontes carregadas de águas, os montes, os outeiros, as amplidões, o pó do mundo, os céus, o "horizonte sobre a face do abismo", as nuvens, as fontes do abismo, o limite do mar, os fundamentos da terra... Tudo foi criado com a supervisão da sabedoria de Deus.
A sabedoria, porém, não é uma energia, um elemento, uma pessoa, um anjo, um poder cósmico - a sabedoria é uma característica e virtude do SENHOR.
É certo que o SENHOR Jesus, o Verbo (Logos), estava com Deus Pai no princípio da Criação do mundo, como está escrito em Jo 1.1-3:

"1 No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
2 Ele estava no princípio com Deus.
3 Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez".


O Verbo é a Palavra Viva de Deus, a plena enunciação e o pleno cumprimento do caráter e dos desígnios do Criador e Sustentador de todas as coisas. O Verbo, que era Deus e estava com Deus, estava no princípio com Deus, atuando na Criação.
O Verbo não é partícipe nem coadjuvante, mas protagonista da Criação, porque Ele é Deus. O Verbo tem personalidade divina. O fato de estar no princípio com Deus indica sua divindade e eternidade.
O apóstolo João retorna ao tema do princípio em sua Primeira Epístola, em I Jo 1.1-3, como segue:

"1 O que era desde o princípio, o que temos ouvido, o que temos visto com os nossos próprios olhos, o que contemplamos, e as nossas mãos apalparam, com respeito ao Verbo da vida
2 (e a vida se manifestou, e nós a temos visto, e dela damos testemunho, e vo-la anunciamos, a vida eterna, a qual estava com o Pai e nos foi manifestada),
3 o que temos visto e ouvido anunciamos também a vós outros, para que vós, igualmente, mantenhais comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo".

Aquele que era desde o princípio é Jesus Cristo, o Verbo encarnado, que foi ouvido, visto, contemplado, tocado. O Verbo, divino e eterno, trouxe a vida eterna aos homens. Ninguém poderia conceder a vida eterna sem ser, ele mesmo, eterno. Somente o Verbo, aquele que era desde o princípio, poderia conceder a vida eterna.
Também em Apocalipse, outro livro do apóstolo e evangelista João, o SENHOR Jesus Cristo é apresentado como tendo estado no princípio. Confira o texto de Ap 3.14:

"14 Ao anjo da igreja em Laodicéia escreve: Estas coisas diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus:"

Gosto de pensar sobre o princípio, ainda que me seja incompreensível. Gosto de saber que Deus controla o tempo e o espaço, por Ele mesmo criados. Deus não pode ser controlado por Suas criaturas. Quem decidiu, no princípio, de modo soberano e poderoso, criar os céus e a terra, jamais poderia ser dominado por nada. 

*Todos os destaques no texto foram acrescidos por mim.

Um comentário:

João Armando disse...

Lembro-me de, há muitos anos, ter pensado sobre o assunto. "Que fazia Deus antes de criar tudo?" O que me levou a entender que o "tudo" inclui o tempo. Na minha infantilidade de então,acreditava que a eternidade de Deus significava que ele existiu sempre, mas "dentro" do tempo - foi então que a luz raiou. O próprio tempo e espaço foram criados por ele, que não lhes está sujeito. Lembro-me também de ter ouvido, ainda meninote, que o universo se expande o tempo todo - conclui que seria algo como um balão, que haveria um limite - uma linha - até aqui o universo, depois... o quê? E entendi que somos miseráveis e limitados! Dizer "antes" de criar o tempo é contraditório, pois "antes" é um advérbio de tempo. Não conseguimos fugir dessa limitação de pensamento. Da mesma forma, não consigo conceber um "lugar" fora do espaço...
Pois é. Muitos erros teológicos advêm disso. Gente que quer espremer Deus Eterno e Infinito na sua mentezinha limitada. Verdadeiramente o Reino de Deus é dos humildes.

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Para pensar:

Um dos terríveis problemas da Igreja evangélica brasileira é a falta de conhecimento da Bíblia como um sistema coerente de princípios, promessas e relatos que apontam para Cristo como Criador, Sustentador e Salvador. Em vez disso, prega-se um "jesus" diminuído, porque criado à imagem de seus idealizadores, e que faz uso de textos bíblicos isolados, como se fossem amuletos, peças mágicas a serem usadas ao bel-talante do indivíduo.

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Creio:
Em um só Deus e na Trindade.
Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristão.
Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal e sua ascensão aos céus.
Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor.
No batismo bíblico em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo.
Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus, através do poder do Espírito Santo.
No batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a intercessão de Cristo.
Na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja para sua edificação, conforme a sua soberana vontade.
Na Segunda Vinda de Cristo.
Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo.
No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis.
E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.