segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Fetichismo e mercantilismo na "Terra Santa"

Vejo na primeira página da edição do New York Times para a Folha de São Paulo, de hoje, um batismo coletivo de evangélicos brasileiros no rio Jordão. Mostro para a minha esposa, e ela emenda de imediato: "Esses batismos no Jordão só servem para vender pacote turístico". É verdade!
Viagens a Israel promovidas por igrejas; batismos no rio Jordão; bibelôs da "Terra Santa": espere aí...qual o limite entre a simples visita turística e a prática do mercantilismo religioso associado ao fetichismo "evangélico"?
Ninguém precisa ser batizado no rio Jordão. Não precisamos desse aspecto místico em nossa Fé. Nossa espiritualidade não se faz de objetos sagrados (fetichismo).
Jesus foi batizado no rio Jordão porque esse era o território de João, o Batista. Essa era a sua área, o seu campo ministerial, usemos a palavra que acharmos mais adequada. Mas não havia um poder místico no rio em si. O poder estava (e está) N'Aquele a respeito de Quem João exclamou: "Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo".
Nada há de especial no rio Jordão, e tanto isso é verdade que Naamã, general sírio, achou estranho ter que mergulhar (sete vezes) num rio tão sem expressão, havendo rios melhores em sua terra (Farfar, atual Awaj, e Abana, atual Barada). Enquanto esses dois rios de Damasco eram límpidos, o Jordão tinha água barrenta*.
De fato, Eliseu mandou o general mergulhar no Jordão para que fosse curado de sua lepra (II Rs 5.1-19), mas não há nada de normativo nisso, nada de cabalístico, e eu não tenho que viajar a Israel para mergulhar no Jordão, seja uma vez para o batismo, seja sete vezes para simbolizar qualquer coisa.
Agências de viagem ganham dinheiro com a fé incauta de muitos. Já vi um pastor dizendo que a viagem a Israel seria a mais importante de sua vida, e a igreja que promovia a viagem vendia o produto como "a viagem dos seus sonhos". Tudo bem, não sejamos radicais. Mas, por que somente Israel teria esse valor, se outras nações antigas, como Egito e Grécia, guardam semelhante valor histórico, e até fazem parte dessas excursões?
É claro, eu sei, trata-se de algo muito mais profundo: uma doutrina dispensacionalista e escatológica que enxerga Israel como equiparado à Igreja, e que, por isso, vê nos limites territoriais de Israel e na etnia dos judeus algo de sagrado, parte do Plano de Salvação. Não recuso totalmente a ideia de um plano especial para Israel, mas discordo dessa doutrina segundo a qual Deus coloca Israel e a Igreja como dois povos estanques, pois, de acordo com o apóstolo Paulo, foi derrubada a parede de separação, e quem não era de Israel passou a ser na medida em que se tornou "filho de Abraão" pela fé (Eféfios). E nem todos os que nascem em Israel são israelitas (Rm 9 a 11 é leitura necessária a esse tema). Ser filho de Abraão é ter a fé exercitada por Abraão no sentido de por ela ser justificado.
Ora, estou caminhando para outra seara, mas deixe-me dizer que essa doutrina (dispensacionalista e de natureza escatológica) não é tão ruim como o fetichismo e o mercantilismo, porque esses são pecaminosos, e a doutrina secundária equivocada é apenas uma doutrina secundária equivocada, principalmente em se tratando de coisas futuras. Mas há sempre o perigo de que Israel, lugar tangível, físico, existente, seja tomado como lugar sagrado, diferente, especial, soberano - quando não é.
A Nova Jerusalém não é dessa Terra, não está em Israel nem em Pernambuco. Na verdade, a Nova Jerusalém é a Igreja de Cristo.

*Quanto aos nomes atuais dos rios e suas características em relação ao Jordão, ver Bíblia Anotada, 1994, p. 492.

Um comentário:

João Armando disse...

Eu até que gostaria de conhecer Israel algum dia. Falta mesmo é coragem - não simpatizo com a ideia de me ver arrebentado por um extremista num atentado. Toda essa parvoíce de ser batizado no Jordão... Só me lembra o romanismo, que vendia, na idade média, supostos pedaços do "santo lenho" (supostos restos da cruz de Cristo, que, se juntados, dariam uma cruz do tamanho do mundo - e outras bobabens tais como o santo sudário etc. Com respeito ao dispensacionalismo, fui criado acreditando nessas doutrinas (complicadíssimas, aliás) - quando comecei a estudar mesmo o assunto, vi que havia furos e mais furos... Tantos que a coisa toda ruiu. Hoje vejo claramente que nós, gentios, fomos enxertados na oliveira que já havia - não numa oliveira nova, diferente. É interessante lembrar como a igreja apostólica e dos primeiros séculos, que lutou tanto contra as heresias, foi tão simples (por que não dizer, amilenista) nos seus credos - por exemplo, o Credo Niceno diz simplesmente "e de novo há de vir em glória para julgar os vivos e os mortos, e o seu reino não terá fim". Cá para nós, ter a posição escatológica "A" ou "B" não salva ninguém, nem lança ninguém no inferno. No entanto, penso que o principal é amar a vinda de Cristo. Qualquer que seja a posição que se tenha, o cristão verdadeiro tem essa obrigação - de amar sua vinda, de apressá-la. É o que tenho buscado.

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Para pensar:

Um dos terríveis problemas da Igreja evangélica brasileira é a falta de conhecimento da Bíblia como um sistema coerente de princípios, promessas e relatos que apontam para Cristo como Criador, Sustentador e Salvador. Em vez disso, prega-se um "jesus" diminuído, porque criado à imagem de seus idealizadores, e que faz uso de textos bíblicos isolados, como se fossem amuletos, peças mágicas a serem usadas ao bel-talante do indivíduo.

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Bases de Fé

Creio:
Em um só Deus e na Trindade.
Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristão.
Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal e sua ascensão aos céus.
Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor.
No batismo bíblico em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo.
Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus, através do poder do Espírito Santo.
No batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a intercessão de Cristo.
Na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja para sua edificação, conforme a sua soberana vontade.
Na Segunda Vinda de Cristo.
Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo.
No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis.
E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.