domingo, 29 de novembro de 2009

Liberdade religiosa e benefícios legais

Na edição de hoje da Folha de São Paulo, há uma reportagem de Hélio Schwartsman intitulada "Criar igreja e se livrar de impostos custa R$418". O autor, que é articulista do jornal, narra como conseguiu registrar a "Igreja Heliocêntrica do Sagrado EvangÉlio" (escrito assim mesmo) em dois dias, e, com mais três dias, fazer aplicações financeiras com isenção de Imposto de Renda e IOF. Informa que sua igreja tem um estatuto que prevê sucessão hereditária, sumo-sacerdote e a doação regular da terça parte da renda para o trabalho religioso. Mostra que outros países têm políticas diferentes que privilegiam as religiões, e que isso teria em vista a liberdade religiosa - aqui, vale observar que na maioria dos casos citados no texto a legislação brasileira se mostra superior, mais equilibrada.
Entre as críticas e ironias do autor, encontram-se menções à permissão para que grupos como o Santo Daime, A Barquinha e a União do Vegetal cultivem, transportem e consumam a planta alucinógena ayahuasca, que só podem consumir os membros de seitas dessa natureza; a permissão legal para que alguém, em nome da fé, se negue a doar sangue (referência clara às Testemunhas de Jeová); o privilégio da prisão especial para ministros religiosos, assim como a não-obrigação de prestarem o serviço militar; as imunidades fiscais (para IPTU, ITR, IPVA, ISS, e, em alguns Estados, ICMS, quanto a atividades essenciais à religião); a desnecessidade de requisitos teológicos ou doutrinários para a formação de uma igreja.
O jornalista não aponta uma solução, limitando-se a usar o último parágrafo de um dos textos da reportagem para afirmar que estamos diante de duas possibilidades: acabar com o tratamento diferenciado ou mantê-lo como efeito da democracia...soou, para mim, como espécie de mal necessário.
As informações da reportagem refletem, em geral, os fatos, mas há excessiva dose de ironia, o que ganha especial relevo em se tratando de um ateu confesso, como é o Sr. Hélio Schwartsman.
Já enviei uns dois e-mails para Hélio Schwartsman, creio que em 2008, quando ele escreveu textos na Folha On Line sobre religião e ciência. Ele me respondeu mui educadamente. É um pensador ateu, mas que gosta de tratar de religião. Talvez isso seja alguma questão subjetiva, não nos cabe perscrutar seara tão densa - o fato é que ele incorre em alguns erros importantes:
Primeiro, é muito perigoso abordar um tema inserto (inserido) nas liberdades fundamentais com mais ironias do que sugestões claras de solução. Do jeito que está, fica parecendo que a liberdade religiosa é um perigo, quando perigosa é a tentativa de restringir a liberdade alheia, ainda que ela não me importe em nada.
Segundo, não há que se falar em requisitos doutrinários ou teológicos para criar uma igreja, ao menos do ponto de vista legal. Esse aspecto é espiritual, de fé, e jamais um aspecto jurídico. Os crentes é que precisam ter maturidade e não enveredar por caminhos tortuosos, em igrejas de fachada, com pastores falsos. Não há que se falar em restrição jurídica à formação de igrejas só porque alguém pode ser mentiroso.
Terceiro, nada há de errado com o art. 44, §1º, do Código Civil: ele é perfeito ao estabelecer a não-ingerência do Estado na constituição, estruturação e funcionamento de organizações religiosas.
Quarto, se há a necessidade de desonerar outras entidades de impostos, para estender, por exemplo, a organizações assistenciais os benefícios dados a organizações religiosas, essa deveria ser a proposta do jornalista, e não o contrário: questionar uma garantia da liberdade religiosa para ser mais justo. Isso é um flagrante paradoxo!

sábado, 28 de novembro de 2009

Unanimidade, consenso e comunhão: uma reflexão política

Dizia o escritor Nelson Rodrigues que "toda unanimidade é burra". Devo admitir: entendo a frase dele, e concordo, porque toda vez que deparo com a unanimidade ela me assusta - como essa unanimidade em torno do presidente da República, Sr. Luiz Inácio Lula da Silva. E isso me faz pensar na diferença entre unanimidade, consenso e comunhão...
Alguém me dirá: "mas o presidente não tem unanimidade, só 80% de aprovação..." E eu pergunto: para um governante, isso não é unanimidade? Quando amplos setores sociais aprovam um líder político, isso não é de preocupar? Quando expressiva parte da imprensa, movimentos sociais, sindicatos, intelectuais e funcionários públicos passam a defender o presidente apesar de tudo, não é para causar estranheza? Que o mundo se irmane em torno de Lula - não me importo - e ainda mais me espantarei!
Nenhum presidente teve paz com movimentos como o MST, mas Lula tem. Nenhum presidente teve paz com as centrais sindicais, mas Lula tem. Por quê? Porque Lula é o melhor de todos, o grande estadista, o maior político que o Brasil já teve? Não! É tão-somente porque ele fez um pacto com grupos de esquerda: "vocês me deixam tranquilo e eu dou dinheiro a vocês". Esse foi o "slogan" dele em 2006: "Deixa o homem trabalhar". E é essa a sua preocupação com o TCU: o Tribunal de Contas da União fiscaliza as obras do PAC, e Lula não gosta, assim como Marina Silva fiscalizava duramente as obras em nosso País, na área ambiental, e Lula não gosta muito de fiscalização. Marina Silva teve que sair, assim como o TCU pode sofrer restrições a partir de projeto de lei de iniciativa do Governo.
Ora, consenso é diferente: consenso é refletido, fruto de negociações, lutas, debates. A democracia se constrói com o consenso. As demandas sociais são dirigidas ao Governo, que as discute e decide, de acordo com o orçamento, as prioridades, o programa político, as alianças. Mas acordo direto com movimentos sociais, sindicatos e organizações não-governamentais menosprezando o Parlamento não me parece nada republicano. Parece-me muito mais uma cooptação.
Acredito no consenso. Gostaria que os políticos brasileiros buscassem o consenso, e não o "acordão", a maracutaia, o mensalão, o caixa-dois. Consenso é a alma da boa política, e só estadistas sabem o que é isso.
Agora, comunhão é diferente, é coisa espiritual. Somente a Igreja de Cristo pode conhecer a verdadeira comunhão. Ouvi certa vez um católico dizer algo muito interessante. Foi o Cardeal Cláudio Humes, à época do Conclave que elegeria o estranho Joseph Ratzinger. Guardadas as devidas reservas que tenho à Igreja Romana, essa frase dele tem muito sentido: "A Igreja não vive de consenso, mas de comunhão". Em se tratando de política, o bom é o consenso. Em se tratando de igreja, o bom é a comunhão.
O problema é que tanto os governos como muitas igrejas preferem buscar a tal unanimidade, a troco de "panis et circensis". Para onde iremos, pois?

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Fetichismo e mercantilismo na "Terra Santa"

Vejo na primeira página da edição do New York Times para a Folha de São Paulo, de hoje, um batismo coletivo de evangélicos brasileiros no rio Jordão. Mostro para a minha esposa, e ela emenda de imediato: "Esses batismos no Jordão só servem para vender pacote turístico". É verdade!
Viagens a Israel promovidas por igrejas; batismos no rio Jordão; bibelôs da "Terra Santa": espere aí...qual o limite entre a simples visita turística e a prática do mercantilismo religioso associado ao fetichismo "evangélico"?
Ninguém precisa ser batizado no rio Jordão. Não precisamos desse aspecto místico em nossa Fé. Nossa espiritualidade não se faz de objetos sagrados (fetichismo).
Jesus foi batizado no rio Jordão porque esse era o território de João, o Batista. Essa era a sua área, o seu campo ministerial, usemos a palavra que acharmos mais adequada. Mas não havia um poder místico no rio em si. O poder estava (e está) N'Aquele a respeito de Quem João exclamou: "Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo".
Nada há de especial no rio Jordão, e tanto isso é verdade que Naamã, general sírio, achou estranho ter que mergulhar (sete vezes) num rio tão sem expressão, havendo rios melhores em sua terra (Farfar, atual Awaj, e Abana, atual Barada). Enquanto esses dois rios de Damasco eram límpidos, o Jordão tinha água barrenta*.
De fato, Eliseu mandou o general mergulhar no Jordão para que fosse curado de sua lepra (II Rs 5.1-19), mas não há nada de normativo nisso, nada de cabalístico, e eu não tenho que viajar a Israel para mergulhar no Jordão, seja uma vez para o batismo, seja sete vezes para simbolizar qualquer coisa.
Agências de viagem ganham dinheiro com a fé incauta de muitos. Já vi um pastor dizendo que a viagem a Israel seria a mais importante de sua vida, e a igreja que promovia a viagem vendia o produto como "a viagem dos seus sonhos". Tudo bem, não sejamos radicais. Mas, por que somente Israel teria esse valor, se outras nações antigas, como Egito e Grécia, guardam semelhante valor histórico, e até fazem parte dessas excursões?
É claro, eu sei, trata-se de algo muito mais profundo: uma doutrina dispensacionalista e escatológica que enxerga Israel como equiparado à Igreja, e que, por isso, vê nos limites territoriais de Israel e na etnia dos judeus algo de sagrado, parte do Plano de Salvação. Não recuso totalmente a ideia de um plano especial para Israel, mas discordo dessa doutrina segundo a qual Deus coloca Israel e a Igreja como dois povos estanques, pois, de acordo com o apóstolo Paulo, foi derrubada a parede de separação, e quem não era de Israel passou a ser na medida em que se tornou "filho de Abraão" pela fé (Eféfios). E nem todos os que nascem em Israel são israelitas (Rm 9 a 11 é leitura necessária a esse tema). Ser filho de Abraão é ter a fé exercitada por Abraão no sentido de por ela ser justificado.
Ora, estou caminhando para outra seara, mas deixe-me dizer que essa doutrina (dispensacionalista e de natureza escatológica) não é tão ruim como o fetichismo e o mercantilismo, porque esses são pecaminosos, e a doutrina secundária equivocada é apenas uma doutrina secundária equivocada, principalmente em se tratando de coisas futuras. Mas há sempre o perigo de que Israel, lugar tangível, físico, existente, seja tomado como lugar sagrado, diferente, especial, soberano - quando não é.
A Nova Jerusalém não é dessa Terra, não está em Israel nem em Pernambuco. Na verdade, a Nova Jerusalém é a Igreja de Cristo.

*Quanto aos nomes atuais dos rios e suas características em relação ao Jordão, ver Bíblia Anotada, 1994, p. 492.

O Criador e Sua obra-prima

Viu Deus que era muito bom - essa afirmação, registrada em Gn 1.31, é precedida de várias declarações de que Deus considerou "bom" o que criou (a luz, os céus, a Terra, os mares, o sol e a lua, os vegetais, as aves, os répteis e os grandes animais aquáticos). Somente no sexto dia Ele considerou "muito bom" o que emanou de Seu Supremo Poder Criativo: nesse rol estava a Humanidade.
Já ouvi dizer que essa frase de Deus - quanto ao ser "bom" ou "muito bom" o que criara - tem um aspecto de apreciação estética. Seria como o artista que, ao ver sua obra acabada, exclama com prazer: "Que maravilha".
A estética pertence a Deus. Aliás, Cosmos e cosmético não têm a mesma origem etimológica? Tanto o Cosmos quanto o cosmético têm a ver com beleza, estética. O Universo é belo e a Humanidade, quando criada, era algo muito bom.
Há entre os ambientalistas uma falsa ideia que se denomina "biocentrismo": a defesa do meio ambiente por seu valor em si mesmo. A isso contrapõe-se o antropocentrismo: a elevação do Homem como senhor do Universo - do qual também discordo. Mas não estou aqui tratando de Gn 1.26-28, onde temos o mandato cultural (o Homem é senhor enquanto cuidador, e não enquanto dominador). Refiro-me ao aspecto da beleza, da estética, do prazeroso, do lúdico, enfim, da Humanidade como obra-prima da Criação.
Falar em homens e mulheres como a obra-prima de Deus é, para os biocentristas, uma heresia, pois eles acreditam que a Humanidade é somente mais um elemento no Universo, igual a todos os demais seres. A par disso existe uma tal espiritualidade em que as pessoas andam descalças, abraçam árvores e pensam que até nossos pensamentos são guiados por energias cósmicas. Onde estará a superioridade responsável do Homem nessa teoria?
De outro lado, estão os antropocentristas, os humanistas, para os quais "o homem é a medida de todas as coisas - das que são enquanto são, e das que não são enquanto não são". O que é isso? Quer dizer que a Humanidade é o critério de avaliação de tudo? Então estamos perdidos mesmo!
Mas há como equilibrarmos isso. Podemos ver a Humanidade como obra maior de Deus sem enaltecê-la demais. Como? Enxergando-a como Humanidade, e não como divindade. A Humanidade come de novo da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal quando se esquece disso e pensa que pode ser como Deus. Basta conhecer-se e reconhecer-se como criatura abençoada e próspera do SENHOR, criação criativa, objeto do amor incondicional e sacrificial de Deus, parceira de uma relação interpessoal e eterna.
É bonito ser humano. Apesar de tudo, é bonito o Ser Humano.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

A sublimidade da ordenação episcopal

Percebo certo descaso para com a ordenação episcopal em determinadas igrejas, como que uma banalização. Isso se revela na ordenação "pelo conjunto da obra", como se fosse premiação por serviços prestados; ou na consagração em massa, sem critério; ou, ainda, na ordenação para formar um grupo de apoio, como fazem os políticos; e na tendência de querer ser pastor entre jovens sem perspectiva na vida.
Talvez a responsabilidade por essa distorção deva ser compartilhada por sistemas eclesiásticos em que o pastor é maioral, principal, chefe, e não um servo de todos, como recomendam as Escrituras. Como já devo ter escrito antes neste blog, alguns homens sem preparo, experiência nem vocação acorrem aos líderes porque desejam ser “lembrados”, numa corrida que se assemelha a de empregados nas empresas em busca de promoções. Isso favorece a bajulação, a centralização de decisões, a formação de cúpulas, a incapacidade de renovação de líderes e o desestímulo à criatividade. Assim, o sistema tem sua culpa.
Dá para imaginar o quanto uma igreja valoriza seus pastores (e presbíteros) pela forma dos cultos de ordenação. Nas igrejas reformadas e batistas, as ordenações são feitas particularmente: o pastor é ordenado na presença de familiares e amigos, além, é claro, da igreja, que publicamente o acolhe como um novo ministro da Palavra. Já em igrejas pentecostais, como a minha Assembleia de Deus, ordenam-se numerosos pastores, tudo de uma vez, e não é raro que isso ocorra quase de surpresa, com poucos dias de antecedência até mesmo para o pastor a ser ordenado. Não dá sequer para se dirigir ao aspirante a pastor uma palavra especial, que leve em consideração a biografia do sujeito, seu chamado, seus talentos...A ordenação por atacado não valoriza a vocação.
Vejo, ainda, que a atribuição da pregação a quem não é pastor precisa ser condicionada - não digo "limitada" nem "proibida", mas condicionada. Não estou dizendo que somente pastores podem pregar – eu mesmo não sou pastor (nem diácono), mas aceito a missão de pregar. Sei que todos os crentes em Cristo são sacerdotes, que a pregação deve ser realizada por todos. Entretanto, deve-se registrar que a pregação é uma das atribuições do pastor, e não pode ser conferida a qualquer pessoa que fale bem ou ache que pode assumir o púlpito por qualquer motivo – porque fala em línguas, porque grita, porque decora versículos bíblicos, porque imita pregadores famosos, porque conhece as doutrinas, porque tem conhecimento, porque se emociona.
Admiro as igrejas que veem o pastor como um homem vocacionado. Vejo uma distinção entre igrejas pentecostais e igrejas históricas nesse aspecto: enquanto os pastores pentecostais são "separados para o ministério" e "pelo ministério", os pastores de igrejas históricas são ordenados pela igreja por sua vocação. Nas igrejas históricas parece haver uma ênfase no chamado individual, não apenas na necessidade que a igreja tem de pastores.
Os bispos e pastores anglicanos usam aquelas roupas especiais. Alguns pastores metodistas e outros mais gostam de utilizar um tipo de roupa diferente com aquela gola de padre. Até mesmo os pastores assembleianos têm uma espécie de "uniforme", o terno, embora esse seja o uniforme de todo assembleiano tradicional...Conquanto eu não seja adepto do uso de vestes especiais pelos líderes de igreja, há um sentido no seu emprego: além da questão tradicional, há uma ideia de reconhecimento de que o pastor é um homem chamado por Deus. Veja: não estou defendendo o uso dessas roupas, mas elas têm um sentido que vai além do mero tradicionalismo.
Pastor é aquele que poderia ser muitas outras coisas, mas foi escolhido para apascentar o rebanho de Deus. Não pode ser de outra forma.

sábado, 14 de novembro de 2009

A Globo, mais uma vez a Globo...

Eu nunca assisto ao programa de Ana Maria Braga, graças a Deus. E também não assisto ao Ó Paí Ó, que tem meu conterrâneo Lázaro Ramos como protagonista. Mas ontem, por coincidência, no início e no final do dia, deparei com os dois programas, e fiquei triste.
Primeiro, ao mudar de canais pela manhã para ver o que poderia assistir, vejo que Ana Maria Braga estava começando mais uma parte de uma série chamada O Sagrado, e nesse dia o tema era justamente o Protestantismo. O entrevistado? Ninguém menos que o conhecido pastor batista Israel Belo de Azevedo. O problema, porém, aconteceu depois, já com o entrevistado diante de Ana Maria Braga, que iniciou sua fala demonstrando o quanto ela se preparou para a série de reportagens: "Eu sempre achei o Protestantismo muito igual ao Cristianismo". Preciso comentar? Vindo de Ana Maria Braga, com todo o respeito do mundo, não dá para ficar surpreso. Desliguei a TV, com a máxima aprovação de minha esposa.
À noite, depois de assistir ao excelente filme A Vida dos Outros (altamente recomendável), vi que na Globo o Ó Paí Ó mostrava o Lázaro Ramos tentando alertar uma pequena igreja de que o seu pastor era, na verdade, mentiroso e ladrão. O apelido da figura? Queixão. Aqui na Bahia queixão é o sujeito cheio de conversa mole, pelo que sei. E o tal pastor Queixão superfaturava a obra do templo (parecido com congregações pentecostais) para se apropriar indevidamente dos dízimos. O personagem de Lázaro Ramos tenta explicar isso a uma irmã, que, credulamente, o expulsa da igreja como quem escurraça um demônio.
Existem pastores corruptos? Sim. Existem pessoas simplórias que acreditam em tudo o que o pastor diz? Claro. Mas tenho aqui umas considerações a fazer:
a) os personagens evangélicos da Globo são geralmente hipócritas, mentirosos, corruptos, fanáticos ou promíscuos. Graças a Deus eu não assisto a novelas há um bom tempo, mas acompanho as notícias jornalísticas sobre esses personagens. A Globo cria um estereótipo, uma generalização, de modo que as pessoas, ao final da cena, dizem: "É assim mesmo, todo pastor é ladrão", quando, na realidade, o mundo evangélico é muito maior que isso.
b) personagens espíritas na Globo são sempre bons conselheiros, capazes de ajudar a todos com suas palavras boas. "Casais" homossexuais vivem melhor que os casais heterossexuais, que não duram a novela inteira sem brigas e/ou traições. Será isso casual?
c) A série de reportagens do Jornal Nacional sobre as obras sociais dos evangélicos foi apenas um extrato do que a Globo pensa em fazer para não perder esse grande filão que é o público evangélico - afinal, a Record está aí (embora a Rede Record seja igual ou pior que a Globo em exposição da imoralidade em amplos sentidos). Para uma série de reportagens sobre os benfazejos evangélicos existe um turbilhão de personagens mal-fabricados, enredos induzidos por preconceito e dezenas de eventos de grande porte pouco noticiados.
d) Essa singela análise nada tem que ver com as denúncias contra os líderes da Renascer em Cristo ou da Universal do Reino de Deus. Repercutir investigações da Polícia e do Ministério Público não é anti-jornalismo nem perseguição aos evangélicos. Pelo contrário, deve-se falar a verdade a todo custo. Não é a isso que me refiro. Refiro-me ao retrato demasiadamente generalizado e distorcido que a Globo, como nenhuma outra emissora brasileira de televisão, faz do povo evangélico.
A ignorância de Ana Maria Braga, que até hoje parece não saber que Protestantismo é Cristianismo, deve doer menos que a contumácia da Globo em dar à sociedade uma visão errada das igrejas evangélicas. Mas, pensando bem, não somos deste mundo, como Jesus mesmo não é deste mundo (Jo 17.16). Somos estrangeiros e peregrinos (I Pe 1.17), certo?
Não somos daqui. Se o mundo nos considerar como mais um grupo religioso nessa sociedade pluralista, precisaremos rever nosso comportamento e nossa pregação. E, mais do que isso, se o mundo começar a nos achar iguais, estaremos perdidos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Conversando com adolescentes

A irmã que cuida de adolescentes em minha igreja me convidou para dar um estudo sobre o chamado (vocação). Dei o estudo, eles gostaram, e eu também. Depois, dei mais um estudo em que o tema deveria ser "evangelização", e optei por falar sobre a Queda, partindo do princípio de que para anunciar o Evangelho nós precisamos conhecê-lo de verdade. A Queda é um conceito fundamental para quem se aproxima da Bíblia. Talvez devesse começar pela Criação, mas comecei pela Queda. Na quarta-feira seguinte (04/11), fui lá de novo, e falei sobre o pecado. Tenho procurado falar sobre os fundamentos da Fé Cristã.
Os adolescentes são muito vivos, perspicazes. Eles têm o raciocínio rápido, memorizam muito do que a gente fala, e conseguem fazer interpretação de texto melhor do que a média dos irmãos de gerações precedentes - pelo menos essa é a impressão que fica, sem caráter científico...
Não é a primeira vez que me dirijo a adolescentes. Parece que eles gostam de mim, embora eu seja uma pessoa considerada formal. Bem, na Assembleia de Deus a gente usa a gravata até para falar a adolescentes, mas minha formalidade está mais nas palavras do que no figurino.
De toda sorte, tem sido muito bom esse aprendizado com meus amigos adolescentes. Quero continuar falando sobre o tema do pecado, mas abordando outros textos bíblicos, avançando na conscientização do conceito de pecado para que eles vão se distanciando daqueles conceitos limitados que muitos ainda mantém e dos conceitos preconceituosos que o senso comum espalha. Refletir sobre a Queda e o pecado é uma coisa necessária para quem vai evangelizar. Como iremos anunciar o remédio se não conhecemos direito os males da doença? Na verdade, conhecemos na prática os males do pecado - nós que somos pecadores - mas é necessário formular sistematicamente o nosso entendimento a respeito da necessidade moral e espiritual da Humanidade.
Ore por nós, prezado (a) leitor (a). Esse tem sido o meu primeiro trabalho aqui em Salvador, e o primeiro também depois de sete meses*.
*Corrigi o texto porque antes colocara um ano, mas havia esquecido de que quando chegamos à Bahia e moramos um período em Alagoinhas (de novembro de 2008 a abril de 2009), eu fui professor de adolescentes e segundo superintendente da Escola Dominical da igreja-sede naquela cidade.

Série Vocacionados - IV (Amós)

Amós foi um fazendeiro judeu do Séc. VIII a.C. Dizem os estudiosos que seu livro é um dos mais bem escritos do Antigo Testamento. Seu ministério teria durado 40 anos. Com uma veia exortativa muito forte, esse fazendeiro judeu com talentos literários sai de sua terra e parte para Israel, o Reino do Norte, a fim de pregar a mensagem que Deus lhe havia transmitido, numa época que precedeu a invasão de Samaria pelos assírios.
O que me chama a atenção na vida de Amós, em termos de vocação, é que ele menciona o fato de não ser “profeta nem discípulo de profeta, mas boeieiro e colhedor de sicômoros” (Am 7.14). Tratava-se de um homem simples, que não passara pelas escolas de profetas, instituições criadas por Samuel cerca de três séculos antes. Amós tinha consciência de seu chamado e de que Deus lhe entregara uma missão, que ele cumpriu cabalmente.
A vocação de Amós não o livrou de ser alvo de uma conspiração conduzida por um sacerdote (Am 7.10-17). Mas ali estava um homem de fibra, sem medo das consequências de sua missão, porque Deus era com ele.

A oração e o crime *

Vejam só que notícia curiosa: o britânico GEORGE MABEN, de 45 anos de idade, era investigado pelo assassinato de sua sogra, MAUREEN COSGROVE, 65, mediante estrangulamento. As suspeitas pairavam sobre MABEN porque no dia do crime ele havia sido filmado, por câmeras de circuito interno, tomando um ônibus da casa de sua mãe para a casa de COSGROVE, e colocando luvas durante o trajeto. No mesmo dia, MABEN foi com a namorada à casa da mãe dela, onde encontraram o corpo. Além da gravação, foram encontradas fibras das roupas da sogra nas roupas que MABEN havia usado. Mas a prova cabal foi a seguinte: um grampo colocado pela polícia no carro de MABEN captou sua oração de confissão a Deus: "Por favor, Deus, me ajude... para que eu e a Lucy sejamos retirados das investigações policiais e que tudo fique bem". Eu simplesmente não podia mais aguentar. Todo dia, ela estava me destruindo. Por favor, Deus, você me perdoa? Por favor, Deus, me desculpe".
Talvez aqui no Brasil essa prova não fosse aceita em nome do direito à privacidade, à intimidade, quiçá por algum argumento de cunho religioso. Mas na Inglaterra a prova foi aceita com a natureza de confissão. De fato, o homem confessou a Deus o seu crime, e essa declaração não foi usada com exclusividade, mas em conjunto com o vídeo e a prova pericial. O aspecto marcante nessa história é justamente a polícia aproveitar como prova uma oração, algo de que nunca ouvi falar. De algum modo, o indivíduo foi capturado por sua religiosidade.
De toda sorte, sem querer julgar à distância, e com poucos elementos, as reais intenções do rapaz, vê-se que sua oração não era para que tudo fosse esclarecido nem para que Deus o protegesse quando de sua entrega à Justiça. Ele simplesmente pediu para ser livrado do inquérito, junto com sua namorada. É verdade que ele pediu perdão, confessou o fato, mas não demonstrou arrependimento.
Ainda que assim não fosse, ainda que GEORGE MABEN houvesse demonstrado completo arrependimento diante de Deus e obtido a maravilhosa Graça do SENHOR para a sua Salvação, ele cometeu um crime, pelo qual já foi até condenado, e isso não muda só porque ele orou a Deus. As coisas precisam ser discernidas. Deus livra o homem da condenação do inferno, mas não necessariamente o livra da condenação social nem da condenação judicial.
Sabemos que o brilhante e admirável rei Davi mandou matar Urias para encobrir o adultério com Bate-Seba, mulher de Urias. A maneira como Davi arquitetou e arranjou a morte de Urias foi muito perversa: o próprio Urias levou consigo a carta com as orientações de como ele deveria ser colocado, sozinho, no lugar mais agitado da batalha. E o homem morreu mesmo. Davi casou-se com a mulher dele, mas o primeiro filho morreu. O segundo filho veio a ser Salomão; Bate-Seba, a adúltera, entrou para a genealogia de Jesus Cristo, mas as consequências do crime e do adultério de Davi foram terríveis para a sua família, como declarado pela boca do profeta Natã. A espada não se apartaria da Casa de Davi. Foi assim que Davi foi duramente perseguido por seu filho Absalão; sofreu um golpe de Estado pelas mãos de Adonias; e suportou o incesto cometido por Amnon contra Tamar. Tudo isso Davi testemunhou em sua própria família.
Alguns dizem que Davi foi um péssimo pai. Eu não sei se isso pode ser afirmado com categoria, pois não se vê na Bíblia o registro de como Davi teria errado quanto à educação de seus filhos. Mas há o registro claro de que Davi sofria as consequências do assassinato e do adultério. Não sei se podemos afirmar que Davi foi um pai ruim, mas tenho certeza de que ele teve uma família problemática por culpa sua.
Davi foi, sem nenhuma dúvida, o rei mais devotado a Deus em toda a História de Israel. Ele tinha verdadeira paixão pelo Sagrado. Davi compunha salmos porque tinha prazer em Deus. Aquele episódio da condução da Arca da Aliança para Jerusalém, em que Davi dançou alegremente, demonstra o quanto ele se entregava à sua religiosidade. Davi era espontâneo e entendia o sentido da adoração e da comunhão com o SENHOR. Seu culto era genuíno. Todavia, eis que o homem devotado, religioso, pleno de espiritualidade javista, não foi poupado por Deus – Davi sofreu não só os efeitos (morais, intelectuais e físicos) da Queda, mas também os efeitos morais de sua própria queda.
Agora, como é que eu começo a pensar em Davi ao escrever sobre um britânico que foi condenado com base numa oração de confissão a Deus? A relação entre os dois personagens consiste no fato de que nenhum dos dois foi livre das consequências de seu pecado só porque estabeleceu contato com Deus. E essa reflexão serve para uma série de situações em que pessoas religiosas passam por sérios problemas mesmo cultivando a espiritualidade cristã, justamente porque enredadas pelos malefícios de seus pecados. E não se trata de uma espécie de maldição, mas de frutos das atitudes, ações, omissões e pensamentos pecaminosos, segundo a lei moral da semeadura: “Aquilo que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6.7).

*Veja um pouco da história de Davi em II Sm 6;11;12.1-25;13-15.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Marcha para Jesus – mas, que Jesus?

A imprensa tem dado notícias sobra a Marcha para Jesus, ocorrida ontem, dia 02 de novembro de 2009, em São Paulo-SP. Fala-se, por exemplo, do cálculo de participação, feito pela Polícia Militar, dando conta de que um milhão de pessoas teriam ido ao evento; do tema, que era a derrubada de “gigantes”; dos coordenadores ESTEVAM e SONIA HERNANDES, recentemente de volta ao Brasil depois de condenação e prisão domiciliar por entrada ilegal de dólares nos Estados Unidos (havia dólares não declarados dentro da Bíblia, de um porta-CD e de uma mala); do uso da Marcha para limpar a imagem do “apóstolo” e da “bispa”, contra os gigantes da “discriminação” e do “estereótipo”.
Ouvi também uma reportagem na CBN sobre a sujeira que ficou depois, e como estava dando trabalho para limpar. Refiro-me à sujeira enquanto lixo mesmo (nada de figura de linguagem).
Li na Folha de São Paulo de hoje um texto de FERNANDO DE BARROS E SIIVA intitulado A Marcha de Jesus e o Diabo. Ele cita a proximidade entre o casal HERNANDES e a política do presidente LULA, que abona corruptos e se irmana com a Rede Record ao dizer que ambos – ele e a Record – são alvos de preconceito. O próprio senador e bispo licenciado MARCELO CRIVELLA esteve na Marcha e, de acordo com o colunista da Folha, disse expressamente que era preciso revogar a “injúria” e a “calúnia” perpetrados contra os líderes da Renascer em Cristo. O colunista conclui dizendo que, num país em que Judas e Jesus são aliados políticos, falar em legalidade “parece até coisa do diabo”.
Eu teria até motivos para ter vergonha da Marcha para Jesus se ela tivesse algo a ver comigo. Mas não tem. Afirmo que não tem. Como a imprensa tem dito, trata-se de evento coordenado por igrejas neopentecostais, e não sou neopentecostal. Na verdade, esse negócio de “neopentecostal”, como já escrevi aqui mesmo, é um conceito demasiado amplo, que abrange igrejas de todo tipo, muitas delas pseudopentecostais, como num texto de Dom ROBINSON CAVALCANTI, que li na Ultimato há um tempo atrás. Se eles nem são neopentecostais de fato, se nada têm de pentecostais no sentido exato do termo, por que eu vou me preocupar demais com isso?
Até duvido de que o evangelho que eles pregam seja o Evangelho da Cruz. Na realidade, não é. E o Jesus deles não é o SENHOR Jesus Cristo, o Filho de Deus, que renunciou por um pouco à glória celestial para morrer em substituição penal aos pecadores e ressuscitar para garantir a vitória sobre o pecado, a morte e o mal. Esse é o Evangelho, esse é Jesus, em Quem eu creio: o Jesus humilde, manso, justo, amoroso, paciente, sincero, abnegado, e não um Jesus arrogante, corrupto, tolerante com o pecado.
O Jesus da Marcha para Jesus é um cara legal que acredita em maldição hereditária, que sorri para políticos corruptos, que atropela textos bíblicos com interpretações absurdas para dar base a palestras “evangélicas” de auto-ajuda; um Jesus que não se importa com dólares não declarados; um Jesus sem ética ou com uma ética ampla demais ou seletiva.
Ora, prezado (a) leitor (a), você me dirá que a Marcha para Jesus ocorre em todo o Brasil, e que nem todo mundo que dela participa é da Renascer, e que nem todo mundo da Renascer concorda com práticas erradas, e que não se pode generalizar. Veja bem: a partir do momento em que a Marcha para Jesus se torna um slogan, é inevitável a vinculação à imagem do casal HERNANDES, porque o nome do evento funciona como uma espécie de franquia, aconteça onde acontecer.
A sociedade passa a entender que todo mundo que vai à tal Marcha para Jesus concorda com eles, o que ficou ainda mais forte quando o senador MARCELO CRIVELLA apelou para a revogação das denúncias contra o casal como se eles não houvessem sido condenados por ingresso ilegal de dinheiro num país estrangeiro. E, como a imprensa já trabalha naturalmente com generalizações, fica fácil supor que a Marcha para Jesus é um episódio de desagravo de dois praticantes de um crime que foram condenados pela Justiça americana e acusados de vários crimes noticiados pela imprensa brasileira.
O que deveriam fazer, então, o “apóstolo” e a “bispa”? Deveriam pedir perdão em público, e ontem seria um dia estratégico para isso. Todo mundo repercutiria essa notícia. Era preciso aproveitar a oportunidade e pedir perdão pelo pecado cometido. Pedir perdão é uma coisa evangélica. O perdão interrompe o fluxo que vai do pecado ao inferno. Mas, como eles pregam outro evangelho, corro o risco de estar perdendo o meu tempo. Mas tenho para mim que declarar a vontade de Deus nunca é perda de tempo.

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Para pensar:

Um dos terríveis problemas da Igreja evangélica brasileira é a falta de conhecimento da Bíblia como um sistema coerente de princípios, promessas e relatos que apontam para Cristo como Criador, Sustentador e Salvador. Em vez disso, prega-se um "jesus" diminuído, porque criado à imagem de seus idealizadores, e que faz uso de textos bíblicos isolados, como se fossem amuletos, peças mágicas a serem usadas ao bel-talante do indivíduo.

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Bases de Fé

Creio:
Em um só Deus e na Trindade.
Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristão.
Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal e sua ascensão aos céus.
Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor.
No batismo bíblico em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo.
Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus, através do poder do Espírito Santo.
No batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a intercessão de Cristo.
Na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja para sua edificação, conforme a sua soberana vontade.
Na Segunda Vinda de Cristo.
Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo.
No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis.
E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.