segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Estudos sobre Herodes (3) - O infanticídio

Em nossa série de estudos a respeito dos Herodes, saímos do encontro de Herodes Magno com os sábios do Oriente que foram à Judeia visitar Jesus. Agora, prosseguimos na sequência do Texto Bíblico, donde extraímos o seguinte excerto, que se acha em Mt 2.13-18:

"13 Tendo eles partido, eis que apareceu um anjo do Senhor a José, em sonho, e disse: Dispõe-te, toma o menino e sua mãe, foge para o Egito e permanece lá até que eu te avise; porque Herodes há de procurar o menino para o matar. 14 Dispondo-se ele, tomou de noite o menino e sua mãe e partiu para o Egito; 15 e lá ficou até à morte de Herodes, para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor, por intermédio do profeta: Do Egito chamei o meu Filho. 16 Vendo-se iludido pelos magos, enfureceu-se Herodes grandemente e mandou matar todos os meninos de Belém e de todos os seus arredores, de dois anos para baixo, conforme o tempo do qual com precisão se informara dos magos. 17 Então, se cumpriu o que fora dito por intermédio do profeta Jeremias: 18 Ouviu-se um clamor em Ramá, pranto, [choro] e grande lamento; era Raquel chorando por seus filhos e inconsolável porque não mais existem".

Mais uma vez em Mateus, o SENHOR intervém de modo sobrenatural em favor de Seu Plano de Redenção. Se antes foram os sábios do Oriente, agora é José quem tem um sonho de advertência, aparecendo-lhe "um anjo do SENHOR". Era para que ele, sua esposa e Jesus não retornassem à sua terra, mas fossem ao Egito, fugindo do assassino Herodes.
Atendendo ao seu estilo, Mateus vê nisso o cumprimento do texto que se encontra em Os 11.1: "...do Egito chamei o meu filho". Vale observar, por oportuno, que este é um exemplo do que chamaríamos no Direito de "interpretação autêntica": quando o próprio autor (legislador) oferece a interpretação da lei. Nesse caso, se fosse interpretar Os 11, eu não iria conseguir enxergar, pelo contexto, nenhuma menção ao Filho de Deus, vendo apenas uma referência profética ao fato de que Israel, "filho de Deus", fora liberto do Egito pela mão de Moisés. Ocorre que essa interpretação dada por Mateus ressalta o valor histórico-escatológico de alguns textos bíblicos, que podem conter aplicações históricas e ao mesmo tempo aplicações para os Últimos Dias. Seria a dupla aplicabilidade de profecias. De toda maneira, não me abalaria a fazer interpretações que fossem além dos critérios rígidos da Hermenêutica. Mais do que isso: a interpretação realizada por Mateus é muito mais que interpretação - é inspiração divina!
Voltando a Herodes, esse era um homem sem nenhum coração. Ele não tinha piedade. Um homem capaz de mandar estrangular os próprios filhos e de mandar executar a esposa não pode ser piedoso. Muitos crimes ele cometeu, como vimos no primeiro estudo desta série. Por isso, o anjo avisou a José de que deveria deixar o país com a sua família até segunda ordem.
De fato, ao perceber que havia sido iludido pelos sábios do Oriente - que, avisados em sonho, não voltaram a encontrá-lo - o rei se enfureceu muito. Sua primeira medida havia sido a de buscar informações, ouvir os sábios, pedir dados mais precisos, inquirir sobre a época em que a estrela aparecera. Mas, depois da saída inesperada dos sábios, Herodes toma a medida extrema: ordena um infanticídio, a morte de todas as crianças de dois anos para baixo, habitantes de Belém e arredores. Seguramente, pensava Herodes, o tal Rei dos judeus morreria, e seu reinado continuaria firme.
E assim foram assassinadas todas as crianças com aquela idade, para cumprir o que fora dito ao profeta Jeremias sobre a lamentação de Raquel, esposa de Jacó, e, portanto, ascendente dos israelitas (Jr 31.15).
Todavia, Herodes não conhecia o poder de Deus. Àquela altura, Jesus estava no Egito com a sua família. Curiosamente, esse mesmo Egito que um dia escravizara os hebreus também marcou a História da Redenção em três momentos, representando provisão e liberdade: quando Abrão, ancestral dos hebreus e nosso pai na fé, migrou para o Egito a fim de fugir da fome (Gn 12.10); quando José foi mandado como escravo, mas acabou se tornando governador, e, assim, concedendo sustento aos seus irmãos, dos quais procederiam as Tribos de Israel (Gn 45.7); e agora, com a fuga para escapar da espada de Herodes.
Deus opera de muitas maneiras insondáveis. O mesmo Egito da escravidão pode servir de livramento, saúde e vida. Sem saber, "todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus" (Rm 8.28). A bênção derramada por Deus sobre os hebreus serviu de bênção para nós, os salvos em Cristo (Gn 12.3). No seu livramento, nós temos livramento.
A um frio observador dos dias atuais, se deparasse com a matança das criancinhas, poderia ser fácil a conclusão de que estariam pagando os pecados de seus pais, ou pecados de outras vidas, ou as duas coisas juntas. Mas não é assim. Todo assassínio sempre será um mal diante de Deus, e somente tem entrada neste mundo devido à Queda, ao pecado original (Gn 3). O que traz consequências ruins ao mundo é o pecado universal, não apenas os pecados pessoais, as atitudes, ações, sentimentos e omissões de cada um de nós. O problema crucial é a condição pecaminosa desse sistema de valores que impera desde a Queda. Por isso Jesus nasceu.
A História da Salvação é linda e profunda. Herodes é só um pretexto para refletirmos sobre essa maravilhosa História.

Nota: As ilustrações são de GUSTAVE DORÉ. Transcrevo sua apresentação a seguir:
"O artista francês Gustave Doré (1832-1883) produziu centenas de ilustrações de qualidade sobre histórias bíblicas em sua vida. Essas ilustrações eram usadas nas Bíblias em muitos idiomas na Europa do século 19 e depois nas Américas. Muitos mestres produziram obras artísticas como essas para ilustrar temas bíblicos, e Doré estava entre os mais famosos deles.

O estilo realista de Doré deu nova vida a essas histórias reais. Séculos de mosaicos, frescos e relevos em pedra, com sua iconografia precisa, juntamente com impressões em blocos de madeira (lembrando das auréolas sempre presentes em alguns objetos em particular) caricaturaram muitas histórias da Bíblia nas mentes dos crentes. Entretanto, os locais e pessoas retratadas por ele parecem reais. O trabalho de Gustave Doré (e sua licenciosidade artística) foram criticados por alguns em seus dias, mas essas ilustrações resistem ao tempo como boas representações físicas de eventos bíblicos importantes"
(http://www.creationism.org/images/DoreBibleIllus/dore_pt.htm).



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