sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Estudos sobre Herodes (7) - Os herodianos

"Retirando-se os fariseus, conspiravam logo com os herodianos, contra ele, em como lhe tirariam a vida".
(Mc 3.6)

Nos tempos de Jesus, havia diversos partidos e seitas entre os judeus: fariseus, saduceus, essênios, zelotes e...os herodianos. Estes últimos eram adeptos do poder político da Dinastia Herodiana e dela se beneficiavam.
Enquanto os demais partidos ou seitas se baseavam em argumentos religiosos, os herodianos eram apenas um grupo político. O que eles pretendiam era simplesmente aproveitar as benesses que Herodes lhes podia conceder. Tratava-se, pois, de um grupo de lobistas, por assim dizer.
No versículo em tela, os fariseus se uniram a seus inimigos herodianos a fim de se endenterem sobre a morte de Jesus porque Ele havia curado no sábado, o que, na concepção deles, constituía violação à Lei Mosaica.
Note-se que os fariseus não se davam com os herodianos. Fariseu (="separado") era o membro de um partido político-religioso de matiz nacionalista que surgira com o objetivo de manter os costumes judaicos isentos da contaminação helenística (=grega). Já os herodianos eram "entreguistas" (NOVO COMENTÁRIO DA BÍBLIA, p. 993). Mas ambos os grupos estavam certos de que Jesus não podia viver.
Para os fariseus, Jesus não podia viver porque violava a Lei de Moisés. Para os herodianos, Jesus era uma ameaça ao status quo.
Vejamos outra passagem em que herodianos e fariseus se encontram, e que se acha em Mt 22.15-22, com paralelos em Mc 12.13-17 e Lc 20.20-26:

"15 Então, retirando-se os fariseus, consultaram entre si como o surpreenderiam em alguma palavra.
16 E enviaram-lhe discípulos, juntamente com os herodianos, para dizer-lhe: Mestre, sabemos que és verdadeiro e que ensinas o caminho de Deus, de acordo com a verdade, sem te importares com quem quer que seja, porque não olhas a aparência dos homens.
17 Dize-nos, pois: que te parece? É lícito pagar tributo a César ou não?
18 Jesus, porém, conhecendo-lhes a malícia, respondeu: Por que me experimentais, hipócritas?

19 Mostrai-me a moeda do tributo. Trouxeram-lhe um denário.
20 E ele lhes perguntou: De quem é esta efígie e inscrição?
21 Responderam: De César. Então, lhes disse: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.
22 Ouvindo isto, se admiraram e, deixando-o, foram-se".


Nesse episódio, nacionalistas e entreguistas usaram, não um motivo religioso, como o sábado, mas um tema eminentemente político para capturar Jesus em algum tropeço. Vejamos o que o NOVO COMENTÁRIO DA BÍBLIA traz a esse respeito:

"Os herodianos (16). Membros do partido que favorecia à dinastia de Herodes e apoiava a autoridade romana. Seu interesse na religião era mínimo e geralmente eles se opunham amargamente aos fariseus. O recado deles, citado no vers. 16, era insincero, cheio de palavras hipócritas e lisongeiras (sic). A finalidade da pergunta no vers. 17 era embaraçar o senhor. Se ele respondesse afirmativamente, seria denunciado perante o povo como traidor. Respondendo negativamente, podia ser denunciado às autoridades romanas" (p. 975).

Confiram-se também as anotações da BÍBLIA DE JERUSALÉM acerca dos herodianos:

"Partidários da dinastia de Herodes (Mc 3,6+), expressamente escolhidos para que fossem transmitir à autoridade romana a declaração hostil a César que, como esperavam, Jesus devia pronunciar" (p. 1743).

"É preciso reconhecer aos herodianos algo mais do que simples funcionários; são judeus políticos, zelosos pela casa de Herodes Antipas, tetrarca da Galileia (cf. Lc 3,1+), e com influência junto a ele" (cf. Mt 22.16+).

Há, ainda, que se observar o que diz a BÍBLIA ANOTADA:

"...os herodianos. Um partido judaico que favorecia a dinastia dos herodianos, defendiam 'a paz a qualquer preço' e uma convivência pacífica com os romanos" (p. 1218).

De uma forma ou de outra, queriam eles pegar Jesus em falta, mas isso não foi possível, pois Jesus é Sábio e com Ele mora toda a Sabedoria. Jamais foi pego em qualquer palavra, porque jamais pecou com os lábios, nem tampouco disse alguma coisa sem pensar. Além disso, Jesus mostrava com Sua resposta que é possível obedecer a Deus e ao Estado desde que não haja interferências indevidas.
De fato, uma coisa é a obediência e submissão às autoridades constituídas, no sentido de ordem jurídico-política (cf. Rm 13.1-7; I Tm 3.1-3; I Pe 2.11-17). Outra coisa, bem diferente, é a conivência com pessoas investidas de autoridade, em busca de favorecimento pessoal - algo procurado pelos herodianos.
Frise-se bem: ao afirmar que se deve dar "a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (Mt 22.15-22; Mc 12.13-17 e Lc 20.20-26), Jesus declarou a separação entre a Religião e a Sociedade Política, fornecendo o princípio da laicidade do Estado. Jesus não avalizaria a construção de uma sociedade secularizada - que vive como se Deus não existisse. Mas aprova integralmente a distinção entre a órdem sócio-política e a esfera espiritual.
Quando o apóstolo Paulo afirma que devemos ser sujeitos às autoridades (Rm 13.1), ele não está se referindo à pessoa em si, mas ao princípio de autoridade, pois no contexto ele menciona a finalidade para a qual a autoridade existe: promoção do bem, castigo dos maus. Tem-se aqui o primado da impessoalidade da administração pública.
Os herodianos faziam política, sim, mas de maneira errada: eles eram clientelistas, politiqueiros, pragmáticos. Interessava-lhes o poder pelo poder, e não como elemento dotado de função social (promoção do bem de todos).
Quando, em nossos dias, a Igreja procura benefícios junto a políticos e grupos políticos sem atentar para os princípios da impessoalidade, laicidade e autoridade, ela está se aproximando do partido de Herodes. Quando a Igreja entrega seus caminhos ao SENHOR e se submete à ordem jurídica naquilo que não contraria a Lei de Deus (At 4.19,20), ela está sendo parecida com Jesus Cristo.
É curioso falar de fé e não esperar em Deus. Proclamar fé em Deus e procurar favores políticos é um pecado social.


Referências bibliográficas:

A BÍBLIA ANOTADA. The Ryrie Study Bible/ Texto Bíblico: Versão Almeida, Revista e Atualizada, com introdução, esboço, referências laterais e notas por Charles Caldwell Ryrie. Sã o Paulo: Ed. Mundo Cristão, 1994, 1835pp.

BÍBLIA DE JERUSALÉM. Tradução do texto em língua portuguesa diretamente dos originais. Tradução das introduções e notas de La Bible de Jérusalem, edição de 1998, publicada sob a direção da "École biblique de Jérusalem". Edição em língua francesa. São Paulo: Paulus, 2002, 2206pp.

O NOVO COMENTÁRIO DA BÍBLIA. SHEDD, Russell P. (editor em português). São Paulo: Edições Vida Nova, V. II, 1963, 1487pp.

Um comentário:

Valerio Raz disse...

Parabéns excelente aula !

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