quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Estudos sobre Herodes (5) - A execução de João, o Batista

Estou apreciando estudar a Dinastia de Herodes e as passagens bíblicas em que ela está de alguma forma envolvida. Tem sido um bom exercício teológico palmilhar as páginas das Escrituras usando como "pretexto" algumas de suas personagens.
Curiosamente, comecei esses estudos porque desejava tratar do Herodes que morreu sem dar glórias a Deus, mas me senti inseguro para tratar desse personagem. Com os estudos historiográficos, isso se tornou mais fácil e proveitoso.
Chegamos agora ao texto de Mt 14.1-12, que tem paralelos em Mc 6.14-29 e Lc 9.7-9. Vejamos o texto de Mt 14.1-12:

"1 Naquele tempo ouviu Herodes, o tetrarca, a fama de Jesus, 2 E disse aos seus criados: Este é João o Batista; ressuscitou dos mortos, e por isso estas maravilhas operam nele. 3 Porque Herodes tinha prendido João, e tinha-o maniatado e encerrado no cárcere, por causa de Herodias, mulher de seu irmão Filipe; 4 Porque João lhe dissera: Não te é lícito possuí-la. 5 E, querendo matá-lo, temia o povo; porque o tinham como profeta. 6 Festejando-se, porém, o dia natalício de Herodes, dançou a filha de Herodias diante dele, e agradou a Herodes. 7 Por isso prometeu, com juramento, dar-lhe tudo o que pedisse; 8 E ela, instruída previamente por sua mãe, disse: Dá-me aqui, num prato, a cabeça de João o Batista. 9 E o rei afligiu-se, mas, por causa do juramento, e dos que estavam à mesa com ele, ordenou que se lhe desse. 10 E mandou degolar João no cárcere. 11 E a sua cabeça foi trazida num prato, e dada à jovem, e ela a levou a sua mãe. 12 E chegaram os seus discípulos, e levaram o corpo, e o sepultaram; e foram anunciá-lo a Jesus".

Herodes Antipas, filho de Herodes, o Grande, e tetrarca da Galileia (e da Pereia) herdou de seu pai o caráter mau. Ao ver que Jesus de Nazaré operava maravilhas, acreditou que se tratava de João Batista ressuscitado, atribuindo, então, as suas "forças miraculosas" ao fato de ter ressurgido de entre os mortos. Digna de nota é a superstição do governante, aliada à segurança com que ele parece ter explicado os milagres de Jesus aos seus servidores. Em vez de investigar a origem do poder de Jesus, Herodes tinha sua tese própria.
Marcos e Lucas anotam que "alguns diziam" que João ressuscitara e que nele operavam "forças miraculosas". Para outros ainda, tratava-se de Elias ou de um profeta como todos os demais, um ou outro ressurgido dentre os mortos.
Percebe-se o grau de espiritualismo daquelas pessoas que assessoravam Herodes. João Batista? Elias? De onde eles tiravam aquelas conclusões a respeito de Jesus?
Mateus faz uma espécie de flashback para esclarecer como João morrera: Herodes havia mandado prender João por causa de Herodias, mulher com quem se relacionava, mas que era esposa de Herodes Filipe, um de seus irmãos - que não se pode confundir com Filipe, o tetrarca (veja o primeiro estudo desta série). Sendo assim, João não estava preso por causa de seu discurso genérico de arrependimento de pecados, mas pela afirmação particular de que não era lícito a Herodes relacionar-se com a mulher de seu irmão.
O objetivo de Herodes era mesmo matar João Batista, o que não fazia com medo de uma revolta popular, já que o povo tinha João como profeta. Marcos também afirma que o próprio Herodes sabia ser João "justo e santo", e que o escutava "de boa mente". Mas, como Herodias pretendia ver o profeta morto de qualquer jeito, aproveitou-se da situação descrita no texto, e, dessa forma, obteve a cabeça do profeta numa bandeja.
Sim, isso mesmo: Herodias havia planejado tudo. Com a dança - seguramente provocante - da sua filha, exatamente no aniversário de Herodes, Herodias conseguiu arrancar do tetrarca a promessa de dar tudo o que a moça quisesse. Essa foi a oportunidade que a perversa mulher esperava, pois o tetrarca não revogaria um juramento feito diante dos altos dignitários, de oficiais militares e dos principais da Galileia - figuras presentes à festa, de acordo com Lucas.
Deparamo-nos, portanto, com as seguintes personagens: um governante orgulhoso e adúltero, uma mulher adúltera e cruel, uma moça de comportamento sensual, controlada pela mãe, e um profeta de Deus.
Ao deparar com Herodias, recordo de outras mulheres terríveis mencionadas na Bíblia: a) a mulher de Potifar, que acusou José injustamente de sedução, por ele não ter cedido à sua provocação sexual; b) Dalila, que envolveu Sansão em seus enlaces sexuais; e c) Jezabel, que controlava o fraco marido Acabe e que preparou a execução de Nabote, além de perseguir os profetas do SENHOR.
A mulher de Potifar, Dalila, Jezabel e Herodias - que quarteto infernal! Mas não menos pecadores foram os homens por elas influenciados!
Com a morte de João Batista, o que poderiam os seus discípulos fazer? Humildemente, foram sepultar o seu corpo, depois do que o anunciaram a Jesus. Era a morte de um santo homem de Deus (veja nosso estudo "João Batista, o precursor de Cristo", neste blog).
Uma das coisas que mais me chamam a atenção neste texto é que a morte de João Batista foi ensejada por uma questão particular, e não por causa das suas pregações de âmbito geral. Diferentemente de Jesus, que foi acusado (falsamente) de querer destruir o Templo ou de incitar uma sedição, João foi assassinado por ter acusado o governante de adultério - especialmente agravado por se tratar de sua cunhada.
João Batista enfrentou as estruturas de poder de sua época. Herodes Antipas e Herodias pensaram ter vencido a voz de João por tê-lo decapitado. Não sabiam que a vitória verdadeira não se dá neste plano material.

Nota: A ilustração é de GUSTAVE DORÉ. Veja sua apresentação a seguir: "O artista francês Gustave Doré (1832-1883) produziu centenas de ilustrações de qualidade sobre histórias bíblicas em sua vida. Essas ilustrações eram usadas nas Bíblias em muitos idiomas na Europa do século 19 e depois nas Américas. Muitos mestres produziram obras artísticas como essas para ilustrar temas bíblicos, e Doré estava entre os mais famosos deles.
O estilo realista de Doré deu nova vida a essas histórias reais. Séculos de mosaicos, frescos e relevos em pedra, com sua iconografia precisa, juntamente com impressões em blocos de madeira (lembrando das auréolas sempre presentes em alguns objetos em particular) caricaturaram muitas histórias da Bíblia nas mentes dos crentes. Entretanto, os locais e pessoas retratadas por ele parecem reais. O trabalho de Gustave Doré (e sua licenciosidade artística) foram criticados por alguns em seus dias, mas essas ilustrações resistem ao tempo como boas representações físicas de eventos bíblicos importantes".




4 comentários:

João Armando disse...

Potífera não era o sogro de José? Veja em Gn 41.50.

Alex Esteves da Rocha Sousa disse...

É verdade, João! Vou corrigir isso. Confiei só na memória.
Obrigado.

eduardo disse...

Entendemos que João realmente foi assassinado por pregar contra o pecado. Imaginemos, hoje em dia se pregarmos esta palavra usada por João contra o adultério.
será que também seremos decaptado?
ou o que poderá acontecer conosco?
A nossa sociedade atual aceita alguns tipos de relações extras conjugais super normais..

Anônimo disse...

Me salvou no trabalho de religião! Obrigado!

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Um dos terríveis problemas da Igreja evangélica brasileira é a falta de conhecimento da Bíblia como um sistema coerente de princípios, promessas e relatos que apontam para Cristo como Criador, Sustentador e Salvador. Em vez disso, prega-se um "jesus" diminuído, porque criado à imagem de seus idealizadores, e que faz uso de textos bíblicos isolados, como se fossem amuletos, peças mágicas a serem usadas ao bel-talante do indivíduo.

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Creio:
Em um só Deus e na Trindade.
Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristão.
Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal e sua ascensão aos céus.
Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor.
No batismo bíblico em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo.
Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus, através do poder do Espírito Santo.
No batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a intercessão de Cristo.
Na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja para sua edificação, conforme a sua soberana vontade.
Na Segunda Vinda de Cristo.
Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo.
No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis.
E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.