sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Por que nós assembleianos somos tão suscetíveis a maus pregadores?

Nós da Assembleia de Deus somos muito vulneráveis a maus pregadores. Ouvimos de tudo em nossos púlpitos. Deixamos que pregadores despreparados ou mal-intencionados digam as maiores bobagens em nossas igrejas, principalmente em festas e congressos. Por que isso acontece?
Tenho algumas hipóteses, que devem ser tomadas em conjunto:
1 -  Não cuidamos devidamente da preparação, ordenação e disciplina doutrinária. 
Igreja centenária, a Assembleia de Deus pensou por décadas que o estudo teológico não era importante, mas, ao contrário, imaginava que a teologia era nociva à fé. Isso se deve em parte a uma característica do próprio Movimento Pentecostal, que confundiu razão com racionalismo, e formação intelectual com desprezo à obra do Espírito Santo.
Deixamos de enviar nossos aspirantes ao episcopado a seminários. Sequer tínhamos seminários. 
Há alguns anos essa lacuna foi percebida em alguns Estados, mas o saldo negativo já era imenso. Hoje existem faculdades teológicas ligadas à Assembleia de Deus, além de instituições de ensino que buscam formar obreiros, incluindo o método de criação de núcleos em cada cidade, com material encaminhado pela sede do instituto. Há também convenções que exigem um mínimo de conhecimento teológico por parte dos candidatos ao ministério episcopal e ao diaconato, ao menos com a obrigação de presença em cursos teológicos de curtíssima duração.
De toda maneira, os mecanismos de qualificação teológica e doutrinária são tardios e insuficientes. 
Quando um pregador fala impropriedades no púlpito, dificilmente acontece o usual em igrejas históricas, nas quais o pregador é chamado a uma conversa com o pastor ou com alguma instância da denominação. Como pentecostais, pensamos erroneamente que isso seria ingerência indevida na ação do Espírito. Todavia, isso não procede, pois sabemos ser firmes quando convém: por exemplo, quando o pregador diz coisas contrárias à doutrina do batismo com o Espírito evidenciado necessariamente por línguas, ou quando fala alguma coisa diferente sobre dons espirituais. Não sei se somos criteriosos quanto a estes temas por amor à doutrina bíblica ou porque mexer com a tradição pentecostal é mexer com a nossa identidade, e, portanto, com os nossos brios.
2 -  Temos cedido à tentação do crescimento numérico a todo custo.
Mesmo que nem sempre dê certo, temos imaginado que chamar pregadores de prosperidade e triunfalismo vá encher os bancos de nossas igrejas, porque vemos isso acontecer nas igrejas classificadas como "neopentecostais" (pseudopentecostais). Assim, temos sido pragmáticos, e com isso relativizamos a doutrina.
Ainda que com algum pudor e sem fazer coisas como fogueira santa de Israel, uso de sal grosso e galho de arruda, bem como encenações reproduzindo fatos do Antigo Testamento, já estamos propagandeando a unção com óleo e marcando o dia e a hora em que Deus vai operar! É assim que as coisas começam.
Depois é o professor de escola dominical que tem de consertar tudo...
3 - Heresias ligadas à Batalha Espiritual têm sido absorvidas como se fossem irmãs do pentecostalismo.
 É curioso, mas bobagens e heresias relacionadas à Batalha Espiritual - não ao ensino correto, mas à teologia falsa de Batalha Espiritual - têm adentrado aos arraiais assembleianos como se fossem a mais pura verdade, e como se desacreditar nesses erros fosse o mesmo que desacreditar na Palavra de Deus e especialmente na doutrina pentecostal. 
À falta de conhecimento do que a Bíblia verdadeiramente ensina sobre anjos e demônios, possessão demoníaca, céu e inferno, armadura de Deus etc., os crentes acabam sendo arrastados por essa torrente que envolve maldição hereditária, arrebatamento até o inferno (!), quebra de maldições, objetos com poderes espirituais, classificação de demônios, suposto dom espiritual ou ministério de libertação, objetos e instituições amaldiçoadas, territórios de Cristo e territórios dos demônios, ensino de que salvos podem ser endemoninhados.
Precisamos estudar mais a Batalha Espiritual à luz da Bíblia e demonstrar que se pode exercitar o poder espiritual sobre os seres malignos sem pensar e fazer tanta besteira.
4 - Estamos preocupados com a arrecadação financeira.
Lamentavelmente - não sei se por desorganização administrativa, elaboração de projetos incompatíveis com a realidade ou outro motivo menos nobre - estamos sempre preocupados com a necessidade de arrecadar mais dinheiro do que aqueles que as reuniões ordinárias da Igreja oferecem com os dízimos e ofertas. 
Sabemos que os pregadores que pedem dinheiro não têm grande compromisso com a Palavra, mas, o que se há de fazer? Eles pedem dinheiro, apelando não raro ao apetito do povo por bênçãos, e se supõe que os erros doutrinários e teológicos serão consertados depois.
5 -  Cremos erroneamente que basta a cada um filtrar o que ouve.
Temos sido demasiadamente pacientes com esses maus pregadores. Apelamos àqueles textos bíblicos que dizem para termos paciência, para sermos críticos como os irmãos de Bereia  (cf. At 17.11), para examinarmos tudo, retendo o que é bom (I Ts 5.21), para julgar as profecias (I Co 2.15; 14.29) e provar os espíritos, se procedem de Deus (I Jo 4.1). 
No entanto, embora necessário, isso não é suficiente - é preciso não dar ouvidos aos falsos profetas (Jr 23.16). Há uma série de textos contra os falsos profetas, falsos líderes e falsos mestres, mas quero tratar disso em outra ocasião, se possível.
Se o leitor tiver outras hipóteses, reflita consigo e aprofunde essa questão.


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Um dos terríveis problemas da Igreja evangélica brasileira é a falta de conhecimento da Bíblia como um sistema coerente de princípios, promessas e relatos que apontam para Cristo como Criador, Sustentador e Salvador. Em vez disso, prega-se um "jesus" diminuído, porque criado à imagem de seus idealizadores, e que faz uso de textos bíblicos isolados, como se fossem amuletos, peças mágicas a serem usadas ao bel-talante do indivíduo.

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Bases de Fé

Creio:
Em um só Deus e na Trindade.
Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristão.
Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal e sua ascensão aos céus.
Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor.
No batismo bíblico em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo.
Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus, através do poder do Espírito Santo.
No batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a intercessão de Cristo.
Na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja para sua edificação, conforme a sua soberana vontade.
Na Segunda Vinda de Cristo.
Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo.
No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis.
E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.