sexta-feira, 3 de abril de 2009

Salvos do amor

Quando eles se converteram a Jesus, saiu um peso das costas, do tamanho do mundo. Foi um alívio. Perdão de pecados, remoção da culpa, alegria indizível, posse da vida eterna. Nenhum sentimento poderia ser melhor, nenhuma decisão seria mais acertada, nenhum pensamento mais alvissareiro. E também ganharam uma família – a Igreja. O primeiro amor foi assim belo e tocante.
No entanto, com o passar do tempo, a coisa mudou. Havia regras tão rígidas que aquelas pessoas passaram a vigiar o comportamento das outras, e uma cobrança geral se estabelecera. Em vez do sorriso, agora eles têm uma caveira carrancuda na face. Os olhos são como os dos santos barrocos das igrejas de Minas, o olhar de censura constante. “Não pode isso, não pode aquilo” é o mote desse povo que pensa que a santidade é uma clausura.
Caminham no sentido oposto ao de Cristo – enquanto o Filho de Deus Se humanizou, eles se desumanizam. Jesus desceu, mas eles querem viver como se já não estivessem nesse mundo, como se alguma elevação espiritual os proibisse de manter contato normal com as pessoas chamadas “ímpias”, “incrédulas” ou “descrentes”. A santidade passa a ser um fardo, uma separação, não do pecado, mas das pessoas. Enquanto Cristo encarnou, Se contextualizou, tabernaculou, essas pessoas querem escapar ao convívio, aos problemas comuns.
Há as receitas prontas sobre o que é certo. Mas, e quando dá errado? E quando um casal cristão se separa? E quando um servo de Deus é vocacionado e não fala em línguas? E quando o filho do pastor comete sérios deslizes? E quando a igreja precisa confessar um pecado coletivo? E quando o pastor entra em depressão? Como resolver problemas humanos numa comunidade de não-humanos?
Parece que os santarrões foram salvos do amor, salvos da necessidade de cultivar a virtude do amor. Amar é difícil. Amar é uma arte. Amar é ser humano como Deus quis que Adão fosse. Jesus foi humano, na Encarnação, porque amou à imagem e semelhança de Deus. E o amor é não pecar contra Deus, conduzir-se de modo a guardar os mandamentos do Pai de boa vontade.
Jesus humanizou-Se, e como Ser Humano de acordo com o Plano de Deus, Ele não precisou pecar, pois o pecado não faz parte da verdadeira Humanidade. Mas isso só é possível por causa do amor incomensurável que tem no Seu coração divino.
O legalismo consegue furtar do coração a alegria da Salvação pela Graça mediante a Fé, colocando no lugar uma firme tristeza dos que se sentem culpados tempo todo.
Santidade, afinal, é o processo que vive quem, sabendo-se pecador, aceita a correção e a transformação pelo Espírito – não é, jamais, a capa de quem, cheio de remorso e culpa, finge que tudo está bem, e que pode carregar o peso sozinho. O nome disso é hipocrisia.

terça-feira, 31 de março de 2009

Um registro sobre direita e esquerda

Estou pensando sobre a dificuldade de o brasileiro se apresentar como “de direita” e não ser considerado um reacionário. Com efeito, parece-me que no Brasil a direita é entendida como ideologia entreguista, sustentáculo do Regime Militar de 1964, manutenção do status quo, e todas as coisas ruins que possam existir, como a injustiça social, a opressão, o fundamentalismo.
No entanto, algumas coisas precisam ser esclarecidas. Como diz o blogueiro da Veja Reinaldo Azevedo, os militares da Ditadura de 64 não eram de direita, pois eram estatizantes, e estatismo é coisa da esquerda.
Estou dizendo isso porque minha intenção é discernir o que é ideologia política de direita num caminho diferente do seguido pelos esquerdistas, que gostam de associar à direita toda a maldade humana.
Ora, a direita defende, em linhas gerais, a liberdade individual, a livre iniciativa, o livre mercado, a igualdade de oportunidades, o Estado-mínimo, um direito penal mais repressivo, a meritocracia nas universidades, assim como tem problemas com o aborto e com a união civil de homossexuais. Já a esquerda prega a forte intervenção no mercado, as ações afirmativas (sistema de cotas), a estatização de empresas, o direito penal mínimo, as reservas contínuas de grupos indígenas, e tem simpatia pelo casamento gay, pelo aborto, pela eutanásia e por uma educação pública que intervém em questões familiares, como a criação dos filhos.
Essa generalização é perigosa como toda generalização. Mas é o que vejo, grosso modo, do que a direita e a esquerda ensinam. Sei que há inúmeras correntes de direita e de esquerda espalhadas pelo mundo, uma até mesmo extremistas, algumas ligadas à religião, mas minha intenção aqui, repito, é chamar a atenção para o fato de que a direita não pode ser contemplada como sinônimo do que não presta. A direita, a meu ver, tem sido injustiçada ou mal-compreendida.
Como nordestino, sei que o Coronelismo fez um mal tremendo à minha Região, notadamente na Bahia, há décadas assaltada por um grupo medonho. Mas quem disse que isso é coisa natural à direita? Por outro lado, não foram os esquerdistas que compraram votos de parlamentares com o chamado “Mensalão”?
Durante toda a minha infância e juventude, estive mais perto de conceitos de esquerda. Creio que isso se deve à memória recente da Ditadura. Todo mundo que se posicionava contra o Regime Militar, e que se lembrava daqueles tempos sombrios, acabava sendo tomado por esquerdista, e se tornava esquerdista mesmo. Como nasci em 1977, pude acompanhar a lamentação por Tancredo Neves (1985), o choque dos planos de Sarney (1985-90), a ascensão e impeachment de Collor (1990-92), além de toda a sequência. No dia 26 de agosto de 1992, participei, em Pojuca-BA, de manifestação pública liderada por petistas gritando “Fora Collor” ao som de Alegria, Alegria, que não parava de tocar. E também na Universidade (1996-2001) eu fui mais balançado para a esquerda.
No entanto, com o passar do tempo, fui tendendo mais para a direita, embora não tenha atividade política. Percebo essa tendência por causa de minhas opiniões conservadoras: sou contra o aborto e contra o casamento homossexual. Sou contra as reservas indígenas contínuas. Sou contra as cotas para negros. Sou contra o patrulhamento ideológico dos currículos escolares. Sou a favor de um direito penal mais repressivo do que as penas alternativas propõem.
Descobri que sou conservador. Mas eu quero ser conservador de coisas boas, não de estruturas de opressão.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Lembra do Super-Homem e do Bizarro? Eles estão no mundo evangélico brasileiro.

Quem é da minha geração e assistia a desenhos animados talvez lembre não só do Super-Homem, amplamente conhecido no mundo todo, mas também do Bizarro, uma figura que se apresentava como um arremedo do Super-Homem, com uma roupa semelhante e propósitos diametralmente opostos aos do heroi. Para quem gosta de Psicanálise, Bizarro seria o alter-ego do bom-moço.
Minha constatação é que existe um Super-Homem e muitos Bizarros espalhados pelo Brasil. O Super-Homem, todo certinho e com pretensos super-poderes, é um senhor que fala bonito, em tom suave, em horário nobre de televisão, e que tem como tema principal um conceito esdrúxulo de fé em Deus. Os muitos Bizarros estão nos Estados brasileiros e representam esse senhor, mas em seus programas televisivos ou radiofônicos exibem uma mensagem que parece bem diferente da mensagem do Super-Homem.
Em Minas Gerais, onde eu morei por alguns anos, havia um desses Bizarros que a cada semana anunciava uma coisa nova: uma “estola sacerdotal”, uma “cruz com água sacrossanta e fluidificada”, uma “toalha de fogo”, objetos que seriam entregues a quem comparecesse às reuniões das sextas-feiras. O camarada, que se dizia “a maior autoridade em libertação no Brasil”, fazia um programa trash, com músicas tenebrosas, cujo volume aumentava para aumentar o suspense. Já o ouvi pedindo que os espectadores enviassem o número de seu sapato para receberem o “encaminhamento espiritual”, pois ele faria uma “prece”. Esse indivíduo bizarro, que tem nítida vocação para o humorismo, pedia que seus ouvintes colocassem uma garrafa perto do “aparelho receptor” a fim de conter o “cramulhão” (sic), sob pena de, em acontecendo alguma coisa ruim, o pregador não se responsabilizar por nada.
Aqui na Bahia deparo com uma figura menos estranha, mas com práticas não menos bizarras. Ontem eu o vi oferecendo “a rosa do puxamento espiritual”, que, segundo ele, irá puxar para si tudo o que as pessoas tiverem de ruim em si mesmas. Será que o inventor disso tem em mente o bode expiatório da Lei de Moisés? Será que o fetichismo dessa turma chegou a tal nível de sofisticação teológica? Pode ser: eles são inventivos.
Alguém pode imaginar que esses camaradas são autônomos, mas não são. Eles são denominados “líderes estaduais” e representam o líder internacional, seu presidente, o Super-Homem, mocinho da história, bom comunicador, cujo ensino, embora cheio de heresias, até aparenta fundamentação bíblica.
Muitos crentes de boa-fé admiram o Super-Homem e ficam chateados quando o criticamos. São também esses crentes que não costumam tolerar os Bizarros, reconhecendo-lhes a bizarrice, por exemplo, no uso de objetos com supostos efeitos espirituais (fetichismo, pajelança).
Entretanto, quem cria os Bizarros é justamente o Super-Homem. Foi ele quem os concebeu, criou e deu ao conhecimento público. Um não vive sem o outro. E, para ser sincero, os Bizarros são o espelho mais fidedigno do Super-Homem, justamente porque a capa do Super-Homem esconde um repertório daninho que vai da Confissão Positiva à deificação do Ser Humano, da Teologia da Prosperidade ao personalismo.
O curioso é que em outro “desenho animado” com motivos parecidos o protagonista absoluto não criou propriamente Bizarros, mas um exército de seres robóticos que imitam seu sotaque, rouquidão e articulação das mãos. Mas esse é outro produto igualmente vendável.

O Brasil ainda tem seus nobres

Em mais de 500 anos, o Brasil foi-se formando como um País patrimonialista, desigual, injusto. Uma das expressões mais fortes da cultura brasileira é a ideia de que as pessoas que possuem maior poder aquisitivo ou posição social de destaque devem ser tratadas com deferência especial, em detrimento das pessoas pobres ou sem títulos. Isso está impregnado na ideologia das massas.
A República, em seu primeiro decreto, extinguiu todos os títulos nobiliárquicos e os privilégios de nascimento. Entretanto, não extinguiu o péssimo costume brasileiro de julgar pela aparência e dar primazia ao dinheiro ou aos títulos. Essa mudança não se opera por decreto.
Veja o caso da classe política, com seu foro privilegiado, suas verbas indenizatórias, seus adicionais, suas verbas de gabinete, seus longos períodos de férias, seus recessos muito bem remunerados.
Uma das maiores aberrações de nossa ordem jurídica é a lei segundo a qual portadores de diploma fazem jus a prisão especial. É um caso típico de inconstitucionalidade, que fere o princípio da isonomia, pois “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”, como diz a Constituição em seu Art. 5º.
Também observo um fenômeno não tão visitado pela imprensa: são os juízes e membros do Ministério Público que, a pretexto de sua autonomia e independência funcional, não precisam cumprir horário, enquanto seus assessores, que os auxiliam nos processos de sua atribuição e têm a mesma formação, muitas vezes precisam seguir rígidas normas de expediente, sob a supervisão cerrada de câmeras, seguranças e de outros servidores. Por que essa distinção administrativa, se as prerrogativas funcionais devem ser aquelas que atendam ao interesse público, como a inamovibilidade, a irredutibilidade de vencimentos e a vitaliciedade? Por que os agentes políticos do Poder Judiciário e do Ministério Público não precisam cumprir horário?
É curioso perceber como as pessoas se rendem ao poder do status social. Vejo porteiros, seguranças e lavadores de carro nas ruas “nobres” de Salvador, a maioria negros e mulatos, com uma atitude praticamente servil diante de “doutores” que sequer fizeram mestrado, quanto menos doutorado. Basta ter dinheiro, basta morar num prédio “nobre” ou andar num carro de luxo para ser chamado de “doutor”. Acredito que essa mentalidade servil decorre dos tempos da escravidão, sei lá.
Até meu carro, que é popular, passa a impressão, aos frentistas de posto de gasolina, de que sou doutor. É assim que eles me chamam. E se estiver de terno, então, o prestígio aumenta, mas não sabem eles que uso terno geralmente por causa da igreja.
Quando digo, por algum motivo, que sou formado em Direito, é o suficiente para que o interlocutor mude o discurso, e passe a tentar me agradar com palavras e atitudes mais respeitosas. Não seria esse um símbolo da cultura da aparência?
Antigamente eram os duques, marqueses e viscondes. Hoje são os deputados, senadores, governadores, procuradores da República, juízes. E por que não incluo nessa lista todos os endinheirados e poderosos? Porque me refiro às posições sociais que o próprio Estado tem privilegiado, ainda que sob argumentos muito bem desenhados como as “prerrogativas de função” e a “independência dos poderes”. Tanto as prerrogativas funcionais como a independência dos Poderes são fundamentais num Estado de Direito, mas há que se ter cuidado para que os critérios de distinção sejam concebidos de acordo com o princípio da igualdade e o interesse público, para que não haja maior injustiça.

Entre o perdão e a tolerância

Diante da reprovação religiosa a determinadas condutas, surgem pessoas dizendo “aquele que não tem pecado atire a primeira pedra”, mas nem todos compreendem o que isso significa. A frase dita por Jesus e registrada por João acaba sendo empregada como panaceia para impedir qualquer análise do comportamento humano à luz da Bíblia.
Deve ficar bem clara a distinção entre o perdão evangélico e a tolerância com o pecado. Nós evangélicos muitas vezes pecamos por transmitirmos uma imagem de moralistas hipócritas, mas não é isso o que o Evangelho propõe. Nossa mensagem é de denunciar o pecado e anunciar o perdão. Denúncia de pecado sem anúncio de perdão é moralismo farisaico; anúncio de perdão sem denúncia de pecado é barateamento da Graça e liberalismo moral.
O mesmo Jesus que disse “aquele que não tem pecado atire a primeira pedra” também disse “vá e não peques mais”. O que Jesus censurou foi a postura de juízes dos pecados alheios, mas não deixou de apontar para a necessidade de arrependimento e mudança de vida. A um só tempo, o Salvador falou aos acusadores judeus contra o seu pecado de preconceito, e falou à mulher pega em adultério contra o seu pecado de adultério. Jamais o Mestre iria justificar a conduta da mulher com o argumento de que o pecado é universal. Isso não é desculpa. Aliás, o perdão de Cristo não é uma aceitação de pedido de desculpas – o perdão de Cristo é a absolvição dos pecados de quem não deveria ser absolvido.
O perdão é uma interrupção do fluxo catastrófico do pecado, e não se explica racionalmente. Quando o preceito divino estabelecia a morte para os pecadores, veio o perdão igualmente divino e estendeu ao Ser Humano a destra de comunhão. Impediu-se a condenação do Ser Humano arrependido, pois com o Advogado e Substituto Penal, Jesus Cristo, surgiu uma possibilidade de esperança, regeneração, vida eterna.
Anunciar o perdão é totalmente diferente de anunciar a tolerância com o pecado. O cristão não pode tolerar o pecado, se acostumar com ele, gostar dele, se aproveitar dele, conviver em harmonia com ele. O pecado precisa ser visto como um veneno, que mata de verdade, e não como um tabu alimentar, que só mata na cabeça de alguns.

Conservadorismo não é fundamentalismo

Quando querem atacar o pensamento evangélico sobre temas éticos, jornalistas dizem que somos “conservadores”, mas com um sentido pejorativo que mais se aproxima de “fundamentalista”. No entanto, Conservadorismo e Fundamentalismo são coisas distintas, e ambos são mal-interpretados.
Conservadorismo, em termos religiosos, é a postura de quem pensa e trabalha contrariamente ao secularismo, que por sua vez é a filosofia de viver como se Deus não existisse. Ser conservador, na acepção verdadeira, não é ser contra a justiça social, contra a modernização da sociedade, contra os avanços da ciência, contra as pessoas homossexuais ou a favor da manutenção da exploração econômica. Esse é o discurso ideológico de uma esquerda materialista e de um falso intelectualismo que se colocam contra a mensagem de transformação do Ser Humano pela conversão a Cristo.
Já o Fundamentalismo foi, antes de tudo, uma corrente teológica que surgiu no final do Séc. XIX entre os norte-americanos para frear o Liberalismo Teológico, que veio assediando protestantes com afirmações de que não existem milagres, de que tudo na Escritura são mitos, e de que a Bíblia não passa do registro da experiência religiosa de um povo, não sendo inspirada por Deus. Na origem, os fundamentalistas prestaram um grande serviço à Igreja, assinalando firmemente doutrinas como a Criação, o nascimento virginal de Cristo e a inspiração, inerrância e autoridade da Bíblia. Nisso os fundamentalistas cumpriram importante mister.
Com o tempo, assim como o termo “puritano” foi deturpado, a palavra “fundamentalista” assumiu a conotação de pessoa radical, que não admite a iluminação da Razão, tal como se diz dos Talebãs. Ao chamar uma pessoa de fundamentalista, impede-se o diálogo, e se convida o auditório a tapar os ouvidos ao que ele diz.
Por que somos contra o aborto? Por que não concordamos com o comportamento homossexual? Por que reconhecemos a sacralidade do casamento? Por que não aceitamos a prática da eutanásia? Dirão os modernistas que a resposta é fácil: é porque somos fundamentalistas.
Acredito, porém, que contribuímos para esse estado de coisas quando adotamos a moral social como arquétipo da moral cristã. Dito de outro modo, por muito tempo transmitimos para a sociedade a ideia de que a moral de Cristo é se vestir de determinada forma, falar de determinada forma, não frequentar determinados lugares, e cumprir à risca o ritual social de crescer, casar, trabalhar, reproduzir as tradições sociais e morrer esperando uma recompensa. Esse era o modelo considerado santo, mas não se exigiam, por assim dizer, virtudes como amor, justiça e verdade.
Para se ter uma noção do que estou dizendo, alguns costumes tão caros a grupos legalistas eram adotados há décadas como o padrão moral da sociedade, sendo incorporados pelas igrejas como sendo o certo. Aquela indumentária de coque, meião e redinha – como ouvi certa vez de um irmão – não era a marca de santidade das crentes, mas um simples costume das senhoras direitas em algum lugar no passado. Hoje ainda em alguns lugares o coque, meião e redinha, ou seus similares, representam a marca do ser santo.
Quero deixar bem claro que a mensagem de Cristo é conservadora, sim, mas há que se indagar o que essa mensagem conserva, porque, como diriam os professores de Português, quem conserva conserva alguma coisa. A mensagem de Cristo apareceu como revolucionária, e gosto de dizer que Jesus Cristo trouxe a contra-cultura com o Sermão do Monte (Mt 5 – 7), pois tudo o que o Mestre diz ali contraria a cultura do mundo inteiro.
Ter fome e sede de justiça é revolucionário. Oferecer a outra face ao que o fere é revolucionário. Cultivar a interiorização de princípios éticos é revolucionário. Querer o bem dos inimigos é revolucionário. Ser pacificador num mundo em conflitos é revolucionário. Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo é a maior revolução que poderia existir. Assim, Jesus é O Revolucionário, e os cristãos, revolucionários com Ele.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Tudo posso

“Tudo posso naquele que me fortalece”,
Disse o apóstolo Paulo.
Posso sofrer e suportar.
Posso querer e não alcançar.
Posso não ter e me alegrar.

Posso ter mais do que preciso
Caso o SENHOR assim me conceda.
Posso ter só o que necessito
Para viver, até que mais não seja.

Tudo posso, possuindo ou não.
Tudo posso, mas sei que o poder é ilusão.
E escuto a voz de Deus, minha única riqueza:
“O meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

As perguntas teológicas de minha filha

Minha filha, Elisa, tem três anos de idade. Ontem, quando nos arrumávamos para irmos ao culto de domingo à noite, ela me surpreendeu com as seguintes perguntas:
- “Jesus cura”?
- “Deus vem buscar a gente”?
- "Ele está vindo agora, né"?
- “Eu vou com essa roupa”?
- “Deus fala com a gente”?
Ela ainda afirmou que gostaria de ir para o Céu logo, e disse também que a gente deve esperar Deus nos buscar.
Todas essas coisas ela começou a perguntar porque eu a convidei a ir ao culto, e creio que resultaram da aula da manhã. Talvez lembre de aulas anteriores.
Enquanto nos dirigíamos ao templo, fomos conversando sobre essas questões. Eu lhe disse, desde a conversa em casa, que Jesus cura, que Jesus vem buscar a gente, que devemos esperar por isso para qualquer momento, que receberemos roupas brancas e novas, que Deus fala com a gente pela Bíblia e em nossos corações, e que só vai ao Céu quem conhece a Jesus. Por isso, disse-lhe, precisamos falar de Jesus a outras pessoas.
Veja bem: uma menininha de três anos de idade perguntando coisas tão profundas e importantes. Como o pai não fica? É claro que fico contente com o fato de saber que o ensino bíblico tem sido eficaz, mas, por outro lado, me preocupo com a negligência que muitas vezes devotamos às crianças. Elas são tão receptivas ao ensino, e nós, tão desatentos a isso!
Jesus não disse que das crianças é o Reino de Deus? Sim, o Reino é delas. É por isso que minha filha entende facilmente as coisas do Reino.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

O Carnaval de Salvador é um insulto à igualdade social

Quem vê aquelas multidões pulando atrás do trio elétrico ao ar livre pode pensar que se trata de alguma coisa democrática, mas não é. O Carnaval de Salvador é um insulto à igualdade social, e isso porque milhões de Reais são empregados numa festa cujos frutos não são igualitariamente repartidos entre a população.
Digo isso porque soube que o Governo do Estado da Bahia cedeu R$45 milhões para a festa, além do aporte da Prefeitura, e quem sabe do Governo Federal, já que a EMBRATUR também se interessa pela festa devido ao turismo. Entretanto, o que se vê em Salvador e em toda a Bahia é a gritante desigualdade social, sendo que Salvador está repleta de moradores de rua, prostitutas, bêbados, trombadinhas, assaltantes, traficantes de drogas, e muitos, muitos pobres, seja em favelas, seja em subúrbios.
Fico pensando para onde vai tanto dinheiro de turistas que vêm a Salvador aproveitar os muitos dias de bebedeira, turismo sexual, prazeres do litoral e música baiana de ensurdecer. O Carnaval realmente não combina com um lugar tão massacrado por décadas de políticas excludentes, coronelistas, patrimonialistas.
Na verdade, eu não gosto de Carnaval de jeito nenhum, e sei que os males desse festejo vão muito além dos problemas sociais. Entretanto, como a festa está aí, e como faz parte do imaginário popular quando se trata de minha terra, não posso me furtar a dar minha opinião sobre ele, já que, ao que parece, tudo em Salvador anda em função desses dias de fevereiro.
Quisera eu a Capital da Bahia deixasse de ser Salvador, e passasse a ser Vitória da Conquista, algo que escutei de um colega de trabalho, dada a sugestão de um especialista. Assim, eu poderia, quem sabe, ir morar na Capital, trabalhar lá, e deixar que Salvador ficasse com suas festas, com seu turismo, com suas praias e pontos turísticos só para os dias de folga. Creio que isso faria da Bahia um lugar melhor, e talvez distribuísse com maior equidade o grande número de pessoas que insistem em residir nessa megalópole.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Duas palavras sobre a entrevista do senador Jarbas Vasconcelos

Não posso deixar de dizer que a entrevista do senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE) à revista Veja foi a melhor que já li em todos os tempos, vinda de um político. Ele disse, sim, o que todo mundo pensa, mas não tem coragem de falar ou não pode falar: que boa parte do PMDB é corrupta, que a maioria só quer cargos por interesses escusos, mas foi além: José Sarney (PMDB-MA) é um retrocesso, vai “transformar o Senado num grande Maranhão”, e Renan Calheiros (PMDB-AL) não tem condições morais nem políticas para ser senador, tampouco para ser líder de partido.
Depois, em entrevista coletiva e à CBN, o senador reafirmou toda a sua indignação, e com uma sinceridade que parece absoluta. Também disse que Lula é conivente com a corrupção, e que deixou de lado as duas bandeiras de sua campanha de 2002, quais sejam, a reforma política e a questão ética.
Bem, alguns acham que nada disso adianta, que as coisas vão continuar como estão, que política é assim mesmo, que o senador Jarbas deve ter sido impelido por propósitos menores...Eu não! Eu entendo que existe esperança sempre que alguém ainda é capaz de se indignar, principalmente quando se trata de uma autoridade pública de tamanha envergadura, como um senador da República, e com a biografia do senador pernambucano.
Agora, um outro aspecto me chamou a atenção: a imprensa noticiou que o grupo de Renan Calheiros pensou em tentar enfraquecer o senador Jarbas Vasconcelos em Pernambuco, ou minar sua força no próprio Senado, deixando de lhe repassar relatorias de projetos. Isso me fez pensar imediatamente nas retaliações que ocorrem nos bastidores de igrejas, quando algum irmão resolve falar a verdade e a liderança decide retirar seus cargos, puni-lo de alguma forma, desacreditar a imagem do irmão perante a congregação. Isso é feio e doentio, e demonstra o quanto a política eclesiástica pode se assemelhar à politicagem de grupos que se aboletam no poder nacional e nos poderes estaduais e municipais.
Além do senador Jarbas Vasconcelos, estariam hoje clamando contra a corrupção os profetas do Antigo Testamento, como Miquéias, Amós e Jeremias – Homens que não toleravam o avanço do erro, do escândalo, da hipocrisia, da criminalidade, do suborno, das manobras dos poderosos em detrimento do bem comum, da lei e da justiça.
Ficar alheio ao que o senador Jarbas Vasconcelos disse é algo que não se compatibiliza com o ser cristão. Jamais alguém deveria ostentar a condição de cristão e simultaneamente defender a corrupção, o “jeitinho”, a chamada “lei do mais forte”, a compra de votos, a mentira, o mero pragmatismo, notadamente quando se dá dentro das igrejas.
Definitivamente, a alienação não é de Deus. O que o senador Jarbas disse é verdadeiro, independentemente de corrente ideológica ou preferências partidárias. Trata-se da mais pura verdade. Cabe a mim, portanto, refletir: tenho eu capacidade de me indignar? Reflita você também, por favor.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

João Batista, o precursor de Cristo*

Para conferir um grau mais denso a este "blog", penso em publicar alguns de meus trabalhos acadêmicos de Teologia, a começar por este que trata do personagem bíblico João Batista.
Embora estejamos num veículo eletrônico, em que as leituras devem ser mais amenas ou menos extensas, lanço o fruto de minha pesquisa à apreciação dos mui atilados leitores. É como segue:

Esquema de João Batista, o precursor de Cristo:

Introdução.
1. Ascendência, anúncio e nascimento de João Batista: Lc 1.5-25; 57-66.
2. Aparição e pregação de João Batista: Mt 3.1-10; Mc 1.2-6 e Lc 3.1-14.
3. João Batista dá testemunho de Cristo: Mt 3.11-12; Mc 1.7,8; Lc 3.15-17; Jo 1.15-31; 3.22-30.
4. Dois discípulos de João Batista seguem a Jesus: Jo 1.35-42.
5. João batiza Jesus: Mt 3.13-17, Mc 1.9-11, Lc 3.21,22; Jo 1.32-34.
6. João Batista repreende Herodes e é preso: Lc 3.18-20.
7. Jesus inicia seu ministério depois que João Batista é preso: Mt 4.12-17; Mc 1.14,15; Lc 4.14,15.
8. João Batista envia mensageiros a Jesus: Mt 11.2-6; Lc 7.18-23.
9. Jesus dá testemunho de João Batista: Mt 11.7-19; Lc 7.24-35.
10. A morte de João Batista: Mt 14.1-12; Mc 6.14-29; Lc 9.7-9.
11. João Batista é o Elias que havia de vir: Mt 17.9-13; Mc 9.9-13; cf. Is 40.3; Ml 4.5,6.
12. A autoridade de Jesus e o batismo de João: Mt 21.23-27; Mc 11.27-33; Lc 20.1-8.
13. O batismo de João como início do ministério de Jesus: At 1.21,22.
14. Pessoas que “só conheciam o batismo de João”: At 18.24-19.6.
Conclusão.
Referências bibliográficas.


Introdução.
Para uma análise da figura de João Batista, é necessário examinar tudo o que consta dos Evangelhos a seu respeito, atentando para alguns aspectos principais.

1. Ascendência, anúncio e nascimento de João Batista (Lc 1.5-25, 57-80).
Os dados biográficos de João Batista são oferecidos com maiores detalhes pelo evangelista Lucas, único que escreve sobre a origem e nascimento do profeta.
Os pais de João Batista, Zacarias e Isabel, são retratados como piedosos e irrepreensíveis, vivendo de acordo com “todos os preceitos e mandamentos do SENHOR” (Lc 1.6). Ela era descendente de Arão, e ele, sacerdote do turno de Abias.
O anúncio do nascimento de João Batista ocorreu quando Zacarias cumpria seu ofício de queimar o incenso no santuário de Deus, e foi envolvido pela operação divina: à semelhança de Sara e Raquel, mulheres de patriarcas, e de Ana, mãe do grande líder Samuel, Isabel era estéril, condição que implicava forte preconceito social e sentimento de inferioridade, mas que, nas páginas da Escritura, deu ensejo a intervenções poderosas de Deus, abrindo a madre e trazendo ao mundo homens que iriam marcar a História da Redenção.
No caso de Isabel e Zacarias, havia a agravante da idade avançada. Foi nessa situação desfavorável que o anjo Gabriel apareceu a Zacarias dentro do santuário e lhe prometeu o nascimento de um filho, com menção literal de um trecho da profecia de Malaquias e outras palavras sobre o perfil e missão do menino, tudo a indicar que se trataria de uma pessoa separada para um destino especial, porque “cheio do Espírito Santo, já desde o ventre materno” (Lc 1.15) e preservado do vinho e da bebida forte.
A incredulidade do sacerdote, porém, fez com que ficasse mudo, até que o filho nascesse. Mas desde logo Isabel ficou alegre pela maternidade anunciada.
Desse modo, o nascimento de João Batista foi cercado de expectativa, dada a atuação sobrenatural que fez com que um casal idoso, sendo a mulher estéril, gerasse um filho. Isso fez com que perguntassem o que haveria de ser daquele menino.
O relato de Lucas contém três cânticos, um dos quais atribuído a Zacarias, por conta do nascimento de João (Lc 1.67-80). Aliás, esse nome também foi conferido por Deus, e fez com que Zacarias rejeitasse a idéia de colocar no filho um nome oriundo da tradição familiar. “João” significa “O SENHOR dá graça ”, e condiz com a vida do Batista.
Outra característica de Lucas é mencionar a dotação do Espírito Santo. Isso ocorreu com Isabel ao ser visitada por Maria, sua prima, quando o próprio feto saltou de alegria ante a visita da mulher que havia sido escolhida mãe do Salvador (ver Lc 1.26-45).
Esses elementos fornecidos exclusivamente por Lucas mostram que João Batista foi o homem enviado por Deus para ser o precursor do Messias.

2. A aparição e pregação de João Batista (Mt 3.1-10; Mc 1.2-6; Lc 3.1-14).
Tanto Mateus quanto Marcos afirmam que João Batista “apareceu” no deserto (Mt 3.1; 1.4). O verbo “aparecer” sugere a idéia de que João irrompeu sem aviso e sem envolvimento com um sistema preestabelecido.
De repente, aquele homem começou sua pregação na região da Judéia com um discurso simples, voltado ao arrependimento, “porque está próximo o reino dos céus” (Mt 3.2). Elias, por sua vez, também apareceu sem precedentes, já proferindo uma mensagem contra Acabe (I Rs 17.1).
No entanto, no caso de João, não se deveria tratar de uma surpresa completa, eis que “este é o referido por intermédio do profeta Isaías: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas ” (Mt 3.3; cf. Is 40.3).
É um traço reconhecido de Mateus fazer referências ao Antigo Testamento para mostrar a Israel o cumprimento do plano de Redenção, do qual a “voz do que clama no deserto” faria parte. Mas o evangelista Marcos também faz citação expressa dessa profecia, ao passo que, pondo tudo na pena de Isaías, remete, ainda, a outro profeta, quando diz: “Eis aí envio diante da tua face o meu mensageiro, o qual preparará o teu caminho” (Mc 1.2, cf. Ml 3.1). A seu turno, Lucas faz uma citação maior (Lc 3.4-6).
Dessa forma, João Batista vem apresentado como alguém que foi prometido pelos profetas, assim como o anjo deixara entrever ao falar com Zacarias.
Como já visto, e diferentemente de Mateus e Marcos, Lucas não começa dizendo que João Batista “apareceu”, mas, seguindo seu método mais detalhista, oferece importantes elementos temporais, quais sejam, o fato de que João Batista surgiu no décimo quinto ano do reinado de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judéia, Herodes, tetrarca da Galiléia, seu irmão Filipe, tetrarca da região da Ituréia e Traconites, e Lisânias, tetrarca de Abilene, além de serem sumos sacerdotes Anás e Caifás (Lc 3.1,2).
Segundo GÜNTHER BORNKAMM , esse período foi de outubro de 27 a setembro de 28 d.C. (talvez até 28/29), o que constitui, para o estudioso da Bíblia, relevante colaboração para a historicidade do personagem.
Tal como sua aparição e pregação, o estilo de vida de João Batista era simples: vestia-se de pêlos de camelo e trazia nos lombos um cinto de couro (Mt 3.4; Mc 1.6) – nisso ele já parecia com o profeta Elias (II Rs 1.8). Sua alimentação eram gafanhotos e mel silvestre (Mt 3.4; Mc 1.6). Tratava-se de um homem que escolheu o deserto – ou que foi escolhido por ele.
Não obstante esse exotismo, o trabalho realizado por João atraiu multidões. Pessoas de Jerusalém, de toda a Judéia e da circunvizinhança do Jordão iam ter com ele para o ouvir e serem batizadas naquele rio, “confessando os seus pecados” (Mt 3.5,6; Mc 1.5).
O batismo era um meio de confissão pública, e caracterizou tanto o trabalho de João que lhe rendeu o predicativo de “Batista”, equivalente a “batizador”.
Tamanha era a proporção do movimento que a liderança religiosa quis tirar algum proveito. Assim, fariseus e saduceus, membros de dois grupos religiosos de destaque, foram atrás do batismo, mas tiveram que ouvir de João:

“Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento; e não comeceis a dizer entre vós mesmos: Temos por pai a Abraão; porque eu vos afirmo que destas pedras Deus pode suscitar pedras a Abraão. Já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo” (Mt 3.7-10; cf. Lc 3.7-9).

Percebendo que os líderes não haviam se arrependido, e que estavam apenas querendo agradar o povo, João os repreendeu severamente, empregando a terrível, mas verdadeira, alcunha de “raça de víboras”. Além disso, desbaratou a frágil noção de que a nacionalidade israelita lhes poderia ajudar na questão espiritual.
A verdade central era a de um juízo iminente, que chegaria tão rápido quanto dura o tempo entre o machado colocado à raiz da árvore e o corte.
Demais disto, Lucas acresce uma informação importante: a censura do profeta não se dirigia somente à hipocrisia da liderança, mas às multidões egoístas. Diante da pergunta “Que havemos, pois, de fazer?”, João responde com uma exortação de cunho social, para que se distribuíssem roupas e comida aos pobres, para que os publicanos cobrassem apenas o estipulado, para que os soldados a ninguém maltratassem, não dessem denúncia falsa e se contentassem com o seu soldo (ver Lc 3.10-14).
Todas essas recomendações apontam para um profeta extremamente desafiador e objetivo, desprovido de compromissos políticos e de convenções sociais.

3. João dá testemunho de Cristo (Mt 3.11,12; Mc 1.7,8; Lc 3.15-17; Jo 1.6-8, 15-31; 3.22-30).
O Batista demonstrou ter pleno conhecimento de sua função na história salvífica. Uma de suas prédicas foi no sentido de que, enquanto ele batizava em água, à vista de arrependimento, aquele que viria depois dele, e que era mais poderoso e mais importante – “cujas sandálias não sou digno de levar” – batizaria no Espírito Santo e com fogo (Mt 3.11,12; Mc 1.7,8; Lc 3.16; Jo 1.26,27).
Havia, pois, diferença entre os ministérios do precursor e do que viria depois, entre o batismo do arrependimento e o batismo no Espírito Santo e com fogo. Estava claro que João era menor, que não era protagonista.
Mais do que isso, o que viria depois executaria juízo, o que João expressou na ilustração daquele que tem a pá em sua mão, e “limpará completamente a eira; recolherá o seu trigo no celeiro, mas queimará a palha em fogo inextinguível” (Mt 3.12; cf. Lc 3.17).
Para essa ocasião, Lucas revela um aspecto não registrado pelos demais evangelistas: “Estando o povo na expectativa, discorrendo todos no seu íntimo a respeito de João, se não seria ele, porventura, o próprio Cristo” (Lc 3.15), foi que ele respondeu com o contraste entre os dois batismos e a promessa do juízo a ser realizado pelo que haveria de vir.
Dentre os escritores dos Evangelhos, o apóstolo João foi o que mais deu ênfase aos testemunhos que o Batista deu a respeito de Jesus: primeiro, apresentando o profeta como um homem que surgiu para dar testemunho da luz, não sendo ele mesmo a luz (Jo 1.6-8); depois, ressaltando a Eternidade e “primazia” daquele que “vem depois de mim”, pois “já existia antes de mim” (Jo 1.15; cf. Jo 1.30). A isso, o próprio apóstolo emenda declarações que apontam para Jesus Cristo como sendo aquele que trouxe plenitude, “graça sobre graça”, e que é o unigênito do Pai (Jo 1.16-18). Tudo isso se coaduna com a intenção joanina de descrever a Jesus como o Verbo Encarnado, transcendente e divino.
Em seguida, o apóstolo João trata de uma entrevista que João Batista teve com sacerdotes e levitas fariseus enviados de Jerusalém a Betânia para lhe perguntarem quem era ele. Sem titubeios, o Batista confessou não ser ele o Cristo. Como os emissários continuassem a investigação, perguntando se ele era Elias ou “o profeta”, João Batista respondeu mencionando a profecia encontrada em Is 40.3, já referida: ele era a voz do que clama no deserto (Jo 1.19-24).
Ocorreu, porém, que os inquiridores perguntaram por que João batizava, considerando que não era o Cristo, nem Elias, nem “o profeta”. Foi nesse contexto, segundo o apóstolo João, que o Batista comparou o seu batismo nas águas com o batismo a ser ministrado pelo que haveria de vir, e que, na verdade, já estava no meio deles, e eles não conheciam (Jo 1.25-27).
No dia seguinte, João Batista viu Jesus, que vinha em sua direção, e disse: “Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!”. João também admitiu que não o conhecia, e que, para que o mesmo fosse manifestado a Israel, foi que ele veio batizando em água (Jo 1.29,31). Em poucas palavras, portanto, tem-se a revelação nítida de Jesus como o Salvador, prefigurado no cordeiro veterotestamentário, além do esclarecimento da finalidade do batismo de João.
Há, ainda, outro testemunho do Batista registrado pelo apóstolo João, e se encontra em Jo 3.22-30: estando Jesus a batizar com seus discípulos na Judéia, João Batista se encontrava batizando em Enom, perto de Salim...Tendo surgido uma contenda entre os discípulos de João e um judeu a respeito da purificação, foram ter com João e lhe disseram: “Mestre, aquele que estava contigo além do Jordão, do qual tens dado testemunho, está batizando, e todos lhe saem ao encontro” (v. 26).
Com sabedoria, João respondeu que “o homem não pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dada” (v. 27); que ele mesmo havia dito não ser o Cristo, mas fora “enviado” como “seu precursor” (v. 28); que se considerava como o “amigo do noivo”, cuja alegria é se regozijar com o noivo, o qual, este sim, tem a noiva (v. 29); e “convém que ele cresça e que eu diminua” (v. 30), declaração esta que bem pode ser um resumo da vida de João Batista.
Cumpre deixar bem patente que João veio para dar seu testemunho, mas que o maior testemunho foi dado pelas obras do próprio Cristo. Com efeito, de acordo com Jo 5.31-37, Jesus disse aos judeus que, se Ele testificasse a respeito de Si mesmo, o Seu testemunho não seria verdadeiro – daí se pode refletir sobre o porquê do envio de João. Prosseguindo, Jesus disse que “outro” (v. 32) é o que testemunha a Seu respeito, e é verdadeiro esse testemunho. Expressamente, Jesus afirma que João deu testemunho verdadeiro aos mensageiros enviados pelos judeus, o que comprova que o testemunho de João foi singular.
Contudo, Jesus não aceita “humano testemunho” (v. 34). Isso não significa que Jesus estivesse desprezando a João, mas o contrário, pois “ele era a lâmpada que ardia e iluminava, e vós quisestes, por algum tempo, alegrar-vos com a sua luz” (v. 35). A questão é que Jesus tem “maior testemunho do que o de João”, eis que as obras do Pai, realizadas por Ele, testemunham a Seu respeito, assegurando que o Pai O enviara (v.36).

4. Dois discípulos de João Batista seguem a Jesus (Jo 1.35-42).
Conquanto não quisesse fazer discípulos, a admiração do povo por João Batista fez com que ele formasse um movimento de seguidores, os chamados “discípulos de João”. Estes, por exemplo, usavam a prática do jejum, como se infere de Mt 9.14, Mc 2.18 e Lc 9.33; e foram ensinados a orar, como se vê em Lc 11.1.
Por outro lado, os discípulos de João foram ensinados corretamente sobre o Cristo, ante os testemunhos que o Batista dava de Jesus.
Tanto isso é verdade que, certa vez, estando dois deles com João e vendo Jesus passar, João Batista disse: “Eis o Cordeiro de Deus!”. Esse testemunho fez com que os dois discípulos fossem atrás de Jesus, querendo saber onde ele assistia (recebia pessoas). Um deles era André, que levou Simão, seu irmão, à presença de Jesus, que lhe mudou o nome para Cefas, que em grego é Pedro.
Essa é uma das passagens que estabelecem forte vínculo entre o ministério de João e o ministério de Jesus.
Entretanto, nem o povo nem a liderança conseguiram compreender a relação entre João Batista e Jesus. Tanto que disseram aos fariseus que Jesus batizava mais discípulos do que João, numa comparação sem fundamento, não só porque Jesus não batizava, mas também porque Ele era o Cristo, enquanto João era tão-somente o precursor (Jo 4.1).

5. João batiza Jesus (Mt 3.13-17, Mc 1.9-11, Lc 3.21,22; Jo 1.32-34).
Os quatro Evangelhos relatam o batismo de Jesus pelas mãos de João, que, a princípio, relutava, considerando que ele é que deveria ser batizado por Jesus. Por sua vez, o SENHOR respondeu que “convém cumprir toda a justiça” (Mt 3.15).
Ao sair da água, Jesus viu descer dos céus o Espírito de Deus em forma de pomba, e ouviu uma voz dos céus que dizia: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (Mt 3.17; cf. Mc 1.11; Lc 3.22). Aquela foi uma demonstração audiovisual da Trindade, algo que João Batista pôde testemunhar de muito perto, dado o seu discernimento espiritual, como ele mesmo afirmou (Jo 1.32,34).

6. João repreende Herodes e é preso (Lc 3.18-20).
Conta o evangelista Lucas que “com muitas outras exortações [João Batista] anunciava o evangelho ao povo” (Lc 3.18). Essa era a sua tarefa primordial como precursor do Messias. E, como deve ter ficado claro, seu discurso possuía um profundo apelo ético, que resultou em sua prisão, ordenada por Herodes, o tetrarca da Galiléia.
Curiosamente, foi uma repreensão moral e particular que levou João Batista ao cárcere (Lc 3.19-20), quando se poderia esperar uma perseguição de natureza política e religiosa, como a que se daria mais tarde sobre Jesus.
A prisão ocorreu porque João Batista repreendeu Herodes devido ao concubinato que este mantinha com Herodias, mulher de seu irmão.

7. Jesus inicia seu ministério depois que João é preso (Mt 4.12-17; Mc 1.14,15; Lc 4.14,15).
Ao saber que João havia sido preso, Jesus se retirou para a Galiléia, e, em lá chegando, mudou de Nazaré para Cafarnaum, para que se cumprisse a predição de Isaías quanto à “Galiléia dos gentios”. Desde então, a pregação de Jesus foi “Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus” (Mt 4.17), igualmente ao que João pregara (cf. Mt 3.2).
Na versão de Marcos, a mensagem foi a seguinte: “O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1.15).
Mais uma vez se observa a proximidade entre os ministérios de Jesus e de seu primo João. A mensagem era a mesma, e Jesus começou a pregar com um sentido de urgência, de indispensável tomada de posição frente ao “evangelho de Deus” (Mc 1.14).
Não há dúvida, pois, de que se está diante de um plano concebido por Deus para a Salvação da humanidade, e que se inaugurou uma nova etapa desde que o ministério de João cessou.

8. João envia mensageiros a Jesus (Mt 11.2-6 e Lc 7.18-23).
Mesmo João Batista teve seu momento de fraqueza, quando, no cárcere, ao ouvir falar das obras de Cristo, mandou que seus discípulos lhe perguntassem se era Ele “aquele que estava para vir” ou se outro deveria ser esperado (Mt 11.2,3; cf. Lc 7.18-20). É realmente curioso que essa dúvida tenha surgido da parte do homem que testemunhou várias vezes de Jesus como sendo o Cristo, o que incluiu a descida do Espírito Santo e a audição da voz do Pai desde os céus abertos.
A fim de mostrar a João que era Ele o Cristo, Jesus “curou (...) muitos de moléstias, e flagelos, e de espíritos malignos; e deu vista a muitos cegos” (Lc 7.21), mandando em seguida dizerem o que eles estavam “ouvindo e vendo” (Mt 11.4; cf. Lc 7.22) – cura de cegos, surdos, coxos, leprosos, ressurreição de mortos e o anúncio do evangelho aos pobres (Mt 11.5; Lc 7.22). Por fim, disse também: “Bem-aventurado é aquele que não achar em mim motivo de tropeço” (Mt 11.6; Lc 7.23).
De toda maneira, vê-se que Jesus não requereu de João mais do que se poderia esperar do ser humano, com suas limitações.

9. Jesus dá testemunho de João (Mt 11.7-19 e Lc 7.24-35).
Em reconhecimento ao caráter de João, Jesus deu testemunho dele, assim que seus emissários partiram.
Para Jesus, João não era “um caniço agitado pelo vento” (Mt 11.7), embora também não fosse “um homem vestido de roupas finas”, porque estes “assistem nos palácios reais” (Mt 11.8). João era, isto sim, aquele mensageiro de Deus anunciado por Malaquias para preparar o Seu caminho (Ml 3.1).
Falando de maneira quase enigmática, Jesus disse que entre os nascidos de mulher “ninguém apareceu maior do que João Batista”, ao passo que “o menor no reino dos céus é maior do que ele” (Mt 11.11). A um só tempo, Jesus elogia o seu precursor e ensina que os valores celestiais são diferentes dos valores terrenos.
Mas Jesus prossegue revelando algo mais sobre a missão de João Batista no Plano de Salvação: “Desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele. Porque todos os profetas e a lei profetizaram até João. E, se o quereis reconhecer, ele mesmo é o Elias que havia de vir” (Mt 11.12-14; ver também Lc 16.16).
Todavia, os corações dos judeus estavam tão endurecidos que não aceitaram a pregação de João nem a de Jesus: assim como meninos que não dançam com a alegria da flauta nem choram ao som de lamentações, os judeus diziam que João, que não comia nem bebia, tinha demônio, enquanto criticavam o Filho do homem, que comia e bebia, chamando-O de glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores (Mt 11.16.19). O problema, na verdade, estava com as pessoas, e não com a mensagem apresentada pelo Batista ou por Jesus.

10. A morte de João Batista (Mt 14.1-12; Mc 6.14-29; Lc 9.7-9).
Os evangelistas que tratam da morte de João Batista iniciam dizendo que os feitos de Jesus fizeram Herodes pensar que o mesmo havia ressurgido dentre os mortos – e que por isso nele operavam “forças miraculosas” – enquanto outros diziam que seria Elias ou um dos antigos profetas.
Abre-se, então, um parêntese, para narrar as circunstâncias em que João morreu: por causa de uma censura ao fato de Herodes viver com a esposa de seu irmão (Filipe), João Batista foi encarcerado. Herodes, em si mesmo, temia a João, sabendo que era “homem justo e santo”, e o guardava em segurança. Além disso, ficava “perplexo” quando o ouvia, e o fazia “de boa mente”. Por outro lado, Herodias – esse era o nome da mulher, ou seu título – odiava o profeta, que só não era assassinado por ser popularmente reconhecido como tal.
Em certa festividade, porém, Herodias teve a oportunidade que procurava.

11. João Batista é o Elias que havia de vir (Mt 17.9-13; Mc 9.9-13; cf. Is 40.3 e Ml 4.5,6).
Como já referido, João Batista era parecido com Elias na forma de vestir, mas as semelhanças vão além, e possuem fundamento bíblico. Com efeito, foi Malaquias (4.5,6) quem anunciou a vinda do profeta Elias “antes que venha o grande e terrível dia do SENHOR; ele converterá o coração dos pais aos filhos e o coração dos filhos a seus pais, para que eu não venha e fira a terra com maldição”.
Vale frisar que não se trata de reencarnação, a qual, na concepção espiritualista, exige que o reencarnado tenha falecido, coisa que não aconteceu com Elias, o qual foi arrebatado (II Rs 2.11), e apareceu, como ele mesmo, na Transfiguração de Jesus (Lc 9.30,31 e 33). Mais do que isso, a Escritura, que não pode se contradizer, preceitua que ao homem é ordenado morrer uma só vez (Hb 9.27), e que os mortos não intervêm nos assuntos dos vivos (Lc 16.29-31).
Na época de Jesus, as pessoas esperavam pela vinda de Elias, mas não sabiam como isso iria ocorrer. Chegaram a pensar que Jesus fosse Elias, dado o seu ministério extraordinário.
Dessa forma, quando da Transfiguração, tendo visto Elias, os discípulos perguntaram a Jesus “por que dizem os escribas ser necessário que Elias venha primeiro” (Mt 17.10; cf. Mc 9.11). Essa foi uma pergunta inteligente, à qual Jesus respondeu que, “de fato, Elias virá e restaurará todas as coisas. Eu, porém, vos digo que Elias já veio, e não o reconheceram; antes, fizeram com ele tudo quando quiseram. Assim também o Filho do Homem há de padecer nas mãos deles” (Mt 17.11,12; cf. Mc 9.12).
Com isso, os discípulos entenderam que se tratava de João Batista (Mt 17.13).
Como já asseverado, coube a um anjo do SENHOR anunciar a Zacarias, pai de João Batista, que este iria “adiante do SENHOR no espírito e poder de Elias, para converter o coração dos pais aos filhos”, expressão extraída de Malaquias (cf. Lc 1.11,17; grifo nosso). Assim, tem-se que João veio como Elias em termos de capacitação sobrenatural para pregar a mensagem divina a um povo carente.
As andanças pelo deserto, o enfrentamento de reis e o estilo solitário são pontos que aproximam essas duas personagens. Mas não se deve olvidar que sua afinidade maior está exatamente no cumprimento de uma missão especial, para a qual foram devidamente preparados, como se houvessem nascido exclusivamente para isso.

12. A autoridade de Jesus e o batismo de João (Mt 21.23-27; Mc 11.27-33 e Lc 20.1-8).
Certa vez, enquanto ensinava no Templo, ao ver questionada a Sua autoridade pelos principais sacerdotes e anciãos do povo, Jesus respondeu com outra pergunta, referente ao batismo de João, se era do céu ou dos homens. Foi um excelente recurso de retórica, pois, se respondessem que era do céu, Jesus lhes perguntaria por que eles não acreditaram no batismo de João; e se respondessem que era dos homens, era para temer o povo, que o tinha como profeta. Assim, depois de muito cogitar, os líderes disseram simplesmente que não sabiam. Jesus, então, não precisou dizer com que autoridade fazia aquelas coisas.
Ao utilizar como referência o batismo de João, Jesus estava, primeiro, valorizando o trabalho do Seu precursor; segundo, revelando que a liderança não havia recebido João como profeta, diferentemente do que aparentavam quando iam buscar o batismo no Jordão; terceiro, resguardando-se para que não fosse morto antes da hora.

13. O batismo de João como início do ministério de Jesus (At 1.21,22).
Quando falava sobre a necessidade de escolherem o sucessor de Judas Iscariotes, o apóstolo Pedro arrolou como requisito o ter estado com Jesus por todo o tempo, desde o batismo de João. Isso significa que o ministério de Jesus estava intimamente relacionado ao de João Batista, que lhe foi um necessário antecedente.

14. Pessoas que “só conheciam o batismo de João” (At 18.24-19.6).
Em dois momentos, no Livro de Atos, Lucas registra que alguém conhecia apenas o batismo de João: um deles foi Apolo, judeu, natural de Alexandria, “homem eloqüente e poderoso nas Escrituras” (At 18.24), que era “instruído no caminho do SENHOR”, “fervoroso de espírito”, falando e ensinando “com precisão a respeito de Jesus”... (cf. At 18.25), mas que apresentava, como deficiência, o fato de conhecer apenas o batismo de João; outros foram uns doze homens de Éfeso.
No primeiro caso, o casal Priscila e Áquila tomaram a Apolo e, “com mais exatidão, lhe expuseram o caminho de Deus” (At 18.26). No segundo caso, Paulo perguntou ao grupo se haviam recebido o Espírito Santo quando creram, ao que eles disseram que sequer sabiam que existia o Espírito Santo. Por isso, Paulo perguntou em que foram eles batizados, e obteve a resposta “no batismo de João”.
De forma didática, o apóstolo forneceu o propósito do batismo de João, a saber:

“Disse-lhes Paulo: João realizou batismo de arrependimento, dizendo ao povo que cresse naquele que vinha depois dele, a saber, em Jesus” (At 19.4).

Ao ouvir essa definição, o grupo foi batizado em nome do SENHOR Jesus (At 19.5), o que, em tese, aponta para uma diferença entre o batismo de João e o batismo cristão , algo que não se costuma ensinar nas igrejas, como se o batismo recomendado por Jesus fosse o mesmo (Mt 28.19; Mc 16.16). Mais do que isso, com a imposição de mãos do apóstolo, “veio sobre eles o Espírito Santo; e tanto falavam em línguas como profetizavam” (At 19.6), o que sugere que a preocupação inicial de Paulo foi satisfeita de modo cabal, pela evidência física – assim, ele constatou que os homens receberam mesmo o Espírito Santo.

Conclusão.
De um modo geral, analisando os textos bíblicos relacionados a João Batista, pode-se observar que ele era o precursor daquele que havia de vir, e estava plenamente consciente disso, como por ele expressamente afirmado.
Essa função de João vem consignada em suas palavras a respeito de si mesmo, no testemunho que deu de Jesus, nas profecias de Isaías e Malaquias, na predição do anjo, no ensino de Jesus, na definição dada por Paulo quanto ao batismo de arrependimento.
Pode-se afirmar, portanto, que João Batista foi um homem predestinado, e teve um ministério singular, pois somente ele foi precursor do Messias, não havendo nada semelhante nas Escrituras.
Embora seja uma figura do Novo Testamento, João Batista encerrou o período dos profetas, porque a Lei e os Profetas vigoraram até João (cf. Mt 11.13 e Lc 16.16).
Era João Batista um profeta que não operava milagres, algo tão celebrado nos dias atuais, quando as pessoas buscam sinais e prodígios, bem como a satisfação de interesses materiais. O essencial é que, conforme Jo 6.41, João não fez nenhum sinal, mas tudo quanto disse de Jesus era verdade. Não há nada mais importante do que falar a verdade sobre Jesus.
Enfim, João Batista deixou para a História um exemplo de extrema humildade, de consciência irrestrita acerca de si mesmo, do plano de Deus para a sua vida. Ele não nutria sonhos pessoais, mas cumpria cabalmente aquilo que lhe fora determinado pelo SENHOR.
É fundamental que o cristão tome João Batista como referencial, a fim de se entregar exatamente à missão que Deus lhe confiou, pois cada um dos salvos em Cristo possui uma tarefa a desempenhar no Reino dos Céus.

Referências bibliográficas:
BORNKAMM, Günther, Jesus de Nazaré. Tradução de José dos Santos Gonçalves e Nélio Schneider, São Paulo: Editora Teológica, 2005, 397p.
PEREIRA, Adão José. Boas Novas para um mundo em ruínas, encadernado, 2000, 113p.
STAGG, Frank. Atos: A luta dos cristãos por uma igreja livre e sem fronteiras. Tradução de Waldemar W. Wey, 3ª Ed., Rio de Janeiro: JUERP, 1994, 261p.



*Trabalho apresentado na Disciplina de Evangelhos, quando estudava Teologia na FATHEL, em Campo Grande-MS (curso que não concluí). O professor era o estimado Pr. Bento Roque de Souza.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

A Maravilhosa Graça e os pretensos direitos de alguns

Enquanto o Evangelho afirma que a Salvação e toda a Providência decorrem da Graça de Deus (Gl 2.16, 20,21; Ef 1.3-8; 2.1-10; I Pe 1.3), os falsos mestres da Teologia da Prosperidade e da Confissão Positiva dizem que temos direitos perante Deus. Dizem que podemos "nomear e reivindicar", decretar, declarar, profetizar a bênção, rejeitar, determinar, e exigir nossos direitos.
Ora, não temos direito nenhum diante de Deus. Nem mesmo o fato de Cristo ter morrido na Cruz por nós nos outorga nenhum direito. Trata-se de favor mesmo, oferecido a quem quiser ter a vida eterna.
Ostentar supostos direitos em face do SENHOR é pecado de arrogância. Quem somos nós? "Quem primeiro lhe deu a ele para que lhe venha a ser restituído"? (Rm 11.35).
Nem o justo Jó teve quaisquer direitos para exibir perante o Deus Criador de todas as coisas (Jó 38-41).
O anti-evangelho dos "direitos legais" que acionariam o poder de Deus precisa ser sempre denunciado. O Evangelho que eu recebi da tradição apostólica (I Co 15.1-6) prega a pecaminosidade humana e o amor inexcedível de Deus em Cristo (Rm 7.7-25; II Co 5.18,19).
Qualquer pregação que ostente direitos contra Deus é mentirosa, enganadora, estelionatária. Exemplo disso é o emprego da frase "Deus é Fiel" com o claro intento de dizer que Deus é obrigado a me abençoar se eu fizer "sacrifícios financeiros". Sim, Deus é fiel ainda que sejamos infiéis, Ele não pode negar-Se a Si mesmo (II Tm 2.13). Mas Deus não é obrigado a fazer nada. O amor é dádiva, não dívida.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

O castelo de Minas e as bruxas de lá

O Brasil é um país muito curioso mesmo: o deputado tem que chegar aos holofotes para que suas conhecidas irregularidades sejam caso de expulsão do partido e outras sanções. É o caso do deputado Edmar Moreira, do DEM de Minas Gerais, que precisou chegar à Vice-presidência da Câmara - e consequentemente à Corregedoria - para que se levasse ao conhecimento público o seu castelo medieval erguido em São João Nepomuceno, isso sem declaração ao Fisco, sem informação à Justiça Eleitoral, sem recolhimento de contribuições previdenciárias e com problemas trabalhistas. Até já se fala do tempo em que o deputado era tenente linha-dura na época do Regime Militar.
É triste que esse cidadão tenha chegado à Corregedoria com apoio do PT, justamente o partido que ele ajudou ao absolver, no Conselho de Ética, alguns mensaleiros. A gente tem que suspeitar dessas articulações que mais se aproximam de um sistema de compensações do tipo "u'a mão lava outra".
E, por incrível que pareça, o tal deputado tinha por bandeira a ilegitimidade de julgamento político dos seus pares, sendo que seu cargo seria exatamente para encaminhar processos contra deputados...
Não fossem as bruxas que acompanham o deputado, o castelo não seria, em tese, um escândalo. Mas é de se questionar se aquela suntuosidade não guarda outras surpresas, e se tamanha opulência se adequa a um cenário tão modesto quanto o de São João Nepomuceno.
O DEM falava em expulsão, mas o deputado se adiantou, pedindo desfiliação ao TSE. Sei lá como ficará esse deputado, vagando quem sabe como fantasma nos átrios da Casa do Povo. Bem, para quem era rei de um castelo, a condição de fantasma é uma queda e tanto.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Peregrino e forasteiro...em minha terra

Sei que os salvos em Cristo são peregrinos e forasteiros neste mundo (I Pe 2.10 e Hb 11.13), mas o fato de trabalhar em Salvador está me mostrando essa realidade de maneira mais clara!
Além de me sentir meio turista em minha própria terra - quero dizer, na capital de minha terra - , tenho me sentido estrangeiro porque a cidade de Salvador vive em função de coisas que não me apetecem.
Explico: Salvador vive do carnaval e festas as mais diversas. São festas populares, comerciais e religiosas. De dezembro a fevereiro, há um calendário de eventos que toma a cidade e que vende uma imagem para o mundo inteiro, uma ideia de que o soteropolitano é festeiro, talvez voluptuoso - aqueles alemães que trocaram de roupa no saguão do aeroporto internacional daqui devem ter pensado assim...
Vendo toda aquela propaganda que se faz em torno das festas, percebi o quanto sou estranho nesse ambiente. E para mim ficou mais evidente o que significa ser peregrino e forasteiro.
Não se trata de ser melhor nem pior do que ninguém. Trata-se de uma simples constatação. O ar que paira em Salvador não é apenas o da brisa leve do mar. Há uma atmosfera diferente, creio que uma forte resistência à Palavra de Deus.
Quem sabe eu não esteja tão preparado para enfrentar resistências ao Evangelho. Talvez não seja um aprendiz tão atento. Mas sei que o Evangelho é um desafio constante, não se presta ao comodismo.
Como forasteiro, cabe a mim andar pela cidade e verificar o que Deus quer que eu faça neste planeta-carnaval. Cabe a mim, como peregrino, estar ciente das minhas limitações. A teoria é bonita, as declarações de fé são conhecidas, mas o embate é duro e impiedoso.
Sim, o embate é duro e impiedoso, mas Jesus é bom.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Visitem o blog de minha esposa

Minha esposa, Miriam, criou um blog (www.miriam-sousa.blogspot.com). Chama-se "Diário de uma dona de casa". E é sobre família que ela tem escrito mesmo, sobre nossos filhos.
Miriam escreve muito bem, tem raciocínio lógico, clareza e conteúdo. Gosto de suas reflexões, e tenho a honra de conversar sobre tudo com ela. Sei mais ou menos como ela pensa, compartilho de seus valores e princípios. Desde o namoro nós fomos nos afinando.
Então, gostaria de convidar o (a) eventual leitor (a) a acompanhar o blog de minha esposa. Ela tem algo a dizer.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Inácio nasceu

Inácio nasceu:
Que alegria eu sinto!
De parto normal,
Às cinco e trinta e cinco.
Inácio nasceu
No dia primeiro
Do mês de fevereiro
Deste ano que o SENHOR nos deu.
Inácio nasceu
Com os olhos "puxados",
O cabelo preto da mãe
E o nariz um pouco do pai...
Inácio nasceu
E já queria sair logo da toca.
"Se demorasse um pouco", disse a doutora,
"Eis que nasceria em casa".
Inácio nasceu
Querido por todos,
E já tem sua companheirinha
De todas as bagunças possíveis.
Assina Papai Alex.

sábado, 31 de janeiro de 2009

O desabamento do teto da Renascer em Cristo e a reflexão que ele exige*

O desabamento do teto da sede mundial da Igreja Renascer em Cristo, em São Paulo/SP, traz o casal Hernandes de volta ao noticiário nacional. Com nove mortos e centenas de feridos, a igreja assiste agora às investigações policiais e ao trabalho do Ministério Público Estadual, tendo ainda que apresentar documentos e explicações sobre sua eventual responsabilidade nessa tragédia.

Não creio ser correta qualquer tentativa de ligar o caso às ocorrências policiais do casal Hernandes (como o episódio que os levou à prisão e condenação nos Estados Unidos por quererem entrar naquele País com dólares não declarados). Também não sei se podemos fazer ilações legítimas quanto às acusações de estelionato, falsidade, sonegação fiscal e lavagem de dinheiro que correm contra eles no Brasil. Embora essas condutas criminosas e/ou suspeitas de crime possam sugerir pecados do “apóstolo” e da “bispa”, as notícias relacionadas ao drama do dia 18 de janeiro devem ser aquelas que possam indicar algum desprezo às leis municipais de segurança de imóveis, porque é isso que interessa objetivamente. Hipóteses mais especulativas poderão redundar em julgamento indevido e desrespeito ao sentimento dos enlutados.

Entretanto, é altamente reprovável, se for mesmo verdade, a afirmação de Estevam Hernandes no sentido de que a culpa é de Satanás (conforme matéria da Época). Com efeito, segundo a revista, o “apóstolo” disse em culto transmitido da prisão domiciliar nos Estados Unidos que a Igreja Renascer deve pisar com os pés sangrando na cabeça do gigante Satanás. Ora, nem na hora da dor mais cruel esse homem deixa de lado sua teologia triunfalista, notadamente quando ela se mostra flagrantemente irreal? É diante de posturas como essa que as críticas à teologia e à ética da Renascer são apropriadas, confrontando-a com o teto que desabou.

Devo, com toda a seriedade que o tema requer, asseverar que, antes de culpar o diabo, é necessário fazer um auto-exame e pelo menos ficar calado diante de cenário tão triste. Adão pôs a culpa na mulher, que pôs a culpa na serpente, mas quem deu ouvidos à mulher foi Adão, e disso ele não poderia se furtar (Gn 3.6,12,13). Aliás, lembre-se de que ele também quis responsabilizar ao próprio Deus, quando afirmou “A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi”(Gn 3.12). Afinal, até onde vamos nós com as nossas racionalizações?

Não podemos espiritualizar onde os problemas podem ser explicados de maneira comum: alguma coisa estava errada com aquela estrutura que desabou, e isso ainda está sendo apurado. Caso as autoridades venham a concluir que tudo estava bem e mesmo assim o teto caiu, aí sim poderemos começar a buscar explicações diferentes.

Até aqui, não é o caso de culpar o diabo nem recorrer ao sobrenatural. O mínimo que se deve fazer é esperar com humildade o desenrolar dos fatos, e colaborar com a Justiça. Por outro lado, eu poderia escrever sobre a sensação estranha de ver o teto de um templo cair, quando a gente sempre se considera de algum modo refugiado e seguro na igreja. Não obstante, para não fugir ao assunto, limito-me ao que escrevi acima.
*Publicado também na Palavra do Leitor do "site" www.ultimato.com.br, no dia 27/01/09.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Os evangelizadores que pedem fogo do céu e a evangelização em Salvador-BA

Pensemos sobre evangelização e alguns lampejos de missão urbana a partir de Lc 9.51-56.
Em certa ocasião, ao depararem com samaritanos que não quiseram lhes dar pousada, os irmãos Tiago e João pediram permissão a Jesus para fazerem cair fogo do céu, a fim de que as pessoas fossem consumidas. A negativa dos samaritanos partiu da impressão de que os apóstolos seguiam para Jerusalém, o que indica um preconceito cultural-religioso por parte dos aldeões.
Por causa desse temperamento explosivo, os filhos de Zebedeu foram chamados de Boanerges, que significa “filhos do Trovão” (Mc 3.17). Digno de nota é que eles conseguiram achar um precedente “histórico-teológico” no episódio em que Elias pediu fogo do céu!
Vale observar que, embora não tivessem pregado aos samaritanos, Tiago e João estavam com Jesus havia cerca de três anos e apesar disso não conseguiram entender que mensagem Ele viera anunciar. Sendo assim, acharam que sua proclamação do Reino de Deus nada tinha que ver com os samaritanos.
Mais do que isso, os filhos de Zebedeu se colocaram como vítimas, exatamente porque, aos olhos dos samaritanos, quem ia para Jerusalém não merecia sequer uma pousada. Aqui está um claro exemplo de hostilidade religiosa, que sufoca qualquer comunicação antes que ela comece.
Em vez de misericórdia, os dois apóstolos clamaram por destruição. Mesmo tendo recebido a palavra do Reino de Deus, quiseram detonar as vidas dos samaritanos. Mas Jesus, pleno de compaixão, não levou em conta essa ignorância, e aproveitou o momento para ensinar um pouco mais sobre Sua missão salvadora.
De fato, contrariando a intenção homicida dos incautos discípulos, Jesus disse que o Filho do Homem não veio destruir as almas dos homens, mas salvá-las.
Tempos depois, João se tornaria um amável pastor de almas, e que, pelos seus escritos, se tornaria conhecido, vejam só, como o “apóstolo do amor”. Nada parecido com aquele rapaz que pedia fogo do céu sobre os incrédulos!
Semelhantemente, Tiago mudou, a ponto de entregar sua vida à espada de Herodes, por amor do Evangelho.
Essa passagem deve nos ensinar que o Evangelho não pode ser vivenciado como uma denúncia sem compaixão. O querigma do Reino de Deus é amoroso, cheio de graça e misericórdia, para salvação dos pecadores. Embora devamos denunciar veementemente o pecado, não podemos nos voltar contra o pecador, porque Jesus não nos ensinou a agir dessa forma.
Pedimos fogo do céu sobre os samaritanos todas as vezes em que brigamos com as pessoas porque elas não nos aceitam. Nesse sentido nos posicionamos como “filhos do Trovão”, em lugar de nos apresentamos como “filhos da luz” ou “filhos de consolação”.
Sei que não é fácil ser cristão hoje, pois as resistências são muitas e graves. Eu mesmo estou sempre em contato com pessoas que rejeitam a pregação do Evangelho, ou simplesmente discordam da defesa de valores morais absolutos, tachando-nos, indiretamente, de hipócritas, julgadores e autoritários. Mas não me importo, desde que assuma uma postura de amor por essas pessoas.
Que farei? Agora trabalhando em Salvador, vejo que é muito mais complicado pregar o Evangelho aqui do que eu poderia imaginar. A capital do meu Estado respira os ares de festas comerciais-culturais-religiosas-políticas o ano inteiro. O calendário religioso é extenso, e as festas populares misturam crenças afro-brasileiras com costumes centenários. Dinheiro e poder político mesclam-se à multifacetada e colorida cultura baiana. Monumentos protegidos pelos Poderes Públicos são demonstrações históricas da religiosidade ou da antiga instituição oficial do Catolicismo, bem como benefícios governamentais apoiam o candomblé e segmentos similares.
Em meio a essa tessitura social, fala-se muito de tolerância racial e religiosa, num claro recado, a meu ver, de que o discurso evangélico de alguns grupos precisa encontrar um limite. À tolerância nada podemos opor, pois é bíblica e constitucional – mas continuaremos a pregar o Evangelho, com toda a tolerância do mundo e sem pedir fogo do céu, nem para samaritanos nem para soteropolitanos.
Acredito que Deus pode transformar vidas, e é o que Ele tem feito em muitas regiões do País. Não sei exatamente como tem sido o desenvolvimento das igrejas em terras baianas, e especialmente em Salvador, mas vejo que a presença evangélica parece maior do que há alguns anos. No entanto, mais do que em outras capitais, Salvador oferece grandes dificuldades ao cristão, porque a atmosfera da cidade é tomada de carnaval, erotismo, exploração econômica e culto a demônios – um caldeirão e tanto.
Um item a ser analisado em Salvador é a extrema desigualdade social. Vejo condomínios e mansões de alto luxo ao lado de favelas e inúmeros pedintes nas ruas. Parece que aqui não há classe média, só ricos e pobres. Isso porventura é coisa de que alguém possa se orgulhar? Certamente as políticas tradicionais não conduziram o Estado ao desenvolvimento, o que fez com que baianos migrassem para a capital, superlotando-a e esvaziando o grande interior.
Diante de tudo isso, repito que não vou pedir fogo do céu. Quem sou eu para querer que pecadores como eu sejam destruídos, se eu mesmo fui inexplicavelmente alcançado pelo amor de Deus em Cristo? Entendo, pois, que em Salvador é hora de pedir, não o fogo do céu para destruir, mas o fogo do céu para encher a Igreja de poder do Espírito Santo – só assim dá para evangelizar com eficácia, principalmente num lugar melindroso como este.

A religião cristã não é um toque mágico em Jesus Cristo

Na cidade galiléia de Cafarnaum, enquanto seguia para a casa de Jairo a fim de curar sua filha, Jesus, comprimido pela multidão, foi tocado por uma mulher que sofria de hemorragia já há doze anos. Ela entendeu que seria curada se ao menos tocasse na orla de Suas vestes. É o que narram Mateus, Marcos e Lucas.
Tratava-se de uma pessoa atribulada, primeiro por ser mulher numa sociedade patriarcal, segundo por ser doente, e terceiro porque essa doença lhe dava a pecha de cerimonialmente imunda (Lv 15.25). Vencendo todas essas barreiras, a mulher se aproximou de Jesus e tocou em Sua roupa.
Ao perceber que fora tocado de modo especial, Jesus perguntou: “Quem me tocou”? Como Seus discípulos acharam estranha a pergunta, dada a multidão ao redor, Jesus disse que dele saíra poder.
Pensemos um pouco sobre esse ponto: de onde aquela mulher tirou a idéia de que tocar na roupa de Jesus poderia lhe dar a cura? Naquela época, pensava-se que tocar na roupa ou passar pela sombra de uma pessoa poderosa faria com que dela saísse poder. Foi assim que multidões levavam seus enfermos a Jesus a fim de que fossem curados ao menos pelo toque na orla de suas vestes. Vê-se, então, que a iniciativa não partiu de uma criação mental daquela senhora, mas de um pensamento comum na superstição popular.
Jesus costumava tocar nas pessoas, mas isso não significa que reconhecesse a validade da superstição. O toque de Jesus frequentemente comunicava compaixão, solidariedade, amor, afeição, além de empregar também o simbolismo da imposição de mãos, que decorre dos tempos do Antigo Testamento, significando agora, em síntese, uma transmissão de poder, seja para a plenitude do Espírito, seja para bênção em geral, seja, ainda, para consagração de oficiais da Igreja. Mas não existe poder nas mãos daquele que as impõe: o poder pertence a Deus, e somente a Ele. Como Deus, Jesus tem poder em Si mesmo, e como Homem, recebeu poder quando de Seu batismo, ao ser ungido pelo Espírito Santo na forma de pomba.
É certo que Jesus curou um leproso com um toque, e chegou a colocar lodo nos olhos de um cego para que passasse a enxergar. Mas quanto à cura no contexto da Igreja, a promessa de Jesus foi “Imporão as mãos sobre os enfermos e os curarão”. Essa é a forma simples e clara de curar enfermos em nome de Jesus. Não há técnicas especiais nem fórmulas verbais que devam ser empregadas, mas um gesto simbólico de transmissão de poder.
Entretanto, a religiosidade do populacho perpassou o período de Jesus com essa noção um tanto fetichista. Em At 5.15, vemos que em Jerusalém muitas pessoas buscavam passar pela sombra de Pedro para serem curadas. Semelhantemente, muitas outras, em Éfeso, afluíam a Paulo, para que ao menos pudessem tocar em seus lenços de uso pessoal e nos aventais que ele usava para fazer tendas (At 19.11,12). No entanto, em sua narrativa, Lucas em nenhum momento afirma que essa fosse uma regra a ser seguida pela Igreja. Além disso, não se pode doutrinar exclusivamente com base em narrativas, o que é demasiado perigoso e pode fomentar heresias.
Devemos fugir de tudo o que possa parecer com o fetichismo, que consiste no emprego de objetos com efeitos espirituais. Em setores chamados “neopentecostais” – que prefiro chamar de “pseudopentecostais” – ocorre o uso de galhos de arruda, sal grosso, rosas, e tantos outros objetos com significação esdrúxula, inventada por figuras cada vez mais criativas e de imaginação incrivelmente fértil para toda sorte de “campanhas”. Tudo isso fazem os pajés, das tribos indígenas, e os pais-de-santo, das religiões afro-brasileiras. Tudo isso se parece muito com feitiçaria e artes mágicas, e não encontra fundamento na Palavra de Deus.
A espiritualidade cristã não pode ser confundida com um simples toque no sobrenatural. A espiritualidade cristã define-se com um relacionamento pessoal com Deus em Cristo Jesus, pela habitação do Espírito Santo na vida dos regenerados. Em vez de apenas curar, Jesus quis saber quem Lhe tocou, o que denota o sentido de comunhão.
Embora a mulher que tocou em Jesus estivesse com uma expectativa limitada e um conhecimento equivocado, Jesus não a desprezou. Pelo contrário, a recebeu em Sua comunhão, dando-lhe a paz e a saúde física. Como vimos, multidões buscavam a Jesus com esse mesmo propósito de cura por meio do toque, mas Jesus, como resta claro nessa passagem, sempre deseja o relacionamento espiritual, que é mais profundo do que um simples toque.
Ademais, outro episódio lança luz ao tema: justamente aquele em que um centurião afirma que somente uma palavra de Jesus já seria suficiente para curar seu criado, mesmo à distância. E qual foi a reação do Mestre? Disse que nem mesmo em Israel encontrou tamanha fé. Qual o diferencial da fé do centurião romano? Ele tinha uma fé que ia além das distâncias, que não dependia de objetos nem sombras.
Em outra linha de idéias, como devemos interpretar a frase de Jesus quanto a ter saído poder de Si? Ora, não nos é dada nenhuma informação sobre a qual possamos especular. Sabemos simplesmente que algum processo sobrenatural ocorreu ali. Em seguida, ao obter o esclarecimento da mulher, que estava trêmula e com medo, Jesus disse “A tua fé te curou” ou “salvou”. Isso não quer dizer que sua fé foi vista por Jesus como um ente autônomo, independente do próprio Jesus. Significa, isto sim, que a fé foi o instrumento da cura, e não a sua causa. Quem cura e salva é sempre Jesus Cristo. Vemos isso claramente em Ef 2.4-10.
No meio pentecostal e pseudopentecostal, causam sensação as pregações e discursos em torno do sobrenatural como solucionador de problemas os mais diversos. Essa é uma tentação antiga, voltada à satisfação de curiosidades quanto ao misterioso e extraordinário. Mas, será que a nossa espiritualidade se resume a isso? Será que nossa religião é assim parecida com tantas religiões fetichistas que há no mundo? Seremos nós também animistas? Que tipo de espiritualidade temos proposto ao mundo? É bom pensarmos nisso para não corrermos o risco de chamarmos de Cristianismo uma religião experiencial fundamentada em bases pagãs.
Querer de Jesus apenas um toque é uma coisa quase mágica – para fazer referência a Helmut Thielicke. Mais uma vez, cumpre lembrar que não se trata de menosprezar a fé daquela senhora, mas é necessário avançarmos em nossa concepção a respeito de Cristo. De uma perspectiva aproximada da magia, podemos e devemos partir para uma perspectiva cristã, que não pode ser menos que relacional.

A oferta da Salvação e o julgamento moralista

Tento discernir em minha pregação e pensamento as fronteiras do oferecimento da Salvação e do discurso moralista. Tenho receio de que, com o ímpeto de explicar a depravação humana, acabe me parecendo farisaico, com julgamentos distorcidos a respeito dos outros e de mim mesmo.
Estou ciente de que não há arrependimento sem consciência de pecado. Isso é fundamental. É necessário que o pecador se conscientize de sua reprovação diante das exigências divinas. Essa conscientização advém da evangelização, sem nenhuma dúvida. Por isso, a pregação precisa ser clara e alicerçada na Palavra de Deus.
Entretanto, considerando o contexto evangélico atual, principalmente na seara pentecostal – da qual faço parte –, fico pensando sobre como as pessoas têm ouvido nossa proclamação do amor de Deus, já que não temos demonstrado uma ética muito melhor que a do mundo, e não temos sido competentes em esclarecer qual a necessidade da Salvação, e o que levou Jesus Cristo a morrer por nós, explicitando qual o sentido disso.
Em se tratando de ética, temos nos limitado a condenar o aborto, o homossexualismo e a eutanásia, por exemplo; mas não denunciamos a corrupção política, o nepotismo, a sonegação fiscal, as corruptelas do cotidiano, a burla das regras de trânsito, as muitas formas de injustiça social. Até nos entregamos a alianças com políticos em troca de favores clientelistas, ao mesmo tempo em que muitas de nossas igrejas se vêem solapadas por uma política de promoções e mandonismo”.
Na senda teológica e querigmática somos muito fracos. Primeiro, porque nossa teologia se faz de cima para baixo, sem uma interface com os obreiros que têm contato com o povo mesmo – os quais muitas vezes são avessos à própria palavra “teologia”; segundo, porque nosso querigma (pregação) é uma repetição de palavras conhecidas e frases de efeito, apropriação de conceitos tradicionais e adição de valores pentecostais, mas sem um aprofundamento do que seja a mensagem da cruz.
Dizer que Jesus morreu pelos pecados da humanidade é correto, mas qual o significado disso para uma pessoa culta, que tem todo o conforto necessário para viver bem e informações suficientes para julgar teorias e fatos? Não adianta virmos com o argumento descontextualizado de que “o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos”, porque isso só iria transferir para o Diabo nossa ineficiência evangelística. Não podemos ficar culpando a serpente quando o assunto é a nossa inaptidão para pregar o Evangelho a diferentes classes sociais.
O que critico é nosso interesse em interromper a reflexão com argumentos supostamente bíblicos, mas que apenas retiram versículos de seu contexto. Paulo não está dizendo que devemos deixar de lado pessoas dessa ou daquela estirpe, mas que o diabo terá cegado o entendimento de muitas pessoas que ouvirem o Evangelho. Então, teremos feito a nossa parte, mas a incredulidade permanecerá no coração dos que assim desejarem, como ensinado por Jesus na Parábola do Semeador.
Ora, conheço pessoas que, além de não fazerem o mal a terceiros, promovem o bem – trabalham pela justiça, são incansáveis na defesa do que acham justo, dão exemplo de correção em seu procedimento diário, mas não frequentam uma igreja evangélica, não professam a Fé em Cristo nem usam a Bíblia como regra de fé e conduta. Dogmaticamente, sei que estão condenadas ao Inferno, e é completamente claro para mim que o juízo de Deus não erra. Todavia, como eu transmito essas noções a esse tipo de interlocutor, se é que o faço?
Todos os seres humanos são pecadores, o leitor evangélico dirá com acerto. Mas, o que é pecado, se nosso discurso tem sido no sentido de que pecar é matar, roubar, beber, fumar, freqüentar certos lugares e adulterar? Quando encontro pessoas que não praticam nada dessas coisas, como me comporto? Como me comporto frente aos “incrédulos” que parecem mais justos do que eu?
Não deveria eu ter mais assentadas em meu coração as verdades da carência espiritual de todo ser humano e a indispensabilidade de comunhão com o Pai? Em vez de falar ao sofredor, não deveria eu falar ao pecador? Quem anunciará as Boas Novas ao intelectual, ao funcionário público, ao estudante de ciências sociais, ao politicamente engajado, ao chefe de família consciente de seus deveres, ao trabalhador honesto, ao promotor de justiça?
Quando perdemos o cerne da mensagem da cruz, nossas pregações e conversas ficam moralistas, porque teremos que falar em pecado, mas não falaremos do quanto é bom pertencer a Cristo. Isso ocorre quando perdemos o senso de realidade do Evangelho.
Minha sugestão é que estudemos na Escritura o que Jesus fez por nós, e por que fez. Precisamos ir além das teorias e do testemunho de nossa experiência – precisamos transmitir aos outros, consistentemente, a mensagem de que sem Jesus não há propósito para a vida, porque sem Jesus não se acessa o Pai.

Não quero ser um burocrata de igreja nem um moralista sisudo

Preocupa-me a possibilidade de me tornar um burocrata de igreja, que zela pelo andamento das coisas religiosas sem atender à voz de Deus nem à voz dos crentes, e sem estar sensível à voz daqueles que não professam a fé cristã (aqui lembro do livro Ouça o Espírito, Ouça o Mundo, de John Stott). Esse receio tem sobrevindo à minha mente agora que minha vida tomou rumo distinto em diferentes aspectos, mudando o foco de minhas cogitações teológicas.
Também não quero ser um moralista sisudo, desses que espreitam o comportamento alheio e apontam o erro com um dedo farisaico dirigido ao pecador, meu igual. Sinto tristeza sempre que me vejo agindo parecido com isso.
Tanto a ação na igreja como a moralidade cristã devem estar fundamentadas no amor. Devo ir ao templo e fazer julgamentos éticos a partir de uma concepção cristã construída na Palavra de Deus pela fé. Devo formular argumentos sólidos para tentar convencer meus interlocutores, mas sem a pretensão de ser melhor do que ninguém – sabendo, antes, que o respeito ao próximo é imperativo da ética de Cristo.
Numa conversa sobre costumes, sexualidade, valores morais, as pessoas não-evangélicas ou não-cristãs podem nos ver como fanáticas, obscurantistas, legalistas. Pode ser que nos vejam assim ainda que tenhamos um discurso amoroso e sincero, mas devemos evitar que suas impressões sejam verdadeiras. Que nos chamem de ignorantes e nos rotulem, mas não lhes demos razões para isso.
Em dias de pós-modernidade, o relativismo ensina que não existe o certo e o errado, o adequado e o inadequado, que tudo depende do ponto de vista, da subjetividade. Acabou-se a moral. Sob o pretexto de que não se pode julgar, de que não se pode atirar a primeira pedra, de que todo mundo é pecador, dizem que não podemos fazer juízos de valor, o que seria, naturalmente, o fim de toda discussão ética, e a cessação, em última análise, até mesmo de minha profissão ligada ao Direito.
As pessoas afirmam que não podemos impor a ética cristã à sociedade, e nisso estão certas. Mas não aceito a alegação de que não podemos propor ao mundo os postulados da ética cristã. Dito de outro modo, cabe a mim argumentar de maneira suficientemente clara e segura sobre os motivos que tornam a ética bíblica uma solução para os males sociais, e o critério de aperfeiçoamento humano. A questão é a seguinte: “Estou preparado para isso”? Creio que eu não estou, pois costumo ser contundente demais em diálogos com pessoas que negam peremptoriamente a autenticidade da Bíblia ou a validade das exigências éticas ali contidas.
Para estar preparado ao diálogo com o mundo, preciso não ser um burocrata cristão. Preciso ir além de uma rotina eclesiástica de ir ao culto e preencher um calendário de afazeres que tão-somente cumpre as tradições e anseios da religiosidade evangélica e de minha denominação. Devo renunciar ao ativismo de Marta e me apegar à humildade de Maria.
Não é fácil ser cristão de verdade. Fácil é ser burocrata e moralista. Fácil é comportar-se como o fariseu frente ao publicano, como os líderes de Israel frente a Jesus e Seus acompanhantes “maltrapilhos”, para usar uma expressão de Brennan Manning.
Definitivamente, só aceito ser cristão porque Jesus me aceitou primeiro. O sistema ético de Cristo é tão moral e intelectualmente elevado que nenhuma criatura poderia conceber seus valores de per si. Por outro lado, ser burocrata e moralista é tão fácil que acaba sendo comuníssima tentação, tangidos que estamos pela vontade de agradar a Deus, mas fustigados a todo instante pela sedução do legalismo e da hipocrisia.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Minha homenagem à memória do Professor Peter Klassen

Com tristeza recebi a notícia de que no dia 23 de dezembro faleceu repentinamente o meu querido professor de Teologia Pr. PETER KLASSEN. Soube disso na sexta, dia 26, pela manhã.
Conheci o Pr. Peter neste ano de 2008, em Campo Grande-MS, na Faculdade Theológica (FATHEL). Tive com ele apenas uma disciplina, Teologia Prática, mas desde então criamos uma boa amizade. O Pr. Peter era uma pessoa alegre, simples, inteligente, cujos olhos claros irradiavam simpatia, assim como seu sorriso farto em meio à barba branca indicavam um misto de experiência e disposição. Era também um homem trabalhador, que eu encontrava muitas vezes digitando num dos computadores da faculdade. Ele tinha projetos.
Por coincidência, numa conversa descobrimos que um dos tios de minha esposa, o Pr. Hitoshi Watanabe, fora colega de seminário do Pr. Peter em Londrina (no ISBEL). De algum modo, me senti honrado, ainda que tenha sido o tio de minha esposa, e não um tio meu. Afinal, eu queria mesmo houvesse qualquer vínculo com o Pr. Peter - mas nós tínhamos: éramos irmãos em Cristo, comprados pelo sangue precioso do nosso Salvador.
Eu conversava com o Pr. Peter sobre algumas coisas de minha vida, principalmente acerca de algumas querelas, digamos, teológicas...E ele me deu conselhos, como "Escreva um artigo para a editora de sua denominação. Por que não"?
Dei um material para o Pr. Peter ler e dar sugestões. Ele disse que eu poderia ser útil escrevendo, que eu tinha vocação para isso, que eu poderia empregar a escrita e atingir um número maior de pessoas...
Em nossa derradeira conversa, na biblioteca da FATHEL, numa tarde em que, se não me engano, fui pegar o histórico escolar - porque estava de mudança para a Bahia - falei de um projeto que eu estava concebendo, e ele me disse, entre duas estantes de livros: "Quando estiver pronto, quero ser o primeiro a ler". Creio que foram as últimas palavras que ouvi dele.
Ora, tenho absoluta convicção de que a despedida do Pr. Peter foi preparada por Deus. Depois de entregar seu trabalho à faculdade, o SENHOR o levou para as paragens celestiais. É assim que vejo.
Se eu puder ser o mais sincero e leal à memória do meu querido Professor, direi o seguinte: queira Deus eu possa conter em meu coração um pouco do ideal que movia o prezado e inesquecível Professor Pastor PETER KLASSEN.
Que Deus conforte a todos nós, os que ficamos.

sábado, 27 de dezembro de 2008

EVANGELHO E AMIZADE - o que uma coisa tem que ver com a outra?*

Definição de amizade.
Segundo o Mini Dicionário Aurélio, amizade é o “sentimento fiel de afeição, estima ou ternura entre pessoas que em geral não são parentes nem amantes...; ternura”. Para o mesmo dicionário, amigo é aquele que “é ligado a outrem por laços de amizade” (idem).
A amizade é uma afeição, digamos, gratuita. As pessoas ficam amigas “de graça”. Enquanto os parentes têm o amor familiar, e os cônjuges, o amor conjugal, a amizade é um amor diferente, que não se explica pelos laços sanguíneos nem pela parceria afetivo-sexual.
Dito de outro modo: todo mundo espera que os parentes e cônjuges se amem; mas a amizade entre as pessoas é um sentimento que se explica por si.
Agora, o que a amizade tem que ver com o Evangelho? Façamos um estudo acerca disso.

Exemplos de amizade na Bíblia.
Deus e Abraão – Abraão foi chamado de “amigo de Deus” (II Cr 20.7; Tg 2.23). Por quê? Porque Abraão conversava com Deus, confiava n’Ele inteiramente e se mostrava fiel. Enquanto todos os outros deuses são tidos como inacessíveis, o Deus de Abraão é Aquele que deseja um relacionamento de amizade com o ser humano.
Deus e Moisés – Deus falava a Moisés “face a face, como qualquer fala a seu amigo” (Ex 33.11).
Rute e sua ex-sogra Noemi – Sem nenhuma obrigação legal, e numa situação de calamidade, Rute declarou fervorosa amizade à mãe de seu marido morto (Rt 1.16).
Davi e Jônatas – Davi e Jônatas eram muito amigos. O Texto Sagrado diz que “a alma de Jônatas se ligou com a de Davi” (I Sm 18.1). Sua amizade era tão verdadeira que mereceu registro nas Escrituras Sagradas. Havia companheirismo e lealdade, a ponto de Jônatas salvar a vida do amigo por mais de uma vez, contra a vontade de seu pai, o rei Saul (ver I Sm 18.1-4; 19.1-10; 20.1-43).
Paulo e Tito – em certa passagem da vida, o apóstolo Paulo só ficou confortado depois que recebeu a visita de seu amigo Tito (II Co 7.5-7).
Os amigos de Jesus de Nazaré – Além de uma relação de Senhor e servos, Mestre e discípulos, Jesus estabeleceu com os Doze Apóstolos uma relação de amizade, algo mais profundo do que a relação de senhorio (Jo 15.13-15).
Num dia em que multidões se aglomeravam em torno de Jesus, a ponto de se atropelarem, Ele se dirigiu especialmente aos Seus discípulos, chamando-os de “amigos” (Lc 12.4).
Havia, porém, amigos mais próximos, como Pedro, Tiago e João, que Jesus levava consigo em ocasiões especiais (ver em Mt 17.1-8; Mc 9.2-8 e Lc 9.28-36 o episódio da Transfiguração; e Mt 26.36-46; Mc 14.32-42; Lc 22.40-46, na oração no Getsêmane, quando, ao se afastar para orar, Jesus levou somente Pedro, Tiago e João, embora os demais discípulos também estivessem ali).
Dentre os três amigos mais chegados, João era o discípulo a quem Jesus amava, e os textos demonstram claramente que ele tinha maior intimidade com Jesus do que qualquer outro discípulo (Jo 13.23-25 e 21.20).
Havia também os irmãos Lázaro, Marta e Maria, todos amigos de Jesus (Jo 11.5). O próprio Lázaro foi chamado por Jesus de “nosso amigo Lázaro” (Jo 11.11).
Jesus foi reconhecido como “amigo de publicanos e pecadores” porque comia e bebia com eles, sem preconceito (Mt 11.19; Lc 7.34).
E, mesmo sabendo que Judas Iscariotes estava ali para o entregar aos soldados, Jesus o chamou de “amigo” no Jardim do Getsêmane (Mt 26.50).
Aprendemos, assim, que o Homem Jesus tinha amigos, uns mais chegados que outros. Isso ocorreu porque é natural ao Ser Humano construir relações mais profundas que outras, amizades mais íntimas que outras.
No entanto, quando se trata da amizade de Cristo com Sua Igreja, precisamos compreender que Jesus é Amigo de todos os que nasceram de novo. Veremos isso em outro tópico.

O que a Bíblia diz da verdadeira amizade.
A verdadeira amizade é contemplada na Bíblia como uma coisa muito boa, uma relação saudável e valiosa. Senão, vejamos:
• O amigo mostra compaixão ao aflito (Jó 6.14).
• O amigo ora pelos seus amigos, ainda que eles se revelem falsos (Jó 42.10; c/c 6.27 e 16.20). No Sl 35, Davi afirma que tratou como amigos uns homens que depois se revelaram seus inimigos (ver vv. 13-16).
• O amigo ama “em todo o tempo”, e na angústia “nasce o irmão” (Pv 17.17).
• O “conselho cordial” do amigo é comparado ao “óleo e o perfume”, pois alegra o coração (Pv 27.9). Na profecia de Isaías, Jesus Cristo é chamado de “Maravilhoso Conselheiro” (Is 9.6) porque Seus conselhos são perfeitos e produzem milagres na vida de quem os recebe.
• Não se deve abandonar o amigo (Pv 27.10).
• A amizade é importante na formação do caráter, assim como o ferro que se afia com o ferro (Pv 27.17).

As limitações da amizade humana.
No Sl 41.9, texto messiânico, o salmista Davi prevê o momento em que até o “amigo íntimo” de Cristo levantaria o calcanhar contra Ele. Algo semelhante está no Sl 55.12,13, quando o salmista, também se referindo profeticamente a Cristo, diz que suportaria a afronta de um inimigo, mas não de um amigo íntimo, companheiro e homem igual a ele. Essa dor é maior.
A profecia do Sl 41 cumpriu-se em Jo 13.18, quando Jesus disse que um que comia do mesmo pão que Ele lhe levantaria o calcanhar. Esse homem foi Judas Iscariotes, o traidor. Judas traiu não apenas uma religião – ele traiu uma amizade.
Num contexto de crise nacional, o profeta Jeremias foi perseguido por amigos íntimos (Jr 20.10).
Por causa de uma doença e da pobreza repentina, Jó foi abandonado por todos os seus amigos íntimos (Jó 19.19). Seus parentes e conhecidos fizeram o mesmo (Jó 19.14). Mas certamente a dor maior não veio da distância de parentes e conhecidos – o pior é ser deixado pelos amigos íntimos.
Parece que Davi também foi desprezado por amigos devido a uma doença (Sl 38.11). Isso ele podia esperar de adversários, talvez até de vizinhos e conhecidos (Sl 31.11), mas não de amigos íntimos. Só que isso às vezes acontece, como o Salmo sugere.
O salmista Hemã, de igual modo, expressou em poesia a dor de ser abandonado pelos próprios amigos (Sl 88.8,18).
O difamador separa os maiores amigos (Pv 16.28).
Curiosamente, o mesmo autor de Provérbios diz que “o homem que tem muitos amigos sai perdendo; mas há amigo mais chegado do que um irmão” (Pv 18.24). O que isso quer dizer? A Bíblia Anotada traz uma tradução alternativa: “Um homem com amigos demais será quebrado em pedaços”. E dá a seguinte explicação: “Amigos indiscriminadamente escolhidos podem trazer problemas, mas um verdadeiro amigo permanece fiel na alegria e na tristeza” (p. 812).
Há “amigos” que aparecem aos montes quando alguém fica rico, mas, ao mesmo tempo, fica o pobre desamparado de seus amigos (Pv 19.4). Essa é a amizade interesseira, que, na verdade, não é amizade coisa nenhuma. São os amigos que surgem quando o indivíduo ganha na loteria, tão-somente para gastar sua fortuna; e que desaparecem assim que a riqueza se esvai.
Há “amigos” que são bajuladores dos que dão presentes (Pv 19.6). Dependendo da situação, comportam-se como capachos.
Numa sociedade afastada de Deus, o profeta Miquéias precisou dizer para não se confiar no amigo, e para não se falar nada àquele que reclina a cabeça sobre o seu peito (Mq 7.5-7). Esse é um cenário de problemas familiares e sociais, bem parecido com o que temos hoje no mundo.
Devido às muitas limitações da amizade humana, há quem perca a esperança. Mas a amizade é um bem precioso, que deve ser construído como num processo. De toda maneira, há uma amizade que transcende todo sentimento humano, e que só Jesus Cristo pode ofertar.

Jesus, o Amigo Incomparável.
Jesus apresenta-se como SENHOR, Mestre, Rei, Pastor, Noivo, Juiz, Primogênito, mas também como Amigo. Ele é o maior Amigo, o verdadeiro Amigo.
Por que Jesus é o maior Amigo?
Jesus sempre está disposto a nos ajudar;
Jesus sempre tem tempo para Seus amigos;
Jesus tem conselhos maravilhosos (Is 9.6).
Jesus é fiel;
Jesus é leal;
Jesus não muda;
Jesus não mente.
E, o que é mais importante, Jesus deu a Sua vida por nós, quando ainda éramos Seus inimigos.
É até possível que alguém dê sua vida por um amigo. Mas só Jesus Cristo ofereceu sua vida por Seus inimigos.
A amizade de Cristo implica em intimidade, conhecimento mútuo, diálogo aberto e lealdade.
Vejamos a seguir, com base bíblica, em que consiste a amizade de Cristo.

O Evangelho é a oportunidade de fazer as pazes com Deus.
Em Rm 5.7-11, Paulo explica o Evangelho de uma forma muito clara: mesmo que dificilmente, pode ser que alguém se anime a morrer por um justo, por uma pessoa boa; mas Deus prova o Seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós sendo nós ainda pecadores. De fato, quando ainda éramos inimigos de Deus, Ele enviou Seu Filho para morrer pelos nossos pecados, para nos reconciliar. Agora, tendo recebido a reconciliaçao, e sendo, portanto, amigos de Deus, “seremos por ele salvos da ira” (v.9), “seremos salvos pela sua vida” (v.10). Isto porque agora somos amigos de Deus, fizemos as pazes com Deus.
Paulo escreveu que “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo” (II Co 5.18-20), e nos deu a palavra ou o ministério da reconciliação. Isto significa que o mundo estava em conflito com Deus, e que Jesus Cristo veio fazer as pazes entre Deus e os homens. Como um mediador, advogado ou conselheiro, Jesus Cristo veio restaurar a amizade do Homem com Deus, perdida na Queda (Gn 3.1-7).
Com Sua morte na Cruz, Jesus Cristo derrubou “a parede da separação”, que era a “inimizade” (Ef 2.11-22). Quem era estrangeiro, passou a ser da “família de Deus”; quem era peregrino passou a ser “concidadão dos santos”; quem era gentio (pagão) passou a ser parte da “comunidade de Israel”; quem estava longe foi aproximado pelo sangue de Jesus.

Conclusão.
Há muitas formas de explicar o Plano de Salvação, mas percebo que a mensagem cristã evangélica não tem sido compreendida pela sociedade, talvez por nossa incompreensão pessoal da essência do Evangelho.
Espero que esta palavra sobre a amizade e o Evangelho tenha contribuído para um entendimento do que Jesus Cristo fez pela Humanidade.
*Material preparado para pregação no Culto do Amigo, na Congregação da Assembléia de Deus do Riacho do Mel, em Alagoinhas-BA, a ser realizada no dia 28 de dezembro de 2008.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Ética Bíblica

Definição de ética.
Ética divina e ética humana.
Por que a Bíblia é um Código de Ética?
A Lei de Moisés.
Os Dez Mandamentos.
Ética Cristã.
O Sermão do Monte.
Conclusão.


Definição de ética.
Ética é o conhecimento do bem e do mal, do certo e do errado, do justo e do injusto. Está relacionada ao caráter, à moralidade, aos bons costumes, ao que é bom e justo, ao que é direito, honesto.
A palavra “ética” vem do grego ethos, e significa estilo de vida, costumes, conduta ou prática. Aparece 12 vezes no Novo Testamento , enquanto o plural, ethes, surge uma só vez, em I Co 15.33 (“costumes”). É importante também ressaltar que o vocábulo “ética” decorre diretamente do texto bíblico, e assim se difundiu pelo mundo .


Ética divina e ética humana.
Além da ética divina, existe a ética humana, secular ou filosófica.
Antes da Queda, Adão e Eva alimentavam-se da ética divina. Deus dizia qual o procedimento correto.
A tentação da Serpente foi no sentido de que eles se tornassem como Deus, sabendo o bem e o mal. Ou seja: a tentação para que Adão e Eva comessem da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal significou uma insinuação de que eles poderiam escolher seus próprios caminhos, independentemente de Deus, e, assim, podendo se tornar autônomos, independentes, emancipados.
Veja os textos de Gn 2.16,17 (mandamento e consequência) e Gn 3.1-7 (tentação e Queda).
A tentação colocou em dúvida a Palavra de Deus; lançou a idéia de que o mandamento divino era uma tortura; lançou a idéia de que comer da Árvore proibida era necessário; lançou a idéia de que viver com Deus era mais negativo do que positivo, com uma proibição supostamente injusta; lançou a idéia de que Deus não queria que eles se tornassem como Ele, sabendo o bem e o mal, quando, na realidade, Deus queria que eles se conduzissem de acordo com a ética divina, e não com a ética pessoal.
Ali houve o pecado, que é basicamente desobediência à Palavra de Deus.
A morte, como consequência do pecado, é separação de Deus. Tem os aspectos moral, espiritual e físico.

Por que a Bíblia é um Código de Ética?
A Bíblia é um Código de Ética porque trata de como as pessoas devem se comportar diante de Deus e do próximo.
A Bíblia tem regras, mandamentos, estatutos, ordens, preceitos, juízos, normas de conduta. Essas palavras têm que ver com o certo e o errado, o bem e o mal, o justo e o injusto, o lícito e o ilícito. Por isso, a Bíblia é um Livro ou Código de Ética, mas de Ética Divina.
Nós, cristãos, temos na Bíblia nosso modelo ético absoluto, perfeito e imutável. Ela nos ensina a ter um comportamento ético na família, no trabalho, na sociedade e na igreja.

A Lei de Moisés.
A Lei de Moisés, presente nos Livros de Êxodo a Deuteronômio, contém regras de conduta para o povo de Israel, e muitos princípios de ética divina que servem para todos os seres humanos, especialmente para a Igreja de Cristo.
A Lei de Moisés possui regras morais, cerimoniais e civis. As regras cerimoniais tinham função religiosa, e eram dirigidas apenas a Israel (leis sobre sacerdotes, levitas, sistema de sacrifícios e outros rituais religiosos). As regras civis também se dirigiam a Israel, mas no sentido jurídico, para Israel enquanto Nação, e diziam respeito às normas de convivência social. Eram regras referentes a crimes, indenizações, impostos, descanso da terra, dentre outras.
As leis morais são universais, e, por isso servem para todas as pessoas em qualquer época e lugar. Estão resumidas nos Dez Mandamentos (Ex 20.1-17), e tratam do respeito a Deus e ao próximo.
Os Dez Mandamentos valorizam:
1 – O culto exclusivo, espiritual e reverente a Deus (Ex 20.1-7);
2 – A administração do tempo (Ex 20.8-11);
3 – O respeito aos pais (Ex 20.12);
4 – O direito à vida (Ex 20.13);
5 – A instituição do casamento (Ex 20.14, 17);
6 – O direito de propriedade, que envolve o direito do trabalhador e o direito de crédito (Ex 20.15, 17);
7 – O respeito à honra e à justiça, em sentido forense (Ex 20.16).
A Lei de Moisés protegia os mais fracos: pobres, escravos, estrangeiros, órfãos e viúvas.


Ética cristã.
Ética cristã é o padrão de conduta baseado nas palavras de Jesus Cristo e nas Cartas Apostólicas.
A Ética Cristã está bem caracterizada no Sermão do Monte.

O Sermão do Monte.
O Sermão do Monte encontra-se em Mt 5 a 7 (com textos paralelos em Mc 9.50 e Lc 6.20-49; 11.2-4; 34-36; 12.22-31; 13.24; 14.34,35).
A ética cristã é completamente diferente da ética humana, e pode ser resumida nos seguintes princípios:
1. Renúncia aos valores mundanos e apego aos valores do Reino dos Céus (Mt 5.3-12; Is 57.15; Sl 126.5); “mansos” são os altruístas, os que pensam nos outros, conforme Sl 37.11; II Pe 3.13; “limpos de coração vêm de uma referência a Sl 24.4, Sl 51.10 e 73.1;
2. Necessidade de fazer a diferença e conservar da corrupção (Mt 5.13-16; Jo 8.12; II Co 4.5,6);
3. Interiorização da Lei (Mt 5.17-20) – aplicado à questão do homicídio (21-26); do adultério (27-32); dos juramentos (33-37; Nm 30.2); da vingança (38-42;); e ao tema das relações entre as pessoas (43-48; Lv 19.18);
4. Humildade em tudo, como no caso das esmolas (6.2-4); das orações (6.5-8); do jejum (16-18);
5. Simplicidade quanto às coisas materiais (6.19-21, 24);
6. Entendimento de que a ética não pode ser de fora para dentro, mas de dentro para fora (6.22,23);
7. Priorização do Reino de Deus e de sua justiça, confiança na providência divina (6.25-34);
8. Fuga da hipocrisia e do julgar aos outros (7.1-5; diferente do discernimento dentro das questões da igreja, como, por exemplo, em I Co 5.3,12,13);
9. Compromisso e auto-negação, enquanto a maioria segue confortavelmente pelo caminho espaçoso (13,14);
10. Valorização dos frutos do caráter, e não dos supostos milagres nem das meras palavras ou cargos eclesiásticos (7.15-23; Jr 14.14; 27.15; Sl 6.8);
11. Aplicação das palavras de Cristo (7.24-27).

A chamada Lei Áurea está em Mt 7.12 – o critério da vida em sociedade deve ser aquilo que eu quero que façam comigo. Isso mesmo eu devo fazer aos outros.
Rm 13.10 – A Ética Cristã é o amor.

Conclusão.
Estamos vivendo na época da Pós-Modernidade. A sociedade é relativista, pluralista, hedonista, materialista, individualista e pragmática.
Vemos o avanço da criminalidade, da corrupção política, do tráfico de drogas ilícitas, do homossexualismo, do sexo livre e da desagregação familiar. Vemos também que muitos que se dizem cristãos evangélicos pensam e praticam obras segundo a ética mundana, e não segundo a Ética Cristã.
Só a Ética Cristã vai na contramão de tudo isso. Não podemos sucumbir diante da ética do mundo.
Mundanismo não é só usar roupas dessa ou daquela maneira: mundanismo é deixar que os valores do mundo tomem conta da igreja, mesmo que disfarçadamente.
*Material preparado para a "Festa dos Senhores", na Congregação da Assembléia de Deus no Bairro Jardim Petrolar, em Alagoinhas-BA, onde congreguei de 1988 a 1995. Trata-se de um estudo feito a partir da Revista da CPAD para o IV Trimestre de 2008, especificamente sobre a Lição "A Bíblia: O Código de Ética Divino". A palavra foi ministrada no dia 07 de dezembro de 2008.


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Gostaria de estabelecer contato com você. Talvez pensemos a respeito dos mesmos assuntos, e o diálogo é sempre bem-vindo e mais que necessário. Meu e-mail é alexesteves.rocha@gmail.com. Você poderá fazer sugestões de artigos, dar idéias para o formato do blog, tecer alguma crítica ou questionamento. Fique à vontade. Embora o blog seja uma coisa pessoal por natureza, gostaria de usar este espaço para conhecer um pouco de quem está do outro lado. Um abraço.

Para pensar:

Um dos terríveis problemas da Igreja evangélica brasileira é a falta de conhecimento da Bíblia como um sistema coerente de princípios, promessas e relatos que apontam para Cristo como Criador, Sustentador e Salvador. Em vez disso, prega-se um "jesus" diminuído, porque criado à imagem de seus idealizadores, e que faz uso de textos bíblicos isolados, como se fossem amuletos, peças mágicas a serem usadas ao bel-talante do indivíduo.

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Bases de Fé

Creio:
Em um só Deus e na Trindade.
Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristão.
Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal e sua ascensão aos céus.
Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor.
No batismo bíblico em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo.
Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus, através do poder do Espírito Santo.
No batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a intercessão de Cristo.
Na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja para sua edificação, conforme a sua soberana vontade.
Na Segunda Vinda de Cristo.
Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo.
No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis.
E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.