terça-feira, 4 de maio de 2010

A religião de Jesus

Há um livro clássico do Protestantismo intitulado Em seus passos, que faria Jesus?, de Charles Sheldon. O título em si já é muito sugestivo. Na história, cristãos mudam radicalmente de comportamento ao pararem para refletir sobre que atitude Jesus tomaria em seu lugar, diante de cada situação decisiva na vida.
Indo nessa linha, cabe perguntar: qual seria a religião de Jesus hoje? Se Jesus viesse à Terra novamente, em carne e osso, que religião frequentaria?
Primeiro, vejamos que religião Jesus frequentou, olhando para as páginas das Escrituras Sagradas. Como Homem, Ele seguiu todos os preceitos determinados pela Lei de Moisés e pelos costumes judaicos. Senão, vejamos:
Circuncidado ao oitavo dia (Lc 1.21), Jesus foi apresentado no Templo depois do período de purificação, incluindo o sacrifício determinado para essa ocasião (Lc 1.22-24,39). Acompanhava seus pais anualmente à Festa da Páscoa em Jerusalém (Lc 2.41-43; Ex 23.15; Dt 16.1-6). Frequentava a sinagoga aos sábados (4.16). Tomava parte da liturgia, como quando leu um trecho do Livro de Isaías (Lc 4.16-21) ou quando ensinava no meio do povo (Lc 4.15). Era também um observador atento da atividade religiosa, como quando testemunhou a viúva pobre depositando moedas no gazofilácio (Lc 21.1-4).
Além de obedecer a todos os preceitos legais e consuetudinários, Jesus ordenou a João que O batizasse "para se cumprir toda a justiça" (ver Mt 3). Tratava-se de um movimento iniciado por João Batista no deserto, sem nenhuma vinculação institucional, e que, no máximo, poderia ser comparada ao batismo dos essênios e ao batismo dos prosélitos. Haveria naquele ato de batismo a manifestação da Trindade, com o Filho sendo batizado nas águas, o Espírito Santo descendo em forma corpórea sobre a cabeça de Jesus e o Pai afirmando Seu amor pelo Filho. Igualmente havia ali o início do ministério de Jesus na Terra.
Não obstante essa sujeição voluntária ao batismo de João, Jesus não rompeu com a Lei de Moisés nem com as instituições judaicas. Ele respeitava a autoridade dos sacerdotes e anciãos, assim como respeitava as autoridades gentias. Jesus pagava impostos, frequentava as festas dos judeus e nunca falou mal do Templo de Jerusalém.
A diferença em Jesus é que Ele conhecia (e conhece!) a ratio essendi da Lei, que é o Amor. Jesus nunca proclamou a revolução contra as instituições religiosas de seu tempo, mas, sim, contra a falta de amor. Jesus sempre soube que os fariseus, escribas, sacerdotes e anciãos perverteram o direito e cometeram torpezas contra o próximo devido à maldade de seus corações, apartados que estavam do fundamento da Lei de Moisés, pois a suma da Lei Mosaica é tão-somente amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Todas as normas decorrem desse princípio, todos os regramentos e detalhes escritos por Moisés não passam de desdobramentos da Lei do Amor.
Dessa forma, Jesus apenas manifestou e revelou de maneira intensa o que sempre existiu na Lei de Moisés, mas que os líderes de Israel perverteram. Ele não fundou uma nova religião, não foi um iconoclasta e não quis estabelecer uma Nova Ordem Mundial nem uma New Age.
Então, se estivesse fisicamente entre nós, que templos Jesus frequentaria? Ó, eventual leitor, não serei perverso em impedi-lo de fazer esse raciocínio por si mesmo, pois é de grande valor. Diga-me: qual a religião de Jesus?
Alguns afirmam que Jesus deveria apreciar uma espécie de "religiosidade sem religião". O que é isso? Seria a ideia de uma espiritualidade sem instituição. Será mesmo? Será que Ele seria como um monge, distante do mundo, "para não se contaminar"? Será que se agruparia a pessoas que não querem ter pastores, nem dar o dízimo, nem evangelizar? Será que iria para as florestas, desertos e montes, e lá se refugiaria numa aldeia do tipo Walden, a Vida nos Bosques*? Será que fugiria de crentes "denominacionais"? Será que pregaria contra a organização eclesiástica? Será que discordaria da constituição de igrejas com personalidade jurídica, nome e placa? Será que abominaria hierarquias e estatutos para igrejas?
E então? Qual a religião de Jesus?
Não vou deixar o eventual leitor assim tão à deriva...Diz-nos a Palavra que "A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e guardar-se incontaminado do mundo" (Tg 1.27).
Para quem for mais apressado, é bom avisar o seguinte: se o primeiro aspecto parece ser mera assistência social (e não é!), o segundo aspecto consiste em ser totalmente purificado do pecado.
E agora, caríssimo leitor: qual a religião de Jesus?

*Livro de Henry David Thoreau.
**Coloquei essa parte em itálico para mostrar que substituí o trecho comentado por João Armando. Inseri outro post especificamente sobre o batismo de João, e se chama "'Batismos' veterotestamentários e o batismo de João".

2 comentários:

João Armando disse...

Extraio o seguinte trecho do post: " Ali não se tratava de um ritual judaico, mas de um movimento iniciado por João Batista no deserto" - bem, é preciso dizer que nem todos concordariam. Note:
1. Ninguém estranhou o rito - ninguém perguntou, "que é isso de batizar, que coisa nova é essa, o que significa?" - o que sugere que era algo que já se praticava.
2. A Lei de Moisés prescrevia abluções rituais diversas, inclusive em sinal de arrependimento - e como purificação de imundícias cerimoniais.
3. Na cerimônia de instituição dos sacerdotes, havia uma lavagem ritual também - lembrando que Jesus exerceu o ofício do sacerdócio. Essa é, inclusive, a opinião de Scofield sobre o motivo de Jesus ter sido batizado, já que ele nunca cometera pecado.
4. O sentido da frase "cumprir toda a justiça" remete-nos fortemente à Lei e suas prescrições. Isso se encaixa na determinação legal de se lavar os que seriam empossados como sacerdotes.

Alex Esteves da Rocha Sousa disse...

João,

Você tem razão. Sei que existiam ritos dessa naipe na Lei e até em outras religiões. O texto precisa ser esclarecido nesse ponto. Obrigado. Vou ver um modo a aperfeiçoá-lo.
Valeu!
Alex.

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Um dos terríveis problemas da Igreja evangélica brasileira é a falta de conhecimento da Bíblia como um sistema coerente de princípios, promessas e relatos que apontam para Cristo como Criador, Sustentador e Salvador. Em vez disso, prega-se um "jesus" diminuído, porque criado à imagem de seus idealizadores, e que faz uso de textos bíblicos isolados, como se fossem amuletos, peças mágicas a serem usadas ao bel-talante do indivíduo.

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Creio:
Em um só Deus e na Trindade.
Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristão.
Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal e sua ascensão aos céus.
Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor.
No batismo bíblico em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo.
Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus, através do poder do Espírito Santo.
No batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a intercessão de Cristo.
Na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja para sua edificação, conforme a sua soberana vontade.
Na Segunda Vinda de Cristo.
Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo.
No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis.
E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.