quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Série vocacionados (VI) - Jonas

Em nossa série sobre vocacionados na Bíblia, já vimos um resumo das histórias de Davi, Moisés, Samuel, Amós e Timóteo - esta é a ordem de inserção dos textos. Agora, vamos tratar de um personagem bastante curioso, que atravessou os séculos como um missionário desobediente. Seu nome é Jonas.
Proveniente da Galileia, da cidade de Gate-Hefer, Jonas, filho de Amitai, era um reconhecido profeta de Deus, que profetizou a ampliação territorial de Israel no reinado de Jeroboão II, o que efetivamente veio a ocorrer (II Rs 14.25). Isso contraria o preconceito dos sacerdotes e fariseus contemporâneos de Jesus, para quem "da Galileia não se levanta profeta" (Jo 7.52). O nome de Jonas significa "pombo".
Esse profeta, certa vez, foi comissionado diretamente por Deus para levar à grande cidade de Nínive uma palavra de juízo. Sabedor de que o Deus de Israel é misericordioso e bonsodo, Jonas não quis ir, pois sabia que, em havendo arrependimento, Deus perdoaria toda a cidade. Ora, mas que profeta curioso! Não querer anunciar uma palavra de condenação com medo de que pecadores se arrependam...Foi isso mesmo.
Ocorre que Nínive era a capital da Assíria, cujo povo era terrível para com os seus inimigos. Tinham eles a fama de ir além do que se espera de um invasor. Veja bem: até a guerra tem seus costumes, suas leis. Enquanto outros povos dominavam e escravizavam seus adversários, os assírios dominavam, escravizavam, torturavam e matavam de forma cruel. Li no Novo Comentário da Bíblia, tratando do Livro de Jonas, que eles tinham o costume de colocar muitos homens amontoados, com as extremidades cortadas (nariz, mãos e pés), para que morressem aos poucos, uns cheirando a podridão das carnes dos outros. Isso, sem dúvida, era um exagero, um ato desnecessário mesmo em tempos de guerra. Por isso, os assírios eram odiados. Por isso, Jonas não queria sequer lhes dar uma palavra de juízo, já que o bondoso Deus os poderia perdoar.
Desobedecendo à ordem divina, Jonas tomou uma embarcação para a cidade de Társis, mas Deus o queria em Nínive. Uma tempestade mandada por Deus assanhou as águas do mar e fez com que o barco quase naufragasse. Quando, porém, foi consultado pelos homens sobre o que poderia ter causado aquela crise, Jonas não hesitou: ordenou que o lançassem ao mar, pois a culpa era toda sua. Depois de algum esforço dos homens para controlar a embarcação, Jonas foi lançado ao mar, e este se aquietou.
Além da tempestade enviada por Deus, eis que surge um grande peixe, que, pelas minhas pesquisas mais antigas, pode ter sido um cachalote (no Séc. XIX um homem foi encontrado vivo no ventre de um peixe desses). O fato é que, tendo permanecido por três dias e três noites no seio do grande peixe, Jonas se conscientizou de que pecara contra Deus. E foi despejado na praia...de Nínive.
Com a proclamação de Jonas, o povo se arrependeu, houve um verdadeiro avivamento em toda a cidade, que chegou ao próprio rei.
Mas, qual a reação do profeta? Paradoxalmente, ficou triste, deprimido, a ponto de pedir a morte. É o único caso registrado de pregador que lamenta a eficácia de sua pregação. Só que Deus tem uma lição para o Seu profeta: fez nascer uma planta que lhe serviu de sombra, mas que depois foi destruída pela ação de um verme. Ao amanhecer, o sol bateu na cabeça de Jonas, agora desprovido daquela plantinha providencial. Irado, Jonas pediu a morte mais uma vez, num exagero que assusta. Que figura esse Jonas! Mas Deus encerra com uma palavra esclarecedora: se Jonas tem compaixão de uma simples plantinha que nasce e logo perece, não teria Ele compaixão da grande cidade de Nínive, com mais de 120 mil habitantes "que não sabem discernir entre a mão direita e a mão esquerda" (4.11)?
Aqui cabem algumas considerações: a) estamos tratando de um galileu do Séc. IX a.C., que, no entanto, já sabia que a Salvação não se limita a Israel; b) a atitude de Jonas pode ser caracterizada como um gesto de desobediência, mas ele não pode ser rotulado só por conta desse momento, que continha circunstâncias extremas; c) Jonas não pode ser acusado de covardia, falta de fé ou desconhecimento da Lei do SENHOR. Ele tinha, sim, tanto conhecimento da misericórdia de Deus que, sendo ele não tão compassivo quanto o próprio Deus, não queria que os assírios tivessem contato com a palavra que os poderia salvar; d) é certo, porém, que ele não tinha um conhecimento adequado de Deus, pois julgou possível fugir de Sua presença e afastar a execução de Seus desígnios, como se não fossem os melhores.
Assim acontece com muitos dos vocacionados. Conhecem a Deus, são seus mensageiros, manejam as Escrituras, mas, em dado momento, usam suas próprias razões, caminham por veredas independentes, acham que podem ser mais justos que o SENHOR. Da maneira como está escrito o Livro de Jonas, com todas as coisas no lugar, fica fácil descrever o que houve e até ridicularizar e criticar o controvertido profeta. Todavia, muito mais coerente e proveitoso é fazermos um autoexame a partir do que aconteceu com esse homem, tão distante de nós no tempo, mas tão próximo nas fraquezas e limitações pessoais.
Não raro, escolhemos deliberadamente o caminho errado, tomamos o barco da fuga, e sabemos exatamente o que estamos fazendo. Mas o misericordioso Deus manda uma tempestade, quem sabe um grande peixe, nos coloca de novo no caminho bom, e nos ensina a cumprir Sua vontade. Sem nenhuma dúvida, atender ao chamado de Deus é um aprendizado. Para uns, haverá mesmo na carreira peixes enormes e mares conturbados. Mas, nos capítulos seguintes, ver-se-á que monstros e confusões às vezes servem de meio de transporte para um porto seguro.

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Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
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Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo.
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E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.