segunda-feira, 19 de abril de 2010

Depois do Haiti

Quando do terremoto do Haiti, que matou muito mais de 100 mil pessoas e devastou o mais pobre país das Américas, apareceu Pat Robertson para dizer que a catástrofe era fruto de um pacto demoníaco que os negros haitianos fizeram em prol de sua independência em relação à França, ocorrida em 1804. Aqui no Brasil o Cônsul-Geral do Haiti em São Paulo abriu a boca para afirmar que aquilo era coisa da macumba praticada em sua país. Surgiu na blogosfera evangélica brasileira quem andasse mais ou menos nesse caminho.
Todavia, depois do terremoto no Haiti houve os também grandes terremotos do Chile e da China. Qual o culpado dessa vez? O catolicismo chileno? O comunismo chinês? E de quem foi a culpa de o vulcão da pacata Islândia ter acordado, a ponto de provocar o cancelamento de milhares de voos nestes dias? Foi culpa de que ou de quem?
Ninguém se abala a dizer que chilenos e chineses estão colhendo os frutos de seus pecados? O que está havendo? Pode-se jogar pedra no Haiti e pronto? Os negros em total miséria podem ser acusados de atrair maldição por práticas de vodu? E por que, então, Chile e China passam por situações sísmicas parecidas, embora o número de mortes e a devastação sejam menores?
Ora, discordo totalmente desses profetas do Apocalipse que buscam traduzir em toscas explicações as coisas que acontecem em nossos dias em termos de tragédias absurdas. Sei, eu conheço um pouco a Bíblia: terremotos em vários lugares constituem um dos sinais da Vinda do Filho do Homem. Mas Jesus nunca disse que esses terremotos viriam como resultado da prática de vodu. Tudo o que há de errado na Terra é, em última análise, efeito da Queda, esse problema moral de resultados cósmicos. No entanto, ficar tentando achar os meandros das decisões divinas em campos tão abstratos e elevados não é tarefa para não-profetas como nós. Não podemos confundir a missão profética da Igreja com esse profetismo escatológico terrorista e preconceituoso.
Não sou adepto de vodu, mas também não sou adepto da leniência administrativa que tem levado cidades como Rio de Janeiro, Salvador, Niterói e São Paulo a enchentes, deslizamentos e mortes de vez em quando. É pecado deixar de remover moradores de áreas de risco quando isso é recomendado por meio de laudos técnicos. É pecado desviar dinheiro para prevenção de catástrofes com o intuito de conquistar espaço político. É pecado empurrar os pobres para lugares onde não incomodem. É pecado urbanizar antigos lixões para que pobres venham morar em verdadeiros campos minados.
Em minha concepção, se quisermos explicar os fatos catastróficos, devemos ser um tanto mais racionais: há relação mais direta entre leniência administrativa e corrupção com tragédias urbanas do que entre vodu e terremotos no Haiti, na China ou no Chile.
Se quisermos dar uma contribuição positiva à sociedade, será mais inteligente e justo apontarmos os erros objetivamente, em lugar de dizermos (ou apoiarmos quem diz) que terremoto é maldição de macumbeiros.
Há coisas que não se pode evitar. O terremoto do Haiti não se podia evitar, mas a miséria potencializou a tragédia. Não se pode impedir que as placas tectônicas briguem debaixo da terra. Mas é nosso dever gritar contra o pecado.

2 comentários:

João Armando disse...

Muito bom comentário, e equilibrado. O pior é que tais interpretações de evangélicos levam os incrédulos a escarnecer de nós. Acho que foi um comentarista da Folha de S. Paulo que se teria indagado se o Deus (deus?) do pastor americano que culpou a maldição do vodu era o mesmo de Dona Zilda Arns. Numa hora dessas, como se lhe responder? É melhor mesmo ficar calado.

Pr_Ludyney_Olson disse...

Meu irmão, bom texto...comentário bem correto e equilibrado! Alguns amigos em comum me falaram de você..qdo puder visite meu blog: www.crentepensando.blogspot.com
Deus nos guarde!!!

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Um dos terríveis problemas da Igreja evangélica brasileira é a falta de conhecimento da Bíblia como um sistema coerente de princípios, promessas e relatos que apontam para Cristo como Criador, Sustentador e Salvador. Em vez disso, prega-se um "jesus" diminuído, porque criado à imagem de seus idealizadores, e que faz uso de textos bíblicos isolados, como se fossem amuletos, peças mágicas a serem usadas ao bel-talante do indivíduo.

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Creio:
Em um só Deus e na Trindade.
Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristão.
Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal e sua ascensão aos céus.
Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor.
No batismo bíblico em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo.
Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus, através do poder do Espírito Santo.
No batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a intercessão de Cristo.
Na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja para sua edificação, conforme a sua soberana vontade.
Na Segunda Vinda de Cristo.
Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo.
No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis.
E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.