quarta-feira, 24 de setembro de 2008

A Ultimato sobre Edir Macedo provocou reações!

A excelente revista Ultimato, de que sou assinante e admirador confesso, causou reações exaltadas de leitores que não admitem contrariedades à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e ao pensamento da Teologia da Prosperidade (O sucesso de Edir Macedo e a pergunta que fica no ar, edição 314, julho/agosto de 2008).
Certamente há outros comentários desaforados, mas a revista transcreveu alguns que já dão a idéia de como os artigos repercutiram entre os adeptos do Edir Macedo. Ao mesmo tempo, há os leitores que se sentiram premiados pela oportunidade e percuciência das matérias. Eu fico com o segundo grupo.
Vale dizer que essa edição trouxe artigos sobre o que Edir Macedo diz e o que a Bíblia diz sobre temas como dízimos e cura, extraindo coisas que o próprio fundador da IURD disse para seu biógrafo colocar no livro O Bispo.
Vou citar os leitores insatisfeitos: uma pessoa identificada apenas como Márcia disse ter ficado "indignada com tamanha ignorância cristã". Perguntou: "quem vocês pensam que são"? Disse que a revista é invejosa do "tamanho da obra que o Senhor Jesus faz através da IURD". Sugeriu que a revista peça a Deus "sabedoria para escrever". Declarou que deseja prosperidade, sim, e não aceita ficar doente. Mencionou, peremptoriamente, que "todos os grandes homens da Bíblia eram prósperos e saudáveis". Seguindo seus ataques ao pessoal da revista, disse que é por causa de pessoas como eles que o mundo está cheio de miséria e dor. E, demonstrando seus supostos conhecimentos teológicos, disse que, ao morrer na cruz, "Jesus levou sobre si todas as nossas dores e enfermidades".
Há muitas ponderações a fazer sobre o dito de Márcia:
a) O que ela chama de obra do Senhor Jesus por meio da IURD? A construção de grandes catedrais imitadoras do Catolicismo Romano Medieval? A deturpação do Evangelho? A promoção da Teologia da Prosperidade? A proposta materialista e triunfalista? O retorno a figuras veterotestamentárias sem nenhuma conexão de sentido com a mensagem cristã, apenas para subsidiar campanhas estranhas? O grosso volume de dinheiro que se arrecada de pessoas das mais variadas classes sociais, sob promessas egoístas? A compra de espaços midiáticos e o alcance de espaços políticos com o fito de imitar os mecanismos de poder do mundo? Isso é obra do Senhor Jesus, por acaso?
b) O que é prosperidade? Quem disse que prosperidade é riqueza? Pobreza é maldição? Riqueza é atestado de idoneidade moral e relação com Deus?
c) O que a Márcia diria a Jó, acometido de uma doença horrível, e a Paulo, que orou para se livrar de um problema e não obteve a resposta que desejava, mas a que precisava? E a morte sangrenta de todos os apóstolos, exceto João, e do próprio Jesus? A morte não é o ápice da vulnerabilidade humana, mais que a doença?
d) Onde está escrito que todos os grandes homens da Bíblia eram "prósperos" - no sentido da IURD - e "saudáveis"? Paulo não era um grande homem? Veja-se Gl 4.13-20, em que ele diz claramente ter sido acometido de "enfermidade física", possivelmente nos olhos. E Jó? Ele não era um grande homem?
e) A questão da miséria e dor no mundo decorre de uma postura humilde, altruísta e generosa ou de uma atitude individualista, egoísta e materialista? Quem, pois, concorre para o pecado social: o que dá ao pobre sem esperar em troca ou o que diz dar a Deus almejando ficar rico?
f) Quanto à morte de Jesus e seu efeito curativo, é justo dizer que a passagem de Mt 8.17, citando Is 53.4 - pressupostas, na verdade, pela Márcia - , repito, é justo dizer que isso atribui cura universal automática ou que Jesus tem poder de curar universalmente?
Então, as incongruências não são da revista, mas da Márcia, que chama Ultimato de ignorante e invejosa. Sugiro a Márcia que leia mais a Bíblia, mas sem os óculos do Edir Macedo. Aliás, ele ainda usa óculos ou já foi curado?
Outro leitor, Esdras Machado, disse que reconhece o quanto [a IURD] tem feito pelo Evangelho; que Ultimato poderia "deixar de lado os neopentecostais e os que acreditam na teologia da prosperidade e usar seu espaço na mídia para anunciar o evangelho".
Meu Deus! Que "evangelho" é esse que o Esdras Machado defende? Haveria coerência em defender o Evangelho e deixar de combater heresias? Paulo deixou de tratar de falsos mestres? Judas deixou de tratar de falsos mestres? Pedro deixou de tratar de falsos mestres? Jeremias deixou de enfrentar falsos profetas? Que proposta é essa? E, mais do que isso, quem disse que a IURD é neopentecostal mesmo? Bem por isso, é muito importante ler o artigo Pseudo-pentecostais: nem evangélicos, nem protestantes*, de Robinson Cavalcanti, na edição de setembro/outubro deste ano. Humildemente, eu mesmo, um assembleiano histórico, já me incomodava muito em ser tão aproximado ao pessoal da IURD e outras tantas por causa dos rótulos pentecostais e neopentecostais. Agora, corroborado por Robinson Cavalcanti, posso pensar em outras classificações para esses grupos estranhos que têm surgido.
Ainda outro leitor, o chamado "apóstolo" (sic) Alex Consacas, já foi logo perguntando para que reino a Ultimato trabalha, e afirmou ter aprendido a não "dividir reinos". Para ele, o importante é não dividir reinos, ainda que divergindo de "alguns pontos doutrinários". E acha que a IURD não é seita.
Ora, uma coisa é discordar de "alguns pontos doutrinários". Coisa muito diferente é ser desigual nos fundamentos da Fé, quanto à natureza da obra de Cristo. Quem diverge nesse tema precisa estar em reinos diferentes. Não há acordo se nos dispomos a defender elementos fundamentais diferentes.
É válido dizer que já me acusaram, neste blog, de "dividir reinos". Então, mais uma vez humildemente, estou bem acompanhado: Ultimato já vem, na verdade, dizendo que a Igreja de Cristo e o pessoal que acompanha o Edir Macedo estão em pólos distintos e distantes.
É engraçado. A leitora Márcia Paes O. Correia chamou de "inverdades" o que a revista publicou sobre a IURD, e disse ficar "revoltada quando as pessoas usam inverdades para ganhar dinheiro". Portanto, em raciocínio cartesiano, ela deveria ficar deveras chateada com os pregadores da Teologia da Prosperidade, que pregam para ganhar dinheiro, usando inverdades. Estou errado?
Por fim, ao ler essas cartas à Ultimato, fico ao mesmo tempo triste e alegre: triste por saber que existem idéias tão limitadas quanto ao que significa seguir a Cristo, e alegre por constatar que minha veemente indignação se associa à indignação tanto da Ultimato como de muitos leitores que, a exemplo de alguns que tiveram suas cartas publicadas, entendem que seguir a Cristo é diferente de ganhar o mundo e perder a alma.
Jesus é bom. Ele nos basta.
* Leia nosso texto O caráter incompleto dos rótulos e alguns rótulos do mundo evangélico, neste blog, acessível facilmente pela busca.
Há outros textos correlatos a esta postagem, como O gnosticismo presente em nossas igrejas; Teologia de Panfletos (III) - "A unção que despedaça o jugo!".

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Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal e sua ascensão aos céus.
Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor.
No batismo bíblico em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo.
Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus, através do poder do Espírito Santo.
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Na Segunda Vinda de Cristo.
Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo.
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E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.