sábado, 22 de março de 2008

A teologia de panfletos (I)

Estou pensando em colecionar esses panfletos distribuídos por igrejas neopentecostais quando querem divulgar eventos. Já estou com dois panfletos muito interessantes. Posso até utilizá-los numa pesquisa teológica, não?
O primeiro deles promove uma "cruzada de milagres". Acho muito curioso o uso da palavra "cruzada", pois bem sabemos que as cruzadas foram investidas militares da Igreja Romana contra os muçulmanos na chamada "Terra Santa", nos tempos recuados da Idade Média. O objetivo era conquista territorial, vendido, porém, como guerra santa, guerra religiosa. De toda maneira, o vocábulo é usado largamente na seara evangélica, como nessas cruzadas evangelísticas que muitas igrejas fazem pelo Brasil, ou nas famosas cruzadas de Billy Graham, de Bernard Johnson, por exemplo.
Mas é uma cruzada de milagres. Esse é o atrativo, haverá coisas extraordinárias acontecendo, fenômenos que desafiam as leis naturais. Pessoas irão atrás de milagres. Geralmente, essas pessoas já freqüentam alguma igreja evangélica. Logo, os milagres serão um atrativo para os próprios crentes.
O mesmo anúncio oferece cura, como quem oferece qualquer produto ou serviço. Diz assim: "Venha receber sua cura". É certo e seguro, não há riscos.
O panfleto ainda traz duas outras informações: o pregador é usado em "revelações"; e nesses dias de evento "você vai descobrir o que está errado em sua vida". Essas duas propostas merecem alguns comentários.
Como membro de Igreja pentecostal, eu creio em dons espirituais do tipo carismático. Creio em profecias, glossolalia com interpretação, palavra do conhecimento, palavra da sabedoria, enfim, nos dons de verbalização e em todos os outros, como os dons de curar e a operação de milagres. Assim, não tenho problemas em crer na revelação como comunicação particular e direta de uma palavra concedida pela atuação do Espírito na igreja. Mas precisamos ter cuidado em todas as coisas.
O apóstolo Paulo afirma em I Co 14.26:
"Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro doutrina, este traz revelação, aquele outra língua, e ainda outro interpretação. Seja tudo feito para edificação" (grifei).
Creio que a revelação de que Paulo está cogitando é relacionada à palavra de conhecimento, como quando um servo de Deus se levanta na reunião e começa a dizer coisas acerca de um dos presentes, mas sempre para edificação, jamais como adivinhação nem fonte de constrangimento. Não se trata, nem de longe, da Revelação que os apóstolos e profetas receberam para escrever os Livros bíblicos, pois esta já cessou. Estamos mencionando a revelação como dom no curso do culto público.
E é isso que quero destacar: Paulo diz "quando vos reunis", e não "para que vós alcanceis visitantes". Os dons no culto público não servem como chamariz de platéia, mas de manifestações sobrenaturais do Espírito de Deus para crescimento coletivo da Igreja.
Outra coisa que precisa ser dita é que não é um culto nem um pregador, num dia marcado, que vai dizer o que está errado em minha vida. Pode até ser que, chegando lá, a pessoa descubra isso, mas não se deve fazer propaganda de um acontecimento de que não se tem certeza nem domínio. Fica parecendo que aquele evento é singular, especial, diferente, formidável, um dia para ser lembrado para sempre. Lembremos que a maioria das pessoas que buscam esse tipo de evento são os próprios crentes, que, em tese, têm como dia mais importante de suas vidas o dia em que aceitaram a Jesus como Salvador e Senhor.
Para terminar, apenas uma analogia: no Código de Defesa do Consumidor, um simples panfleto obriga o fornecedor do produto ou serviço a prestar exatamente aquilo que está escrito. É claro que existe a liberdade de culto, de consciência e de crença, o Direito não vai intervir numa relação inteiramente religiosa. Contudo, pensando em termos teológicos, será que também na esfera espiritual a proposta não vincula o ofertante? Dito de outro modo: não seria de bom alvitre os líderes de igrejas refletirem muito bem sobre promessas que jamais poderão cumprir? Não estariam eles sendo como fornecedores que não têm como cumprir suas obrigações, e que só fazem promessas porque querem atrair "frequesia"?
P.S.: O outro panfleto fica para depois.

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Um dos terríveis problemas da Igreja evangélica brasileira é a falta de conhecimento da Bíblia como um sistema coerente de princípios, promessas e relatos que apontam para Cristo como Criador, Sustentador e Salvador. Em vez disso, prega-se um "jesus" diminuído, porque criado à imagem de seus idealizadores, e que faz uso de textos bíblicos isolados, como se fossem amuletos, peças mágicas a serem usadas ao bel-talante do indivíduo.

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Em um só Deus e na Trindade.
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Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal e sua ascensão aos céus.
Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor.
No batismo bíblico em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo.
Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus, através do poder do Espírito Santo.
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Na Segunda Vinda de Cristo.
Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo.
No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis.
E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.