sábado, 22 de março de 2008

A teologia de panfletos (II)

Seguindo nosso breve estudo sobre a teologia de panfletos distribuídos por igrejas neopentecostais para divulgação de seus eventos, tomo agora o caso de outro anúncio, de uma das igrejas neopentecostais mais antigas no Brasil.
Bem no centro do panfleto surge a fotografia do fundador da denominação. Aliás, seu nome aparece em todas as placas da Igreja. Fazem questão de dizer que ele é o fundador. É um homem de importância para os membros da comunidade, embora não apareça na TV nem seja conhecido do grande público.
O velho pregador aparece de jaleco branco, segurando a Bíblia aberta, com um sorriso paternal e "milhares" de muletas, cadeiras de roda e aparelhos ortopédicos atrás de si. Segundo o anúncio, são objetos deixados por pessoas curadas por Jesus "através da oração" desse homem.
Dessa forma, de jaleco branco e tudo, e com a frase de que a "medicina de Deus" vai operar "o milagre em você", a Igreja cujo nome não vou citar - por causa dos "fiéis" - acaba contrastando de algum modo a medicina dita de Deus com a medicina dos homens, como se as duas não fossem igualmente provenientes de Deus.
Sim, tudo o que é bom vem do SENHOR (Tg 1.17). A ciência pertence ao SENHOR (Rm 11.33). Quando consultamos o conhecimento do médico, tomamos um remédio ou nos submetemos a um tratamento ou cirurgia, é Deus quem está operando, não pode haver dúvida quanto a isso.
É Deus quem promove a cura, em qualquer situação, porque a medicina vem d'Ele. Do contrário, estaremos dizendo que o homem pode, sozinho, descobrir a solução de enfermidades, sem a provisão divina em termos de vocação do médico, capacitação, permissão para que haja hospitais, tecnologia e utensílios necessários à cura de doenças. Em última análise, tudo o que é bom vem de Deus, incluindo a inteligência dos homens.
Jesus cura, sim, de modo sobrenatural, e aqui estamos nos referindo aos "dons de curar" (I Co 12.9) e à oração da fé, que cura o enfermo (Tg 5.15). Há curas milagrosas, não tenho dúvidas quanto a isso. A questão é que não posso garantir que haverá curas, nem posso rejeitar a medicina.
Não é curioso que Paulo se fizesse acompanhar em suas viagens missionárias por um médico (Cl 4.14), e que esse mesmo médico tenha sido usado por Deus para escrever o terceiro Evangelho?
Na ilha de Malta, parece que o médico Lucas teve oportunidade de empregar seus conhecimentos médicos, quando diagnosticou no pai de um chefe local um estado de ardente febre e disenteria. De acordo com o Novo Comentário da Bíblia (Edições Vida Nova, V. II, 1963, p. 1148), "Toda a história da permanência do narrador em Malta é contada do ponto de vista de um médico' (Harnack)".
Naquele instante houve cura pelas mãos de Paulo, com oração (At 28.7,8-9), mas também há um indício lingüístico de que Lucas tratou dos moradores da ilha no sentido terapêutico, de tratamento médico mesmo (At 28.9). Então, Paulo curou segundo a "medicina de Deus", como quer a teologia do panfleto mencionado, e Lucas curou pela "medicina dos homens". Tudo bem.
Devemos analisar as coisas com muito cuidado. Essa tendência de refutar o conhecimento científico é uma das características de movimentos que não possuem uma boa teologia da Criação, e que espiritualizam a vida.

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Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
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E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.