terça-feira, 13 de maio de 2008

Estudos no Apocalipse - Falso profetismo e prostituição, de um lado; mas persiste um remanescente fiel (2.18-29)

Voltando-se à igreja que estava em Tiatira, João apresenta Jesus como "o Filho de Deus, que tem os olhos como chamas de fogo e os pés semelhantes ao bronze polido" (v. 18). Mais uma vez se faz referência à visão de Jesus glorificado, no que toca às figuras de Sua divindade e majestade (1.9-20, esécialmente 14 e 15), mas o apóstolo usa agora a expressão "filho de Deus", em lugar de "filho do homem". João já empregara essa expressão no Evangelho e em sua Primeira Carta, algo que não é comum no Apocalipse.
A Carta começa com a fórmula "conheço as tuas obras..." (v.19), semelhante a outras (2.4, 9, 13, 3.1, 8, 15). Jesus é Aquele que conhece todas as coisas e cada um em particular. Ele é Onisciente. Jesus não lê pensamentos - Ele conhece de antemão, sem recorrer a expedientes adivinhatórios. Jesus é Deus.
O que Jesus elogia em Tiatira? Suas obras, seu amor, sua fé (=fidelidade), seu serviço, sua perseverança e suas últimas obras. Diz ainda que estas obras são maiores que as primeiras, o que contrasta vividamente com o dito de Éfeso em 2.4. Desse modo, é certo que houve um aperfeiçoamento.
No entanto, logo vem o "tenho, porém, contra ti". Nesse caso, o pecado era de tolerância ao pecado de outrem. A advertência foi motivada pela tolerância a uma mulher, que João chama de "Jezabel", a qual "se declara profetisa", e que obtém permissão de ensinar, seduzir os servos de Deus a praticarem a prostituição e a comerem coisas sacrificadas aos ídolos (cf. 2.20).
Certamente o nome Jezabel é uma alusão à terrível mulher de Acabe, que dominou o fraco marido, levou seu paganismo fenício para Israel, matou profetas, perseguiu Elias, comprou testemunhas falsas contra Nabote só para agradar seu caprichoso esposo. Jezabel é aqui sinônimo de impiedade, perversão. Não creio que o nome da tal profetisa fosse mesmo Jezabel.
A mulher declarava-se profetisa, assim como em Éfeso apareceram uns que se diziam apóstolos sem ser (2.2). Todavia, enquanto os efésios identificaram os falsos apóstolos e os acharam mentirosos, o pessoal de Tiatira acabou dando crédito à mulher sedutora. Pensem nisso: na igreja de Tiatira surgiu essa personagem que, com suas blandícias, conseguiu ser reconhecida como profetisa, a ponto de ser aceita como ensinadora!
Há um dado histórico de que o movimento do montanismo dominou a igreja em Tiatira por algum tempo, de 170 d.C. a 263 d.C. (PRIGENT: 2002, p. 67). Tratava-se de um ensino caracterizado por manifestações supostamente carismáticas, dentre as quais o profetismo. Será que João está profetizando sobre a dominação montanista décadas depois? Sou inclinado a supor que essa falsa profetisa já existia ao tempo da escrita do Apocalipse, como todos os problemas mencionados nas Cartas às sete igrejas, embora não duvide de que essa tendência tenha se fortalecido e se sistematizado com o passar dos anos.
Assim como os da doutrina de Balaão em Pérgamo (2.14), Jezabel ensinava a prostituição e a idolatria. Não vejo aqui metáforas: para mim, era prostituição mesmo, era idolatria mesmo.
Talvez fiquemos hoje assustados com o fato de uma mulher enganar uma igreja ou parte dela, mas devemos considerar duas coisas: a) a influência do gnosticismo, presente naquela época sobre igrejas, criou duas situações, que eram a do ascetismo e da libertinagem, ambas a partir da premissa de que a carne, como corpo, deveria ser desprezada - desprezada pelas práticas de abstinência (ascetismo) ou desprezada em termos de "o que se faz com o corpo não interfere na alma" (libertinagem); b) não é verdadeiro afirmar que em igrejas do nosso tempo seja impossível existirem práticas espúrias como as incitadas por "Jezabel", notadamente naqueles lugares em que se levanta um falso profeta reconhecido no grupo. Ouvi relato acerca de um falso líder que praticava relações ilícitas com mulheres da comunidade supostamente cristã. Tudo isso é absurdamente anti-bíblico, e cria estupefação e escândalo, mas não podemos dizer que fosse exclusividade de uma igreja em Tiatira.
Jesus continua suas advertências: lembra que já dera tempo para que a profetisa se arrependesse "da sua prostituição"; afirma que irá prostrar "de cama" e em "grande tribulação" a profetisa e os que com ela adulteram, caso não haja arrependimento (vv. 21,22). Haveria, pois, uma enfermidade enviada por Deus para obter cura ou juízo, dependendo da reação das pessoas envolvidas.
Além disso, Ele diz "matarei os seus filhos, e todos as igrejas conhecerão que eu sou aquele que sonda mentes e corações, e vos darei a cada um segundo as suas obras" (v. 23).
Entretanto, havia ainda um remanescente fiel, "tantos quantos não têm essa doutrina e que não conheceram, como eles dizem, as coisas profundas de Satanás" (v.24). É interessante aqui o uso da figura de linguagem chamada ironia: o texto diz que, segundo os adeptos da profetisa, os outros não conheciam "as coisas profundas de Satanás". Penso que seja uma referência ao fato de que os gnósticos, e as religiões de mistério em geral, dizem a respeito de conhecimentos ocultos, elevados, próprios de um grupo de iniciados, que chegaram a determinados degraus de cognição. Pelo recurso literário da ironia, diz-se aqui que esses conhecimentos são mesmo profundos, mas profundos em Satanás.
Como deve ter sido difícil para os fiéis de Tiatira suportar o pecado de "Jezabel" e a tolerância oficial! O remanescente sempre padece, pois luta contra estruturas. São eles agora conclamados a conservar o que têm, diz Jesus, "até que eu venha" (v. 25).
Segue a promessa: "Ao vencedor, que guardar até ao fim as minhas obras, eu lhe darei autoridade sobre nações, e com cetro de ferro as regerá e as reduzirá a pedaços como se fossem objetos de barro; assim como também eu recebi de meu Pai, dar-lhe-ei ainda a estrela da manhã. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas" (vv. 26-29).
Note-se a remissão ao Sl 2.8,9, texto claramente ligado ao Messias - é ao Messias que é concedida autoridade sobre as nações como Sua herança e possessão, para regê-las com vara de ferro e despedaçá-las como a um vaso de oleiro.
Considerando que o que o vencedor receberá é o que Jesus conquistou no Calvário, penso que não se trata de um governo político no futuro, mas afirmação de que o Reino de Deus em Cristo é formado pelos salvos, os que foram feitos filhos de Deus, mas não na condição de súditos, e, sim, de herdeiros. Isso é muito importante: não fomos chamados para servir como súditos no Reino Celestial, embora sejamos servos de Deus - fomos chamados para reinar com Cristo eternamente. A questão não é prometer a nós um governo político sobre o mundo em qualquer época - agora ou num eventual Milênio -, mas prometer que nossa vitória é garantida pela vitória de Cristo, que adquiriu, pela morte, poder sobre todas as coisas.
Por fim, apenas porque considero isso relevante: pensemos na figura de Jezabel com muita seriedade. A figura que exsurge do texto apocalíptico é grave, pois uma falsa profetisa engana parte de uma igreja local, fundamentada provavelmente em sua capacidade verborrágica, e deixa um remanescente aflito. Jamais podemos fundar nossa fé em profecias, nem em quaisquer outros dons carismáticos. Conquanto eu creia em profecias, e as considere necessárias, todas as profecias precisam ser submetidas ao crivo da Palavra de Deus. É certo que o caso de "Jezabel" é bem específico, relacionado que estava a doutrinas pagãs. Mas há o perigo de pessoas menos avisadas saírem atrás de movimentos "proféticos", visitarem mulheres conhecidas por suas profecias, ou de crentes se reunirem, não mais no templo, e sim em casas de supostos profetas, para orações em busca de manifestações carismáticas, sem a supervisão de um pastor. Nessa seara, todo cuidado é pouco.
PRIGENT, Pierre. O Apocalipse. São Paulo: Edições Loyola. Tradução Luiz João Baraúna, 2002, 455p.

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