terça-feira, 13 de maio de 2008

Estudos no Apocalipse - A igreja que Jesus amou (3.7-13)

Deixemos que PIERRE PRIGENT (2002: 79) nos dê uma apresentação da cidade asiática de Filadélfia:
"Filadélfia era uma pequena cidade de existência relativamente recente (segunda metade do século II a.C.). Ela é assim denominada em memória do seu fundador, Atalo II Filadelfo. É picante (sic) constatar que depois do favor imperial manifestado primeiro por Tibério (no ano 17 o imperador ajuda na construção da cidade gravemente atingida pelo tremor de terra) e depois por Calígula, a cidade levou por um momento o nome de Nova Cesaréia. Alguns anos depois, recebeu por um tempo o nome de Flávia em honra de Vespasiano. Só a sua importância relativa explica que uma cidade tão preocupada em venerar os imperadores tenha tido de esperar o século III para receber a dignidade do neocorato.
Localizada em plena região vulcânica, Filadélfia era justamente reputada tanto pela freqüência dos seus perigosos terremotos como pela fertilidade dos campos ao seu redor".
Ainda de acordo com PRIGENT (idem), Eusébio informou que uma das profetisas montanistas, Âmia, era originária de Filadélfia.
Filadélfia é para os cristãos um nome emblemático. Existem igrejas e organizações para-eclesiásticas que adotam em sua denominação o termo "filadélfia". A Capital do Estado americano da Pensilvância - Philadelphia - não tem esse nome por acaso. Trata-se de um fruto dos colonizadores protestantes ingleses no Séc. XVII.
Ao lado da igreja em Esmirna, está a igreja em Filadélfia recebendo só elogios de Jesus Cristo. Assim como Esmirna deveria ser fiel até à morte para receber a coroa da vida (2.10), Filadélfia deve conservar o que tem, para que ninguém tome a sua coroa (3.11).
Comparando Filadélfia e Esmirna, fico pensando por que motivo não há uma cidade americana chamada "Esmirna" (se há nunca ouvi falar); e por que movito não há igrejas - pelo menos brasileiras - que em sua denominação adotaram o vocábulo "Esmirna". Deve haver uma explicação, pois aquela igreja também só recebeu elogios.
Conversando com a minha esposa, ela sugeriu uma hipótese que considero razoável - a igreja em Esmirna sofreu muito e era pobre. Parece que as pessoas não querem passar por isso, como se as igrejas-modelo não sofressem. Aliás, ninguém olha para as igrejas pobres do mundo como igrejas-modelo. As igrejas tomadas como exemplo geralmente têm dinheiro e relações políticas.
Mas, voltando ao caso de Filadélfia, Jesus apresenta-Se a ela como "o santo, o verdadeiro, aquele que tem a chave de Davi, que abre, e ninguém fechará, e que fecha, e ninguém abrirá" (v.7).
A referência a Davi é um dos exemplos do caráter judaico de muitas metáforas apocalípticas, unindo, assim, gentios e judeus na observação do que está por vir.
Chave de Davi é claramente uma alusão a Is 22.22, em que o profeta diz: "Porei sobre o seu ombro [de Eliaquim] a chave da casa de Davi; ele abrirá, e ninguém fechará, fechará, e ninguém abrirá". O texto é messiânico: Jesus, descendente de Davi (22.16), é o Messias, com poder sobre a morte e o inferno (1.18). Vale dizer que isso é crucial para entendermos que não é o diabo que envia as pessoas para o Inferno, mas Deus é Quem determina soberanamente o destino de justos e ímpios.
Segue a fórmula "Conheço as tuas obras", com o acréscimo: "eis que tenho posto diante de ti uma porta aberta, a qual ninguém pode fechar - que tens pouca força, entretanto, guardaste a minha palavra e não negaste o meu nome" (v.8).
O santo e verdadeiro, que detém a chave de Davi, abriu uma porta diante dos irmãos em Filadélfia, e ninguém pode fechar. As pessoas gostam dessa expressão "uma porta aberta". Todo mundo quer uma porta aberta, ninguém aprecia portas fechadas. Já escutei muitas vezes "porta aberta" como sinônimo de "porta de emprego". Creio que isso diminui o peso da palavra dada à igreja em Filadélfia, embora ninguém saiba que porta seria essa. O fato é que as pessoas gostam de portas abertas.
Contudo, aquela igreja tinha pouca força, e em momento decisivo guardou os mandamentos do SENHOR, e não negou o Seu nome. Aquela igreja tinha obediência e integridade, duas coisas que as "igrejas-modelo" de hoje nem sempre destacam como aspectos principais. Dito de outro modo: podem até ser obedientes e íntegras, mas não destacam essas virtudes como fundamentos de seu sucesso. O que se destaca é o crescimento numérico, a capacidade de organização, o envio de missionários, a implantação de outras igrejas, a inserção na sociedade.
Ora, tudo isso é importante, e creio piamente que qualidade gera quantidade: se uma igreja é realmente dinâmica, o crescimento numérico é seu destino natural. No entanto, o primordial numa igreja é seu caráter, ainda que com pouca força, e não seu "impacto" social.
Os irmãos em Filadélfia tinham problemas. Diz o texto: "Eis que farei que alguns dos que são da sinagoga de Satanás, desses que a si mesmos se declaram judeus e não são, mas mentem, eis que os farei vir e prostrar-se aos teus pés e conhecer que eu te amei. Porque guardaste a palavra da minha perseverança, também eu te guardarei da hora da provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para experimentar os que habitam sobre a terra" (vv. 9,10).
A expressão "sinagoga de Satanás" e a menção a uns supostos judeus ocorreu antes, na Carta a Esmirna (2.9). O movimento judaizante é antigo, vez por outra quer influenciar a Igreja. E, sem querer fomentar a polêmica, afirmo que esse movimento judaizante percorre igrejas brasileiras com muito vigor em nossos dias, com símbolos estritamente judaicos importados para o culto cristão, e com uma pregação do Antigo Testamento sem entender que o Novo Testamento é espelho e cumprimento do Antigo - Jesus cumpriu a Lei!
Há uma promessa aqui: os judeus impostores iriam se prostrar aos pés dos crentes, considerando que Jesus os amou. Jesus ama a todas as pessoas, boas ou más. Porém, seu amor especial é devotado a quem guarda os Seus mandamentos. É um amor em termos de afinidade, amizade, sentimento de aprovação.
Sobre o versículo 10 parece que criaram certa confusão. Os defensores do Pré-tribulacionismo dizem que a "provação que há de vir sobre o mundo inteiro, para experimentar os que habitam sobre a terra", seria a Grande Tribulação. Aliada a isso, está a noção de que as sete igrejas da Ásia representam sete estágios da Igreja no decurso da História, premissa que coloca Filadélfia e Laodicéia como símbolos da situação final da Igreja, perto da volta de Cristo.
Usando uma gíria - que não é de meu costume - digo que essa interpretação "força a barra". Até se pode argumentar melhor em prol do Pré-tribulacionismo, mas não com base nesse versículo. As igrejas do Apocalipse realmente existiram, não vendo eu motivo para alegorizar onde a Bíblia não permite.
Seguem as promessas: "Venho sem demora. Conserva o que tens, para que ninguém tome a tua coroa. Ao vencedor, fá-lo-ei coluna no santuário do meu Deus, e daí jamais sairá; gravarei também sobre ele o nome do meu Deus, o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém que desce do céu, vinda da parte do meu Deus, e o meu novo nome. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas".
Em Ap 21.2 temos notícia da Cidade Santa, a Nova Jerusalém, que desce do Céu, "ataviada como noiva adornada para o seu esposo". Embora queira deixar essa reflexão para depois, adianto que a Nova Jerusalém é para mim a própria Igreja de Cristo, e não uma exatamente cidade, pois a indicação é sobre o tabernáculo de Deus com os homens, a morada de Deus (Ap 21.3). Deus mora na Igreja, nos corações dos crentes. O Reino Celestial é prosseguimento cabal e perfeito do que já ocorre em nossos corações enquanto cristãos. Lembremos que a cidade é chamada de noiva, metáfora para a Igreja (Ef 5. 25-27; Ap 22.17).
O nome do santuário de Deus, o nome de Deus e o novo nome de Cristo inscritos no vencedor, agora coluna desse mesmo santuário. Santuário, tabernáculo, cidade, noiva, coluna. Não somos capazes de ver que isso são metáforas? Vale dizer que considerar uma expressão como sendo metafórica não lhe retira a validade, como talvez pensem os literalistas. Pelo contrário, a atitude que atenta contra o texto é aquela de tentar dar um sentido próximo a nós pelo simples fato de não vermos sentido aparente. Além disso, um texto pode ter em sua mensagem não apenas palavras, mas também figuras de linguagem, o sentido conotativo e o denotativo, coisas que não devem ser desprezadas pelo bom hermeneuta.
Portanto, ganharemos muito mais se olharmos a igreja em Filadélfia como igreja real. Todas as sete igrejas do Apocalipse estão vivas hoje pelo mundo afora. Estou certo de que Filadélfia está por aí.
PRIGENT, Pierre. O Apocalipse. São Paulo: Edições Loyola. Tradução Luiz João Baraúna, 2002, 455p.

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