sexta-feira, 2 de maio de 2008

Não quero ser um Cidadão Kane

Ontem assisti ao clássico Cidadão Kane, de Orson Welles. Confesso que foi a primeira vez. Minha esposa tinha comentado que nos "sites" de cinema o pessoal elogia muito esse filme, sendo quase uma unanimidade. Assim, aproveitei o feriado e assisti não só o filme, mas também o Documentário A Batalha por Cidadão Kane.
Produzido em 1941, Cidadão Kane (Citizen Kane) foi dirigido e protagonizado pelo jovem Orson Welles, que tinha 24 anos e acabara de assinar um importante contrato em Hollywood, depois de ter conquistado fama nacional no programa radiofônico em que noticiava a invasão da Terra por marcianos. Na verdade, ele estava lendo trechos do livro "A Guerra dos Mundos", de H.G.Wells, mas não disse que era uma leitura de livro, e houve grande conturbação social por causa disso.
Bem, Cidadão Kane foi baseado em fatos reais, mais precisamente na história do milionário William Randolph Hearst, que, em vez de cuidar da mina da família, fonte de sua grande fortuna, resolveu ser dono de jornal (Examiner) e com isso influenciar mentes e corações com notícias não raro manipuladas ou mesmo forjadas por ele.
O milionário excêntrico também quis se envolver com política, chegando a se pré-candidatar à presidência dos Estados Unidos. Teve enorme influência nos estúdios de Hollywood, e quase conseguiu barrar a exibição do filme que o retratava de maneira tão clara. Até seu romance extraconjugal com a atriz Marion Davies foi trabalhado por Welles.
Hearst construiu um palácio faraônico na Califórnia, num lugar chamado San Simeon, numa propriedade que media a metade do Estado americano de Rhode Island. Havia nele monumentos da Antiguidade Clássica e animais exóticos, construções estupendas, revelando sua riqueza incomensurável. Tudo isso Orson Welles retratou com tanta veemência que o documentário acima citado atribui a Cidadão Kane os problemas que o cineasta teria no futuro.
O interessante é que Hearst e Welles se mostraram muito parecidos, e se acredita que, ao biografar o ricaço, o cineasta estava retratando a si mesmo.
Uma das cenas mais emblemáticas para mim é quando o amigo e funcionário Leland diz a Kane que ele só falava em ajudar os trabalhadores para mostrar o quanto os amava; que ele não admitiria que os trabalhadores se organizassem, para que dependessem dele; enfim, que ele estava sendo egocêntrico. Essa fala sintetiza toda a história, pois o personagem Charles Foster Kane só pensava em si mesmo, embora quisesse dar a impressão de ser uma figura altruísta. Dessa forma, sua aparente preocupação com o povo e com a verdadeira notícia era o modo que ele tinha encontrado para agigantar a sua própria imagem, por ser extremamente vaidoso.
Na política, Charles Kane queria ser o primeiro, sem se importar verdadeiramente com os interesses sociais que dizia defender. Chegou a casar com a sobrinha do presidente americano sem sentir nada por ela, apenas para se aproximar do poder. No segundo casamento, com a incompetente cantora Susan Alexander, ele mostrou mais uma vez seu egoísmo, ao impulsionar artificialmente uma carreira sem futuro só para provar do que era capaz. Isso só terminou quando a coitada pediu, pois não agüentava mais passar vergonha. E, quando ia embora, Susan disse a Kane o que ele merecia ouvir: ele só pensava em si mesmo.
Como não pôde dominar o mundo, Kane refugiou-se no seu pequeno império, onde havia dois animais de cada, como na Arca de Noé, prédios fabulosos e obras de arte. Ali o Cidadão Kane era um rei, que foi se tornando um velho encarquilhado e solitário.
Não é preciso dizer que temos a tendência de querer ser como o Cidadão Kane. Somos tentados ao poder, ao domínio dos outros. Queremos dominar, não apenas territórios, mas mentes e corações. Se possível, escreveremos notícias criadas por nós, lutaremos pelos direitos dos assalariados sem ouvir suas queixas, estabeleceremos nosso mundo maravilhoso e fechado ao redor de nossos próprios umbigos. Seremos, assim, atraídos pela estupidez que, ao longo da História, provou levar a um péssimo destino.
O Cidadão Kane tem um pouco de todos nós. Não se trata de mocinho ou vilão, herói ou anti-herói - essas coisas só existem na ficção. Kane é um homem, com suas contradições, seus pecados e suas virtudes. Um homem que mostrou um modelo que não deve ser imitado por aqueles que conhecem a Cristo, porque Cristo veio mostrar o modelo do Servo, de quem se despojou de Sua glória para servir a quem não merece, e por amor.

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E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.