quinta-feira, 19 de junho de 2008

Rascunhando temas de "Teologia Negra"

O pessoal da Teologia Negra tem seus textos prediletos, como At 13.1, em que ficamos sabendo de um Simeão, chamado Níger, membro destacado da igreja em Antioquia...
Há também aquele etíope que tirou Jeremias literalmente do fundo do poço (Jr 38.1-13), e o outro etíope que era alto oficial da rainha dos etíopes (At 8.26-40).
De acordo com Jr 13.23, resta claro que os etíopes da época de Jeremias tinham a pele escura. Os etíopes eram os nascidos na terra de Cuxe.
Seria Sofonias um cuxita (Sf 1.1)? Essa é uma questão de interesse dessa perspectiva teológica negra. Quanto à segunda esposa de Moisés não há dúvida de que era cuxita (Nm 12.1-16). A Teologia Negra pergunta-se se acaso a sedição de Arão e Miriã contra Moisés "por causa da mulher cuxita" (Nm 12.1) não teria sido motivada por racismo.
O profeta Amós questiona: "Não sois vós para mim, ó filhos de Israel, como os filhos dos etíopes"? (Am 9.7). No entanto, quão xenófobos se tornaram os israelitas! A xenofobia é irmã do racismo.
Alguém disse de maneira estapafúrdia que a maldição de Caim (Gn 4.15) teria sido a pele escura. Foram os Mórmons? Agora não lembro, mas sei que os Mórmons eram racistas e depois mudaram sua doutrina.
Alguns ainda hoje dizem que paira sobre a África negra a maldição de Noé sobre Canaã (Gn 9.25,26). Baseiam-se na forma como os descendentes de Sem, Cão e Jafé se espalharam pelo mundo, ensinando que Sem é pais dos orientais, Cão, dos africanos, e Jafé, dos europeus. Ora, justamente por isso, é bom lembrar que Canaã não tem nada a ver com a África, pois Moisés se refere explicitamente àqueles povos que habitavam a Terra Prometida, a qual lhes foi tirada por Israel, nação semita. A maldição conferida por Noé não alcançou outros descendentes de Cão, embora tenha sido este o filho que viu a sua nudez.
Tudo isso são temas de uma Teologia Negra. Mas há a necessidade de ampliar a atenção a todas as nações, a todas as etnias, porque a discriminação racial não se limita aos negros. Judeus, ciganos, curdos, libaneses, enfim, etnias minoritárias ou em situação mais frágil têm sido oprimidas ao longo dos séculos. A preocupação deve ser maior do que simplesmente com relação aos negros, o que não impede a formulação de idéias teológicas a partir de textos bíblicos que destacam personagens negros, por exemplo.
Em vez de "raça", a palavra mais recomendada é "etnia". Na verdade, não há raças, somos todos a Raça Humana. Temos, é certo, biotipos diferentes, a cor da pele, o jeito dos olhos, o cabelo, a altura...Mas somos integrantes da Humanidade, temos um mesmo ancestral - Adão.
Não preciso citar aqui tantas e tantas referências bíblicas a respeito do plano de Deus para as nações. Posso ao menos lembrar aquela promessa a Abraão, de que em sua semente seriam abençoadas todas as nações ou famílias da terra (Gn 12.3). Ou aquela passagem de Am 9.7, já referida, em que o profeta menciona o cuidado de Deus em conduzir os siros de Quir e os filisteus de Caftor, assim como conduzira Israel do Egito. Ou, ainda, a ênfase apocalíptica no sentido de que haverá a reunião celestial de todas as tribos, línguas, povos e nações. Ou, ainda, a menção de que o Evangelho será pregado até aos confins da terra (At 1.8), a toda criatura (Mc 16.15), a todas as nações (Mt 28.19).
Deus não é racista. Deus é o Criador da diversidade étnica, cultural, biológica. Deus é sábio. Deus gosta da pluralidade.
Quanto ao Brasil, não o considero um País racista, nem creio que os negros sejam vítimas de uma perseguição nas relações institucionais e sociais. Se há distorções econômicas, profissionais e sociais em relação aos negros brasileiros, isso se deve à forma como foram introduzidos no País, por meio do regime escravocrata, que, durando séculos, contribuiu para uma cultura patrimonialista, de violação dos direitos da personalidade. O negro sofreu com isso, mas nossa sociedade não vive, nem de longe, a segregação racial que os Estados Unidos viviam até a década de 1960, e que foi alvo da luta pacífica do pastor batista Martin Luther King. Aliás, muito desse preconceito existe lá até os dias atuais.
De fato, a Igreja norte-americana é profundamente marcada pela divisão racial, que está presente em sua formação histórica e no desenho da sociedade. Igrejas inteiras são negras ou brancas. O racismo social reflete-se na idiossincrasia da igreja estadunidense. É uma pena. Mas o Brasil é diferente, precisamos entender isso para não criarmos divisões raciais sob o pretexto de buscarmos "corrigir distorções históricas".
A Teologia Negra pode contribuir muito para o debate do sistema de cotas, por exemplo. Há muito o que discutir. Só estou aqui pincelando algumas idéias elementares.
*Hoje, 17 de julho de 2010, reli este texto devido a um comentário do amigo João Armando sobre a postagem que fiz sobre o livro Uma gota de sangue, de Demétrio Magnoli. O uso da expressão "teologia negra" foi feito aqui, mas não a aprecio muito, nem estou de acordo com a adaptação ideológica do discurso evangélico e teológico à agenda política. Usei a expressão "teologia negra" como forma de me referir à abordagem étnica na Bíblia.

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Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
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No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis.
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