domingo, 8 de junho de 2008

A vocação de Estêvão e o legado que ele deixou

Alguém que tenha o mais elementar conhecimento da Escritura pode negar a vocação de Estêvão como pregador do Evangelho? No entanto, esse grande homem não teve tempo de empreender uma carreira longa, vindo a se tornar o primeiro mártir do Cristianismo.
Deveríamos pensar mais sobre Estêvão. Ele era possivelmente um judeu helenista, ou seja, um daqueles judeus que falavam grego como única ou segunda língua, além do aramaico, por causa da Diáspora (dispersão dos judeus devido a domínios estrangeiros).
Quando se mostrou necessário, a Igreja separou sete diáconos, sendo Estêvão um deles (At 6.1-6). Portanto, ele era um homem de boa reputação, cheio do Espírito e de sabedoria (v.3). Além disso, destacou-se entre os seus pares como sendo "cheio de fé e do Espírito Santo" (v.5).
Sendo cheio de fé, de sabedoria e do Espírito Santo, diz o texto lucano que Estêvão era ainda cheio de graça e de poder, fazendo prodígios e grandes sinais entre o povo (At 6.8). Há aqui a idéia de que o homem era usado por Deus, transbordando de dons espirituais e dando claras evidências do fruto do Espírito em sua vida.
Estêvão era um personagem marcante, uma figura verdadeiramente avivada. A pena de Lucas deixa entender que as características de Estêvão eram testemunhadas pelas pessoas à sua volta.
Certo dia, porém, houve um sério embate, pois se levantaram alguns da sinagoga dos Libertos, provenientes de Cirene, Alexandria, Cílicia e Ásia, e discutiam com Estêvão. Eles também eram judeus helenistas, e não eram cristãos. A sinagoga dos Libertos era, como toda sinagoga, dominada pelos fariseus.
A discussão dava-se em termos teológicos, e os oponentes "não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito" com que Estêvão falava (At 6.10). Nosso personagem tinha uma mistura especial: conhecimento profundo da Escritura e plenitude do Espírito.
Como os inimigos de Jesus fizeram anteriormente, esses agora subornaram alguns que testemunhassem falsamente contra Estêvão, imputando-lhe o pecado de blasfêmia contra Moisés e contra Deus (At 6.11). Eles estavam muitíssimo enraivecidos porque Estêvão falara algo sobre o Templo...
Já no Sinédrio, para onde foi levado pelo povo, anciãos e escribas (At 6.12), Estêvão ouviu acusações falsas de que ele pregara "contra o lugar santo e contra a Lei" (At 6.13).
Segundo os acusadores, Estêvão teria dito que Jesus, o Nazareno, destruiria "este lugar" (o Templo), e mudaria os costumes dados por Moisés (At 6.14). Parece que naquela época a profanação do templo era o único pecado a que o Sinédrio poderia aplicar a pena capital, pois todos os demais casos de pena de morte ficavam a cargo de Roma (DANA, p. 94).
Durante a sessão de julgamento,"todos os que estavam assentados no Sinédrio, fitando os olhos em Estêvão, viram o seu rosto como se fosse rosto de anjo" (At 6.15).
Agora vem um momento decisivo. Perguntado, pelo sumo sacerdote, se as coisas eram do jeito que as testemunhas falavam (At 7.1), Estêvão poderia mudar seu discurso, abrandá-lo, dar uma interpretação diferente, dizer que não fora compreendido...e escapar da condenação prescrita pela Lei de Moisés para o crime de blasfêmia. Entretanto, para surpresa de todos, Estêvão "foi com tudo", e resolveu defender com toda a clareza a tese de que o Altíssimo não habita em casas feitas por mãos humanas (At 7.2-53; cf. Is 66.1,2).
Vale dizer que em seu sermão Estêvão fez um brilhante resumo da História de Israel, passando por Abraão, Isaque, Jacó, José e seus irmãos, pela escravidão no Egito, por Moisés, Josué, Davi e Salomão, até chegar a Jesus Cristo; o que ele disse está contido nos Livros de Gênesis, Êxodo, Números, Deuteronômio, Amós, Josué, II Samuel, I Crônicas, II Crônicas, I Reis e Isaías; Estêvão disse corajosamente que, assim como os antepassados israelitas rejeitaram José, Moisés e os profetas, aqueles seus contemporâneos rejeitaram a Jesus Cristo e resistiram ao Espírito Santo - dali a alguns instantes, acabariam rejeitando a Estêvão também.
O resultado era esperado, e creio que Estêvão já estava certo disso. Os seus opositores estavam enfurecidos, rilhando os dentes (At. 7.54).
A seu turno,"Estêvão, cheio do Espírito Santo, fitou os olhos no céu e viu a glória de Deus e Jesus, que estava à sua direita" (At 6.55). Disse que via os céus abertos, e o Filho do Homem em pé à destra de Deus (At 6.56.). Ele estava perto de deixar este mundo.
Naquele momento, os terríveis opositores clamaram em alta voz, "taparam os ouvidos e, unânimes, arremeteram contra ele" (At 6.57).
Lançado fora da cidade, Estêvão foi apedrejado. As testemunhas deixavam suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo (At 7.58), que viria a ser depois o apóstolo Paulo, mas que naquela hora consentia em sua morte (At 8.1). Como era proveniente da Cilícia, talvez até fosse membro da Sinagoga dos Libertos.
Enquanto era apedrejado, Estêvão invocou ao SENHOR Jesus, para que recebesse o seu espírito (At 7.59); e pediu ao SENHOR que não lhes imputasse esse pecado (At 7.60).
Lucas conta que "alguns homens piedosos sepultaram Estêvão e fizeram grande pranto sobre ele" (At 8.2). Por sua vez, o jovem Saulo "assolava a igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, encerrava-os no cárcere" (At 8.3).
Com a morte de Estêvão, naquele mesmo dia começou "grande perseguição contra a igreja em Jerusalém" (At 8.1), de modo que todos foram dispersos, com exceção dos apóstolos, para as regiões de Samaria e da Judéia (At 8.1).
Mais adiante, em At 11.19-26, vemos que "os que foram dispersos por causa da tribulação que sobreveio a Estêvão" (v.19), foram se espalhando pelo mundo, indo para a Fenícia, Chipre e Antioquia, pregando só aos judeus. Alguns, porém, que eram de Chipre e Cirene, pregaram também a gregos em Antioquia, muitos dos quais vieram a crer no SENHOR Jesus. Ao saber disso, a igreja em Jerusalém enviou Barnabé a Antioquia, o qual, tendo chegado lá, se alegrou e os exortou a permanecerem firmes.
Semelhantemente a Estêvão, Barnabé é descrito como um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé. Foi ele quem saiu a buscar Saulo, e o levou a Antioquia, onde permaneceram durante um ano, ensinando a numerosa multidão. Mais tarde, esses mesmos Barnabé e Saulo foram separados, em Antioquia, para a obra missionária (At 13.1-3). Essa igreja se tornou importante na Igreja Primitiva, com seus profetas e mestres (At 13.1).
Assim, de algum modo a morte de Estêvão contribuiu para o nascimento da igreja em Antioquia, a primeira igreja gentílica, que foi evangelizada por pessoas que escapavam da perseguição iniciada no dia de seu apedrejamento. Ademais, por ironia, um dos líderes mais proeminentes de Antioquia foi justamente Saulo de Tarso, que consentira em sua morte!
A história de Estêvão oferece-nos muitas lições preciosas, e contém informações muito importantes:
Como visto, a morte de Estêvão deu início à perseguição e dispersão dos crentes. Talvez sua pregação dura contra a idéia de que Deus habita no Templo tenha servido de motivação para se quebrar a trégua concedida com o parecer de Gamaliel (At 5.33-42).
O caso de Estêvão mostra que não é de hoje que servos de Deus têm que se explicar diante de autoridades religiosas por elementos de seu ensino.
Estêvão dá-nos uma formidável lição de integridade e coragem a toda prova.
A pregação de Estêvão ficou registrada para a posteridade, e é o mais longo sermão do Livro de Atos, onde há pregações de líderes como Pedro e Paulo. Além disso, embora Lucas afirme que Apolo era eloqüente e poderoso nas Escrituras (At 18.24), não registrou uma linha sequer de suas pregações.
Com certeza, a ênfase que Lucas dá a Estêvão não é casual - trata-se de um personagem-chave na teologia lucana, e de estreita relação com a história de Paulo, ainda que em termos de perseguido-perseguidor.
Estêvão é o exemplo de pregador que morre pela Causa de Cristo, fazendo mais em sua morte do que em sua vida. É como a história daquele missionário que, segundo minha esposa, se preparou para evangelizar selvagens, mas logo foi morto por eles. No entanto, Deus enviou mais dez missionários para aquele lugar, os quais não puderam ser atacados, pois formavam um grupo. Nesse episódio, o primeiro missionário serviu a Deus com a sua morte, abrindo o caminho para outros, que se inspiraram em sua coragem.
Aqueles que permanecem vivos sentem-se encorajados por saberem que um líder foi fiel até à morte.
Estêvão deveria ser lembrado pelos pregadores do evangelho da vitória e da prosperidade, pois ele não foi livrado, não usou "determinação", não mentalizou seu sucesso sobre os inimigos, e morreu de maneira brutal - ele de fato entregou sua vida a Deus.

Livro consultado: DANA, H.E. O Mundo do Novo Testamento: Um estudo do ambiente histórico e cultural do Novo Testamento. 4ª ed. Tradução de Jabes Torres. Rio de Janeiro: JUERP, 1990, 215p.

Um comentário:

willian disse...

Irmão Alex, boa noite.

Querido, gostei muitto de sua colocação sobre a vida e morte de Estevão.

Esse grande servo de Deus é um exemplo para nós. Ser fiel até o fim e mesmo sabendo que a morte seria o resultado, realmente não é pre qualquer um.

Que Deus tenha misericórdia de nossas vidas, nos dando essa ousadia, fé e coragem no Espíirito Santo.

Um abraço, Deus te abençoe.

Pr Willian.

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Para você que lê o que escrevo neste espaço, precisamos comunicar alguns princípios:
1) Os estudos, artigos e reflexões teológicas não seguem uma linha de teologia denominacional, mas de estudos pessoais. Eu não fico aqui defendendo a minha denominação, que é outro tipo de abordagem, o qual respeito, mas não pratico neste blog.
2) Não pretendo agradar nem machucar ninguém.
3) Não escrevo manietado por interesses nem pressões. Sigo minha consciência, e penso escrever de acordo com a Bíblia.
4) O que escrevo é o que escrevo. Não estou preocupado se as pessoas interpretam mal ou ficam criando significados diversos daquilo que o texto diz. Minha preocupação é dizer o que penso, e creio que meu Português não seja tão ruim a ponto de dizer algo diferente daquilo que quis dizer.
5) Sou aberto a críticas e respeito opiniões divergentes.
6) Minha intenção não é polemizar, ainda que meus pensamentos possam ser objeto de eventual polêmica.
7) O que escrevo aqui concerne ao trabalho independente de um aprendiz da Teologia, e por isso não estou representando minha denominação - é bom frisar.
8) Se quisermos um rótulo, sou um “pentecostal histórico moderado”: estou começando a entender que a plenitude do Espírito tem dois aspectos - moral (At 6.3; 11.24; Gl 5.22,23; Ef 5.18-21) e carismático (At 2.1-4; 4.31; 6.8) - e que o batismo com o Espírito Santo pode ser evidenciado por outros sinais que não a glossolalia, como o profetizar (At 2.1-4; 8.17; 10.44-47; 19.6). Creio que, de algum modo, os dons espirituais estão relacionados à plenitude do Espírito, mas não consigo compreender que as línguas estranhas sejam sinal sine qua non do batismo com o Espírito Santo. Entendo que o batismo com o Espírito Santo tem o propósito de capacitar a igreja para a evangelização (At 1.8), com o incremento de dons, e não para que se exalte o dom de línguas em detrimento dos demais. Quero destacar, acima de tudo, que nessa questão eu tenho ainda mais perguntas do que respostas, mas sou honesto em admitir isso.
9) Tenho um juízo crítico muito aguçado, e uma pena algo contundente. Se o leitor se assustar com isso, me perdoe.
10) Quanto à escatologia e interpretação do Apocalipse, não adoto a priori nenhuma corrente teológica, mas tão-somente a análise textual, naquela perspectiva da Teologia Bíblica.
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Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal e sua ascensão aos céus.
Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor.
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E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.