sexta-feira, 18 de julho de 2008

Eu não entendo Saul

Saul é um personagem bíblico que me intriga. Ele é tão estranho, e ao mesmo tempo tão próximo a nós, tão "de carne e osso"...
Depois de ser ungido rei de Israel e passar pela experiência carismática com o grupo de profetas em Gibeá, Saul simplesmente omitiu tudo isso quando seu tio lhe perguntou o que Samuel lhe dissera, e só relatou que o profeta lhe havia informado sobre as jumentas perdidas (I Sm 10.1-16).
No momento de ser apresentado ao povo como o escolhido de Deus para ser rei, foi achado "escondido entre a bagagem" (I Sm 10.17-22).
Ante a desconfiança dos tais "filhos de Belial" (ARA) ou "vadios" (NVI) acerca de sua capacidade para liderar, Saul simplesmente "se fez de surdo" (I Sm 10.27).
Embora tivesse grande talento para a área militar - o que ficou claro na batalha contra os amonitas e em sucessivas vitórias (I Sm 11.1-11; 14.47,48), Saul quase pôs tudo a perder diante dos filisteus, e por dois motivos:
a) Primeiro, por não aguardar Samuel, e realizar, por si mesmo, sacrifícios e ofertas pacíficas (I Sm 13). Ora, Samuel havia dito a Saul que o esperasse por sete dias, que ele mesmo faria sacrifícios ali em Gilgal (I Sm 10.8), mas Saul não quis esperar. Vendo que o povo se espalhava, e que Samuel não aparecia, Saul resolveu seguir sua própria cabeça. Ao ver Samuel, disse que, "forçado pelas circunstâncias" (I Sm 12), ofereceu holocaustos, e seu discurso dá a entender que não lhe passava pela mente o fato de ter cometido um pecado, uma tolice, uma desobediência contra o mandamento do SENHOR. Para ele, estava tudo certo. Isso lhe resultou uma dura repreensão dada por Samuel, e a perda do reino mais tarde (I Sm 13.13,14).
b) Segundo, por determinar que seus homens fizessem jejum em plena movimentação bélica, o que os deixou exaustos (I Sm 14.24-28). Não fosse seu filho Jônatas, os israelitas teriam sido derrotados. O próprio Jônatas, quando soube da ordem de seu pai, reconheceu que, se os homens tivessem comido, suas forças teriam sido revirogadas (I Sm 14.29,30).
Nesse ínterim, Saul conseguiu se preocupar porque os homens comiam sangue (I Sm 14.31-35), o que era ilícito perante a Lei de Moisés; mas não se preocupou em consultar ao SENHOR antes de um novo ataque aos filisteus. Mais uma vez, foi salvo por uma terceira pessoa, desta vez o sacerdote, que o orientou a consultar ao SENHOR (I Sm 14.36,37).
Não obtendo resposta de Deus, Saul logo entendeu que alguém tinha cometido pecado no meio do povo. Lançando sortes, a sorte caiu justamente sobre Jônatas, que comera mel antes do encerramento do jejum. Afoito, tendo feito juramento de que mataria até mesmo seu filho Jônatas se este fosse o culpado, queria acabar com a vida do filho ali mesmo, mas foi impedido pela prudência de terceiros, mais uma vez (I Sm 14.38-46).
Vale transcrever a sábia palavra do povo: "Morrerá Jônatas, que efetuou tamanha salvação em Israel? Tal não suceda. Tão certo como vive o SENHOR, não lhe há de cair no chão um só cabelo da cabeça! Pois foi com Deus que fez isso, hoje" (I Sm 14.45).
Saul era beligerante. O texto diz que "para onde quer que se voltava, era vitorioso" (I Sm 14.47); que agiu "varonilmente, e feriu os amalequitas, e libertou a Israel das mãos dos que o saqueavam" (I Sm 14.48); que por todos os dias de seu reinado houve guerra com os filisteus (I Sm 14.52); e que "a todos os homens fortes e valentes que via, os agregava para si" (I Sm 14.52).
No entanto, além dos erros cometidos anteriormente, Saul viria a reincidir. De fato, mesmo sabendo que teria que destruir tudo entre os amalequitas, desde os objetos e animais até o rei, Saul achou razoável salvar o melhor dos despojos, e, ainda, salvar o próprio rei Agague.
Diante disso, Samuel ouviu a palavra do SENHOR no sentido de que se arrependera de constituir Saul como rei, o que demonstra, não que Deus tivesse errado, mas que as coisas teriam que mudar. Por causa desse novo episódio de Saul, Samuel ficou triste a clamou a Deus a noite inteira (I Sm 15.10,11).
Enquanto isso, o displicente Saul foi erigir um momumento que o exaltasse (I Sm 15.12). Como se diz popularmente, ele "não estava nem aí". E, mais do que isso, ao ver Samuel, disse "executei as palavras do SENHOR" (I Sm 15.13)...
A tolice de Saul era tamanha que insistiu em dizer que cumprira o mandado de Deus porque só salvou o melhor dos despojos, além do rei, destruindo todo o resto - no entanto, a ordem era para destruir tudo!
Em sua forma de pensar, Saul achava que estava certo porque os animais salvos serviriam para sacriricar ao SENHOR. Ele teve que ouvir de Samuel que obedecer é melhor do que sacrificar; que a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e a obstinação, como a idolatria e o culto a ídolos; que, tendo rejeitado a palavra do SENHOR, seria rejeitado como rei; que Deus lhe rasgara o reino, dando-o para um que era melhor do que ele.
Esse foi o fim da legitimidade do reinado de Saul, que dali em diante nunca mais teve contato com Samuel (ver toda a passagem de I Sm 15.14-35).
Fico pensando em como Saul foi tolo, obstinado, rebelde. Suas atitudes soam tão estapafúrdias que não parece que ele fosse inteligente. Entretanto, não se tem aqui um caso de pouca inteligência, mas de incompetência moral - Saul pensava errado porque era desobediente, descompromissado, desprovido de intimidade com Deus.
Com efeito, me parece que Saul se encaixa em descrições salomônicas do tolo, em contraste com o sábio. A pessoa estulta, ou estúpida, "mete os pés pelas mãos", como diz a gíria; faz coisas absurdas; ouve um comando e faz exatamente o contrário; oferece argumentos esquisitos, sem fundamento.
Mas eu comecei dizendo que Saul é tão estranho quanto próximo a nós. Ele é, sim, uma figura cujos sentimentos não são heróicos de todo, nem de todo desprezíveis - ele não é um personagem de histórias de mocinho e bandido, em que o maniqueísmo impera. A meu ver, o maior pecado de Saul foi ter seguido seu próprio coração, deixando de lado a orientação divina. Sua obstinação o tornou um homem insensível à voz de Deus.
É triste a história de Saul, que, depois de perseguir Davi por tanto tempo, acabou se suicidando (I Sm 18.17-30; 19.8-11; 31.1-7). Mas todo esse registro de sua pessoa e obra tem grande valor para nós hoje.
Não queiramos ser obstinados como Saul! Avaliemos nossa conduta e intenções. Vejamos se não estamos operando uma justiça ao nosso próprio modo, alheios ao SENHOR.
Aliás, quando Adão e Eva comeram da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, eles não estavam lançando o precedente para Saul, ao rejeitar a ética de Deus e inaugurar a ética humana?

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