quinta-feira, 10 de julho de 2008

Teologia de Panfletos (III) - "A unção que despedaça o jugo" (!)

No dia 22 de março deste ano inseri duas postagens sob o título "Teologia de Panfletos", ao mesmo tempo em que iniciava uma coleção desses papéis que igrejas neopentecostais distribuem fazendo propaganda de suas reuniões. Depois de mais de três meses, eis colocado no portão de casa um terceiro panfleto muito curioso, e que merece nosso comentário a seguir.
O convite é "Venha participar da unção que despedaça o jugo". O texto que segue transcrito abaixo desse convite é o de Is 53.4, onde o profeta diz: "Ele levou sobre si todas as nossas enfermidades, o castigo que nos traz a paz estava sobre Ele; e pelas suas pisaduras fomos sarados".
Que unção é essa que "despedaça o jugo"? Qual o entendimento que esses irmãos têm de "unção"? É algum poder dirigido nesse caso ao trabalho de despedaçar jugos? E o que é jugo? Será um outro nome para problema? Na concepção deles deve ser, porque outro apelo diz: "Traga a sua família!!! Deus tem uma resposta para o seu problema".
Embora o panfleto não se refira ao texto bíblico, a imagem do despedaçar o jugo vem de Is 58.6, mas não tem nada a ver com solução de problemas pessoais ou familiares. O profeta exorta o povo judeu a uma vida piedosa, autêntica, sincera, não disfarçada numa religiosidade legalista que convive com a escravidão. O jugo ali é a opressão que os próprios religiosos impunham sobre os trabalhadores, pois, enquanto faziam jejuns e penitências, os mais abastados obrigavam que os desfavorecidos trabalhassem duramente, além de não entenderem nada de justiça social e igualdade.
É bom ler refletidamente Is 58. O profeta clama contra a hipocrisia religiosa. O povo era tão cínico que ainda perguntava a Deus por que seu jejum, oração e penitência não eram aceitos pelo SENHOR. Havia completa cisão entre a religião e a ação.
Qual o jejum que Deus quer: "Porventura, não é este o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo? Porventura, não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres desabrigados, e, se vires o nu, o cubras, e não te escondas do teu semelhante?" (Is 58.6,7).
A figura que se vê é a de uma concessão de alforria: o senhor liberando o escravo, tirando as correntes que o prendem e deixando que ele se levante e saia andando livremente. Nenhum jejum é aceito por Deus quando com ele convive a opressão social.
Quanto ao texto de Is 53.4, acredito que os irmãos queiram dizer que haverá curas em sua reunião especial de hoje, dia 10 de julho. Sim, pode haver, mas não podemos prometê-las a ninguém. Ao citar essa passagem de Isaías em Mt 8.17, o Espírito Santo anuncia que o poder de curar pertence a Jesus Cristo. Ele mesmo tomou sobre si as nossas enfermidades e carregou com as nossas doenças (idem). Foi Ele, não eu. Jesus cura a quem quer, quando quer, como quer. Não posso marcar a hora de Sua operação, ainda que eu mesmo tenha recebido dons de curar (I Co 12.9).
Agora, essa igreja diz que é "uma igreja com propósito". Bem, isso me lembra Rick Warren, aquele pastor de uma igreja em Saddelback, na Califórnia, que lançou livros estimulando a procura de propósitos e passando a idéia de que o crescimento numérico da igreja se dá com a conscientização desses propósitos. Também promove a noção de que os templos devem ser multifuncionais, com estilos musicais variados, ambientes diversos para atividades múltiplas, tudo ao mesmo tempo, de maneira que a pessoa possa escolher a atividade de que queira participar e até mesmo o horário do culto. Há a difusão da idéia de que a pessoa pode, se quiser, ficar o dia inteiro dentro do templo, em suas mega-instalações. É, na verdade, uma estratégia de marketing bem característica da filosofia norte-americana. E eu pergunto: essa igreja do panfleto que ora comento é adepta do Rick Warren ou usa essa frase como inspiração para ver se cresce também? Bom, para saber isso eu teria que ir lá, mas sinceramente não estou disposto.
E não cito o nome da igreja por uma questão de respeito. Poderia citar, até porque o nome em si já é deveras interessante. Mas acho melhor não.
Até a próxima Teologia de Panfletos.
* Se o (a) leitor (a) quiser ler as duas "edições" anteriores, vá ao arquivo do blog e procure no mês de março.

Um comentário:

Anônimo disse...

A paz do Senhor! Ao ler seu comentário pude perceber que vc daria ao leitor uma oportunidade dele deixar tambem uma reflexão,então por essa oportunidade sobre o q vc mesmo deixou q nao se importaria de machucar ou agradar e so se preocupva com sua propria concepçao.Acho q nós escolhido de Deus temos q nos preocupar com o q Deus quer q nos falamos.A nossa funçao nao e mostrar nosso intelecto mas sim a gloria de Deus nao podemos atacar ninguem pelos seus erros, principalmente uma igreja ou uma campanha pois seria dividir um reino, pq uns entendem mais e outros ainda vao entender.lembre sempre o Espirito Santo é multiforme ele te usa de uma forma e a estes de outra.A final qual dos discipulosera mais intelectual Judas ou Pedro?Pois é...

Alguns princípios do editor deste blog

Para você que lê o que escrevo neste espaço, precisamos comunicar alguns princípios:
1) Os estudos, artigos e reflexões teológicas não seguem uma linha de teologia denominacional, mas de estudos pessoais. Eu não fico aqui defendendo a minha denominação, que é outro tipo de abordagem, o qual respeito, mas não pratico neste blog.
2) Não pretendo agradar nem machucar ninguém.
3) Não escrevo manietado por interesses nem pressões. Sigo minha consciência, e penso escrever de acordo com a Bíblia.
4) O que escrevo é o que escrevo. Não estou preocupado se as pessoas interpretam mal ou ficam criando significados diversos daquilo que o texto diz. Minha preocupação é dizer o que penso, e creio que meu Português não seja tão ruim a ponto de dizer algo diferente daquilo que quis dizer.
5) Sou aberto a críticas e respeito opiniões divergentes.
6) Minha intenção não é polemizar, ainda que meus pensamentos possam ser objeto de eventual polêmica.
7) O que escrevo aqui concerne ao trabalho independente de um aprendiz da Teologia, e por isso não estou representando minha denominação - é bom frisar.
8) Se quisermos um rótulo, sou um “pentecostal histórico moderado”: estou começando a entender que a plenitude do Espírito tem dois aspectos - moral (At 6.3; 11.24; Gl 5.22,23; Ef 5.18-21) e carismático (At 2.1-4; 4.31; 6.8) - e que o batismo com o Espírito Santo pode ser evidenciado por outros sinais que não a glossolalia, como o profetizar (At 2.1-4; 8.17; 10.44-47; 19.6). Creio que, de algum modo, os dons espirituais estão relacionados à plenitude do Espírito, mas não consigo compreender que as línguas estranhas sejam sinal sine qua non do batismo com o Espírito Santo. Entendo que o batismo com o Espírito Santo tem o propósito de capacitar a igreja para a evangelização (At 1.8), com o incremento de dons, e não para que se exalte o dom de línguas em detrimento dos demais. Quero destacar, acima de tudo, que nessa questão eu tenho ainda mais perguntas do que respostas, mas sou honesto em admitir isso.
9) Tenho um juízo crítico muito aguçado, e uma pena algo contundente. Se o leitor se assustar com isso, me perdoe.
10) Quanto à escatologia e interpretação do Apocalipse, não adoto a priori nenhuma corrente teológica, mas tão-somente a análise textual, naquela perspectiva da Teologia Bíblica.
11) Por fim, tenho convicção de que o SENHOR me chamou para pregar e para ensinar oralmente ou por escrito. Tenho convicção de que devo militar na área da educação cristã e da teologia. Se isso servir de ajuda, estou apenas tentando cumprir o meu chamado.


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Um dos terríveis problemas da Igreja evangélica brasileira é a falta de conhecimento da Bíblia como um sistema coerente de princípios, promessas e relatos que apontam para Cristo como Criador, Sustentador e Salvador. Em vez disso, prega-se um "jesus" diminuído, porque criado à imagem de seus idealizadores, e que faz uso de textos bíblicos isolados, como se fossem amuletos, peças mágicas a serem usadas ao bel-talante do indivíduo.

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Creio:
Em um só Deus e na Trindade.
Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristão.
Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal e sua ascensão aos céus.
Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor.
No batismo bíblico em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo.
Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus, através do poder do Espírito Santo.
No batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a intercessão de Cristo.
Na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja para sua edificação, conforme a sua soberana vontade.
Na Segunda Vinda de Cristo.
Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo.
No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis.
E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.