sexta-feira, 4 de julho de 2008

Será o pecado um conceito exclusivamente moral?

Nós evangélicos temos contribuído para a idéia de que o pecado seria um conceito exclusivamente moral. Pregamos contra atitudes pecaminosas, testemunhamos sobre o que deixamos de fazer desde que aceitamos a Jesus, e até "criamos pecados novos", conforme a subcultura evangélica que prescreve as condutas supostamente proibidas. Ao mesmo tempo, destacamos aqueles textos bíblicos em que o pecado é mencionado como uma atitude, especialmente os chamados "Catálogos de Vícios" (Mt 15.19,20; Mc 7.21-23; Rm 1.28-32; I Co 6.9,10; Gl 5.19-21; II Tm 3.2-5). Mas esquecemos de algumas coisas importantes...
Essa pregação voltada somente para o pecado enquanto conceito moral acaba deixando de alcançar pessoas de padrão ético elevado. De fato, existem pessoas justas em seu procedimento, mas que não conhecem a Cristo. "Justas" no sentido de adotarem um comportamento honesto, inspirado por valores que a Bíblia ensina (Rm 2.12-16). Não foram justificadas pela graça, mediante a fé (Rm 5.1; Gl 2.16; Ef 2.5,8,9), mas praticam atos dignos de um justo, e seu testemunho é ilibado, até melhor do que o de muitos cristãos. Olhando para o Sl 15, essas pessoas, a princípio, entrariam na habitação de Deus, deixando uns "crentes" de fora.
É certo que todos estão mortos em seus "delitos e pecados" (Ef 2.1,5), que "não há homem que não peque" (I Rs 8.46), que "todos pecaram e carecem da glória de Deus" (Rm 3.23). Em última análise, todas as pessoas cometem pecados, de maior ou menor gravidade, por pensamentos, palavras, sentimentos, ação ou omissão, com repercussão social ou não, com tipificação penal ou não, com reprovação dos outros ou não. Todos nós pecamos. No entanto, o conceito bíblico de pecado vai muito além disso.
Quero, antes, enfatizar o tema da perspectiva evangelística: é muito difícil pregar o Evangelho em bases exclusivamente morais para alguém cuja reputação é isenta de manchas. O que lhe diremos? Que ele precisa deixar a vida de pecado? Que suas ações são pecaminosas? Que Deus não Se agrada de seu comportamento?
A Escritura é mais profunda do que podemos supor. Nela o pecado vem retratado como um distanciamento do plano original de Deus e um distanciamento em relação ao próprio Deus.
Todas as pessoas são pecadoras porque herdaram o pecado de Adão, que consistiu em querer autonomia ética em relação a Deus, comendo da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal (Gn 2.8-17; 3; Rm 5.12-21). O Ser Humano podia comer de toda árvore do Jardim, menos aquela que lhe daria um alimento ético alienado de Deus. Ao comer da árvore proibida, o Ser Humano gritou sua independência, achando que suas escolhas entre o Bem e o Mal poderiam dispensar o conselho divino. Ele caiu no engodo da Serpente, e por isso achou que poderia se autodivinizar (Gn 3.5).
Expulso do Jardim, o Ser Humano morreu espiritualmente, como Deus havia prometido para o caso da desobediência (Gn 2.17). Ele foi "destituído da glória de Deus" (Rm 3.23 na ARC); ele morreu porque "o salário do pecado é a morte" (Rm 6.23). Thanatos vem do grego e quer dizer morte, separação. O Ser Humano morreu quando se separou de seu Criador. Não há verdadeira vida fora de Deus.
Desde Adão, o pecado passou a ser uma condição universal (Rm 5.12). Qualquer pecado, por menor que seja, sinaliza minha condição pecaminosa. Posso fazer o bem, dar exemplo de moralidade, mas qualquer pecado que eu cometer, mesmo em pensamento, sem que ninguém saiba, testemunhará quanto à minha condição de pecador. Disso ninguém escapa.
Então, para efeito didático, há que se distinguir pecado-condição de pecado-atitude. Todo mundo comete pecado-atitude porque está no pecado-condição. Paulo cuida detalhadamente desse assunto em Rm 5.12-8.11, e oferece a solução unicamente em Cristo.
Jesus Cristo é o Único que pode reatar a amizade entre Deus e o Ser Humano, pois, não tendo conhecido pecado, foi feito pecado em nosso lugar, para que fôssemos feitos justiça de Deus (II Co 5.18-21).
Jesus Cristo é Deus e Se esvaziou de Sua glória para vir ao mundo, como servo humilde, como homem, para morrer na Cruz (Fp 2.5-11);
Jesus Cristo é Deus e Se tornou Homem para ser mediador entre Deus e os homens (I Tm 2.5);
Jesus Cristo é "o resplendor da glória e a expressão exata do Ser [de Deus], sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder", e, "depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas (Hb 1.3).
Jesus Cristo é o Logos, o Unigênito do Pai, que encarnou e tabernaculou entre nós cheio de glória, graça e verdade (Jo 1.1,14; I Jo 1.1-4).
Jesus Cristo é o caminho, a verdade e a vida, e ninguém acessa o Pai sem o Seu intermédio (Jo 14.6).
Jesus Cristo foi Quem abriu o caminho para o Ser Humano se relacionar com Deus Pai (Hb 4.14-16).
Jesus Cristo é "a imagem do Deus invisível" (Cl 1.15).
Há muito mais para dizer sobre Jesus, Nosso SENHOR. Mas quero ficar por aqui, com um apelo para que anunciemos a Cristo como o Único que intercede pelos homens junto a Deus. Ele elimina o poder do pecado em nossas vidas.

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Um dos terríveis problemas da Igreja evangélica brasileira é a falta de conhecimento da Bíblia como um sistema coerente de princípios, promessas e relatos que apontam para Cristo como Criador, Sustentador e Salvador. Em vez disso, prega-se um "jesus" diminuído, porque criado à imagem de seus idealizadores, e que faz uso de textos bíblicos isolados, como se fossem amuletos, peças mágicas a serem usadas ao bel-talante do indivíduo.

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Em um só Deus e na Trindade.
Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristão.
Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal e sua ascensão aos céus.
Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor.
No batismo bíblico em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo.
Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus, através do poder do Espírito Santo.
No batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a intercessão de Cristo.
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Na Segunda Vinda de Cristo.
Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo.
No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis.
E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.