terça-feira, 8 de julho de 2008

Reminiscências de um auto-exilado

Lembro de minha mãe me ensinando sobre o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, sobre nossos antepassados. Ela sempre fez questão de deixar claro que eu não era egípcio. E veja só que coisa: pela providência divina, obtive formação intelectual de alto nível, como filho da filha de Faraó, e pude ser criado com a minha mãe, que me ensinou acerca de nossas origens e sobre o nosso Deus.
Sei que Deus agiu por meio da inteligência de minha mãe, que, tendo que me colocar no rio, por ordem do rei, mandou que minha irmã Miriã observasse o que ocorreria comigo. A própria Miriã foi bem espertinha também quando ofereceu à filha de Faraó a ajuda de nossa mãe para me criar. Por causa disso foi que eu obtive uma dupla cidadania, mas sempre me considerei um autêntico hebreu.
No Egito eu fui instruído em toda a ciência dos egípcios. Tornei-me poderoso em palavras e obras. Minha educação teve lugar, portanto, na sede do Império, onde aprendi sobre história, religião, legislação, literatura, estratégias militares e noções sanitárias, dentre tantas outras coisas. Eu tive contato, por exemplo, com o avançado Código de Hamurabi, e não me passaram despercebidas as antigas tradições sobre a gênese do mundo.
Mas, enfim, essas são informações que não interessam neste deserto...
Acho que já lhe contei, amigo, como vim parar por essas bandas de Midiã. Meu povo era duramente oprimido por Faraó, que o escravizava em trabalhos forçados. Aliás, ainda hoje eles estão lá sofrendo...
A escravidão começou quando se levantou um rei que não conhecera o nosso patriarca José, que em outros tempos fora governador por lá. Temendo o sucesso e o crescimento numérico do meu povo, o rei passou a afligi-lo com o trabalho na edificação de cidades e na lida do campo. Todo o serviço pesado os hebreus faziam. Apesar disso, o povo crescia ainda mais, o que fez com que o rei determinasse a matança dos meninos hebreus; como as parteiras protegeram os meninos, dizendo que as mulheres hebréias davam à luz antes que elas chegassem, o rei mandou que os meninos fossem lançados no rio Nilo, e foi justamente isso o que aconteceu comigo.
Quando atingi a idade de 40 anos, saí para ver como estavam meus irmãos hebreus e deparei com seus labores pesados, e especialmente com um egípcio que espancava um deles. Com o sangue fervendo, não hesitei, e acabei matando o egípcio, mas lhe digo que foi como numa defesa legítima de terceira pessoa. Sei que me excedi, mas meu intuito foi salvar a vida do meu irmão.
No dia seguinte, ao tentar apartar uma briga entre hebreus, um deles fez a pergunta que até hoje não me sai da cabeça: "Quem te pôs por príncipe e juiz sobre nós? Pensas matar-me, como mataste o egípcio? Logo percebi que haviam descoberto tudo.
Quando Faraó resolveu me perseguir, não tive escolha, e fugi para este deserto. Nunca mais voltei, e desde então vivo como um exilado.
Ah, mas do meu encontro com D. Zípora você já sabe, não? Pois bem. Ao chegar aqui, sentei junto a um poço. Ela e suas seis irmãs vieram tirar água para o rebanho de seu pai e foram enxotadas pelos pastores. Ora, não pude me conter...Acho que meu senso de justiça falou mais alto de novo, e defendi as moças. Também dei de beber ao rebanho.
Como gratidão, Jetro me convidou a comer pão e depois perguntou se eu gostaria de morar por aqui. Eu não só concordei como acabei casando com a Zípora. Esse rapaz que você vê aí, o Gérson, recebeu esse nome porque eu "sou peregrino em terra estranha"...
Eu jamais esqueci que sou hebreu, e de que saí do Egito como um fugitivo. Há quarenta anos eu vivo aqui como pastor, cuidando dos rebanhos de meu sogro. Todo aquele conhecimento que eu adquiri ficou por lá mesmo. Toda aquela cultura eu não entendo para que pode me servir no meio deste deserto imenso. Um pastor não precisa de nada daquilo.
Entretanto, sabe o que mais me dói, amigo? Sabe o que toma conta de meus pensamentos à noite quando vou dormir? É a tristeza por não ter sido reconhecido como aquele que Deus enviara para salvar o Seu povo. Ao contrário, fui acusado de homicídio, e ninguém viu em mim alguém que poderia ajudar. Por isso eu passei a questionar minha vocação e todo aquele preparo que tive no Egito. Não entendo como as coisas caminharam desse jeito, e levo a vida a pensar como minha precipitação me custou caro. Talvez seja por isso que, mesmo tão preparado, eu duvide até de minha eloqüência...
Bom, vamos deixar essa prosa que é hora de levar o rebanho mais para o oeste. Vamos ver se hoje a gente chega ao Horebe...
Texto de ficção baseado em Ex 1.8-3.1; At 7.17-29; Hb 11.23-27, e, de um modo geral, na obra do Pentateuco.

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Um dos terríveis problemas da Igreja evangélica brasileira é a falta de conhecimento da Bíblia como um sistema coerente de princípios, promessas e relatos que apontam para Cristo como Criador, Sustentador e Salvador. Em vez disso, prega-se um "jesus" diminuído, porque criado à imagem de seus idealizadores, e que faz uso de textos bíblicos isolados, como se fossem amuletos, peças mágicas a serem usadas ao bel-talante do indivíduo.

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Creio:
Em um só Deus e na Trindade.
Na inspiração verbal da Bíblia Sagrada, única regra infalível de fé normativa para a vida e o caráter cristão.
Na concepção virginal de Jesus, em sua morte vicária e expiatória, em sua ressurreição corporal e sua ascensão aos céus.
Na pecaminosidade do homem, e que somente o arrependimento e a fé na obra expiatória e redentora de Jesus Cristo é que pode salvá-lo.
Na necessidade absoluta do novo nascimento pela fé em Cristo e pelo poder atuante do Espírito Santo e da Palavra de Deus, para tornar o homem digno do Reino dos Céus.
No perdão dos pecados, na salvação presente e perfeita e na eterna justificação da alma recebidos gratuitamente de Deus pela fé no sacrifício efetuado por Jesus Cristo em nosso favor.
No batismo bíblico em águas, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, conforme determinou o Senhor Jesus Cristo.
Na necessidade e na possibilidade que temos de viver vida santa mediante a obra expiatória e redentora de Jesus, através do poder do Espírito Santo.
No batismo bíblico no Espírito Santo que nos é dado por Deus mediante a intercessão de Cristo.
Na atualidade dos dons espirituais distribuídos pelo Espírito Santo à Igreja para sua edificação, conforme a sua soberana vontade.
Na Segunda Vinda de Cristo.
Que todos os cristãos comparecerão ante o Tribunal de Cristo.
No juízo vindouro que recompensará os fiéis e condenará os infiéis.
E na vida eterna para os fiéis e morte eterna para os infiéis.